biografia

Alfredo de Souza

Autor(es): Ananda Machado
Categorias:Biografia, Estado, Roraima, Etnias, Wapichana
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Para reconstituir a história de vida do indígena Alfredo de Souza, observamos principalmente sua contribuição pela transmissão e resistência do uso da língua Wapichana em Roraima. As entrevistas temáticas e projetivas realizadas com ele foram o ponto de partida para reconstituir a história de vida de Alfredo de Souza.

Realizamos com Alfredo três entrevistas, na primeira, Nilzimara de Souza Silva, sua neta, participou traduzindo nossas perguntas da língua portuguesa para língua Wapichana, colaborando assim para a comunicação com ele. As entrevistas foram filmadas, gravadas, tendo a maior parte da transcrição e tradução da língua Wapichana, falada por Alfredo, para a língua portuguesa, sido feita por Miriam Chaves de Souza, Wapichana que tem colaborado conosco no Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana, extensão (UFRR), desde 2010.

Na segunda entrevista Alfredo estava sozinho e na última com seu filho mais velho Silvestre. A última entrevista foi transcrita e traduzida pela bolsista Jocelyne Araújo Veras. O trabalho de filmagem, gravação, coordenação, revisão, interpretação, edição, análise dos textos foi por mim realizado.

 

Figura 5. Aniversário de 100 anos de Alfredo

Fonte: foto da autora, com Nilzimara, Célio (faleceu em fevereiro de 2018, filho mais velho de Alfredo e pai de Nilzimara), Alfredo, Agnez (sua mulher) e Maria Olinda, outra filha de Alfredo.

 

Alfredo falou durante todo o tempo das entrevistas na língua Wapichana e nos recebeu muito bem, colaborando com a pesquisa durante duas horas no primeiro dia de entrevista. Na segunda entrevista ficamos também durante 2 horas com Alfredo e na última entrevista trabalhamos uma manhã inteira. Compreendemos apenas parte do que foi dito por ele na língua Wapichana, posteriormente aprofundando, com a ajuda de falantes, a compreensão de sua história. Nesta biografia incluímos em primeiro lugar a transcrição de suas falas na língua Wapichana e depois, entre ‘’a tradução em língua portuguesa.

Ouvimos também alguns dos (as) netos (as) e filhos (as) de Alfredo, suas falas são ora transcritas ora o conteúdo por nós reescrito com informações complementares às que compartilhamos com o biografado.

Alfredo de Souza nasceu em 1916, de pais Atoraiu (língua da família Aruak), mas não conheceu o pai, sua mãe casou com outro e abandonou os filhos. Na época ele ficou com o padrinho no país que hoje é chamado de República Cooperativa da Guiana e lembrou que era maltratado. Segundo ele, desde criança foi abandonado.

“Eu não sei, mas eu já ouvi falar em trocas com os brancos, que chegaram e trouxeram anzóis, trouxeram arma, trouxeram sal e todas as coisas. Em troca deram um pouco de comida para eles” [1]. Quando diz que não sabe, mas ouviu falar, Alfredo deixa um ar de incerteza e continua contando:

Os antigos não comiam sal, mas achavam peixes e eles viviam comendo peixe. Como eles eram do mato, comiam de tudo, porco do mato, anta, tudo que está em cima de árvore como macacos, guariba, macacos com braços compridos, todos os bichos os Atoraiu comiam[2].

Sua neta Nilzimara contou-nos que o tio de Alfredo o entregou, em troca de sal, para o pai de Casimiro Cadete. Sobre esse tema, uso do sal, Alfredo falou sobre os peixes e carnes que consumiam mesmo sem terem o sal. Na sequência, ele começou a contar como foi sua infância:

Meu pai morreu, eu não sei que altura eu estava, ele faleceu. Ele faleceu e tem a minha mãe, mas ela não cuidou da gente direito, quanto somos, somos assim em Wapichana, a conta é assim, um, dois, três, quatro, cinco contando comigo, é assim, aí somos de um pai só. O nosso pai faleceu, a nossa mãe ela não presta, ela nos abandonou por aí, ela não soube cuidar da gente, não soube criar a gente direito, ela fez foi jogar. E essa nossa mãe correu atrás de outra pessoa, com outro homem, deixou nós. Até sofremos, eu estava passando dificuldades, a minha roupa suja, não tinha com que lavar roupa, não tinha sabão e não tinha como lavar nada. Aí tinha meu tio, ele disse: ‘vamos você carrega essa abóbora na sua rede para a gente comprar sabão lá com os negros’. Ele me deu uma abóbora desse tamanho, aí eu enrolei e carreguei na minha rede, depois encontramos com a pessoa que estava voltando lá dos negros, aí foi ele quem me criou, o Luis Cadete, me encontrou, é assim eu estava indo com meu tio. ‘Ele é seu filho?’ Perguntou Cadete […][3].

A roça era longe, não tinha saco, jamaxim (objeto usado para carregar coisas). “Eu carreguei abóbora na minha rede”. Foi “adotado” por Luis Cadete (pai de Casimiro Manoel Cadete, seu irmão de criação) e com ele chegou, quando tinha 7 anos, para viver na comunidade Tabalascada (no atual município Cantá-RR), Região Serra da Lua. Morou também na comunidade Canauanim, Malacacheta e atualmente vive novamente na comunidade Tabalascada na casa do filho mais velho.

Alfredo teve uma infância difícil, pois perdeu o pai e foi abandonado pela mãe. Em sua narrativa, percebemos traços da vida Wapichana na época, eles usavam a rede para dormir e também para carregar objetos, sendo os “negros” os comerciantes.

‘Aqui é a Tablascada’, ele disse: ‘é mesmo! Agora você vai morar aqui com a gente, vou comprar roupa para você, vou comprar sua calça, camisa e vou comprar a sua rede’. Aí ele comprou e fiquei morando com eles e trabalhando para ele, ajudando ele na roça, aí eu já era empregado dele, mas ele me tratava bem. Me dava comida e muito mais[4].

Alfredo revelou em sua fala na língua Wapichana (língua também da família linguística Aruak), influência da língua Atoraiu, que foi a primeira língua que aprendeu. A língua Atoraiu tem poucos falantes no Brasil e um pouco mais na República Cooperativa da Guiana. Os filhos e netos de Alfredo falam a língua Wapichana.

Aunaa un aichapan na’apam unmaxaapayzun zii, unmaxapan undarunau diaypaichan ungary kanuku ii, kanukuba’u ii, kanukuba’u ii. Undukuzynau maxapan kanuku bausannau aturadanau inminhaypan kanuku ii inwiiz yy Parubaz Guiana ii, guiana iau wyyry’y parubaz kikizei.  Kanuku kaipa’a baraz ty’yz, baraz ty’yz kaipa’a kanuku zikun ii mixi na’ii wyyry aturadanau maxapayzun kutya’anaa  an inkeawiiztinhan na’ii na’iana inbyan, indaypain na’ii, aizii wyry’y inmeakukinhaa kidia’anaa inmeakun  mynapu naa aunaa um aichipan na’itim naa kuxan  inmeakun mazan wyryy  undukuznau pa’na  ipei inmeukan na’a da’a karaudaznau kikizei dakutkau wyryy amazada wiizei, aizii inwiiz sudkid inkezakaniapkiz kainha’a dakutikau, turatun, kainha’a bauran uwaunau, makun wyry’y kainha’a baura di’iaa dakutykau buxu mutu (boca da mata kiau) inwiiz kuxan kanuku danumaiakkau.

Eu não sei como eu vivia, eu morava com meus pais no mato, mato, mato. Meus avós moravam no mato, os Atoraiu, eles colhiam castanhas do Brasil no mato. O local deles se chama Parubaz na Guiana, é na Guiana que se localiza Parubaz. É um mato assim com lavrado, lá que morava os Atoraiu antigamente, construíam o local deles, se multiplicam e cresceram lá. Aí depois eles foram embora, foram embora para longe. Eu nem sei para onde de novo, mas os meus avós são diferentes, morreram aqui em Karaudarnau que se chama a comunidade, aí os locais onde eles roçavam eram chamados de Turaraton, tem outro Uwaunau, que é Serra do Macaco. E assim a gente vai, tem outro lá que se chama Boca da Mata, que é local deles de novo na beira do mato[5].

Alfredo, em muitos momentos, disse que não sabia mais falar a língua Atoraiu e que os Atoraiu que ele conhecia e poderia conversar já morreram. Não encontramos estudos sobre essa língua. Apenas uma lista de palavras e menção à sua existência em documentos de viajantes, geógrafos, etnógrafos, missionários, antropólogos, historiadores e linguistas. Assim, na vida de Alfredo, a língua Wapichana passou a ser mais usada do que a Atoraiu. Conseguimos gravar uma única música cantada por Alfredo em Atoraiu. Na ocasião sua neta disse que ele tinha cantado em Atoraiu porque ela, que é falante da língua Wapichana, não tinha entendido (vídeo de Alfredo cantando em anexo).

Aunaa an unaichapan, unaichap kaikapa aunaa patamaka an man, bayday ki’ana karikeunan aunaa na uunaichapan kaimeimen. Wyry’y kutyana unwyzunau paradapan un’at aturad idian, ipei undarynau unkaikesudindun, ungary paradan aturad idia’an, ykayan unwabat padamat, mazan ydayan untynarynawyn py’ana aunaa an, yry inmaukan kidana ipei wyry’y aturad nhawyz aunaa an kanam paradapa’u nii un’ati.

Eu não sei, eu sei um pouco, mas não todas as palavras, algumas, eu não sei mais direito. Antigamente meus avós falavam tudo para mim em Atoraiu. Meus pais também, quando eu era criança, eu falava em Atoraiu e quando escutava compreendia. Mas depois, quando eu fiquei velho, não falo mais, aí todos os Atoraiu morreram também, não tem mais ninguém para falar comigo[6].

Atualmente, Alfredo mora na comunidade Tabalascada, na casa de seu filho mais velho. Antes, até o final de 2017, vivia no Gavião, na beirada da estrada que vai para comunidade Jacaminzinho (essas duas localidades fazem parte da Terra Indígena Malacacheta e as duas têm o mesmo tuxaua da comunidade Malacacheta). “Eu não sei escrever, nem sei escrever meu nome, então eu envelheci assim mesmo não sei de nada, eu só sei a língua Wapichana. É só isso!”[7].

Alfredo não foi alfabetizado. Seu caminho nos mostrou a abundância de possibilidades nas trajetórias de vida dos indígenas na relação com a sociedade envolvente e com sua própria cultura. Ele incluiu muitas vezes em suas falas o fato de não escrever e de não saber nada, por isso, reforçamos, em nosso dialogo com ele, o valor dos conhecimentos que ele adquiriu e conseguiu ensinar para seus filhos e netos. Observamos que muitas famílias que conseguem continuar a transmissão desses conhecimentos mantêm uma vida mais voltada para o interior da comunidade, ao contrário de outras que assumem papel de liderança e passam muito tempo viajando e participando de reuniões fora.

Não tinha escola lá, então eu não tenho conhecimento sobre as palavras, eu não entendo como a pessoa vai falando no livro. É, faz tempo que estou assim desde criança, mas só com as pessoas que estou andando, então eu não sei. Agora quando eu cheguei de viagem, lá de onde eu morava de novo para Karaudarnau, aí já tinha a escola, já tinha pessoas estudando, já sabiam a data, eles já tinham conhecimento, eu não, cheguei assim mesmo. Eu envelheci assim mesmo, não tenho estudo[8].

Em sua fala, Alfredo disse que quem estuda conhece datas. É de se observar que, na fala de outros Wapichana, os números e as datas são expressos em língua portuguesa, mesmo quando a fala é toda na língua Wapichana. Constatamos mais uma vez que a escola, bem claramente, traz para dentro das comunidades uma dose muito maior de conhecimento exógeno, e em língua portuguesa.

Durante toda nossa primeira entrevista, uma das bisnetas de Alfredo, de 5 anos, ficou a seu lado, ou brincando por perto. Observamos que essa estratégia familiar certamente vem garantindo o repasse de conhecimentos, dentre eles o de falar a língua Wapichana. No passado, antes de começarem a ir com quatro anos para escola, como acontece na atualidade, as crianças ficavam muito tempo com os avôs.

Alfredo criticou a forma de as famílias organizarem-se, deixando de lado esses saberes: “eu não sei por que os pais deles fizeram filhos desse jeito? Não os ensinaram a falar língua, só falam português, isso eles gostam muito de falar. Tem apenas alguns que sabem”. Efetivamente, atualmente, aproximadamente 30% dos moradores da comunidade Malacacheta e 15% dos indígenas na comunidade Tabalascada falam a língua Wapichana.

Consideramos Alfredo um exímio tyzytaba’u, ‘artesão’, que viveu na República Cooperativa da Guiana e no Brasil. Como não encontramos uma palavra na língua Wapichana que significasse artesão ou artesanato, muito menos alguma que traduzisse arte, usamos tyzytaba’u como significante de trançador. A formação desta palavra dá-se a partir do verbo tyzytan – ‘trançar’, que perde suas terminações verbais e recebe o sufixo nominalizador ba’u.

Até entrei, eu entrei na floresta para procurar cipó titica, cortei a cipó titica e dividi. Depois eu coloquei um pedacinho de pau na trança e com a outra eu fiz um tipiti bem grande, eu tranço jamaxim. Tudo isso é meu trabalho. Aí eu aprendi, quem me ensinava antigamente era só o vovô. Ele era bom em trança, ele fazia de todo tipo de trança, tipo bolsa, peneira, jamaxim tudo isso ele fazia. Foi ele que me ensinou a fazer tranças, então eu sei fazer[9].

Escolhemos, nas entrevistas com Alfredo, focar no tema trabalho, incluindo a experiência dele como trançador, observando a simplicidade de suas ações para representar, a partir daí esse complexo campo do conhecimento, de uso da língua Wapichana e de produção artística e cultural desse povo.

O meu avô era artesão, eu vi como era trançar, aí eu tentei fazer, aí eu comecei a trançar também. Depois eu aprendi mais com os balateiros, eles que sabem fazer artesanatos, aí me ensinaram mais ainda. Assim peneira para fazer farinha, peneira para fazer beiju, abanador de fogo, tipiti e tem diferentes formas de fazer também, tem um trançado chamado reto e tem outro unurukanay, esses que eu sei, mas tem outros tipos[10].

Alfredo disse que sabe fazer três tipos de traçado, sendo que, segundo ele, utu, ‘cascudo’, que imita as formas desse peixe, é o mais difícil. Durante a entrevista, quando mostramos a ele algumas fotos dos objetos Wapichana que estão guardados no setor etnográfico do Museu Nacional (RJ), teve dificuldade em enxergar e reconhecer o que era cada um deles. Contou que na Guiana, uma vez, viu cavarem e encontrarem muitos objetos, mas levaram tudo e ele não sabe para aonde.

Mas agora não tenho mais como trançar, não enxergo mais a trança, meus olhos estão cegos e não sei mais. Não faço mais nada, eu só estou vivendo na minha rede. Meus olhos estão cegos e não posso ouvir, não escuto mais a palavra direito.[11]

Apesar de reiteradas vezes Alfredo reclamar da situação que se encontra, teve gosto em nos contar da sua vida. Lembrou que quando sua primeira mulher morreu, casou pela segunda vez com a irmã dela, D. Maria, e nasceram os filhos: Célio, Alfredo Pitá, que já faleceu, Cesar, Olinda, Norberto, Maria do Carmo e Elias. Casou novamente, em 1945, com Agnes, Wapichana que veio da Guiana Inglesa, com quem teve mais dois filhos e vivem juntos até hoje.

Na primeira entrevista com Alfredo, percebemos que ele conviveu com os balateiros. Consideramos importante saber mais sobre o assunto e ele explicou um pouco seu trabalho com a balata (látex da árvore popularmente chamada de balateira).

Subiu no pé, fez aqui, tem um saco assim para pegar leite de balata, Wapichana disse que é leite de balata, começando no saco, aí depois foi lixando e cortando, cortando, vai subindo, vai até em cima; depois desce quando o saco está cheio, aí você coloca dentro de outro saco. Se está cheio é assim com outro de novo e derrubou, é assim até guardar toda balata. Agora depois de guardar, ia trazendo da floresta né, trazendo da floresta você ia carregando. E a pessoa deixa para secar assim quando derrama, amassa e faz uma pequena caixa. Ai os Wapichana chamam isso de caixinha pequena e depois você tira balata, coloca para secar e secava toda essa balata. Agora depois você passava o leite por cima de novo, aí você pode guardar bem, depois que terminar, aí você joga para o sol para esquentar um pouquinho para dobrar direitinho, enrola assim pap, pap desse tamanho assim; depois carrega e vai embora de novo até o local onde se vende a balata, carregou até lá na vila, oferece, como dizem os Wapichana, oferecendo lá, aí eles compravam e pagavam tudo, aí era o fim, não trabalham mais com isso, isso terminou. É só isso[12].

Alfredo trabalhou com a balata no Brasil e na Guiana. Na entrevista citada abaixo, Silvestre, o filho mais velho de Alfredo, que já trabalhou com balata também, participou. Alfredo não lembrava determinadas palavras que usava quando trabalhou com os “brancos”. A entrevista abaixo foi realizada especialmente com a intenção de aprofundar alguns detalhes.

A balata é feita assim: é tirada do pé da balateira. O pé da balata tem leite. Colocamos esporas, sapato, bota, para subir no pé da balata. É liso e amolado. Ao subir no pé da balata você corta: tá, tá, você sobe om seu saco e pega a balata. Sobe até a ponta da árvore, pode escorregar e cair. As vezes abre o saco. É muito perigoso trabalhar com balata. Você anda descalço no chão, carrega, faz uma canoa ou uma caixa e derrama dentro. As vezes você acha até 60 litros de leite de balata. Aí você faz qualquer coisa, bacia e você derrama dentro. Aí você coloca no sol para secar, abre bem, passa dois, três ou quatro dias para ficar fino aí você tira do sol. Você tira, descasca com duas pessoas, enrola ou estende na forquilha, amarra e guarda tudo. A casca você descasca. Dá umas dez cascas. Aí, seco, você enrola igual couro de gado. Ao terminar de fazer seu trabalho você retira cipó ou envira para pendurar. Tinha pessoas esperando para comprar a balata. Vendia tudo. Depois que vendíamos o pessoal dava rancho para nós. Como lima, terçado, café e outras coisas. Aí, depois de trabalhar você descansa e vai novamente (Entrevista realizada na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrita e traduzida da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana).

Na segunda entrevista, perguntamos se Alfredo trocava ou vendia seu artesanato, para quem entregava e ele respondeu que quando esteve no garimpo vendia e que, até hoje, nas comunidades há quem compre cestos, peneiras, tipiti, abanos e jamaxim. Alfredo também conheceu a região Amajari, onde trabalhou no garimpo do Tepequém. E Alfredo continuou contando detalhes sobre sua ida, estadia no garimpo e sobre a relação dos garimpeiros com o artesanato Wapichana: “tinha muitos garimpeiros também lá que eles queriam muito jamaxim, os Wapichana também compram as cordas do jamaxim, feitas de fibras de buriti, fizeram tudo, aí eles vão comprar”.

Quem me levou foi o Casimiro, faz tempo, antes de ir morar na Tabalascada, eu não tinha andado no garimpo ainda, e o Casimiro chegou do garimpo e me encontrou. Ele disse: ‘hei meu irmão. Hei irmão, agora vamos, para trabalhar, vamos trabalhar no garimpo’. ‘Tudo bem!’ Aí a gente foi e encontramos para nosso patrão o Rangel, que era o nome do branco. A gente foi com ele. Até que Casimiro me deixou lá no Tepequém. Ele que me levou e me deixou trabalhando no Tepequém. Aí eu aprendi a trabalhar de garimpeiro. Me deixou, mas eu estava indo bem, disse ‘vou ficar’. Eu morei dez anos no garimpo do Tepequém. Depois de sair, eu adoeci com uma doença na perna que se chama beribéri, não sei como se chama em Wapichana, só em português. Então a minha perna inchou igual a mamão maduro. ‘Pode ir, pode ir, de repente você morre aqui’. Aí eu saí do Tepequém. Aí eu vim para cá, até fiquei bom e não voltei mais, vim para ficar[13].

Enquanto contava, Alfredo gesticulava, reproduzindo os movimentos e mostrando a altura que a água atingia em seu corpo, para cima da cintura, perto do peito.

Eu trabalhei com bateia, peneiras, todo tipo de material, com picareta, picava assim e com a enxada puxava esse material, depois carregava para beira do rio para lavar. Ai, lavou tudo, colocava dentro da caixa de novo. Agora tem sugador que está pegando diamante. Eu trabalhava com peneira dentro da água, tirando pedras e jogando os diamantes para a caixa, aí lá tinha um caixão que lava com outra peneira, os diamantes que iam ficando no meio, eles pegavam. Aí eu trabalhava dentro da água, a água estava bem por aqui em mim, eu estava todo cinza de barro. Depois, quando era meio dia íamos almoçar, eu banhava um pouquinho. Nem demorava já estávamos indo para terminar o nosso trabalho. Chamavam: ‘vamos!’ A gente ia e trabalhava de novo e terminava esse trabalho até carregar para dentro da caixa, eu pegava tudo. Agora já quando acabava o material íamos descansar. É só isso! [14]

Quando veio embora Alfredo trouxe ouro do garimpo, mas segundo Casimiro Cadete, ele mesmo e seu filho Silvestre, pouco aproveitou. Quando perguntamos com o que mais ele já trabalhou, Alfredo esclareceu que não tinha experiência em fazenda.

Agora o boi bravo me atacou, então o boi é bravo eu não trabalho com gado. Então é só isso, não sei como trabalhar, eu trabalho só de roça. Eu não trabalhei com os brancos em fazenda não, nunca trabalhei, eu não sei trabalhar com gado, não sei andar de cavalo, não sei peiar a perna de gado com a corda, não sei jogar corda na cabeça do gado. Então não tenho interesse de trabalhar com gado. Não quero saber disso. Só isso![15].

Alfredo viajou entre o Brasil, a República Cooperativa da Guiana, trabalhou na roça, com balata, no garimpo e viveu em outras comunidades indígenas e regiões. Quando demonstramos interesse sobre as particularidades dos contextos Wapichana entre os dois países, Brasil e República Cooperativa da Guiana, Alfredo fez uma comparação mencionando as diferenças entre o uso da língua Wapichana de um lado e do outro da fronteira.  “É diferente para mim tem alguns pronunciamentos, porque lá na Guiana, eles sabem falar Wapichana em uma forma de pronúncia e nós mudamos para cá e imitamos o Wapichana daqui. E falamos da moda daqui”[16]. Cabe destacar a observação de Alfredo, considerando “moda” o esforço de muitos em seguir o sotaque ou a variante linguística do Brasil para parecerem com os Wapichana brasileiros.

Quando eu voltei para a Guiana eu não falava mais a língua Atoraiu, eu falava apenas Wapichana, não tinha ninguém para falar comigo. O meu pai morreu, todos que falavam Atoraiu morreram. E quando eu estava aqui no Brasil não tinha ninguém para falar comigo em Atoraiu, apenas Wapichana (Entrevista realizada na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrito e traduzido da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Cuturas Macuxi e Wapichana).

Silvestre lembrou de quando seu pai contou que naquela época Boa Vista só tinha a rua Jaime Brasil que era asfaltada. E disse que eles atravessavam o rio Branco de barco com “Veriço” (conversando com Alfredo lembraram o nome do barqueiro). Moravam num lugar que hoje chama “Solidão”. Naquela época Alfredo trabalhou vendendo pão, “atravessava e vendia pão para os indígenas. Foi lá que ele encontrou a irmã da minha mãe. Largou o emprego e passou a sustentar a família. Não tinha cerca. Não tinha coisa nenhuma não”[17].

Andou bastante, trabalhou na roça, fazia muito artesanato e conseguiu ensinar os filhos e netos sua língua e muito da sua cultura. Quando perguntamos sobre como faziam as roupas para dançar Parichara, Alfredo lembrou:

Eles fazem a roupa de parichara trançando com palha. Eles amarram na madeira e lixam também assim: xá, xá, xá! Tem tambor, que fazem do pé da árvore com o couro da cutia ou de guariba. Fazem também o seu som do pé de bambu. Tem outro que se chama… é igual bambu, mas é fino e comprido também. Eu esqueci como se chama, não sei como se chama em Wapichana. Tem outro também: riwy, por aqui eu não sei se tem (Entrevista realizada na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrito e traduzido da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana).

Quando perguntamos quais músicas gostava de cantar Alfredo respondeu que não sabia quase nada. Silvestre, filho mais velho de Alfredo, que participou da entrevista em outubro de 2017, disse que na Tabalascada tem pé de bambu plantado e tem também taboquinha. Ele explicou que era isso que o pai dele tentou lembrar na fala anterior. Disse que é assim “que chama, é igual cana, é fino, a pessoa assopra essa taboquinha”. Foi explicando sobre os instrumentos musicais usados durante o canto e a dança do Parichara. “Eu não sei como se chamava paxiu na língua atoraiu. Esse paxiu ele é duro, o meu pai usava para dançar naquele tempo, ele fazia assim e não caia, ele tombava, mas nunca caiu, até eu usava o paxiu, pois eu sou igual paxiu duro eu não sou de sair caindo assim”- brincou.

Tem um homem chamado Cruz, ele escrevia igual a você. Ele sabia dançar o Parichara. A esposa dele também sabia dançar e cantar, mas eu nunca me interessei em dançar e cantar com eles. Tentava acompanhar eles, dançava, mas não saia do lugar. Eles dançavam bem, iam e voltavam, faziam aqueles giros e eu entrava só, eu não sabia, ficava no mesmo lugar, igual catitu, rodava no mesmo lugar. Eu ouvia minha avó cantando músicas do Parichara (Entrevista realizada na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrito e traduzido da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana).

Quando perguntei sobre o artesanato Wapichana e as panelas de barro, Alfredo falou: “eu não sei como se chama ou como faziam. Eu vi assim, como faziam, enrolava a massa até ficar no ponto”. Silvestre, primogênito de Alfredo, lembrou que a mãe e a avó dele faziam panela de barro. E, segundo Silvestre elas tinham nomes e funções diferentes. Com o pai foram lembrando dos nomes: kibaiau ‘panela de barro’, karadau ‘pote para colocar caxiri’, duada ‘cumbuca’, kamuchi ‘pote’, patyxi ‘tipo prato para colocar no chão’. “Panela de barro que elas fazem é igual tabatinga. Igual faz massa de buriti. Começa o fundo e vai aumentando do tamanho que ela quer” (Fala de Silvestre ao participar da última entrevista que fizemos com Alfredo).

Um metro de fundura encontra panela de barro. Aonde os caras moravam, deixavam panela velha deles. É o mesmo, não tem diferença nenhuma. Já fiz várias casas e encontrei pote, panela velha de barro. A terra é como que vai afundando…Carvão também, ele não apodrece, ele enterra. Nós encontramos na serra. Cavei 10 metros de fundura e encontrei carvão. Não sei se é a serra que vai crescendo… Lá onde a gente trabalhava com balata. Estava fazendo barraco lá, cavou e encontrou. Ninguém sabe quem morou ali. Tudo a terra engole (Fala de Silvestre, na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrito e traduzido da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana).

Percebemos que a casa de Alfredo até 2017, que visitamos na comunidade Malacacheta, era construída praticamente apenas com materiais retirados diretamente dos arredores, ali por perto, no Gavião mesmo. A partir dessa observação, começamos a comparar a casa dele com outras. “Os Atoraiu faziam suas casas igual as dos Wapichana, só que faziam o capote alto e deixavam um buraco no meio […] levantavam com barro as paredes até em cima, e quando chovia caia água bem no meio da casa, e também usavam palhas e madeira” (Entrevista na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Transcrito e traduzido da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana).

Os Wapichana interpretavam preconceituosamente as casas Atoraiu, construções mais simples quando comparadas às casas Wapichana.  Assim, ora os Atoraiu eram mencionados para legitimar conhecimento ancestral dos povos Aruak, ora para ressaltar a “superioridade” dos Wapichana sobre eles.

A casa de Alfredo foi construída em barro, segundo Nádia Farage, simbolicamente, para os Wapichana, tem vida. Esse pode ser o motivo de muitos dos mais velhos resistirem a morar em casas de alvenaria, porque as paredes e esteios têm panaukaru, ‘seres que estão presentes na natureza’. Nela habitam as panaukaru dos materiais como a palha que vem do buritizal, o barro, que vem da beira do igarapé. “São como micróbios, você não vê, mas estão ali” (FARAGE, 1997, p.59).

Alfredo também nos falou sobre suas andanças e de como, no passado, circulou pelo território Wapichana, caminhando do Canauanim até a comunidade Marupá. Sua relação com a casa era outra.

A minha ex-esposa me abandonou, ela que me levava para outras comunidades, me chamou e fui para lá, então eu sei de tudo no Marupá, no Marupá quando eu cheguei o tuxaua era Braulino, que era o nome dele. Foi lá que eu e Casimiro Cadete nos encontramos novamente. Ele disse para prima dele, ‘o que vocês estão fazendo aqui?’ ‘Estamos só passeando’ ela disse. ‘Vamos para nossa comunidade?’ – Ele disse. Aí ele levou a prima dele, aí eu vim de novo, até que ela separou de mim aqui, aqui no Canauanim, ela me deixou. Aí ela me deixou no Canaunim, por causa de outro. Ela estava gostando de Peter, que era o nome dessa pessoa, por causa dele, ela me deixou. Logo ela se juntou com Peter, e eu continuei morando por aqui, depois eu fui embora de novo para minha comunidade. Aí eu abandonei e deixei de ir ao Marupá. E só isso, não fui mais para outro lugar, fui deixado aqui e fiquei de vez. É isso!

Alfredo trabalhou a maior parte de sua vida na roça e com o artesanato. Na sequência do texto, abordaremos como se dá o trabalho na roça e quais tipos de plantas foram e são ali cultivadas.

“Eu só sei os trabalhos, a pessoa fazendo roça, derrubando, brocando, tudo plantando mandioca, plantando tudo, qualquer coisa de planta, taioba ou melancia, abóbora e tudo. Aí eu aprendi só sobre plantação, eu não sei escrever”.

Eu trabalho na roça, nós plantamos mandioca, cana, melancia, banana, abacaxi, batata, inhame, milho e tudo que eu preciso eu planto, para eu me alimentar, eu planto timbó também é assim que a gente planta na roça até agora. A gente planta arroz, mas agora não aguento mais. Eu disse para vovó deixar para lá[18].

Como sua fala foi na língua Wapichana, a construção do texto acima e de outros transcritos e traduzidos, evidencia e aceita as especificidades do funcionamento da língua Wapichana na sua variação influenciada pela língua Atoraiu. Deixamos a forma do discurso parecida com a ordem sintática, sem modificar muito essas diferenças na forma de construção. Quando voltou do garimpo, Alfredo foi trabalhar na roça com Casimiro.

Até fiquei morando com Casimiro de novo. ‘Hei agora vamos trabalhar irmão’, ele disse para mim: ‘vamos trabalhar irmão, vamos fazer a nossa roça? Vamos fazer a nossa roça e plantar as coisas, vamos plantar a nossa mandioca, ou plantar milho, arroz, vamos plantar de tudo, melancia, ou qualquer coisa a gente planta’. E disse: ‘está bom’. Aí começamos a trabalhar na roça, fizemos a roça e plantamos de tudo, milho, banana e tudo, a roça ficou cheia de banana. É esse que foi o nosso trabalho com Casimiro. E depois começamos a vender um pouquinho para ter nosso dinheirinho para comprar alguma coisa como nosso café, essas coisas, e isso já é dinheiro de banana, ou de farinha, ou de melancia. E achamos o nosso dinheiro de novo, de plantação. Plantação produz dinheiro para pessoa, quando a pessoa trabalha de plantação, quando você planta você ganha dinheiro com isso. Depois, ‘agora vamos dar um tempo de fazer roça’, aí paramos de trabalhar na roça. E só![19]

Alfredo de Souza falou que, no passado, pescava com flecha no Rio Branco, levado por Luis Cadete.

‘Agora vamos, vamos pescar no Rio Branco’ ele me disse: ‘lá tem um lugar de pescar e lá tem peixe’. E a gente foi lá, pescamos e tinha peixe deitado bem pertinho, matei ele com flecha, outro com anzol e outro de flecha, até matarmos muitos peixes. Algumas vezes pescamos muito. As vezes assamos colocamos no fogo pra assar e depois de assar carregamos pra casa, para nossa casa. ‘Chegamos, aqui tem peixe’ disse Luis Cadete para sua esposa. ‘Aqui tem peixe assado ele disse, pode cozinhar’. ‘Tudo bem’. Ela cozinhou ‘pronto, agora vamos comer’ disse ele, ‘vamos comer todos juntos’ e depois de comer lavamos as mãos e guardamos tudo, ‘agora vamos descansar’. E descansamos, não saímos mais, só ficamos em casa. É só isso!

Norberto, um dos filhos de Alfredo de Souza, contou que, no passado, sua mãe grávida foi caminhando com Alfredo desde a comunidade Tabalascada, para ser atendida na República Cooperativa da Guiana, pois naquela época era lá que conseguiam atendimento.

Na atualidade acontece ao contrário, quando há complicação, os guianenses vêm para Boa Vista para serem atendidos no Brasil. É comum também virem trabalhar nas fazendas e na cidade de Boa Vista. Muitos transitam entre os dois países, tendo a roça de um lado e morando do outro, viajam para visitar a família, para o pajé do outro lado cuidar da saúde deles, dentre outros motivos.

Para concluir esta biografia citamos uma das últimas falas de Alfredo:

Aí estou passando dificuldades com isso, a minha cabeça dói e me deixa tonto e o meu olho também está me deixando tonto. Pareço um bêbado quando eu levanto e vou andando, eu fico tonto de dor de cabeça. Não sei mais o que fazer, eu só estou vivendo na minha rede, não trabalho mais, não faço mais nada. Só estou descansando, já estou velho. É isso![20]

Agradecemos a ele por ter nos recebido sempre sorrindo, mesmo passando por tudo que reclamou acima. Ressaltamos a importância de Alfredo ter conseguido transmitir a seus filhos e netos os conhecimentos de sua língua e cultura.

 

Notas

[1] Entrevista realizada com Alfredo Souza no dia 18 de julho de 2014.

[2] Depoimento de Alfredo, em entrevista no dia 18 de julho de 2014.

[3] Entrevista realizada na casa de Alfredo, no dia 26 de outubro de 2015.

[4] Entrevista realizada com Alfredo em 26 de outubro de 2015.

[5] Entrevista com Alfredo de Souza no dia 18 de julho de 2014.

[6] Entrevista realizada com Alfredo Souza no dia 18 de julho de 2014.

[7] Entrevista com Alfredo em 26 de outubro de 2015.

[8] Entrevista com Alfredo realizada no dia 26 de outubro de 2015.

[9] Entrevista com Alfredo realizada em 26 de outubro de 2015.

[10] Entrevista com Alfredo no dia 18 de julho de 2014.

[11] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

[12] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

[13] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

[14] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

[15] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

[16] Entrevista com Alfredo no dia 18 de julho de 2014.

[17] Entrevista realizada na casa de Alfredo, na comunidade Malacacheta, no dia 01 de outubro de 2017. Esse texto foi da fala de Silvestre, filho de Alfredo. Transcrito e traduzido da língua Wapichana para a portuguesa por Jocelyne Araújo Veras (bolsista do Programa de Valorização das Línguas e Culturas Macuxi e Wapichana).

[18] Alfredo de Souza, entrevista em 18 de julho de 2014.

[19] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

[20] Entrevista com Alfredo no dia 26 de outubro de 2015.

 

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