biografia

Galdino Pataxó

Autor(es): Iglesio de Jesus Silva
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Etnias, Pataxó Hã hã hãe
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Pataxó HãHãHãe e Kariri sapuiá, Galdino pataxó e outras histórias indígenas

 

Resumo

 O presente artigo tem como objetivo identificar e analisar memórias e histórias envolvendo os conflitos territoriais e políticos do povo Pataxó HãHãHãe, evidenciando as ações do líder Galdino Jesus dos Santos, assassinado em Brasília, em 19 abril de 1997. Sua morte provocou, na sociedade brasileira e especialmente no meio do seu povo, e em todos os povos indígenas do país, um intenso debate acerca dos direitos dos povos indígenas e das sociabilidades e das sensibilidades entre os indivíduos na nossa sociedade. Buscou-se compreender inicialmente, mediante pesquisas bibliográficas, consultas em documentos provenientes de  fontes diversas e de relatos de entrevistados, como a morte de Galdino, na capital federal, permitiu o diálogo entre passado e presente da história do povo Pataxó HãHãHãe e dos povos indígenas no Brasil. No segundo momento do artigo, procurou-se identificar e analisar temas e questões tratadas nos meios sociais, incluindo a imprensa da época, acerca do assassinato e sobre a trajetória de Galdino, de sua vida dentro de sua comunidade, sua participação na luta pelo território do seu povo e sua genealogia, entre outros aspectos. Privilegiando os relatos orais, busca-se perceber as relações sociais e os conflitos envolvidos nas ações de Galdino e nas lutas pelo território, bem como as relações entre ele e os entrevistados, assim como será exposto e analisado as repercussões do seu assassinato e o imaginário criado em torno do seu nome no meio do seu povo. Suas contribuições e ensinamentos referentes a cultura indígena e à conquista do território do seu povo, seu perfil guerreiro e sua forma tranquila de agir são elementos que ficam na memória e na história, válidos tanto para o seu povo quanto para os demais povos indígenas no Brasil.

Palavras-chave: Índio Galdino – Pataxó HãHãHae – Genocídio – Direitos indígenas.

                                    

Introdução

 Foi no contexto de discussões e estimulado pelas reflexões no decorrer da 1ª edição da Licenciatura Intercultural Indígena – LINTER, do INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIAS E TECNOLOGIA DA BAHIA – IFBA, nas disciplinas História do Brasil, História Indígena e História Oral, entre outras ofertadas, que a temática da presente pesquisa foi construída. A figura do líder Galdino Pataxó tornou-se central nos diálogos e análises do trabalho ora apresentado

As leituras, debates e orientações foram fundamentais para o meu amadurecimento acadêmico e para a construção dos referenciais teórico-metodológicos, consequentemente, para o aprimoramento das problemáticas levantadas.

Assim, o presente artigo identifica e analisa as memórias do povo Pataxó HãHãHãe, a qual é constituído por cinco etnias: Bainá, Kariri sapuiá, Kamacam, Tupinanbá e Guerem. O referido povo está situado no sul da Bahia, nos municípios de Pau Brasil, Camacan, Itajú do Colônia e Pótiraguá.

O trabalho destaca o papel desempenhado pelo líder Galdino Pataxó, ampliando o foco na identificação das metodologias de luta pelo território tradicional e o efetivo envolvimento de outros líderes indígenas locais na questão. Um dos pontos relevantes do estudo é a análise e contextualização do assassinato de Galdino e as repercussões entre os povos indígenas e na sociedade brasileira.

Busca-se evidenciar a importância do referido líder junto ao seu povo, seu papel na comunidade e suas relações afetivas na condição de ser humano, pai, filho e membro de uma comunidade de pertencimento étnico.

Os depoimentos dos entrevistados expressam que ele foi um exemplo de luta pelo direito à terra, estando à frente das mobilizações contra a expulsão do seu povo dos seus territórios tradicionais, nas décadas de 1950 e 1960, sendo que tal processo de expulsão foi brutal, expulsos de suas terras a pauladas, tendo suas casas e roças queimadas por grandes fazendeiros e posseiros de terras daquela localidade. Os relatos orais indicam que para além de ser um guerreiro, Galdino era um exemplo de respeito ao próximo, desempenhando e estimulando constantemente a solidariedade coletiva e a coragem para enfrentar os agressores.

No dia 20 de abril de 1997, Galdino Jesus dos Santos, com 44 anos, estava na cidade de Brasília para tratar de questões relativas à demarcação das terras indígenas do seu povo, quando foi brutalmente assassinado por cinco rapazes, que atearam fogo em seu corpo enquanto dormia no banco de uma parada de ônibus na avenida W3 Sul, na região central da cidade. Por seu caráter brutal e pela relevância de suas ações naquele momento, este fato teve repercussão nacional, dando notoriedade ao caso e aos conflitos de terra que atingiam o povo Pataxó HãHãHãe.

Os assassinos do líder Galdino foram apontados pela imprensa como “jovens de classe média” que não tinham passagens anteriores pela polícia. O caso evidencia a situação de vulnerabilidade histórica dos povos indígenas no Brasil e a violência praticada em diversas escalas, promovida pelo próprio Estado, através da negativa em efetivar diretos adquiridos, como o direito à demarcação dos territórios originários, e por indivíduos e grupos que exterminam indivíduos e grupos coletivos para impor seus projetos particulares ou por puro ódio contra a diversidade sociocultural.

O estudo realiza a explicação relacionada dos fatos, expondo uma teia de relações amplas que envolvem o assassinato do líder Galdino Pataxó, a luta do Povo Pataxó HãHãHãe pela terra, protagonizada pelos indígenas daquele povo. No bojo do debate será possível identificar as relações históricas do Estado brasileiro e dos diversos grupos sociais envolvidos nos conflitos em questão e as perspectivas para o futuro daquele povo.

As fontes utilizadas na produção da pesquisa são diversificadas. Além das entrevistas, constituem-se como fontes primárias as legislações nacionais e locais, fontes da imprensa disponíveis na internet, sendo que tais documentos dialogam com a teoria numa ação intelectual que reconhece a potência dos sujeitos e a permanente relação de tensão social própria da perspectiva histórica entendida como construção social.

As imagens e fotografias não são utilizadas como mera ilustração e nem como cópia fiel dos acontecimentos, mas como sugere Possamai (2008):

… a investigação das imagens, sejam estas obras de arte ou fotografias, podem abrir para o historiador um universo a ser explorado, principalmente no campo da memória e do imaginário. (…) Moldadas pelas configurações históricas e sociais de sua produção, suas intenções ultrapassam o desejado no momento de sua elaboração pelas múltiplas possibilidades que são oferecidas pelo ato de olhar. Como representações do real, as imagens visuais constroem hierarquias, visões de mundo, crenças e utopias e, nesse sentido, podem constituir em fontes preciosa… (POSSAMAI, 2008, p. 2)

No presente trabalho, a imagem é utilizada como documento carregado de ambiguidades, sentidos e histórias nem sempre observadas no primeiro olhar. Como afirma Mauad, “entre o sujeito que olha e a imagem que elabora há muito mais que os olhos podem ver” (1998, p. 3), e nesta perspectiva, a imagem se transforma em “vestígio” ou “resíduo da realidade” no trabalho do pesquisador, como propõe a autora.

Sendo assim, as imagens não são utilizadas fora do seu contexto social e nem entendidas como uma fonte que “fala por si só”, mas sim como um documento que integra o processo de construção de sentido histórico.

Referindo-se à imagem, especialmente à fotografia, Cardoso observa que ela é “agente do processo de criação de uma memória que deve promover tanto a legitimação de uma determinada escolha quanto, por outro lado, o esquecimento de todas as outras” (1997, p.407).

Quanto às entrevistas, é importante ressaltar que foram selecionados para fins da pesquisa os depoimentos de lideranças do Povo Pataxó HãHãHae, anciões e sábios da aldeia, homens e mulheres. As entrevistas não são concebidas como mero depósito de dados quantificáveis em busca do conhecimento histórico “objetivo ou verdadeiro”[1]. Busca-se a produção da memória social de sujeitos historicamente silenciados pela historiografia hegemônica, criando o espaço da memória alternativa (em oposição à memória hegemônica). A esse respeito, Portelli diz que:

A primeira coisa que torna a história oral diferente, portanto, é aquela que nos conta menos sobre eventos que sobre significados. Isso não implica que a história oral não tenha validade factual. Entrevistas sempre revelam eventos desconhecidos ou aspectos desconhecidos de eventos conhecidos: elas sempre lançam nova luz sobre áreas inexploradas da vida diária das classes não hegemônicas. (PORTELLI, 1997, p. 31)

Seguindo a proposição de Portelli (2006), a memória dos entrevistados é entendida como um processo social dinâmico que possibilita a explicação das relações sociais em profundidade, sendo que ela é moldada pelo meio social, mas o ato de lembrar é uma ação individual e não coletiva.

Nesta perspectiva histórica, o historiador assume papel ativo e partícipe do processo de construção do conhecimento, sendo que a busca não é pela homogeneização ou quantificação dos depoimentos, mas sim pela diferença, identificando as tensões sociais e as tendências políticas inerentes ao processo ao qual o estudo se reporta.

Assim entendido, fica patente que a morte de Galdino é percebida pelo povo Pataxó HãHãHãe como um fato trágico, uma grande perda coletiva mas ao mesmo tempo foi um episódio motivador para o fortalecimento da luta e dos ideais daquele povo. A partir de então, em nome da honra e do sangue do líder morto, foram organizadas e retomadas novas frentes de ação buscando realizar o sonho de ter o território expropriado de volta, ter seus direitos respeitados. Hoje, a luta empreendida foi transformada em vitória, com a determinação judicial que dá a posse definitiva do território aos Pataxó HãHãHae (Ação Ordinária 312, julgada em 02/06/2012), uma conquista que pode ser lembrada como mérito de Galdino e de tantos outros que lutaram, morreram e não se cansaram na insistente resistência pela conquista do território originário.

Com este tema, busca-se compreender as relações que se estabelecem entre o líder Galdino e o seu povo Pataxó HãHãHãe, sua cultura, história de vida e memória da luta territorial. E, deste modo, tentar apreender referências, sentimentos e valores destacados no debate que se seguiu ao assassinato de Galdino dos Santos, como também a formação étnica, as retomadas territoriais, os conflitos políticos do povo pataxó HãHãHãe no passado e nos dias atuais.

Com este propósito geral, neste artigo segue o apresentado adiante.

Os depoimentos dos entrevistados evidenciam que a demarcação das terras indígenas dos HãHãHãe está vinculada, em grande medida, ao trágico assassinato de um dos maiores líderes daquele povo. Evidencia-se, complementarmente, que para garantir o direito à terra originária, foi e é necessário morrer os seus líderes e outras pessoas comuns, fatos que geram incômodo à sociedade nacional contemporânea que fazemos parte.

  

Quem são os Pataxó HãHãHãe?

O povo indígena pataxó HãHãHãe se constituiu nos anos de 1926, quando o ministério da guerra encaminhou a demarcação dos 36 mil hectares de terra para usufruto daqueles indígenas que até então viviam dispersos numa área de mata considerada pelos os por estes índios como área de muita caça (área de refúgio), apesar de os mesmos serem perseguidos por fazendeiros naquela época (PIUBELLI, 2012). Os pataxós HãHãHãe costumava se organizar nas margens dos rios de contas, pardo e colônia,  una, jequitinhonha, peruípe, e na região de ilhéus, até porque viviam de caça e pesca e também por serem originários de tais regiões, desde a era da invasão do Brasil em 1500.

Segundo Piubelli (2012), o governo, nos anos de 1860, começou a expandir as lavouras de cacau na região e tinha interesses sobre aquelas terras consideradas “devolutas” em áreas produtoras. O projeto do Estado era estimular a transferência de considerável número de pessoas, transformando-as em imigrantes/desbravadores dos sertões, desmatando as áreas nativas para produzir cacau e roças de subsistência. Tais indivíduos e grupos de colonos eram oriundos da decadente área canavieira.

Essa expansão desordenada implicou na desetruturação, em especial, sobre os territórios originários indígenas, que até então ofereciam menor resistência a esse movimento de “interiorização do progresso”. A questão passou a ter maiores dimensões à medida que o plantio de cacau se expandiu e os conflitos entre indígenas e fazendeiros (e seus exércitos de pistoleiros) se tornaram constantes a partir do momento em que os grupos de indígenas Kamakam-mongoios e pataxó não aceitavam a expropriação do seu lugar de origem e o desmatamento para as grandes lavouras de cacau.

Segundo o autor acima citado, com o crescimento ordinário de conflitos entre indígenas e fazendeiros, o governo do estado da Bahia se sentiu pressionado internamente por setores progressistas, tendo que se posicionar oficialmente sobre a questão através do decreto de Lei nº 1.916 de 11 de agosto de 1926. A referida Lei estabelece que:

Cinquenta léguas quadradas de terras em florestas gerais e acatingadas, destinadas à conservação das essências florestais naturais e gozo dos índios, localizada entre os rios Pardo e Gongongi, afluente do rio de Contas. Os limites da reserva haviam sido definidos pelo decreto estadual de 9 de março do mesmo ano. Ações de invasões e apropriação das terras da Reserva Indígena do Sul da Bahia se multiplicaram desde sua criação, em 1926, alternando momentos de violência explícita e outras formas de litígio de menor intensidade. Todavia, a prática de acuar os índios, confinando-os em reduzidas parcelas de terra, controlando seus movimentos, punindo qualquer ação de protesto, desconhecendo os direitos dessas populações, foi constante.

Mesmo com essa determinação legal, as ações do governo do estado da Bahia eram muito limitadas, haja vista que o mesmo tinha comprometimento com os interesses anti-indígenas na defesa dos grandes proprietários de terras, fazendeiros, posseiro, entre outros grupos contrários ao povo pataxó HãHãHãe, como narra o ancião Nailton Muniz, atual cacique, pertencente ao povo pataxó HãHãHãe de etnia Tupinanbá.

 

A representatividade de Galdino na visão do povo Pataxó HãHãHãe

 O posto indígena Caramuru Catarina Paraguaçu era uma área de caça e ao mesmo tempo de refúgio para os indígenas de várias regiões que sofriam pressão dos fazendeiros. Criado no ano de 1926, o posto indígena reuniu membros do povo Tupinanbá de Olivença, Bainã, Kamakam e Kariri. Segundo o cacique Nailton Pataxó,

(…) foi no contexto das perseguições de grandes fazendeiros de cacau e dos criadores de boi da região que se insurgiu o líder caboclo Marcelino Tupinanbá, um cara guerreiro, lutador de seus direitos defensor de seu povo. Nessa época de 1926, tinha o índio Angélico, o pai de Basílio, amigo de Marcelino, que junto participaram de muitos embates de guerras para defender o território de seu povo que iam de ilhéus, Una, Canavieiras, Belmonte e outros por ai. Tudo era território Tupinanbá! meu povo sempre foi o dono das beiras das praias, ne! Com isso, Basílio e Angélico, para se defender dessas pressões e segurar seu território, fugidos vieram parar aqui no território caramuru Catarina Paraguaçu.

Nailton prossegue narrando que os dois guerreiros indígenas, citados acima, chegaram no atual território do aldeamento Caramuru, mais ou menos  em 1920, e posteriormente em 1926 foi feito a 1ª demarcação da terra indígena –TI caramuru, cujo processo foi interrompido por pressão dos fazendeiro, gerando um grande conflito com os indígenas; Com essa primeira parada da demarcação, Basílio assumiu como uma grande liderança na localidade. Segundo o cacique, Basílio era a pessoa que cuidada das roças de cacau nas localidades da jacuba, ourinho e rancho queimado, lugar onde ele e eu morávamos, junto com minhas irmãs mais velhas, Maria Muniz, Helena e os outros nasceram no rancho queimado. Ele se casou com minha vó, dona Maria, que era pataxó. Portanto, todos se criaram ali.

Seguindo sua narrativa, Nailton informa que em 1936 os diálogos sobre a demarcação do território foram retomado, sendo concluídos em 1938, porém, as pressões anti-indígenas continuaram na região do racho queimado. Segundo Nailton,

O nome de rancho queimado foi dado devido ao fato dos fazendeiros queimar os ranchos dos engenheiros e topógrafos que trabalhavam na demarcação do território. De acordo com o cacique, “passou o ano de 1938, 1940 e continuou as invasões de terras. O SPI, serviço de proteção ao índio, fracassou e começou a arrendar as terras, com o apoio dos coronéis do exército, que eram chefe de posto. Os arrendatários produziam cacau, sendo que as terras eram arrendadas com os índios dentro.

Os fazendeiros que arrendavam aquelas terras indígenas eram responsáveis por anular os direitos originários, abrindo um novo processo de massacre, resultando em muitas mortes de indígenas que foram expulsos dos territórios conquistados, ficando com umas glebas pequenas em Itajú do colônia, com um alqueire de terra que ficou sob a responsabilidade da índia Bahetá, de Horak e Samado, na região do panelão em Jacareci.  Segundo Nailton,

O meu avô, na época de 1960, teve que sair daqui do território sobre pressão e nós ficamos por aqui espalhado, e ele foi para a região de santo Antônio, perto de Gandu. Então, a vinda do meu avô para aqui se deu na existência da etnia Tupinanbá, no posto caramuru, vindo fugido à procura de um lugar seguro para continuar a vida onde formou família. Daí em diante o meu avô morreu lá em Santo António e nós ficamos morando em Palmira, região circunvizinha da TI, e meu pai casou-se com minha mãe e permaneceu no mesmo lugar citado acima. E no ano de 1975, uma tia minha chamada Alda, que residia em uma cidadezinha chamada Barrolandia, próximo a cidade de Belmonte, veio para cá e tinha o mapa daqui. Eu saí daqui pequeno, com 6 anos de idade, e na apresentação desse mapa, ela afirmou que essa terra era nossa, no mesmo ano eu fui eleito liderança para articular a minha família para retornar a área (a terra indígena Caramuru).

Segundo o cacique Nailton, os Tupinambá reuniram sessenta e quatro pessoas o mobilização de retorno ao referido território indígena, ação que se efetivou em 19 de abril de 1982. No entanto, no decorrer do mesmo ano os indígenas tiveram que ser transferidos para a cidade de Almada, pois aconteceu a reintegração de posse determinada pela justiça. Foi então que o referido cacique entrou com um pedido de mandato de segurança solicitando o retorno dos indígenas para o território de onde foram expulsos, e a Juíza deu uma liminar favorável, possibilitando o retorno dos indígenas à terra indígena Caramuru, em 1984. Na mesma ação judicial os indígenas ganharam também uma pequena gleba de terra que foi denominada de aldeia Nova Vida, em Camamu, para onde foram transferidos parte dos indígenas.

As narrativas das lideranças apontam para histórias de luta e de perdas de vidas de muitos indígenas no processo de reconquista dos cinquenta e quatro mil e cento e cindo hectares de terra. Os depoimentos atestam que todos os esforços foram válidos, considerando o resultado final, que foi a homologação do território.

Nailton lembra que logo após a reconquista da terra, foi criada uma escola de formação de liderança que previa capacitar os parentes para lutar por nossos direitos e a organizar a defesa contra as opressões de fazendeiros e pecuaristas da região. O povo apoiou esse primeiro passo e em seguida foi criada a assembleia interna dentro de nossa comunidade, desembocando na criação da comissão de articulação a nível leste e nordeste, e dessa comissão conseguimos organizar toda a região.

Na formação étnica do nosso povo na Terra indígena Caramuru, começou a organização por família e cada uma tinha seus líderes, Samado era um deles, que articulava sua família, seu Higino (meu tio) que morava em Itapetinga, se uniu, formando cacicado, tendo o seu Samado o seu vice cacique.

O nosso povo, que estava espalhado pelos estados do Espírito Santo e Minas Gerais, começou a ser reagrupados novamente, após décadas da expulsão de seus territórios originários. Estava aberto o caminho para reaglutinar o nosso povo, Em 1982, teve início efetivo à essa junção, com a retomada da antiga área indígena Paraguaçu/Caramuru, onde estava instalada a fazenda São Lucas, no município de Pau Brasil (BA), momento em que o parente Saracura foi eleito cacique e Nailton o seu vice. Pouco depois, Nailton foi eleito cacique, mantendo-se como tal até os dias atuais.

Em entrevista, Nailton fez o seguinte depoimento:

No final do ano de 1982 eu fui eleito cacique e como tal tinha um sonho, era ver as nossas terras em nossas mãos novamente, pois tive o privilégio de aprender e trabalhar com os grandes líderes e anciões dessa comunidade como Samado, Desiderio, Sulino, Euzébio, Juvenal, Leôncio, seu Jó, João Cravinho, Lucília, Edizio, Saracura e, em especial, Galdino, que na luta morreu por ter ido defender o direito do nosso povo. Enfim, muitos deles já se foram; mas é bom falar que esses que citei são os principais troncos, matrizes, heróis de nossa conquista e os grandes sábios, e que sem eles nada disso teria se realizado e por isso que estou preocupado com a formação de liderança, pois a morte é uma passagem espiritual desse mundo pra outro, sei que vou morrer e assim como eu fiz na época que os nomes que citei eram anciões e eu era jovem, eu também peço aos jovens de hoje que toque a luta pra frente. “O índio não morre, apenas passa desse mundo para o mundo espiritual e de lá, assim como os outros. Estarei ajudando na continuação dessa luta.

Podemos perceber nesse depoimento do cacique Nailton o quanto foi difícil para o povo pataxó HãHãHãe se manter vivo, e que os anciões e líderes foram fundamentais nessa jornada conflituosa pelo território Caramuru. Ele, orgulhosamente, fala de todos os líderes que teve contato e destaca um dos líderes; Galdino Jesus Dos Santos, considerando que a lembrança não é apenas pelo fato do brutal assassinato do líder, mas por sua efetiva colaboração na luta e por sua sensibilidade nas relações cotidianas na comunidade.

Nailton lembra que o nome dado a TI Catarina Paraguaçu se deveu ao casamento de uma índia Tupinambá com um linguista, que veio trabalhar no processo de demarcação do território, e a parte do Paraguaçu foi onde ele mediu para os Tupinambá, que na língua dos Tupinambá significa grande rio.

Continuando seu depoimento, Nailton afirma que “Galdino era um índio legitimo, observador, cauteloso, de características bem simples e trabalhador”. O “mártir” vivia da agricultura, assim como todos os membros da comunidade, e nos trabalhos interno e externo, principalmente nas viajem, ele se destacava representando muito bem o nosso povo. Por todas essas qualidades, todos faziam questão de sua presença, tendo-o como exemplo para a comunidade.

Os depoentes afirmam que tudo o que ele plantava em sua roça, era dividido com o povo que mais precisava, mesmo sendo humilde e tímido muitas vezes, era um dos líderes incentivador da coletividade e da expansão da comercialização dos nossos produtos agrícolas na cidade de pau brasil que antes de municipalizar se chamava Santa Rosa.

A partir de minha vivência e das entrevistas realizadas, é possível afirmar que Galdino era muito preocupado com o bem estar de sua comunidade, passava de casa em casa conversando com as pessoas para saber se estava tudo bem e isso cativava o povo. Apesar de sua morte, nós o consideramos um guerreiro, até porque esse triste episódio serviu de inspiração para as retomadas, começaram a dar certo, especialmente porque começamos a nos unir ainda mais, empunhando nossas bordunas, arco e flecha com força, para garantir o sucesso de cada terra retomada, sendo que cada terra que o povo retomava, o nome dele era lembrado.

Portanto, morte de Galdino provocou em nós, pataxós HãHãHãe, uma energia, força e coragem muito grande para retomar as primeiras fazendas, sendo elas: são Sebastião, Bom Jesus, Paraiso, Milagrosa e são Vicente.

É importante ressaltar que uma das principais armas usada na conquista desse território foi a valorização da cultura, o canto do toré, nossas danças, crenças, armas tradicionais como a borduna, arco, flecha, maracá, lança e pinturas corporais, que para nós é o nosso escudo ou roupa, nossas crenças na ancestralidade, espiritualidade e fé em nosso pai Tupã (Deus).

Os jovens pataxó HãHãHãe tem um papel importante na comunidade, eles precisa continuar a luta colocando os rituais, suas crenças, os trabalhos artesanais na frente de tudo, essas metodologia   são fundamental pra vencer qualquer luta, e ele precisa  se unir, caso contrário um dia iremos perder nossas terras novamente, eu temo isso.

As narrativas de luta e o trágico assassinato de Galdino fortalecem o sentimento coletivo e evidencia para todos nós que devemos valorizar os nossos lideres, cultura e espiritualidade, onde estão nossas forças. São aspectos que mantêm e fortalecem a nossa unidade, lembrando a todo momento com o apoio das mulheres, matriarcas, conselheiras, companheiras, guerreiras, pessoas que sempre estiveram presentes em todos momentos de nossas lutas.

A história de Galdino, narrada por lideranças Pataxó HãHãHãe, deixam claro que os anciões são nossas matrizes, foram os que abriram o caminho para estarmos aqui. São histórias vivas, que apesar de serem histórias sangrentas, serviram de exemplo, de fortalecimento e propiciaram um desfecho de sucesso para o nosso povo, a conquista do nosso território, que para o nosso povo significa nossa vida, nossa mãe, nossa saúde, o ar que respiramos e a nossa identidade, como afirma Nailton.

O relato do cacique Nailton Pataxó descreve a luta pela terra, a formação do seu povo e lembra os parentes que morreram, além de destacar o assassinato de Galdino. Depoimentos que constatam que a trajetória dos antepassados dá sentido aos combates do presente, e tê-los na memória nos momentos de luta possibilita um projeto de futuro.

Um aspecto relevante sobre as implicações do assassinato de Galdino Jesus dos Santos foi a associação do seu nome à questão da demarcação das terras indígenas de modo geral e, particularmente à questão dos pataxós HãHãHãe. Isso foi verificado na questão sobre a demarcação da reserva Raposa=Serra do Sol, localizada em Roraima, onde cabia ao Supremo Tribunal Federal, no segundo semestre de 2008, decidir sobre o pleito o que, sem dúvida, provocaria desdobramentos sobre os demais processos de demarcação das terras. No jornal local Correio Braziliense, essas evidências são assim veiculadas:

Levantamento do Jornal Correio Braziliense com base em dados do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) mostra que existem no STF outras 140 ações relacionadas à posse de áreas habitadas por índios. Há processos envolvendo reservas localizadas na Bahia, Paraíba, Santa Catarina, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Ceará, Amazonas, Paraná e Rio Grande do Sul. Diversas etnias têm seus interesses questionados no STF. Mas os dois casos mais emblemáticos, devido ao tempo de tramitação e à violência em torno da disputa territorial, são os dos pataxós HãHãHãe da Bahia e dos guaranis caiuás da terra Nanderu Marangatu, no Mato Grosso do Sul. (OLIVETO, 2008, p. 10)

No campo local, Galdino é lembrado com mérito e êxito na demarcação da TI caramuru, como narra orgulhosamente a anciã Helena Rodrigues de Jesus e a senhora Aldenir Rodrigues dos Santos, ambas irmãs de Galdino, pertencentes ao povo Kariri Sapuiá. Helena afirma em entrevista que

Galdino foi uma pessoa muito importante em vida para nosso povo, uma peça, um quebra  cabeça na luta pela terra, sua perda foi o ponto principal para o nosso avanço, porem essas mortes já existiam, assim aconteceu com o líder cacique João Cravinho, irmão do Galdino que morreu também assassinado por fazendeiro em uma emboscada na estrada que liga aldeia a cidade de Pau Brasil. O mesmo teve seu corpo espedaçado por vários cortes de facão.

Segundo o depoimento da senhora Aldenir dos Santos, João Cravinho estava em sua casa junto com seus familiares, quando de repente chegou o recado, “João, você precisa ir até a cidade atender um rádio do administrador da FUNAI, é urgente”. Ele, muito responsável por representar o povo, se despediu da família e seguiu a pé para a cidade, no meio do caminho foi surpreendido por um pistoleiro que avançou em sua direção com um facão. Depois de uma luta acirrada, ele acabou sendo assassinado brutalmente, lamenta.

Segundo Aldenir, Galdino e João Cravinho, por serem indígenas reconhecidos, seguiam uma doutrina religiosa, que foi transmitida de geração em geração por sua família..Os mesmos eram guerreiros muito bem preparados espiritualmente, culturalmente e viviam intimamente  ligados as nossas ancestralidades, por isso em dias anteriores a sua morte, João Cravinho tinha o habito de todos os dias passar com os pés descalço por cima de brasas acesas. Em um determinado dia, próximo ao seu assassinato, ele passou os pés por cima das brasas acesas e se queimou, coisa que não acontecia. Foi então que ele disse: “mãe o próximo ano eu não viverei para dá continuidade à nossa luta, e não verei o dia de nossa vitória na conquista do nosso território”, afirma Aldenir. O depoente que automaticamente sua mãe, dona Minervina Maria de Jesus, o repreendeu dizendo: “Não fale besteira menino, vá rezar direito.”

Segundo a anciã, dona Helena de Jesus,

Galdino era muito preparado espiritualmente, tinha o dom da premunição, disse ao seu pai, Juvenal Rodrigues dos Santos, líder da comunidade, dias anteriores a ida a capital federal: Pai, eu não queria ir pra essa viagem, minha natureza me diz que algo de ruim vai acontecer. Seu pai respondeu: é nada! Você que é muito desconfiado de tudo. Mãe, eu vou mais não volto! E volto, mas será de avião, disse Galdino. Durante a viajem, ele ainda quis desistir, porém, sua presença para os demais líderes era de suma importância! Foi então que sua mãe disse: se acalme, tudo dará certo.

Nossa família tinha Galdino como alguém muito especial, não só por ser liderança do nosso povo, mas porque desde sua infância ele já demonstrava ter perfil de líder. Ressalta-se que quando criança, Galdino adoeceu de ataque epilético com oito anos de idade e foi a óbito temporariamente e, sua mãe Minervina diante do seu caixão disse com muito sofrimento e dor em suas orações pedindo a seus ancestrais que desse mais uma vez folego de vida a seu filho. Segundo a narrativa de dona Helena de Jesus, “ela perguntava porquê Deus estava fazendo isso com ela, então Deus ouviu suas preces e ele voltou a respirar no momento em que todos já estavam se despedindo para ir em direção ao cemitério da aldeia”. A narrativa continua, afirmando que dona Minervina gritou em alto e bom tom: “meu filho está vivo, tire ele daqui!” Ninguém acreditou e chegamos a pensar que ela estava alucinada de tanto emocionada, mas pelo contrário, realmente ele voltou a viver, imediatamente tiraram ele do caixão e prestaram os primeiros socorros e Galdino teve uma segunda chance de viver. A partir daí percebemos que ele tinha uma missão a cumprir aqui nessa terra e com o passar do tempo ele mostrou que não foi em vão ter acontecido esse milagre em sua vida, assumindo maiores responsabilidades dentro da aldeia e era o segundo homem da casa, depois de meu pai Juvenal, adquiriu respeito dentro e fora de casa e se tornou uma grande liderança dentro do nosso povo.

Considero importante evidenciar que para além de dos fatos expostos acima, os costumes, crenças e tradições do povo pataxó HãHãHãe está presente em todos os momentos de sua história, exposta no roteiro desse tema, uma vez que não vivenciada, os indígenas perdem sua força, ou até mesmo a vida.

Ressalta-se que Galdino, na condição de Kariri Sapuiá, teve grande influência e importância na manutenção da unidade e no fortalecimento desse povo.

Os Kariri Sapuiá, pertencentes ao grupo Pataxó HãHãHãe, presenciaram uma trajetória de muitas violências cometidas por parte dos fazendeiros e com um grande desrespeito dos governadores do estado a partir do momento em que, cobertos por leis favoráveis que o próprio governo efetivou, não tiveram assegurados tais direitos do ponto de vista de sua efetividade.

Os troncos velhos de todas etnias que formam o povo Pataxó HãHã Hae viviam livres pelas matas; vivendo em suas casas tradicionais. Foram forçados a viver em cativeiro ou trabalhando para fazendeiros, “amansados”. Os Kariri sapuiá vieram das caatingas da região de Pedra Branca, sertão baiano, no do estado, conforme a narrativa do líder Evangelista Bispo dos Santos, conhecido como Casula, que foi cacique, tio de Galdino e irmão dona Minervina, mãe de Galdino. A esse repeito, o senhor Evangelista afirma:

Todo o sofrimento da minha etnia Kariri Sapuiá foi causado por fazendeiros da época. A formação da nossa etnia aqui no povo pataxó HãHãHãe aconteceu através do meu avô, Miguel. Ele conta que eles se escondiam em Pedra Branca.e seu pai foi buscar os demais parentes dizendo a eles que tinha encontrado um bom lugar para fazer posses, e que tinha água e dava para plantar, fazer os rituais e viver em harmonia, formar uma aldeia e parar de viver corrido, que é o lugar onde vivem na atualidade, chamado de Toicinho. Mas nós índios, éramos daqui da região de Pau Brasil, porém, não tínhamos território certo, vivíamos como nômades por toda região, que era todo coberto de matas e os fazendeiros começou a se apossar e acabou expulsando nosso povo daqui, por isso fomos nos esconder em Pedra Branca. Retornamos o território através de meu pai. Muitos ficaram aqui no Toicinho, outro em Serra da Bananeira, se espalharam por toda essa região.

Nota-se que os lugares Toicinho e Serra da Bananeira, aos quais o depoente se reporta, estão localizados na TI Caramuru.

O senhor Evangelista continua a narrativa dizendo que os indígenas não tinham conhecimento de causa para se defender da opressão e acabavam sendo encurralado, por fazendeiros que tomavam as terras à força, por causa dos arrendamentos que o SPI concedia a eles. Quando nosso povo veio de Pedra Branca, foi forçado novamente a se dispersar por conta das expropriações e das expulsões, jogando-os a uma situação sem destino, sendo que uns foram parar em um lugar chamado Cachoeira do Mato e depois foram para Teixeira de Freitas e em seguida foram para um lugar chamado Mutum, vivendo como trabalhadores de fazendas de café que trocavam o trabalho por alimentos, numa situação de quase escravidão.

Segundo o seu Evangelista, o ancião chamado Sulino, pai de um índio apelidado de Saracura, era um líder preocupado com a família, que procurava fazer visitas nas casas dos parentes para ficar informado sobre a situação de todos. Evangista narra que

Certo dia ele chamou meu pai Leôncio e disse: Leôncio, estamos fazendo reunião para voltamos para nossa terra de origem, o mesmo não acreditava, achava impossível que isso poderia aconteceria um dia. Leôncio achava que era um sonho, mas acreditava que um dia pudesse se tornar realidade. Sulino e ele organizaram o movimento em sete famílias no ano de 1982. Leôncio, Maggi, saracura, Elza, sulino e os parentes que estava em minas Gerais, já corridos da opressão daqui, retomaram uma fazenda chamada são Lucas, (Fazenda essa que tem 1,200 hectares de terra). Logo após essa retomada, Sulino e Saracura decidiu buscar os demais parentes que estava espalhado pelo estado. Então se reuniram e designaram um membro, chamado Hélio e uma equipe, pois o SPI não deu devido apoio, mas mesmo assim foram buscar a minha família, minha irmã Minervina, mãe Galdino, que estava morando no estado do Paraná em uma Fazenda chamada quatrocentos alqueiro, localizada no município de Quatrocentos. Os mesmos trabalhava como empregado dessa fazenda em pro do sustento da família. Logo após a chegada dele nos reunimos, saracura era cacique e surgiu o consenso de todos, e Galdino foi eleito liderança por unanimidade pelo povo. Retomamos a São Lucas em 1981 para 82 e começamos a organizar o nosso povo.

Seu evangelista considera que a ascensão do seu sobrinho Galdino como líder, foi um marco, pois ele tinha uma forma singular de agir, com ações humanas, que respeitava tudo e todos, solidário à luta pela terra, desempenhando um papel de pai na comunidade, dando conselhos, orientações, palavras de ânimo e “broncas” no povo, quando necessário

O depoente conclui: “perdemos o homem, mas ficou o nome. Eu tenho ele como um Herói, morreu pela luta da terra e foi através dele que estamos hoje ocupando o nosso território, claro evidente, sem menosprezar o demais líderes e anciões que por esse território também perdeu sua vida.”

Diante do exposto, é perfeitamente possível perceber o notável papel desempenhado por Galdino junto ao povo kariri Sapuiá, sendo ele uma referência para o seu povo.

Seguindo adiante, o senhor Evangelista lembra que

Nosso povo e muito unido e uma das estratégias que usamos foi nos manter unidos, colocando o nosso ritual à frente e a coletividade para manter as retomadas. Tivemos que, por muito tempo, dividir com todo o povo tudo que plantava; as roças eram comunitária e com as vendas mantinhamos  as viajem para cobrar do governo providência para resolver a questão da terra e também juntávamos cada caroço de feijão, milho, batata que plantavamos para as  retomadas, isso porque o nosso povo era pobre financeiramente, morávamos em casa de barro, taipa, lona e então nos reuniamos pra trabalhar juntos nas roças, fazer os artesanatos e nossas armas para enfrentar os fazendeiros como as bdurnas, arco, flecha e maracás. Essa foi uma das formas que encontramos para retomar o território de volta.

Os relatos citados acima demonstram que pessoas destacadas na história do povo pataxó HãHãHãe reconhecem e respeitam o legado deixado pelo líder Galdino Pataxó, reconhecendo ao mesmo tempo a importância de todos os anciões e dos antepassados que, com sua sabedoria, encaminharam ações e estratégias na formação étnica e na luta pelo conquista do território tradicional, assim como reconhecem que todas as conquistas não seriam possível sem o reconhecimento e fortalecimento das tradições, do tore, dos cantos, das ações coletivas, das armas artesanais e da esperança por um futuro promissor para todos.

Considerando que o pertencimento étnico e a conquista do território não eram repeitados e nem eram do interesse dos fazendeiros, dos grupos politicamente influentes, do governo do estado da Bahia e do próprio SPI, era necessário que os pataxó HãHãHãe estivessem muito preparados, unidos e instrumentalizados com estratégias e táticas minuciosas de confronto. Daí a necessidade do povo estar fortalecido e orientado por líderes sábios, fortes e guerreiros, como o líder Galdino Pataxó.

Nesta linha de pensamento, o líder do povo Kamacan, seu Marinho, afirma que

Durante muito tempo, devido às expulsões, o nosso povo espalhado por cidades, matas pela região, percebe-se que se tornaria difícil a junção desse povo, uma vez que os assassinatos foram constantes e a extinção da etnia crescia a cada momento.

A narrativa do ancião é referendada por outras lideranças, como Lisinha Kamacan e o Ancião e ex. vice Cacique Edvaldo Júlio Kamacan, ambos narram longamente sobre os conflitos dos indígenas com fazendeiros, as dificuldades, desafios e perspectivas de futuro do povo. Tais lideranças demostram em suas falas muita tristeza e afirmam que difícil voltar para o posto indígena, na TI Caramuru. Dizem que já vinham de uma luta com fazendeiros na cidade de vitória da conquista, nome dado à cidade por ter tido uma luta contra o povo Kamacam, batalha que nós perdemos, foi então fizeram essa homenagem aos “brancos” que derrotaram os indígenas. Quando saíram de lá, os Kamacan foram o Catolé Grande, que na atualidade é o município de Itapetinga.

O senhor Edvaldo Júlio Kamacan, narrando a memória do povo, diz que:

O meu bisavô não era índio, devido os relacionamentos Interétnicos que acabou havendo na época. Com isso, ele conheceu os índios na mata, as índias Rosa Lina, Jacinta, Aratimbó, Sófia, Calisto, esses foram conquistados por meu bisavô na mata. O índio Calisto também casou com Selixandrina, que por sinal não era índia, e nesse meio tempo surgiu meu pai, inclusive minha vô não era índia, casou-se com índio e teve quatro filhos, dentre eles, três homens e uma mulher. O meu pai era o filho mais velho e consequentemente meu pai e seu povo teve um conflito com um fazendeiro chamado João Gusmão, devido meu povo não ter apoio judicial local. Reunimos e fomos pra salvador-Bahia e lá conhecemos um senhor por nome Coronel Vasconcelos, diretor do SPI, pois antes não tinha FUNAI, pedimos apoio a ele mesmo disse a Zé Caboco (líder indígena da família kamacan): “vocês fiquem atento que irá sair uma demarcação para o povo de vocês, índios desaldeados”. Logo em seguida veio o senhor Fósforo Fontes para conquistar (apoiar) meu povo nos encaminhamentos para conquista do território. Na época, o coronel Vasconcelos foi lá ver como estavam os trabalhos, ver como os indígenas estavam vivendo, fez a medição dessa terra depois que chegamos aqui. Já instalados, ocorreu a Revolução de Fontes com o objetivo de impedir que os engenheiros continuassem a medição e diminuir a terra. Com esse conflito foi acionado a polícia militar e Fonte fugiu para a aldeia dos índios Maxacali em Santa Helena, Minas Gerais, onde ocupou o cargo de chefe de posto. Em seguida o SPI colocou em seu lugar o senhor, Sargento Adolfo e dois capatazes, “seus policiais”, sendo que um deles se chamava Argemiro, o mesmo liderava o exército, ele adquiriu conhecimento com Micô, cujo nome civil era Maria da Gloria dos Santos e passou a morar nas margens do rio pardo.

A narrativa acima está se reportanto ao processo de reconhecimento e demarcação do território. O senhor Fósforo Fontes, que foi destacado para encaminhar os procedimentos de medição das terras, foi corrompido por fazendeiros e passou a adotar procedimentos antiindígenas, fato que gerou a insatisfação e a revolta dos mesmos, sendo que Fontes teve que fugir para aldeia dos maxacali, em Minas gerais.

Seu marinho lembra que,

Na época, as famílias que veio do Catolé Grande, se assentou nas margens do rio salgado e depois fomos morar nas terras do fazendeiro, doutor Pedro. Por meu pai ser o lidere dos Kamacan, avisaram a ele: “vocês tirem uma posse em algum lugar do posto, onde vocês quiserem, pois aqui não é a terra de vocês. Por já ter fechado a demarcação, vocês ficaram fora”. Imediatamente meu pai, Zé Caboco, foi procurar um lugar para seu povo e tirou uma posse na serra, nas margens do rio mundo novo, localizada nas proximidades da fazenda Iracema na atualidade, sendo que época o chefe de posto era o Tenente Anselmo e Capitão Dionísio, que apoiavam posseiros ou rendeiros de terra no posto, nessas linha do mundo novo.

Segundo o depoente,

As famílias de zé veríssimo, Apolinário, Zé caboco entre outros, foram as primeiras famílias Kamacan que vieram para o posto Caramuru.Os parentes se alojaram no “Toicinho”, sempre em lugares estratégicos, onde tinha água e distante dos fazendeiros. Sempre unidos e buscando fortalecimento, mas mesmo assim os coronéis não respeitavam o povo. Meu pai e seu povo foi expulso por Tenente Anselmo, pedimos ajuda a Fontes e por isso teve conflito com os hegemônicos, até porque o maior interesse do governo dos coronéis era nos manter debaixo de seu poder, humilhados, e quando alguém da equipe deles nos apoiava, ele mandava matar, fato que aconteceu com Fontes, que por medo de morrer a mando do tenente Ancelmo, se corrompeu.

Os depoentes narram que, por conta desses conflitos acima citados, as famílias do “caboco” Amaro, Antônio Trajano, Gregório, Lourencinho (pai de Jô) Candinho, Servano, Sulino, Fernando, Supriano, Zito (avô de Desidério), Camilo, Leôncio e Samado, unidos, ocuparam a fazenda rancho alegre, que estava sob poder de Paulo Leite, que tinha expulso dos indígenas, apesar da terra já ter o título de demarcada. Continuando os depoimentos, os entrevistados afirmam que do ponto de vista estratégico na luta pela retomada do território, os indígenas ocuparam a região da Água Vermelha, sob liderança de Caboco Furtuoso e Samini, já a região do Mundo Novo foi estrategicamente retomada pelo senhor marinho Kamacan e sua família. Era uma organização discutida e orientada que envolvia todas as famílias Kamacan, sendo que cada retomada estava geograficamente posicionada em pontos estratégicos que cercavam todo o território indígena.

No decorre das entrevistas, identifiquei um ponto curiosamente contraditório nas narrativas. O ancião Leôncio dizia que ele não veio da região de Pedra Branca, mas que é originário do Toicinho (região de Pau Brasil, enquanto as demais anciões da etnia Kariri Sapuiá dizem que são originários da região de Pedra Branca (Norte do estado da Bahia).

Os kamacan, por sua vez, afirmam que eram nômades, originários da região de Belmonte, Gongongi até vitória da conquista. Eles andavam com seu grupo étnico, não costumavam se misturar com outros grupos, isso fez com cada etnia se fortalecessem e se mantivessem etnicamente vivos. Os Tupinambá viviam nas áreas de praias, são do tronco tupi;enquanto os Kariri Sapuiá são do tronco linguístico macro gê, o mesmo que dos Kamacam, sendo que os primeiros são da região de Jequié (próximos de Pedra Branca).

Quanto aos Guerem, o ancião Edvaldo Júlio faz uma observação junto com os demais anciões que  eles são também conhecidos como botocudo, e afirma que não sabe o porquê na história o seu povo não é identificado como Botocudo, e sim Guerem, que na região do sul se chamava Ava-canoeiro, a depender do Inter locutor.  O depoente diz que

Na época da demarcação os primeiros índios da etnia Guerem aqui, se chamava Valdo Nicô, Micô, Nome civil, Maria da Gloria dos Santos e morava nas margens do rio pardo, depois deles, dona Antônia, mãe de Diolina, Argemiro, (esse não era índio) trabalhava para o exército. O Argemiro ficou viúvo, e o chefe de posto da época ordenou a ele que se ele quisesse ficar morando na aldeia junto com os índios, teria que casar com outra índia; ele casou com a mãe de Diolina. Mas o ancião Marinho faz uma ressalva afirmando que os Guerem são da região de Valença e que as famílias Guerem já estava no posto quando nós, Kamacan, chegamos aqui. O caboco Manoel Verissimo, que morava próximo ao leito do rio salgado e um senhor por nome João Augusto são parentes de um índio chamado Nilson, que por sinal ainda é vivo.

Edvaldo Júlio relata que quando foi vice cacique, teve a oportunidade de ir na cidade de Valença e conheceu o local que era a aldeia dos índios Guerem, local hoje que é uma igreja, lá também existe um local que é chamado de São Fidele, que foi morto por apoiar os indígenas naquela região e foi jogado em uma lagoa.

O ancião Marinho relata que os troncos velhos da etnia Guerem, no povo pataxó HãHãHãe, já estão em extinção, porém ainda está viva a anciã, Dona Preta e a Irmã de Valdo Nicô. Dona Fia (Guerem) relata que sua mãe era da etnia Bainá e que o pai do senhor Ganito, Eugénio Dias, era irmão da Caboca Antônia, Mãe de Diolina Elas eram Guerem, então o Senhor Ganito era dessa linhagem, mas não está mais vivo, e não morou na aldeia. Dona Fia, depois da saída do posto indígena, não teve mais proximidade com os indígenas, segundo os relatos dos anciãos.

Podemos perceber no Depoimento narrativo dos anciões Marinho e Edvaldo que a etnia dos Botocudos ou Gerem está entrando em extinção com relação aos troncos velhos da etnia, e que devido ao envolvimento da grupo étnico com não-índios ao longo dos anos,  percebe-se o enfraquecimento das origens desse povo, o que fica claro que os seus descendentes já não apresentam mais as características oriundas da etnia. Porém, isso não significa que os mesmos deixarão de ser indígenas.

Para fins das análises desse trabalho, destaco que para o fortalecimento da identidade indígena, é importante que se mantenha o relacionamento dentro do mesmo meio social, ou seja, índios casando com os índio, caso contrário, a identidade originária fica enfraquecida.

O povo pataxó HãHãHãe sobressai como protagonista de uma grande organização, social e cultural. Esse fortalecimento iniciou no momento em que os indígenas começaram a se relacionar com indígenas de outras grupos étnicos: Pataxó HãHãHãe com Fulni-ô, Xavante, Guarany, Terena, Pataxó entre outros. Essa organização social fez com que os pataxós HãHãHãe se fortalecessem e preservassem a origem étnicas do seu povo; O que faz jus a nomenclatura HãHãHãe (que significa mistura de povos ou vários povos).

O ancião e um dos atuais caciques Gerson De Sousa Melo de etnia Kariri Sapuiá narra a história de seu povo como uma trajetória de resistência, mas de uma vida sofrida. Um povo revoltado, devido aos massacres causado pelos fazendeiros, e que a única forma de tentar dá uma condição melhor de vida ao povo foi fazer as retomadas de terras, até porque o povo já tinha sido expulso da sua terra. Segundo o relato do cacique,

Meu povo foi expulso da terra e logo depois vinhemos pra são Lucas, mas era uma terra pequena para o bem estar social do meu povo, pois tinha somente , de mil e setenta e cinco hectares. Porém, já minimizava a dor de ser escravizado pelos fazendeiros que forçava o povo trabalhar nas roças de cacau a troco de um prato de comida.

O entrevistado relata orgulhosamente a importância da continuidade e fortalecimento da luta pela terra, e que o povo encontra apoio nos anciões. O cacique lembra que esteve na reunião com o presidente Fernando Henrique Cardoso, em que estavam Galdino, Samado, Maura, Maria Português, além da artista Beth Carvalho e dos aliados Vicentinho (CUT) e José Rainha (MST), entre outros. A reunião era para tratar da demarcação das terras dos pataxó HãHãHãe, sendo que horas depois do referido encontro aconteceu o brutal assassinato do líder Galdino.

Ainda segundo Gerson, logo após a reunião, aconteceu uma festa com vários povos e representante dos movimentos sociais na praça da torre (Brasília), em comemoração ao dia do índio. No retorno para o hotel, Galdino bateu várias na porta do hotel em que estava hospedado com outros parentes, mas teve a infelicidade de não ser atendido. Foi então que ele se dirigiu ao banco de praça mais próximo do hotel, onde se acomodou e dormiu, quando foi surpreendido por cinco jovens que atearam fogo em seu corpo, causando queimaduras de terceiro grau, levando-o a óbito horas depois.

O cacique lamenta a perda de quem considera uma das maiores lideranças do povo Pataxó HãHãHãe!

Os Bainã, uma das etnias que também formou o povo pataxó HãHãHãe, tiveram sua contribuição fundamental na luta da terra. São oriundos da região norte da TI Caramuru/, especificamente do município de Itajú do Colônia, localizado nas margens do rio colônia, onde foram forçados a se adequar aos costumes dos não-Índios, fazendeiros, posseiros”. A anciã Maura Titiah sintetiza: “fomos pegados á dentes de cachorros”, frase essa que destaca a forma como eles vieram para as fazendas e cidades para servir aos donatários de terra e coronéis dessa região.  Nos tempos originários “só existia mata bruta, considerada pelos fazendeiros uma localidade de muita fartura e rica, isso despertava o interesse deles de degradar as terras, sendo que o poder hegemônico tinha os indígenas como empecilho para o comprimento do objetivo, que era aglomeração de gado e a extração de madeira, lembra a líder.

Dona Maura Titiah esclarece que sua etnia veio para meio dos “brancos” através de sua mãe e sua família. Seu pai chegou à região ainda solteiro, antes de casar com sua mãe. A anciã diz:

Na época, quando os “conquistadores” de índios, nomenclatura dada pelos fazendeiros àqueles que conseguiam pegar os índios no mato, foram pro mato pegar meu povo, o marido de minha mãe correu e sumiu, só conseguiram pegar minha mãe e dois filhos. Já pegos, deram o nome ao menino e á menina: Milton e Rosália. O nosso povo Bainá tinha o costume de construir pequenas aldeias no meio das matas. Por minha mãe está com duas crianças não pôde se esconder. Ao serem pegos, amansados, como os coronéis costumavam dizer, eram colocados em pequenas aldeias, e muitas vezes amarrados e enjaulados. Em meio a tudo a isso, a menina Rosália e muitos parentes morreram devido às mudanças de hábitos alimentares. Na mata, considerada sua casa originaria, comiam muitas caças, frutas, peixes, entres outros, mas quando veio para o meio dos brancos, foram forçados a comer alimentos que continham sal, e devido a esses produtos tóxicos que já existia nos alimentos da época, os índios não aguentava pela grande quantidade de sal que era consumida. Por outro lado, a insatisfação, inconformados de estar sem sua liberdade, fazia todos eles entrarem em depressão, ficando tristes em recantos de paredes, sem comer, sem banho, levando-os consequentemente a óbito.

A anciã relata ainda que sua mãe era da etnia Bainá, já seu pai era de outro grupo étnico, que está interligado ao grupo dos Bainá. A esse respeito, diz a anciã:

Pode se considerar que no surgimento dos grupo étnicos , ele também era Bainá, mas por eles não falarem português, os mesmo se chamavam entre si de os HãHãHãe, que vinha significar misturas de povos por estarem em grupos variados, fazendo ressalva que meu pai, o Titiá, declarava ser “Bainá”. O SPI, serviço de proteção aos Índios, começou a arrendar terras, prender os índios, tirar eles das matas, de suas casas e formar as aldeias. Isso se deu com os surgimentos das variadas etnias já citadas aqui nesse contexto. Os mesmos costumavam se situar em várias áreas da aldeia, como os Bainá que vivam na cabeceira do rio pardo e Jaquetinha. Minha mãe passou muito tempo morando em Locas de Pedras, na Serra da Bananeira, localizada nessa região de Água Vermelha, e também os Bainá moravam em pequenas aldeias na localidade do Rancho Queimado, até foram pegados por fazendeiros.

Maura cita em seu depoimento sobre grande importância de todos os líderes com quem ela teve a oportunidade de conviver e trabalhar, assim como reconhece o privilégio de ter adquirido conhecimento de luta com todos eles, mas ressalta, emocionada, que o líder Galdino em especial, teve uma grande influência para a vitória da nossa terra. Em suas palavras:

A viagem a Brasília- DF, foi um momento horrível para nosso povo, pois perdemos o nosso líder Galdino. Fomos lá para uma reunião com o presidente da época, Fernando Henrique Cardoso, e o presidente da FUNAI, e nesse momento, Galdino tinha conhecido alguns parentes da etnia Bororo, com quem se entrosou. Nessa data estava tendo uma festa na cidade e o mesmo avisou a mim: depois do jantar Irei fazer uma visita aos parentes que estão no outro Hotel fazendo tratamento de saúde, e logo após essa visita, volto para lá onde vocês estão no Hotel. No outro dia soubemos da notícia que Galdino foi queimado por cinco rapazes no Banco da praça. Graças a Deus, passou um casal, deu socorro a ele e por sorte, anotaram a numeração da placa do carro, o que levou a identificação dos marginais. Galdino chegou no hospital Aragão ainda vivo, mesmo já detectado queimaduras de terceiro grau, ainda vivo, Galdino ainda respondeu à pergunta da enfermeira, que interrogou “quem ele era e como era o nome de seus parentes”. Ele falou que foi dormir no banco da praça, porque não abriram a porta para ele entrar, assim eu esperei amanhecer o dia no banco da praça para voltar pro hotel. Às duas horas da manhã, soubemos da notícia, através de um rádio que um parente indígena estava hospitalizado, que tinham tirado os aparelhos de Galdino e ele entrou em óbito. A FUNAI não prestou assistência cabíveis a Galdino, deixou ele jogado no ML, não deu o caixão e muito menos as passagens aéreas para o deslocamento do corpo para retornar para sua aldeia de origem, isso nos deixou muito triste com a Funai por sabermos que o órgão que presta serviço em prol do índio, negligencia atender o líder Galdino e nós, parentes naquele momento cruel de dor, sofrimento que estávamos passando. O governo do estado obteve informações do acontecimento e enviou o secretário do governo para nos oferecer ajuda, nos doando o caixão e as passagens aéreas para Galdino. Já o CIMI, (Conselho Indigenista Missionário), coordenado por Saulo, prestou assistência a nós e nos levou para a Delegacia para prestar o boletim de ocorrência, ao chegarmos no local, nos deparamos com os criminosos que já estavam presos. Ainda falei com eles: vocês são umas crianças, o porquê que vocês tiraram a vida de meu parente, pai de família, trabalhador, líder, honesto Porque? Pergunta dona Maura.

Galdino foi velado no Memorial dos Povos indígenas, na capital federal, causando um desconforto enorme nos meio indígenas, causando revolta, todos os indígenas que estava na cidade, como os parentes Fulni-ô, Xavante, Pataxó, Bororo e outros, que foram prestar suas homenagens. No momento em que os senadores e deputados foram chegando, houve manifestação, todos gritavam por Justiça.

Dona Maura esclarece ainda que mesmo com todo esse sofrimento, ela teve que ficar junto com Gerson, em Brasília para tratar das reuniões agendadas para dar os encaminhamentos relativos à terra e denunciar a morte trágica de Galdino, pedindo medidas drásticas contras os criminosos. A  considera que Galdino foi um exemplo de guerreiro:

Ele era do povão, exemplo de líder do nosso povo e por respeito a sua luta, depois que enterramos ele, os caciques decidiu a retomar as terras. Sua morte nos motivou, incentivou nosso povo, ele foi e Sempre será grande líder, claro evidente que os demais líderes também será lembrado como herói, o que nos doe é saber que os bandidos atualmente estão solto, vivendo suas vidas socialmente como se eles não tivesse cometido nenhum crime, e ainda são funcionários públicos, um deles é até policial. Ai eu me pergunto: em que pais nós estamos, que leis são essas?

Dona Maura lembra ainda que dona Maria a avisou que teve um sonho, e nele ela via um avião pegando fogo e que um índio morria. Então, a anciã Maura conclui: logo depois da morte, percebemos que o sonho era um aviso, nessa conversa entre maria e eu, Galdino disse que ele não queria ir, chegou a pesar em desistir.

Por fim, a líder fala com orgulho e emocionada sobre as dificuldades que todos os anciões tiveram para ter o território demarcado e homologado. Afirma que

No balanço do maracá é preciso lembrar sempre de sua cultura, que valorize as matas, os anciões para que nos mantenhamos fortes, pois todos os dias eu peço ao nosso pai tupã que abençoes nossas crianças, para que eles cresçam com uma aldeia de paz e progresso, fartura, pois o que nós anciões passamos, não quero que vocês passem no futuro.

 

Considerações finais

 Ao longo do trabalho, mediante a utilização de diversas fontes de pesquisa e dialogando com os referenciais teórico-metodológicos, e tomando-se como base principal os relatos dos vários entrevistados, é possível afirmar que o assassinato do índio pataxó HãHãHãe Galdino Jesus dos Santos, no dia 20 de abril de 1997 foi um acontecimento que provocou e provoca ainda hoje repercussões nas ações cotidianas do povo Pataxó HãHãHãe e  intensos debates acadêmicos e em outros meios sociais. Várias questões levantadas logo após seu assassinato ainda permanecem latentes na sociedade brasileira, passados já mais de quinze anos.

Um primeiro aspecto significativo refere-se à questão da demarcação das terras indígenas e sua relação com a memória da morte do índio Galdino. Foi constatado que falar sobre Galdino ou tratar sobre a história dos Pataxós HãHãHãe é trazer à tona esse acontecimento, associando-o a principal reivindicação dos povos indígenas, timidamente encaminhadas, que é a demarcação de suas terras. No estudo deste fato, percebeu-se que a memória desse caso tem possibilitado a integração de momentos aparentemente antagônicos, rompendo com o silenciamento da luta histórica pela terra e pela identidade étnica, pois muitos indígenas foram assassinados antes de Galdino, mas sem qualquer repercussão local ou nacional. A lembrança do ocorrido tem possibilitado fazer com que as demandas do passado se transformem em exigências do presente.

Na trajetória histórica do povo pataxó HãHãHãe, das etnias que formaram esse povo, e o papel do Índio Galdino enquanto membro e lider dessa comunidade, as narrativas históricas de sua vida, sua origem étnica, contextualizando num todo a história do povo pataxó HãHãHãe, constatou-se que esse acontecimento trágico não afetou negativamente os costumes e tradições do povo pataxó HãHãHãe, mas sim; nos qualificou para valorizar e manter a nossas identidades, tradições e rituais.

A realização dessa pesquisa possibilitou o meu fortalecimento identitário, minha espiritualidade originária e minha consciência quanto à importância dos líderes e anciões na trajetória de luta pelos direitos indígenas legalmente formalizados, assim como propiciou a minha qualificação profissional. Através dos estudos e análises sistemáticas realizadas, acredito que a pesquisa contribuirá no processo de dar maior audibilidade e visibilidade às nossas histórias e memórias, firmando nossa base comunitária, pautada na manutenção das histórias do povo intensamente vivo, enfatizando que essa pesquisa colaborará com a manutenção e fortalecimento do povo pataxó HãHãHãe, que busca o fortalecimento da sua unidade.

Em perspectivas complementar, o trabalho contribuirá na divulgação de nossas histórias nas escolas, tanto indígenas quantos as não-indígenas, para que as crianças e jovens conheçam todos aqueles que deram  a vida pela conquistas, especialmente àquelas relacionadas à importância que o território tem na produção e reprodução dos nossos modos próprios de organização societária. Trata-se de um esforço para romper com a historiografia que silencia nossos povos, nossos conhecimentos e modos de vida.

Evidencia-se que Galdino está na memória de nossos povos, sendo que seu exemplo tem orientado nossas ações e sonhos. Assim sendo, posso afirmar com categoria que Galdino está, esteve e sempre estará em nosso meio.

 

Referências bibliográficas

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______. Decreto nº 18.190, de 22 de abril de 1997, Estabelece o dia 25 de abril de 1997 para discussão em Escolas Públicas sobre a violência, a falta de solidariedade na sociedade brasileira e no mundo contemporâneo e sobre as formas e os objetivos de se construir um compromisso por uma sociedade mais justa e solidária, publicado no Diário Oficial do Distrito Federal, Poder Executivo, Brasília, DF, 23 abr. 1997. Seção 1, p 2865.

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Notas

[1] Sobre a objetividade do trabalho histórico, compartilho da proposição que concebe a objetividade como um movimento de diálogo entre a teoria e as evidências. A esse respeito, Vieira escreve: “A objetividade está em recuperar o movimento, a contradição do acontecer histórico, entendido como processo vivido por homens reais”. (VIEIRA, 2007A, p. 52)

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