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Gecivaldo Xucuru-Kariri

Autor(es): Gecinaldo Soares de Queiroz   e    Rosângela Soares de Queiroz
Categorias:Estado, Alagoas, Biografia, Etnias, Xukuru-Kariri
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Gecivaldo, guerreiro Xukuru-Kariri, o homem que aprendeu a sonhar

 

Dos maracás ecoavam um som melancólico, enquanto a tarde dizia adeus ao dia, à porta da casa onde por muitos anos vivera Gecivaldo, uma pequena multidão se concentrava formando um grande círculo, ao centro o corpo do guerreiro, agora inerte, mas carregando consigo as marcas da história das lutas de seu povo, recebia as homenagens devidas à sua honrosa passagem pelo mundo dos mortais. Numa mistura de dor, saudade e esperança, a primeira parte do ritual de despedida era concluída enquanto se iniciava o cortejo em direção ao terreiro sagrado, lugar de repouso dos corpos depois de apartados dos espíritos guerrilheiros.

Chegando lá, mais comoção, mais demonstração de carinho, de gratidão, de respeito, de reconhecimento por tudo que fez em defesa do território e da vida de seu povo. Em meio a essa pluralidade de sentidos e afetos, o homem que aprendeu a sonhar foi plantado no chão sagrado do Povo Xukuru-Kariri, na aldeia Fazenda Canto, o calendário marcava 22 de novembro de 2013, um dia após seu falecimento.

Nascido em 01 de outubro de 1958 em Lagoa do Caldeirão, Zona Rural da cidade de Palmeira dos Índios, estado de Alagoas, sendo o 2º filho do casal Donatila Ferreira de Lima e Genésio Emídio de Queiroz, Gecivaldo viveu sua infância na aldeia Indígena Fazenda Canto, localizada no município de Palmeira dos Índios – AL, terra tradicional do povo indígena Xukuru-Kariri. Essa área corresponde a 276 hectares, constitui uma pequena parte do território tradicional e nela habitam 210 famílias, aproximadamente 800 pessoas. Sua economia baseia-se na agricultura, no artesanato e na criação de pequenos animais.

Estudou o ensino fundamental I até a 4ª serie na Escola à época denominada Presidente Oscar Jerônimo Bandeira de Melo, gerida pela FUNAI, atualmente Escola Estadual Indígena Pajé Miguel Selestino da Silva, essa mudança de nome foi uma vitória da comunidade com a liderança de Gecivaldo e ocorreu no ano de 2003, após a estadualização da Educação Escolar Indígena em Alagoas.

Necessitando trabalhar para garantir seu sustento, Gecivaldo foi obrigado abandonar os estudos. Aprendeu os ofícios de pedreiro, carpinteiro e encanador, o que lhe possibilitou ser contratado para atuar em diversas obras de empresas da Construção Civil. Quando faltava serviço nessa área, buscava outras ocupações, tendo por isso trabalhado como “boia-fria”, no corte da cana de açúcar em várias usinas sucroalcooleiras do estado de Alagoas. Todavia, prevaleceu sua profissão de agricultor, o que lhe possibilitou desenvolver práticas agroecológicas de produção de comida em sua comunidade.

Casou-se aos 19 anos de idade e formou uma família de 7 filhos, sendo 4 do sexo masculino e 3 do sexo feminino.

A partir dos anos 90, começou a se envolver nas discussões sobre os problemas de seu povo, principalmente aqueles em relação ao território tradicional Xukuru-Kariri, que se encontrava quase todo invadido por latifundiários da região e pequenos fazendeiros, começando a sonhar, conjuntamente com seus parentes indígenas, com um território livre de invasores. Desde então, dedicou-se à luta em defesa da causa indígena.

Em 10 de setembro de 1991 a convite do pajé Miguel Celestino e sua filha Quitéria Celestino, participou da Assembleia de constituição da Associação Indígena Xukuru-Kariri, a qual permanece em atividade nos dias atuais, sendo presidente da mesma por dois mandatos. Foi coordenador Microrregional da APOINME – Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo, atuando com lideranças importantes do movimento indígena, a exemplo de Maninha Xukuru-Kariri, Girleno Xokó, Xikão Xukuru, entre outras tantas.

Em sua comunidade, além de presidente da Associação Indígena Xukuru-Kariri, foi Conselheiro Tribal, Conselheiro Escolar por dois mandatos, Conselheiro Local de Saúde Indígena por dois mandatos, membro titular da Comissão Permanente de Articulação e Mobilização pela Regularização Fundiária do Território Tradicional Xukuru-Kariri, vice-presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena de Alagoas e Sergipe, membro da diretoria da Federação das Associações Comunitárias do Município de Palmeira dos Índios (FACOMPI).

Liderou retomadas territoriais do povo Xukuru-Kariri, como exemplo temos a retomada da área denominada sítio Macacos, que ocorreu em 17 de junho de 2002. Podemos citar também a retomada da Fazenda Salgada que ocorreu em 31 de outubro de 2011, e foi liderada por Gecivaldo em conjunto com outras lideranças da aldeia Fazenda Canto.

Considerando-se sua trajetória, fica evidente que Gecivaldo foi uma liderança que atuou em várias dimensões políticas contribuindo com a educação, a luta pela terra, a saúde e tudo que cerca a vida indígena. Sempre demonstrou plena consciência de que a terra é o centro da promoção da cidadania indígena, porque é ela que garante o Bem Viver de cada povo. Infelizmente, partiu sem ver concluído o processo de demarcação do território tradicional Xukuru-Kariri que compreende 13.020ha.

Em 21 de novembro de 2013, veio a falecer acometido por uma trombose intestinal, deixando um legado imensurável para sua comunidade.

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