biografia

Domingos Pacó

Autor(es): Izabel Missagia de Mattos
Categorias:Biografia, Etnias, Botocudo, Estado, Minas Gerais
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Os dilemas da “civilização” sob o olhar do professor indígena: Domingos Ramos Pacó, na transição para a República[1]

No seu tempo,  muitos menores alunos obtiveram conhecimentos úteis a respeito a instrução primária; entre os quais alguns há que ocupam cargos, porém se acanham em dizer que foram instruídos e educados por um professor índio ou indígena; mas não deve-se admirar sobre essa frase; porque  muitos que aqui existem ainda no Itambacury, quase todos são mistos … Perguntando-se a respeito índios e parentescos donde provêm, respondem diversamente excluindo-se fora de suas aldeias para se embrenharem nas senzalas dos índios que vieram da costa de do centro da África, porém a fisionomia e os gestos garantem sempre que descendem da aldeia dos índios, progenitores das nações que ocupavam o Brasil, quando desembarcou na América o Almirante Pedro Álvares Cabral em 1500… (Domingos Ramos Pacó, 1914)

 

 Introdução

Ocorrência rara nas fontes sobre história indígena no Brasil,  um manuscrito em forma de memória sobre as origens de um aldeamento missionário imperial foi redigido pelo professor bilíngue Domingos Ramos Pacó (1867-1935) no ano de 1918[2]. Para enfatizar o protagonismo indígena em todo o processos de criação, instalação, funcionamento e crises e denunciar o apagamento da memória dos povos indígenas ali existentes, o professor chega a incluir vocábulos diversos e expressões típicas de sua querida língua materna (Botocudo ou Borum), cuja escrita chegou a ensinar ao longo dos 19 anos em que prestara serviços ao governo imperial como professor do aldeamento do Itambacuri (1873-1911), dirigido pelos frades capuchinhos italianos Serafim de Gorizia e Ângelo de Sassoferato.

Este ensaio procura recuperar, em parte, a biografia deste professor, por meio de uma narrativa etnográfica dos eventos por ele testemunhados, procurando ainda situá-los nos contextos sócio-culturais que incluem sua família extensa, bem como em meio a contextos históricos mais amplos, de caráter político e ambiental.  Para isso serão valiosos, ao lado dos relatos coetâneos –  seja do próprio professor quanto dos missionários -, os relatos recentemente recolhidos em trabalho de campo com alguns de seus descendentes. versando sobre sua memória e a do aldeamento missionário capuchinho de Itambacuri.  É importante observar que a região por onde transitou Domingos Pacó pode ser concebida como uma zona fronteiriça,  campo de estudos marcado por abordagens interdisciplinares, tendo em vista as diferentes camadas de redes sociais e étnicas que as caracterizam  (RADDING & LEVIN, no prelo).

As lutas por sobrevivência que marcam a vida de nosso herói revelam dificuldades reais com as quais tiveram que lidar cotidianamente muitos atores indígenas de nossa história.  O estudo da trajetória de Pacó permite iluminar processos coetâneos de expropriação da terra indígena;  de exploração da mão-de-obra e eliminação física e cultural por meio de extermínio aberto ou encoberto por “tragédias” naturais, como doenças e fome;  enfim, de exclusão de indivíduos e sociedades inteiras da possibilidade de uma condição de cidadania.  Para melhor penetrarmos nestes diferentes universos, por vezes se fará necessário ampliar a escala temporal e geográfica da investigação.

A voz de Pacó, por motivos diferentes, ainda e capaz de ecoar através dos tempos, bem como suas considerações a respeito de tantas transformações ambientais e nos mundos sociais e simbólicos que testemunhou  ao longo de sua vida[3].

A trajetória deste professor indígena se aproxima, em certa medida, da do Bororo Tiago Marques Aipobureu,   analisada pelo sociólogo Florestan Fernandes que visava, por meio do estudo da sua trajetória, lançar luzes sobre o tema teórico da “marginalidade”.  Nascido por volta de 1898, o bororo recebera o nome havia recebido o nome Akirio Bororo Keggeu, sendo descendente de chefes pelo lado paterno. Por seu destaque nos períodos de educação escolar, passou a  ser educado com esmero pelos salesianos que investiram na tarefa de transfomá-lo em “figura de propaganda para as missões”[4].  Quando contava cerca de doze anos de idade no ano de 1910, chegou a  viver na Europa por dois anos, tornado-se professor.   Tiago Marques não correspondeu, porém, às expectativas dos missionários: exigia, por exemplo,  ser reconhecido, inclusive em termos de remuneração, como um branco. Não sendo atendido, preferia realizar tarefas ao ar livre e por isso acabou retornando  para a vida tribal junto a seus familiars em Sangradouro e Meruri. De retorno, este bororo letrado também decepcionaria os seus,  por não haver desenvolvido as habilidades necessárias a um caçador e guerreiro ao longo do tempo despendido com os estudos. Tiago Marques acabou permanendo no meio do caminho, sem se adaptar à “civilização” ou ao mundo indígena. (Fernandes, 2007 [1946])

Domingos Pacó, por sua vez,  já contava sete anos de idade quando da criação do aldeamento em 1873 e da concomitante celebração do casamento de seus pais, logo passando a ser batizado e educado pelos missionários.  Segundo ele próprio, em seu manuscrito, foi,  por sua destacada inteligência, escolhido como sacristão, secretário ecônomo e professor bilíngue do aldeamento, chegando a ser contratado pelo Governo Provincial aos 14 anos de idade, cargo que ocuparia com empenho por 19 anos:

No tempo que exercia o ensino primário contava sempre 50 menores indígenas e uns 30 nacionais: o dito ex-professor fala e escreve muito bem a língua brasileira e também fala e escreve a língua indígena, muito se empenhava durante sua profissão, recomendando aos parentes índios que mandassem os filhos a frequentar sempre a escola, e mandava-os ficar a fim de os ensinar a leitura e a moralidade religiosa, propondo sempre aos pais discursos acertadíssimos em língua indígena sobre a moralidade dos bons cidadãos, e terem grande estima e amor aos padres, aos agentes executivos, aos diretores gerais e aos governantes do país; imprimindo em seus corações o amor a pátria, obediência as autoridades, quer civis e eclesiásticas (Pacó, 1914)

A inconformidade de Domingos Pacó com sua demissão, ocorrida por volta do ano 1900,  do posto de professor indígena bilíngue no Aldeamento do Itambacuri está presente de forma amarga toda sua escrita, na qual também acusa os missionários e demais autoridades de apagarem, deliberadamente, da história do aldeamento,  a importante participação dos “línguas” em todo o processo de criação do estabelecimento missionário, além de não reconhecer o discurso republicano que transfigurou os indígenas em nacionais, passando a negar-lhes suas especificidades históricas e culturais.

A importância reconhecida dos agentes indigenistas “práticos” tanto pelos diretores civis de índios quanto pelos próprios missionários na Província de Minas, diz respeito à exigência indígena de negociação de um sentido prático e simbólico para sua sobrevivência nos aldeamentos. Os agentes interculturais “línguas”, ainda que fossem mestiços incorporados à teia de parentesco dos subgrupos Botocudo, uma vez identificados pelos índios como lideranças, foram,  em um primeiro momento, os únicos agentes capazes de conduzir os equívocos e contradições das relações interétnicas naquela zona de fronteira, assumindo responsabilidades de compatibilizar os diferentes mundos em convivência mestiça, possibilitando as traduções do pensamento indígena em suas visões sobre a história na prática cotidiana da conversão civilizatória.

Para compreender o contexto da demissão do professor indígena, torna-se necessário cruzar as fontes visualizamos um panorama geral que propiciou sua obsolescência, assim como o de outros agentes interculturais,  após a transição para a República (1889) e a revolta indígena que eclodiu no aldeamento no ano de 1893.  É importante notar que também a professora indígena Delfina Bacán de Aranã seria, posteriormente, demitida da mesma forma. Delfina, infelizmente, no entanto, não nos legou seu testemunho, permanecendo apenas a memória de alguns moradores que a fotografaram, atestando a vida solitária e marginal a que foi condenada após sua demissão, na cidade de Itambacuri (Missagia de Mattos, 2004).  Delfina tornou-se uma dessas índias “puras”, ou “bugras”, representantes do passado, ainda presentes na memória social local, vagando isolada pelas ruas da cidade, sem família nem residência fixa e vivendo de esmolas.

Outras experiências de vida de indígenas escolarizados se cruzam à de Pacó e Delfina, a exemplo do bororo Tiago Marques: também, as bugrinhas e outros alunos e alunas das escolas indígenas tornaram-se indivíduos solitários, desvinculados de suas redes sociais de origem porém não integrados à nova situação social urbana instaurada pelos missionários. (Missagia de Mattos, 2004).

Falando de si sempre na terceira pessoa, o professor indígena Domingos Pacó, por sua vez, pode revelar sua dor:  “Enfim, quando ele menos esperava o inimigo lhe atirou pelas costas com a arma da inveja, fazendo com que o premiassem com a demissão, retirando-se o poder o leme da cadeira do encargo de professor a tantos anos que lhe fora confiado”.

Atribuída pelos capuchinhos à “manifesta negligência no cumprimento dos deveres” e “contínuas imprudências”[5] –  “aliás frequentes aos de sua raça” (Palazzolo, 1973 [1954], p. 220) – ,  a demissão de Pacó, bem como a de Delfina Aranã,  contribui para revelar o movimento de guinada no modelo que passaria a ser adotado para a educação na Colônia Indígena, na qual se transformara o antigo Aldeamento dos tempos monárquicos. Neste novo lugar, a identidade indígena dos habitantes passaria a ser negada desde os primeiros anos escolares, para dar lugar à identidade mestiça “nacional”.  Em caso de desacordo com a nova ordem, no entanto – como foi claramente a postura de Pacó, ao exigir reconhecimento do lugar do indígena na construção do novo espaço “civilizado” e “nacional” – o problema da “raça” incorrigível continuaria a ser alegado para justificar a exclusão  dos indígenas.

Segundo E. Ribeiro (1996) , após ser demitido, Pacó teria se “retirado para a vida nas matas”, em busca dos “sinais de Nossa Senhora” e de pedras e riquezas, nunca encontradas. Nessa busca, ficaria cego de um olho. Em 1904,  com idade em torno de 37 anos, Domingo Pacó, em conformidade com seu manuscrito,  voltaria novamente a ensinar as primeiras letras, desta vez nas fazendas da região.

Entradas de pioneiros ao longo dos Oitocentos 

Nesta investigação, algumas vezes os fatos como gravados na memória oral pareceram destoar daqueles encontrados nas fontes escritas –   o que absolutamente não invalida a importância das diferentes versões, uma vez que, na prática, a simples persistência da memória social sobre eventos envolvendo Domingos Pacó serve para corroborar a magnitude de seus significados.  Massacres de grupos inteiros de indígenas da região, por exemplo, são vívidos na memória de alguns de seus descendentes que sequer tiveram contato com fontes ou estudos sobre a temática. Apesar de certas descrições orais corresponderem a massacres ocorridos na região ao longo dos oitocentos, alguns destes trágicos eventos impressos na memória correspondem ao início do século XX.

A vida do professor Domingos Pacó atravessou dois séculos e acompanhou momentos críticos de nossa história,  como a transição do Império para a República e a abolição da escravidão. O estudo de sua trajetória revela ainda alguns dos dilemas da transição entre os mundos indígena e “civilizado”.

Filho do pioneiro baiano Félix Ramos da Cruz – que se refugiara com seus irmãos Joaquim e Francisco entre os indígenas das matas situadas entre os altos do Jequitinhonha,  Mucuri e Doce,  por temor de serem recrutados como soldados na Guerra do Paraguai, segundo as memórias de seu neto José Nunes[6] –  e da “bugra” Umbelina, Pacó era neto do memorável “capitão” Pohóc,  que imortalizou em seu manuscrito[7].

Pacó seria o primogênito de uma família de 20 irmãos, concebidos em dois casamentos de Félix Ramos da Cruz, sendo o segundo com outra indígena, segundo informações de seu sobrinho Horácio, filho de sua irmã mais nova e comerciante na cidade de Campanário[8]. O Sr. Horácio guarda consigo um documento com a assinatura do tio “famoso”,  que ele fez questão de homenagear, quando vereador, atribuindo-lhe o nome a uma das ruas daquela cidade, onde consta haver falecido em junho de 1935, aos 68 anos.   Aqui podemos perceber que a situação de marginalidade a que foi relegado após sua demissão, considerada injusta por Domingos Pacó,   que contra ela se revoltou abertamente,  atualmente parece ter se deslocado quando observamos  o lugar de destaque conferido a esse antigo professor indígena entre sua parentela.  A simples existência de dois homônimos seus entre os descendentes do capitão Pohóc nos dias de hoje aponta para o lugar de importância assumido por Domingos Ramos no imaginário local.

Apesar da memória do seu neto José Nunes alcançar apenas o nome de dois irmãos do bisavô Félix, Domingos Pacó identificou, em seu manuscrito, uma rede bem mais ampla de parentesco trasladada da Bahia para a região onde se instalaria o famoso aldeamento. O documento registra que Félix, após instalado do estabelecimento missionário em 1873 -,  trouxera, “para junto de si”, “seu pai Rofino Ramos da Cruz e seus irmãos que eram 10”.

É importante ressaltar que este “língua” seria um dos principais mediadores das negociações entre missionários e indígenas com a finalidade de identificar o território onde estabelecer o Aldeamento Central Nossa Senhora dos Anjos do Itambacuri,  criado pela Portaria do governo Provincial de 25 de janeiro de 1872, que ordenava o estabelecimento de “cinco grandes aldeamentos centrais, para neles se concentrarem os índios que vagueiam nos vales do Rio Doce, Mucuri, Jequitinhonha, Rio Pardo e Rio Grande”.  Para esse fim, tornava-se imprescindível convencer os indígenas existentes nas matas a juntarem-se em torno da obra dos capuchinhos. Esta não constituía tarefa simples, uma vez que os grupos se “aliavam” também a outros atores interessados, sobretudo, no emprego de sua mão-de-obra na abertura de fazendas e demais trabalhos agrícolas.

O local onde o sogro de Félix, o capitão Pohóc, se estabelecera com sua gente, já era conhecido pelo político e empresário Teófilo Otoni,  que, em virtude das atividades logísticas de sua Companhia de Comércio e Navegação do Mucuri –  uma concessão dada pelo Governo Imperial em 1847 e extinta em 1861 – ,  se tornara um exímio conhecedor da geografia e da localização dos indígenas daquela zon de fronteira.  Otoni, de fato, chegou a discorrer sobre a situação do rio Tambacuri, afluente do Doce pelas cabeceiras da margem norte, onde então se situavam aldeias de Botocudos “amansados” pela família do português Antônio Gomes Leal, responsável pelo importante quartel e aldeamento Alto dos Bois, estabelecido nas serras divisoras das águas dos rios Doce, Jequitinhonha e Mucuri nos fins do século XVIII[9].

Em toda a documentação pesquisada, Alto dos Bois se apresenta uma referência para o estudo dos povos indígenas de Minas,  por sua posição estratégia para a povoação regional, possibilitando rotas de trânsito entre as selvas que caracterizavam aquele ambiente.  O trânsito dos indígenas por Alto dos Bois revela facetas da história da ocupação regional e da diversidade de povos que ali existiram em períodos anteriores. (Missagia de Mattos, 2012; no prelo).

Situada nos atuais municípios de Capelinha, Minas Novas e Angelândia, Alto dos Bois abrangia vastos planaltos ou chapadões imediatamente anteriores aos vales dos rios vertentes para as três grandes bacias do Doce, Mucuri e Jequitinhonha[10]. A vegetação na área de influência do Alto dos Bois, situada no divisor de águas dos Vales do Rio Doce, Mucuri e Jequitinhonha, varia de resquícios de mata atlântica, manchas de caatinga, passando por “cerradão”, cerradinho e capoeira.

A denominação surgiu da prática dos condutores das boiadas que por ali passavam, encontrando uma situação favorável para o descanso e o pastoreio naqueles chapadões. Ponto de parada antes do reinício da penosa viagem através dos vales impenetráveis de florestas,  daquelas altitudes a boiada seguiriam para fazendas situadas nos vales dos rios, após o árduo trabalho de desmate.

Assentado por sobre as serras, desde o início do século XVIII, ainda que considerando a precariedade dos caminhos, Alto dos Bois já articulava-se com a capital de Minas, e dali com o Rio de Janeiro e São Paulo, além de comunicar-se, através do Jequitinhonha, com o Recôncavo baiano e a cidade de Salvador (Ferreira, 1999).

Tornando-se designação oficial, Alto dos Bois figura nos mapas mais antigos da Província de Minas e contava,  em 1787,  com cerca de três portugueses fazendeiros. Por situar-se em zona de passagem estratégica para viajantes e tropeiros e próximo à Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso das Minas Novas da Contagem[11]  –  importante vila mineradora no período – passou a abrigar, no ano de 1814, um destacamento dos “Dragões”, a 3.ª Companhia dos Dragões, com cerca de 30 soldados que lá permaneceram por décadas.  O novo quartel foi estabelecido por decreto, de acordo com as táticas de guerra ofensiva ordenadas pela Carta Régia expedida em 1808 por D. João VI, fazendo parte da Sétima Divisão, criada em 1811, cujo comando se encontrava em São Miguel do Jequitinhonha[12].

No relato abaixo,  Otoni descreve os equívocos cometidos pelos engenheiros da Companhia de Navegação e Comércio do Mucuri (1847-1861) em uma tentativa de abertura da estrada passando no lugar onde seria instalado, posteriormente, o Aldeamento Central do Itambacuri.

Em 1854 já tinham os Drs. Remígio Electo de Souza e João Batista Dias aberto uma picada de 10 para 12 léguas rumo leste-nordeste da cachoeira do rio Suassuí Grande. Calculavam achar-se perto das cabeceiras do Tambacuri, senão já nas nascentes do Todos os Santos e São Mateus, mas no ano seguinte verificaram que tinham errado nos seus cálculos. Em vez de terem-se dirigido do Itambacuri para as águas do S. Mateus, tinham passado para as do Laranjeiras, afluente do Rio Doce. Nas cabeceiras do Tambacuri um homem de nome Joaquim Fernandes já tinha suas plantações  (Otoni, “Relatório apresentado aos acionistas da Companhia do Mucuri” 56: 7 apud Timmers).

Este trecho do relatório de Otoni elucida a existência de um colono entre os índios do Tambaquari,  de nome Joaquim Fernandes, noticiada por frei Serafim de Gorízia por ocasião da fundação do aldeamento central Nossa Senhora dos Anjos de Itambacuri[13].

De forma curiosamente “mestiça”, utilizando-se de instrumento indígena,  este colono iria flechar o língua (intérprete) Félix Ramos, além de lhe ter matar seu irmão Antônio,  em uma mesma ocasião.

A presença da figura influente de Joaquim Fernandes entre os índios no Tambacuri, noticiada por Teófilo Otoni em 1856 e pelos missionários em 1873, desaparece por completo dos relatórios oficiais em períodos posteriores.   Já o “língua” Félix Ramos, ao contrário, torna-se um dos protagonistas da fundação do aldeamento indígena  do Itambacuri, após unir-se em matrimônio com Umbelina Pahóc, filha do líder indígena do povo Naknenuk ali situado. Este casamento seria o primeiro a ser celebrado na missão de Itambacuri (Missagia de Mattos, 2004), entre tantos outros “mestiços” que o sucederiam, considerando que a estratégia de produzir casamentos mistos esteve atrelada à tarefa “civilizatória” dos missionários ao longo de todo seu projeto.

O ofício do diretor de índios na cidade de Minas Novas, José Silvério da Costa, no ano de 1870, confere visibilidade aos conflitos de terra então existentes, bem como aos atores presentes naquele concerto interétnico,  entre os quais se destacam os “línguas” Joaquim Fernandes e Félix Ramos,  envolvidos em disputas de morte pela associação com os indígenas e interesse em seus territórios. O contexto claramente era o da regulamentação das propriedades fundiárias, em consonância da Lei de Terras, promulgada em 1850.

Camilo Gomes Leal e seu irmão Domingos Gomes Leal[14], unidos a um homem de perversos costumes e perito mestre da língua dos índios, de nome Joaquim Fernandes, com inteira infração da lei de terras, introduziram-se na mata e tomaram posição nas imediações do grande aldeamento do Pontarat. Escravizando completamente os índios, deles se tem servido não só para os seus trabalhos rústicos, como ainda para instrumento de seus crimes. Com eles mataram há tempos a Antônio Ramos e flecharam a Félix Ramos, expeliram diversas famílias e as roubaram. …

Neste estado levantaram-se contra a lei e acoitavam-se nas matas, unidos aos índios sendo impossível qualquer diligência para apreendê-los. …

Retirar da propriedade dos índios tais pessoas importa tanto, como prevenir os crimes, já cometidos por eles, porque evita-se a reprodução de maiores talvez, por isso apresso-me a levar ao conhecimento de V. Excia estes fatos, sobre os quais providenciará como entender vossa sabedoria[15].

Um interessante manuscrito, de autoria do coletor Arnaldo Freire, foi também localizado pelo franciscano holandês frei Olavo Timmers (1969: 27v), em sua pesquisa nos arquivos regionais, realizada no ano de 1962. O precioso livro, que também contém reprodução do manuscrito de Domingos Pacó, é fruto de minucioso trabalho de pesquisa realizado pelo franciscano e publicado em 1969, por ocasião do centenário de nascimento de Teófilo Otoni[16].

Elaborado “segundo lembranças de Adolfo Gomes Colen e outros descendentes dos Gomes Leal”, o documento informa  que “sob o poder do capitão Poté (Mumbuca) estavam ao sul e oeste do Mucurizinho (um dos dois braços das cabeceiras do Mucuri) os Karakatans; ao norte e leste os Paranãs e Mocotis (?); no centro os Paranãs e Tamboris.”  Seriam esses “índios do capitão Poté”, segundo o coletor,  os “mansados”, antes da vinda do Otoni, por Antônio Gomes Leal, o filho. Seriam também esses os primeiros a serem aldeados em 1873 por frei Serafim de Gorízia,  em Itambacuri.

Sobre esses eventos também discorre Domingos Pacó em seu manuscrito:

No ano de 1870 o Sr. José Silvério da Costa, diretor civil de índios estacionável na cidade de Minas Novas e o Sr. Cassimiro Gomes Leal nas matas da Trindade, desejaram conhecer os índios a fim de os agradar e por intermédio do língua Sr. Felix Ramos da Cruz, os ditos Srs. obtiveram a desejada pretensão de os ver em número de mais ou menos 90 a 100 índios, os quais seguiram comandados pelo Capitão Pohóc, viagem esta que fizeram  por muitos dias. Depois desta primeira viagem o dito língua, Felix Ramos, em 1871 foi novamente chamado pelo Srs. Diretores Civis Antônio da Costa Ramos e Cap.m Leonardo Esteves Otoni em Philadelphia (hoje a cidade de Theophilo Ottoni) de levar os índios a presença deles, para reformas de conhecimento, agrados e outros, etc. (Pacó, 2014).

Sob o comando de seu avô Pohóc –  aprendemos no relato de Pacó – assentava-se  um vasto território configurado por meio de uma rede de alianças entre diversos grupos indígenas. Segundo ele,   o “Capitão Pohóc era chefe da numerosa tribo Crakacatãm, Mocurim e Nhãnhãn”, cujos membros eram falantes da língua Borum e que para ali refluíam com o avanço da colonização do Mucuri. Pacó denominou aquele lugar como o “berço gigantesco” AMNHIMMRÁ – onde seria criado o “belo e amado Itambacuri”.   Este processo se encontra detalhadamente descrito na memória do Aldeamento do Itambacuri, intitulada por Pacó Uma Pequena Narração ou Origem; de Como foi Descoberto o Itambacuri =1873=”.  O manuscrito foi oferecido em 1929 ao “Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Reinaldo da Silva Pôrto Primo” – que no ano anterior havia publicado sua obra sobre a história de Teófilo Otoni (Pôrto, 1928) –  em um manifesto interesse de que viesse a ser publicado “para divertimento e curiosidade de alguns… e que seria eu também um deles a apreciá-la”.  Infelizmente Pacó, por sua condição marginal, da qual tinha plena consciência e considerava injusta, não chegou a ver cumprido este seu intento.

O depoimento do neto de Domingos Ramos Pacó –  que ainda se recorda do enterro do avô, quando ele contava apenas quatro anos de idade –   baseou-se principalmente nos relatos de sua avó indígena Zulmira Jupetipe, bem como de suas mãe e tia, ambas filhas de Domingos Pacó, cujas fotografias reproduzo abaixo.

 

     Maria                        Noêmia
Filhas de Domingos Pacó e Zulmira Jupetipe

 

Parte da descendência próxima do antigo professor forma hoje uma comunidade no lugar denominado Córrego do Pezinho, município de Campanário, antigo território da missão do Itambacuri, reconhecidos oficialmente pelo órgão governamental como povo indígena Mocurim.  Neste único caso, percebe-se que os indígenas permaneceram nas terras do antigo aldeamento, apesar do destino das outras pequenas propriedades em que foi se subdividindo tenha sido a extinção em meio a grandes fazendas de gado que ali se estabeleceram ao longo do século XX, forçando a migração dos indígenas para as zonas periféricas da cidade de Itambacuri.

José Nunes, apesar da pouca idade, ainda se lembra da morte e do velório do seu avô.  Segundo ele, Pacó costumava se ausentar por grandes períodos, de até seis meses,  ensinando as primeiras letras nas fazendas da região. Andava sempre a pé, quando finalmente adoeceu na localidade chamada São João, retornando para a casa com febre palustre, da qual viria a falecer.

José Nunes conviveu mais tempo com a avó, Zulmira Jupeti, da etnia Aranã, nascida na localidade Cachoeira dos Aranãs, hoje município de Frei Gaspar, também antigo território da missão. Em virtude dessa convivência, José Nunes aprendeu algumas palavras na língua Borum, além das diversas histórias sobre o avô e o bisavô.

A história que relatou sobre a chegada dos irmãos baianos para a convivência com os borum é rica em detalhes,  demonstrando, por exemplo,  o roteiro migratório a partir da Bahia, seguindo pela via do Jequitinhonha até o Alto dos Bois.

O neto relatou como o bisavô Félix e três dos seus irmãos chegaram na região onde habitava o numeroso povo indígena, escondendo seus pertences como roupas e armas em um “oco de pau” na floresta da região.  Desta maneira, nus, foram aprisionados pelos guerreiros chefiados por Pohóc, mas aprenderiam aos poucos a se comunicar. A confiança dos indígenas seria conquistada pelos irmãos Ramos da Cruz após compartilharem com os indígenas a localização de suas armas, logo utilizadas para a caça, tornando-se motivo de alegria e festa. Daí à celebração da amizade entre Pohóc e Félix não tardaria, consagrando-se com a união deste com Umbelina, filha do líder indígena.   O mesmo iria ocorrer a seus irmãos, que por ali também se estabeleceram.  Segundo o relato de Pacó, a chegada de seu bisavô teria ocorrido no ano de 1866, em data posterior, portanto, à informação reportada por Teófilo Otoni da existência de outro “caboclo pioneiro” entre os indígenas, que iria atentar contra a vida dos irmãos, ferindo a Felix e matando a Antônio.  O caboclo Joaquim Fernandes foi acusado de escravizar os índios e atentar contra a Lei de Terras, vigente desde 1850. Félix Ramos parece ter se livrado de acusações como esta, ao colaborar para a implantação do Aldeamento naquela região indígena, para aonde, posteriormente, trasladaria a sua família baiana.

 

 O Aldeamento e a crítica de Pacó

Quando, em 1893, o aldeamento do Itambacuri (1872-1911), dirigido pelos capuchinhos Serafim de Gorízia (1829-1918) e Ângelo de Sassoferato (1846-1926) – até hoje considerado o mais bem estabelecido aldeamento imperial entre os regidos pelo Decreto n. 426 de 1845 – gozava de uma situação de prosperidade e boa reputação junto aos governos central e provincial do Império brasileiro, o diretor geral dos índios da Província de Minas, Antônio Alves Pereira da Silva descreveu em relatório suas instalações. Essas compreendiam três capelas, duas escolas primárias, uma “prisão correcional”, uma casa de hospedagem, além de engenhos, alambiques, moinhos e monjolos. A “quinta” com árvores frutíferas e pés de cacau e café em fase de produção, ladeada pela casa dos missionários, e as pastagens “verdejantes” para alimentar o gado e demais animais também eram incluídas na listagem dos edifícios que haviam sido “construídos pelos padres diretores do aldeamento e pelos obreiros do lugar, índios e nacionais pobres”. Consta do documento que:

[…] O aldeamento do Itambacuri, talvez o mais importante deste país, tem prosperado de maneira tal, que possui hoje uma grande população que impulsiona uma imensa lavoura, talvez a primeira daquela zona que é por excelência agrícola. Em seu seio contam-se 42 engenhos movidos a bois, além do engenho de ferro, acima mencionado. Estes engenhos fabricam grande quantidade de rapadura, açúcar e aguardente que abastece a cidade de Teófilo Otoni que por sua vês exporta grande parte destes produtos para a estrada de ferro “Bahia e Minas”. A cultura de cereais é importantíssima, pois… é o Itambacuri o inesgotável celeiro da cidade de Teófilo Otoni.[17]

Poucas semanas após a fundação da missão, frei Serafim de Gorízia (1829-1918), escreveu ao diretor geral dos índios que cerca de 70 jovens já frequentavam a escola do aldeamento de Nossa Senhora dos Anjos do Itambacuri. Esta escola logo passaria a receber alunos não indígenas, de acordo com a estratégia do diretor do Itambacuri de promover a sociabilidade dos indígenas no âmbito das relações com a população regional.

Segundo a Sinopse da missão elaborada pelo vice-diretor do Itambacuri, consistia o ensino nas escolas “na instrução primária, no catecismo, trabalhos manuais e da lavoura”. Pouco tempo depois de fundadas, encontravam-se as escolas repletas de “meninos e meninas das duas raças”, segundo a Sinopse.[18]

Durante os cinco primeiros anos seria o sargento Torquato de Souza Bicalho, ex-combatente da guerra do Paraguai, o professor contratado para a missão. Em 1881, passou a funcionar uma escola somente para as meninas e moças, dirigida por Romualda Órfão de Meira – talvez indígena ou mestiça – contratada especialmente pela Diretoria Geral dos Índios da Província por sua experiência de lecionar aos indígenas da Província do Mato Grosso. Domingos Pacó, por sua vez, filho de Umbelina Pohoc e do intérprete Félix Ramos da Cruz, tornara-se o professor bilíngue em 1882, lecionando durante os 19 anos conseguintes, quando seria demitido pelos missionários, que contrataram, em 1901, um professor branco, o músico Emanuel Pereira, casado com índia, que recebera dos índios a alcunha Tangrins.[19]

Nos primeiros anos do estabelecimento, o modelo de ensino adotado contava com ampla participação dos indígenas, os quais, uma vez alfabetizados, transformaram-se em professores e monitores em sala de aula, como foi o caso da professora Delfina Bacán Aranã, sucessora de Romualda após o falecimento dessa, por tuberculose. Delfina, por sua vez, também designara suas discípulas indígenas como ajudantes no ensino.

A professora de misteriosa origem Romualda Órfão de Meira, mencionada como indígena em algumas referências, lecionou durante 18 anos para as jovens indígenas e nacionais do aldeamento, após o que veio a falecer na missão, tuberculosa, tendo sido substituída pela “filha das selvas”  Delfina Bacán de Aranã.

Esse modelo sofreria um golpe mortal no início da República com a introdução do aprendizado agrícola e a construção do asilo para as indígenas “órfãs”, administrado por missionárias italianas enviadas ao Itambacuri por meio de incentivos concedidos pela política educacional do novo governo. O relatório da inspeção técnica do ensino de janeiro de 1907 fornece detalhes do funcionamento da escola em Itambacuri. À época, havia separação entre os sexos, instaurada em 1881. Os meninos se encontravam a cargo do professor Manoel Pereira Tangrins, brasileiro que substituiu o professor bilíngue.

Os recursos gerenciados pelos missionários diretores provinham,  inicialmente, dos governos imperial e provincial. Os recursos da Província, no entanto, não tardariam a cessar, perante os clamores e representações políticas que denunciavam os missionários de todos os aldeamentos, exigindo emancipação. Os recursos do governo Imperial seriam mantidos até que, proclamada a República,  o Itambacuri, sob a administração da Secretaria de Agricultura, Comércio e Obras Públicas do  Governo do Estado de  Minas Gerais, tornou-se uma Colônia Indígena.

O centro do estabelecimento distava trinta e oito quilômetros ao sul da cidade de Teófilo Otoni, estendendo-se sobre os  vales dos “ribeirões Itambacuri e Norethe, nas vertentes do rio Tambaquari, e pouco longe das do rio São Mateus”[20].  A beleza e “uberdade” do local seria evocada constante em toda a documentação, tanto dos  missionários como dos seus administradores civis. A descrição dos terrenos do aldeamento por seu fundador e diretor,  frei Serafim de Gorízia,  de caráter apologético, deixa entrever seu visionário projeto,  ao mesmo tempo “redentor” e “civilizatório”,   subsumido na instalação da missão:

No centro de uma imensa mata virgem sobre os ribeirões Itambacuri e Norete, e as vertentes do rio Tambaquari que despenham-se todos os três por bonitas cascatas, sendo uma desta de uma altura extraordinária e tem mui perto, do lado norte, as cabeceiras do rio S. Mateus e ao sul as matas de Aranan e Catulé, passando pelo meio em terras limítrofes do rio Doce a corrente do dito Tambaquari: a leste estende-se a imensa mata  banhada do rio S. Mateus, com todos os seus confluentes, tendo finalmente a oeste o de  Malacacheta e de Urupuca  (Trindade e Alto dos Bois). (Pacó, 2014)

No ano de 1882, época florescente do aldeamento, povoações de índios e nacionais espalhavam-se sobre os “ribeirões de Nossa Senhora dos Anjos”, ou seja, os confluentes do Tambaquari e das cabeceiras do S. Mateus. O aldeamento constituía, então,  um “ponto de centro do desenvolvimento de uma população nova e espalhada, e da lavoura dispersa sobre a superfície talvez maior de 200 quilômetros em quadro”.  O que antes era “mato virgem”, “abrigo de índios e feras”, transformava-se em “vasto, salubre e ubérrimo território, muito próprio para toda cultura e indústria agrícola” [21].

No alvorecer da república, o Itambacuri assemelhava-se a um grande “celeiro”, que recebia migrantes da seca do nordeste que assolava por anos seguidos, atingindo também o Mucuri. Pela abundância de águas que banhavam o aldeamento, Itambacuri não sofria com a seca. Porém, as doenças trazidas por povos de procedências diversas, passaram a assolar a população indígena, configurando-lhes uma perspectiva trágica para seu futuro, principalmente se se considera que os nacionais e imigrantes, que não tardariam a lá também se estabelecer, iam conquistando as melhores terras, algumas das vezes “comprando-as” dos índios a troco de quinquilharias e aguardente.

Após a rebelião de 1893, envolvendo os 2000 “índios civilizados” do Itambacuri, o estabelecimento sofreria uma completa reestruturação. Grande parte dos índios, perseguida por reforços armados, morreria em fuga. Outros tantos adentraram novamente nas matas e não mais retornaram.

A memória social reteve o trauma desta perseguição e das chacinas contra os indígenas realizadas, rotineiramente, em forma de emboscadas contra os índios feitas por fazendeiros, que os atraíam com promessas de distribuição de comida para depois os fuzilarem. Há vários documentos que descrevem desta maneira eventos realizados nos séculos XIX e XX e não surpreende que esta descrição ocorra da mesma maneira nos relatos de memória na região do antigo aldeamento.

Entre os Krenak contemporâneos, também assentados no vasto território do Itambacuri, o massacre do Kuparak, por exemplo, é relembrado com riqueza de detalhes e emoção, de acordo com o mesmo modus operandi relatado pelo Sr. José Nunes, neto de Domingos Pacó, segundo o qual os indígenas, uma vez atraídos pela promessa de distribuição de carne, garapa e batata, são encurralados nas fazendas e depois executados.  No massacre do Kuparak, ocorrido em janeiro de 1923, foram nove os borum da Aldeia Bonita (quijeme breck) executados no local denominado Kuparak (onça), além dos sete feridos e muitos que se dispersaram após o episódio,  relatado pela própria administração do posto indígena Guido Marlière. Este massacre resultou de conflitos registrados desde a criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPITLN) entre os índios e os trabalhadores da empresa encarregada da fundação do núcleo “Bueno Brandão”, para colonos agrícolas estrangeiros. (Missagia de Mattos, 1996)

A imagem do indígena, no interior das relações interculturais do aldeamento, desvalorizou-se após a revolta de 1893 a ponto de nem mesmo a língua poder ser pronunciada pelos que permaneceram, fiéis e convertidos. Até hoje os habitantes locais se envergonham da ascendência indígena, alegando que os índios tentaram matar os venerados padres. O próprio frei Serafim relatou ao bispo por ocasião de sua visita de 1902 que “tinha alguma coisa apontada para um Dicionário e Gramática sobre a língua indígena”, porém “após o flechamento rasgou tudo” [22].

Algumas providências seriam adotadas pelos missionários durante a revolta de 1893, algumas delas a conselho dos políticos responsáveis pela aprovação das dotações públicas destinadas à colônia indígena, como a distribuição das meninas indígenas da escola entre os moradores da cidade de Teófilo Otoni, uma vez que temia-se o retorno dos índios revoltosos, refugiados nas matas após o flechamento dos missionários, para “raptá-las” da catequese (Frei Serafim apud Palazzolo, 1973 [1954]: 191).

Pode-se inferior, inclusive,  que a demissão do professor indígena tenha se imposta sob um novo conjunto de regras relativas à administração escolar dos índios adotado nos primórdios da República, se considerarmos o relatório de inspeção do engenheiro Pedro José Versiani, após a revolta, dirigido ao inspetor de terras e colonização do Estado de Minas Gerais. Favorável à
 continuidade da catequese. O parecer do engenheiro, continha recomendações expressas para o funcionamento da escolar, como a organização de uma banda de música, para a qual deveria ser enviado pelo governo “um professor habilitado e os instrumentos precisos” [23].

É importante destacar que o referido engenheiro, responsável pela construção de estradas na região, não poderia estar isento em sua avaliação. Empreendedores de obras diversas naquela zona pioneira, os engenheiros, com frequência, beneficiariam-se com legalização de posses ao longo das estradas.

Em sua memória sobre a fundação de Itambacuri, o professor indígena demitido conseguiu, veladamente, tecer uma crítica ao modelo catequético adotado na missão e o destino dos seus índios, ao mostrar como, com o decorrer do tempo, de atores principais, seriam os intérpretes alijados de suas funções dentro da Colônia e desconsiderados enquanto atores específicos.

Ao longo dos poucos anos em que a presença indígena na Escola Santa Clara foi computada diferenciadamente, a presença oficial de índios na colônia indígena do Itambacuri deixava de ser reconhecida oficialmente, passando os índios a serem registrados de forma homogeneizada enquanto “nacional”, de acordo com a espécie de sentimento que a escola deveria incutir nos alunos. Paralelamente à sua incorporação nos documentos enquanto “nacionais”, os sobrenomes étnicos dos índios aldeados seriam também abandonados.

O trecho do manuscrito abaixo, censurado na cópia existente no Arquivo dos Capuchinhos em Itambacuri, consta da versão transcrita por Olavo Timmers:

Os atuais professores ali existentes não se empenham e nem sabem o idioma indígena, a fim de os instruir, quer indígenas, quer nacionais, e pouco esforço faz a respeito destes pobres, que vivem na maior obscuridade, vivendo eles da forma que podem no pedantismo da verdadeira ignorância, e aproveitando das suas simplicidades por não ter a quem manifestar, dizem e afirmam sempre que não há mais índios no Itambacuri, e que tudo é fábula, ainda mesmo que fosse fábula, perguntam-nos aqueles que os viram e conheceram o princípio daquele, certamente haverá ainda alguns deles. (Pacó, 1914 [1996]: 204).

A censura do trecho do manuscrito, em si, tem muito a dizer, porque é justamente a crítica “petulante”, ainda mais da parte de um indivíduo de “raça” inferior,  que os missionários não poderiam levar em consideração, assim como não levaram em consideração o seu próprio autor.

 

 O destino de Pacó e o desaparecimento dos indígenas da missão

Interessante notar como o relato de Domingos Pacó contrasta com o dos missionários em relação à descrição da selva, não considerada como inimiga, doentia, ou “hedionda”, mas como lugar de “recreação” para os indígenas. O professor indígena fazia questão de lembrar, afinal, que todos aqueles córregos, rios e serras já possuíam um nome em língua indígena antes da chegada dos missionários e sua posterior renomeação, e que toda a zona fora povoada por nações bravas e guerreiros. Possuidor de uma memória transformada em “inútil” sobre a região, assim como sobre os diversos indígenas que participaram ativamente da atividade missionária nos primeiros tempos da missão, Pacó demonstra em seu relato sua situação de solidão e isolamento.

Sua história diferenciada não lhe permitia sentir-se inteiramente integrado à sociedade não-indígena, imbuída pela tarefa de transformação e destruição da memória das selvas do Mucuri. Tampouco poderia ser considerado “índio”, devido ao sucesso autoproclamado da “civilização” promovida no aldeamento, transformada em Colônia Mista após a criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais (SPILTN) em 1910, quando, inspecionado por autoridades do governo republicano, não seria mais identificada a presença de indígenas no local.

Em sua memória sobre a fundação de Itambacuri, o professor indígena demitido conseguiu, veladamente, tecer uma crítica ao modelo catequético adotado na missão e o destino dos seus índios, ao mostrar como, com o decorrer do tempo, de atores principais, seriam os intérpretes alijados de suas funções dentro da Colônia e desconsiderados enquanto atores específicos.

No relato de Pacó sobressai seu domínio discursivo dos símbolos da conversão indígena. Um dos aspectos mais fascinantes do seu manuscrito é o fato de dissimular, sob uma linguagem hiperbólica e apologética da ação dos capuchinhos e da conversão, uma perspectiva nativa e prática das falhas da catequese indígena. No limite, a memória da fundação deixada por Pacó pode ser lida como uma denúncia ao trabalho dos capuchinhos por sua pedagogia excludente e pelo apagamento deliberado da existência da população indígena no ensino escolar, bem como frente aos órgãos governamentais.

A exclusão do indígena “puro” – no limite, incorrigível – fez parte da lógica colonizadora e civilizatória que pautou a catequese do Itambacuri, da mesma forma que os mestiços gerados no empreendimento missionário seriam incorporados às camadas inferiores da sociedade naquela zona pioneira, ou seja, a dos trabalhadores rurais despojados de terra.

 

Fontes e bibliografia

Documentos manuscritos:

Arquivo dos Capuchinhos do Rio de Janeiro

Correspondência e ofícios da Catequese do Itambacuri.

Gaveta 20 (toda), correspondência expedida do Itambacuri para a Diretoria dos Índios de Ouro Preto e para o Comissário Geral das Missões, assinada por Frei Serafim de Gorízia e Frei Ângelo de Sassoferrato; gaveta C (toda), manuscritos; gaveta 15 (Pastas de I a IX), documentos do Governo da Província de Minas Gerais dirigidos ao Diretor do Itambacuri; gaveta 21 (Pasta I: “Teófilo Otoni”), correspondência dirigida a Frei Serafim ou Frei Ângelo.

Frei Ângelo de Sassoferrato “Synopse da Missão cathechética dos selvicolas do Mucury, norte do Estado de Minas Geraes. Esta Missão foi fundada em 1873, pelos Rev.mos Capuchinhos Seraphim de Gorizia e Ângelo de Sassoferrato no centro das matas, distantes 36 kilômetros ao sul da cidade de Theophilo Ottoni (antiga Philadelphia)”.  1915 69 fls. Gav. C, Pasta IV.

 

Arquivo do Convento dos Capuchinhos do Itambacuri

Pacó, Domingos Ramos, 1914.  “Uma Pequena Narração ou Origem; de Como foi Descoberto o Itambacuri =1873=”.  Manuscrito.

“Registro das visitas pastorais de Dom Joaquim Silvério de Souza entre 1902 e 1907”. Cópia fac-símile do original existente no Arquivo  Metropolitano de Diamantina.

 

Arquivo Geral da Ordem Capuchinha, Roma

Istituto Storico dei Frati Cappuccini, Pasta H 85:

Frei Serafim de Gorízia.  Resposta anual aos quesitos da  Diretoria Geral dos Índios. 1882.

 

Arquivo Público Mineiro, Belo Horizonte.

“O Mucuri e o Nordeste Mineiro no passado e seu desenvolvimento segundo documentos e notícias recolhidas por Frei Olavo Timmers OFM em lembrança do 100o aniversário de Teófilo Benedito Ottoni. 1869 – 17 de Outubro de 1969”. Teófilo Otoni. Datilografado com emendas manuscritas.  535 fls.

Códices da Seção Provincial (1821-1890)

Documentação encadernada:SP 1379 – originais de ofícios e mais papéis dirigidos ao Governo sobre a indústria, catequese, terras e terrenos diamantinos (1870).

Códices da Secretaria de Governo (1863-1894):

SG25: expediente da Diretoria dos Índios (1887 – 1894).

 

Bibliografia

BALDUS, Herbert, 1937. Ensaios de Etnologia Brasileira. São Paulo, Editora Nacional.

FERNANDES, Florestan,  2007 [1946].  Tiago Marques Aipobureu:  um bororo marginal, Tempo SocialRevista de Sociologia da USP, v. 19, n. 2

MISSAGIA DE MATTOS, Izabel, (no prelo).  Colonization, mediation, and mestizaje in the borderlands of Nineteenth-Century Minas Gerais, Brazil. Em: RADDING, C. & LEVIN, D. (no prelo). Borderlands of the Iberian World: Environments, Histories, Cultures. New York: Oxford University Press.

MISSAGIA DE MATTOS, Izabel, 2017. Pacificação dos Indígenas nas Minas Oitocentistas e seus significados para a nacionalidade brasileira em formação. Em: BARRETO, Adriana et al. Pacificação: o que é e a que se destina. Rio de Janeiro: Ed. Alameda.

MISSAGIA DE MATTOS, Izabel, 2005. A presença dos Aranã nos Registros Históricos. Goiânia,  Habitus 3, 1 (2005):

MISSAGIA DE MATTOS, 2004. Civilização e Revolta: os Botocudos e a catequese na Província de Minas. Bauru: Edusc.

MISSAGIA DE MATTOS, Izabel, 1996. “Borum, Bugre, Kraí: a constituição da identidade e memória étnica Krenak”. Dissertação de Mestrado. UFMG.

OTONI, Teófilo Benedito. 2002 (1859). Notícia sobre os Selvagens do Mucuri em uma

PACÓ, Domingos Ramos, 1996 (1918) “Hámbric anhamprán ti mattâ nhiñchopón? 1918” In RIBEIRO, Eduardo, org. 1996. Lembranças da Terra: histórias do Mucuri e Jequitinhonha. Contagem: Cedefes, pp. 198-211.

PALAZZOLO, Jacinto de, 1973 (1954). Nas Selvas dos Vales do Mucuri e do Rio Doce. Como surgiu a cidade de Itambacuri, fundada por Frei Serafim de Gorizia, Missionário Capuchinho (1873-1952). São Paulo: Companhia Editora Nacional.

PEREIRA, Serafim J. OFM Cap., 1998. Missionários Capuchinhos: nas antigas Catequeses Indígenas e nas sedes de Rio de Janeiro, Espírito Santo e Leste de Minas (1840-1997). Petrópolis:Vozes.

PÔRTO, Reinaldo Ottoni, 1928. Notas Históricas do Município de Teófilo Otoni. Teófilo Otoni, Ed. do autor.

RADDING, C. & LEVIN, D. (no prelo). Borderlands of the Iberian World: Environments, Histories, Cultures. New York: Oxford University Press.

RIBEIRO, Eduardo, org. 1996. Lembranças da Terra: histórias do Mucuri e Jequitinhonha. Contagem: Cedefes.

SWEET, David G.; NASH, Gary B. (Edts), 1981.  Struggle and Survival in Colonial America. Berkeley: University of California Press.

 

Notas

[1] Agradeço aos familiars de Domingos Ramos Pacó aos parceiros da Universidade Federal dos Vales do Rio Doce e Jequitinhonha que viabilizaram a execução do projeto de pesquisa “Memórias e Paisagens do Aldeamento do Itambacuri e Região de Influência”, financiado pela FAPERJ, pelas frutíferas incursões a campo entre os anos 2014 e 2015.

[2] Tive contato com três transcrições do mesmo documento:  o que se encontra no livro organizado por Frei Olavo Timmers, depositado no Arquivo Público Mineiro; outro guardado pelos capuchinhos de Itambacuri, cuja cópia me foi fornecida pelo frei Francisco Cerqueira em 2014; e um último, com linguagem atualizada, segundo transcrição do historiador Eduardo Ribeiro (1996).  As três versões, quando cotejadas, apresentam diferenças pequenas porém importantes, de acordo com certas escolhas ou compreensão de palavras no texto original. O nome em português do manuscrito, por exemplo,  consta apenas na cópia fornecida pelos capuchinhos de Itambacuri, autenticada em 1942.  Por esse e outros motivos, utilizo prioritariamente a cópia existente no Arquivo dos Capuchinhos de Itambacuri, valendo-me ainda da transcrição a publicada em 1996, quando necessário.  O Manuscrito contém duas partes, a primeira sobre a origem de Itambacuri, concluída e assinada pelo autor em 1914 e a segunda sobre a origem de Igreja Nova, datada de 1918.

[3] Com este espírito, Sweet & Nash (1981) produziram uma coletânea de biografias sobre atores indígenas e negros escravizados nos Estados Unidos e na América Latina, no qual destacamos a biografia da Kayapó Damiana da Cruz, catequista e sertanista, produzida pela historiadora Mary Karash.  O livro contém biografias indígenas que marcaram sua época por suas atividades como diplomatas, guerreiros, padres, entre outras.

[4] Baldus, 1937, p. 165.

[5] No ano 2000, informava-me o Frei Agostinho das Neves, capuchinho da cidade de Itambacuri, que Pacó havia sido demitido pelos Padres Diretores por motivo de alcoolismo.

[6] O depoimento de José Nunes foi colhido em 17 de juho de 2014 em sua residência no município de Pescador, MG, contando ele então com  82 anos de idade.

[7] Seus descendentes sabem da importância desta obra, a qual se referem como o “livro” escrito pelo avô ilustre – responsável pela alfabetização de inúmeros indivíduos na região.

[8] Antiga localidade fundada pelos capuchinhos italianos com a designação Igreja Nova, pertencente aos domínios do “gigantesco” aldeamento do Itambacuri e estabelecido originalmente para o “descimento” dos “ferozes” Pojichás.  Vicente Cruz, que autenticou o manuscrito de Pacó em 1942, declarou que seu autor havia ali falecido em Junho de 1935. Segundo a memória de seu neto, o avô morreu de febre palustre em sua casa, no atual município de Pescador, após uma longa estadia pelas fazendas da região, onde costumeiramente ensinava as primeiras letras.

[9] O português Antônio Gomes Leal estabeleu-se desde as últimas décadas dos Setecentos no Quartel Alto dos Bois com sua família extensa. Região de pastagens naturais e propícia à criação de gado, por ali passaram as boiadas o gado cuja criação extensiva foi responsável, em grande medida, pelo desflorestamento e pela situação de devastação atual.

[10] Hoje os chapadões são ocupados por latifúndios de café para exportação do grupo estrangeiro do Café Três Corações.

[11] Minas Novas foi  “descoberta pelo bandeirante paulista Sebastião Leme do Prado em 1727.  A notícia do ouro correu o sertão e em pouco tempo havia se formado na região um povoado denominado Arraial das Lavras Novas dos Campos de São Pedro do Fanado,  elevado à condição de vila em 1730, quando passou a receber o nome Vila de Nossa Senhora do Bom Sucesso das Minas Novas da Contagem. Minas Novas passou a pertencer ao território baiano até 28 de setembro de 1760. A região de Alto dos Bois se encontra no lugar que  passou a ser denominado município de Minas Novas em 1840.

[12] Ver Missagia de Mattos, 2017.

[13] A família Fernandes, de “caboclos pioneiros”, iria estabelecer laços de parentesco com os Gomes Leal, da região de Alto dos Bois.  A relação destas famílias com os índios conformam aspectos particulares da história dos índios da região, em suas estratégias políticas de alianças preferenciais com os colonos. Talvez a família Pêgo tenha sido a que tenha ganhado notoriedade entre os  responsáveis pela política de “brandura”  do Regulamento das Missões,  que os  perseguiram e aprisionaram enquanto “sedutores” dos índios (Missagia de Mattos, 2006).

[14] Descendentes do português Antônio Gomes Leal, Diretor de Índios do Quartel de Alto dos Bois.

[15] Ofício enviado ao diretor geral dos índios da Província pelo diretor parcial  tenente coronel José Silvério da Costa.  S/d. SP 1379 (1870). Arquivo Público Mineiro.

[16] “O Mucuri e o Nordeste Mineiro no passado e seu desenvolvimento segundo documentos e notícias recolhidas por Frei Olavo Timmers OFM em lembrança do 100o aniversário de Teófilo Benedito Ottoni. 1869 – 17 de Outubro de 1969”. Teófilo Otoni. Datilografado com emendas manuscritas. 535 fls. Arquivo Público Mineiro.

[17] Relatório do diretor geral dos índios, Antônio Alves Pereira da Silva, ao secretário da Agricultura, Comércio e Obras Públicas do Estado de Minas Gerais. 04 de novembro de 1893. SG 25, p. 84v-85. Arquivo Público Mineiro.

[18] Frei Ângelo, 1915: 17-18. Arquivo dos Capuchinhos do Rio de Janeiro.

[19] Tangrins: nome que, em Botocudo, significa músico – e sua esposa indígena são os pais do capuchinho frei Serafim Pereira, importante arquivista da Ordem capuchinha em Roma e autor de uma obra sobre a história das catequeses e dos missionários capuchinhos. (cf. Pereira, 1996)

[20] Frei Serafim de Gorízia.  Resposta anual aos quesitos da  Diretoria Geral dos Índios. 1882.  Arquivo Geral da Ordem, Roma.

[21] Relatório do diretor do aldeamento central do Itambacuri,  frei Serafim  de Gorízia, ao diretor geral dos índios. 05 de julho de 1882. Gav. 20. Pasta II. Doc. 26. Arquivo dos Capuchinhos do Rio de Janeiro.

[22] D. Joaquim Silvério de Souza. Livro de visita pastoral (1902-1907). Arquivo dos Capuchinhos em Itambacuri.

[23] Ofício do Dr. Pedro José Versiani ao Inspetor de Terras e Colonização do Estado de Minas Gerais. 10 de outubro de 1893. Gav. 20. Pasta I. Doc. 21. Arquivo dos Capuchinhos no Rio de Janeiro.

 

 

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