biografia

Gercino Xukuru do Ororubá

Autor(es): Edson Silva
Categorias:Biografia, Estado, Pernambuco, Etnias, Xukuru
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Gercino Xukuru do Ororubá: presença significativa em um século de mobilizações indígenas

 

Gercino Balbino da Silva nasceu em 1924, na Aldeia Cana Brava, uma das muitas localidades espalhadas pela Serra do Ororubá, atual território demarcado habitado pelos índios Xukuru do Ororubá, nos municípios de Pesqueira e Poção em Pernambuco. Conhecido por “Seu” Gercino, faleceu aos 83 anos em 2007. Na época em que era criança as terras do antigo aldeamento, declarado extinto em fins do século XIX, estavam invadidas por fazendeiros criadores de gado e senhores de engenhos que nas áreas dos brejos produziam cachaça e rapadura.

Uma grande produção de leite era contabilizada e também exaltada no município de Pesqueira naquela época. Fartura para uns poucos, miséria para muitas famílias Xukuru. Os dados sobre óbitos na década de 1940 encontrados nos arquivos da Prefeitura Municipal de Pesqueira evidenciam uma elevada taxa de mortalidade infantil. Foram registradas muitas mortes de crianças com apenas meses, ou ainda nos dois primeiros anos de vida nos “sítios” Cana Brava, São José, Santana, São Braz, Tionante e Lagoa, todos localizados na Serra do Ororubá.  Estão registradas também as mortes de pessoas adultas, em sua maioria com idade avançada, que, assim como as crianças, trazem sobrenomes de conhecidas famílias Xukuru do Ororubá atualmente habitantes nessas localidades, a exemplo de Bispo, Romão e Nascimento, em Cana Brava; Simplício, em São José.

As difíceis condições de vida na Serra do Ororubá não eram diferentes para a população pobre na cidade. No semanário local, um colunista exigia providências policiais contra a “prática nociva da mendicância”, com pedintes de esmolas que perturbavam as portas das casas, desde bem cedo até próximo à hora do recolhimento das famílias. Afirmava o colunista que, mesmo com as chuvas, possibilitando trabalho para todos, os “mendigos profissionais” atuavam. Eram muitas crianças, algumas bem pequenas, incentivadas pelos seus pais a esmolarem. Para o cronista, a solução enérgica seria a prisão daquela gente vadia.[1] Tratava-se de uma visão, no mínimo, equivocada, pois os índios entrevistados afirmaram que muitas famílias indígenas migraram para a área urbana de Pesqueira, porque não existia disponibilidade de terras para o trabalho, uma vez que estas estavam sob o domínio dos fazendeiros.

Após ouvir o comentário sobre os dados dos óbitos infantis, “Dona Zenilda” lembrou que as mortes ocorriam por desnutrição, em razão da falta de terras para trabalho e melhores condições de vida:

A morte de crianças era por desnutrição. Os pais não tinham leite para as crianças. A desnutrição era grande. Os pais não tinham dinheiro para comprar leite ao fazendeiro. Muitas crianças morriam por desnutrição. Nos meses de maio e junho por causa da frieza. Muitas nasciam já desnutridas por falta de alimentação das mães grávidas. [2]

A entrevistada recordou também as difíceis condições de saúde e que as próprias famílias indígenas providenciavam os sepultamentos das crianças. Os caixões eram feitos com tábuas disponíveis nas “bodegas” locais.  Em Cana Brava, existia um especialista em fazer caixões:

Os pais faziam os caixãozinhos de tábuas de caixas de sabão que vendiam nas vendas. “Seu” Tibúrcio em Cana Brava era o fazedor de caixões dos “anjinhos!”. Não havia estradas dos sítios para Pesqueira, o acesso a médicos era difícil. As parteiras faziam o que podiam. Muitas crianças nasciam e morriam em seguida. (Idem)

Em suas narrativas, outros entrevistados também falaram em períodos difíceis. Devido às precárias condições de assistência médica, as mulheres morriam de parto e, por causa da fome, ocorria também à mortandade de crianças, como lembrou “Dona Lica”:

Minha avó morreu de parto, que não tinha a saúde pública, não tinha uma enfermeira para pegar. Não tinha um médico suficiente, não tinha hospital. Morria muitas crianças. Filhos do meu marido (do 1º casamento dele) morreram sete. Não tinha assistência médica.  Morria muita criança de fome. Morria as crianças porque dava farinha para as crianças comer, com papa d’água. A mãe dele (o marido) contava que ele foi criado com batata. Nascia muitos gêmeos. Criava com pano, minha sogra, a mãe dele, contou que criou dois com a saia dela. Não tinha o que comer, ela ia arrancar batata e fazia o mingau. Ela disse que ia nas matas, a mãe de Brivaldo, muitas vezes ia na mata, tirava munucunã* lavava em nove águas, se errasse morria tudinho. Isso foi se acabando. As mulheres ficavam doentes há 100 anos atrás e morria. Morreu a mãe do meu pai, de parto, que não tinha assistência médica. Morreu a mãe da minha mãe, de parto.  Morreu a irmã da minha mãe de parto. As índias tinham todo ano um filho. Elas começavam a ter filhos com 12 anos. Não tinha médico. Ali adoecia para ter, não tinha, morria a índia e o indiozinho novinho. Poucos escapavam. De 100 crianças que nasciam dentro de um ano, se escapasse 10, era muito.[3]

Outro entrevistado, nascido e sempre morador em Cana Brava, também lembrou da falta de assistência médica e da fome, que provocava os óbitos de crianças:

Aqui passava muita fome, nessas épocas! Que não tinha ajuda, não tinha ajuda de nada! Não tinha ajuda de nada, de jeito nenhum! Não tinha terra de jeito nenhum, não tinha nada. Muitas crianças morriam na minha época. Hoje melhorou muito. Morria de doenças. Hoje melhorou muito! Porque antigamente aqui não tinha médico. Não existia médico. Morria de fome também. Morria desnutrido, de fome, porque não tinha de quê.[4]

Um período difícil rememorado por “Seu” Gercino[5]. Época de muita fome, com muitas crianças mortas por desnutrição como registado nos citados dados oficiais. O menino Gercino foi um dos sobreviventes. A opção para os índios era o chamado trabalho alugado. Sem terras para plantar e viver, os pais de Gercino foram morar em Sítio do Meio, também localizado na Serra do Ororubá, com os avós do menino que trabalhavam “de alugado” para um fazendeiro local. Desde criança Gercino enfrentou uma vida árdua. Aos oito anos, como seus país e avós, trabalhava no “cabo da enxada”, porém só recebia cinco tostões por dia. Era a metade da diária paga a um trabalhador adulto.

Assim como as demais famílias indígenas na Serra do Ororubá, além do trabalho alugado os familiares de Gercino eram moradores nas terras em mãos dos fazendeiros. Moravam “de favor” e plantavam roça: milho e feijão para a subsistência. Com o compromisso de plantar também o capim para o gado do invasor. Muitas vezes, mal dava tempo para colheita. Com o milho ainda verde o fazendeiro soltava o gado na plantação destruindo a roça.

Anualmente os Xukuru vão a Aldeia Vila de Cimbres, para participarem de celebrações religiosas. São João chamado Caô pelos Xukuru, é festejado em junho. Nossa Senhora das Montanhas, denominada pelos índios Mãe Tamain, no início de julho, além de São Miguel, em setembro. Considerado um espaço sagrado pelos Xukuru, marco inicial da colonização portuguesa na região, Cimbres foi apropriada pelos índios que a transformou em um espaço de memórias e de referências. Tornou-se um espaço de encontros anuais dos indígenas para as festas religiosas no calendário do catolicismo popular, relidas a partir dos horizontes Xukuru.

O Toré dançado em Cimbres tem à frente um guia: o “Bacurau”. Acompanhando os mais velhos para a Vila, “fardadinho” desde criança, “Seu” Gercino relatou como foi escolhido para suceder o índio que exercia a função do “Bacurau”:

Eu tava com idade de onze ano. Isso ai. O seguinte foi esse, o “Bacurau” mais velho da Bila era Chico Rodrigues, era um índio, um homão. E todo ano minha mãe e minha avó, nunca perdeu um ano, ia na Vila no Dia de Nossa Senhora e pelo São João e São Pedro. Ela nunca perdeu. Quando ela ia, ela me levava. Inté quando eu cheguei a onze ano. Eu já acompanhava os índio dançando. Eu também fardadinho, acompanhava os índio. E o finado Chico Romão gostava muito de mim, porque dizia que eu era esperto. Era um menino esperto. Eu acompanhei, acompanhei, acompanhei. Quando eu tava com onze ano, ele era doente, o finado Chico Rodrigues… Ai, nós… Eu, menino, esperto, quando chegava lá, que nós ia brincar. Ele me chamava, botava eu encostado a ele.

A escolha ocorreu após um processo de aprendizado:

Ai, nós brincava… E ele, “esse menino ninguém pode deixar ele atrás não, ele tem que ir na frente! Que ele vai vendo o que eu vou fazendo, e ele vai aprendendo, ele e outros qualquer!” Mas, os outros não tinha, não sei… Não tinha cabeça, e eu interessado que era um pai d’égua mermo! Digo: eu vou ficar nesse lugar desse homem. Quando ele morrer eu tomo conta. Mas nada, ele entregou antes de morrer. Entregou a mim! Eu tinha onze ano!

Assíduo participante no Toré dançado anualmente na Vila de Cimbres, “Seu Gercino” exerceu a função de “Bacurau” com maestria, desenvoltura e beleza até ser impedido por doença. Pois mesmo com peso dos anos de idade, estava firme desempenhando seu papel, durante o Toré após as reuniões e nas festas realizadas em Cimbres.

Sem terras para trabalhar, uma opção era migrar. Acompanhando seus parentes índios xukurus o jovem Gercino migrou para “o sul”, como chamavam a Zona da Mata Sul de Pernambuco, na fronteira com Norte de Alagoas. Foram trabalharem nos canaviais e nas usinas de cana-de-açúcar. Na esperança de retornar trazendo um pouco de dinheiro para os familiares como os mais idosos, mulheres, crianças e todos que não podiam ir para “o sul”.

As viagens de “Seu” Gercino e demais companheiros para “o sul” ocorreram porque “Não tinha serviço” na Ororubá:

Eu fui umas vezes. Pro sul eu fui umas duas vezes ou três vezes. Uma vez eu fui com um tio meu, Tio Antônio Brabinha, depois no outro ano ele não quis ir, eu fui sozinho. Não sobrava não. Quando eu sai daqui que eu fui só se daqui pra sair a Pedrosa. Fui a pé inté. Fui a pé de São José das Lajes pra Pedrosa. Três léguas de pé. E daqui pra São José das Lajes eu fui de caminhão nesse tempo.

Na longa entrevista, “Seu” Gercino, detalhou os motivos, as condições e os lugares das viagens que ele e outros índios fizeram em busca de trabalho temporário. A maior razão das partidas para “o sul” ou para a Paraíba, eram as difíceis condições de vida:

Falta de ganho, porque nós nascemos e se criamos aqui e ninguém nunca passou fome. A falta de coragem de trabalhar, não. Agora, se nós queria ganhar o nosso trocado pra fazer a nossa despesa, não tinha, onde podia ter era no sul, ou na Paraíba. Aí nós ia procurar qual era o mais perto pra nós ir. As vezes nós ia pra Paraíba, as vezes ia pro sul atrás de ganhar pra num ver a família passar privação, né na cidade. Aí nós ia. Trabalhava no sul, sempre nós trabalhava dois mês, três, vinha embora. E aqui na Paraíba, nós trabalhava as vezes três, quatro mês, ai vinha embora.

Sem recursos financeiros ou para economizar o dinheiro ganho, faziam o percurso caminhando, até boa parte do trajeto:

Ia pro sul ia muitos a pés, porque não tinha o trocado pra pagar passagem, as vezes nós pegava trem aqui até Caruaru, de Caruaru ia de a pés, porque não tinha trocado, né? Pronto, muitos e muitos, porque muitos que já foram já morreram tudo. Que iam de pés e às vezes voltavam porque não queriam gastar o transporte.

“Seu” Gercino trabalhou no fabrico do açúcar em várias usinas na Zona da Mata Sul de Pernambuco até a fronteira com Alagoas:

Na cana, eu mesmo só trabalhei na Usina. Oito dias, depois de oito dias eu fui trabalhar dentro da usina. Aí aprendi a turbinar açúcar. Aí eu não acostumei, trabalhava nas turbinas. Trabalhei em Ilha Pedrosa. Trabalhei em Caxangá. Trabalhei em Ribeirão e por ali abaixo. Até na porta de Alagoas trabalhei tudo. Trabalhava turbinando.

A rede de pessoas amigas, uma delas um Xukuru ocupante de um posto na usina de açúcar, garantia trabalho para os migrantes, quando não havia condições de trabalhar no Ororubá:

Trabalhei lá em Pedrosa. Não tinha serviço. O gerente de lá era conhecido da gente daqui. Era um caboclo. Era Raimundo. Raimundo, irmão de Sebastião que mora aí, que é irmão de Miguel. Ele era gerente lá, a gente descia daqui, chegasse lá, só não trabalhava se não tivesse jeito mesmo. Mas ele fazia tudo e botava nós pra trabalhar, que ele era caboclo também. Gostava da gente, nós nunca sobremos.

Mas, quando as relações de amizade não foram suficientes para a garantia de uma ocupação na lavoura, “Seu” Gercino continuou a procura para arranjar trabalho em outras localidades de Alagoas, com condições mais favoráveis:

Mas no ano que eu fui sozinho, eu sobrei, porque eu cheguei lá não tinha casa, já tinha virado. Já tava completo. Ai Raimundo disse “-tu quer esse? Se tu esperar oito dias tu espera. Se você não puder esperar, você procura outra usina”. “Tá certo”! Aí eu desci fui pra Caxangá. Caxangá trabalhei uma semana, turbinando, mas não me agradei, porque eles roubavam muito as horas da gente. Ai desci fui pra Ribeirão, trabalhei oito dias também, não deu. Ai eu digo: “- Agora, eu já sei”. Solteiro, não tinha em quem pensar. Peguei o saquinho nas costas e fui ficar em Serro Azul, Alagoas, no centro mesmo. Daqui agora ou língua ou beiço, daqui eu volto pra casa ou fico aqui mesmo. Mas ganhei a linha de Alagoas, subindo, subindo, subindo, fui parar quase no fim do Sul de Alagoas.

Como ainda acontece contemporaneamente, os trabalhadores envolvidos diretamente no corte da cana-de-açúcar não eram registrados. O ganho semanal na época era o suficiente para a compra de alimentos relativamente mais baratos e fazer economias para trazer para a família, na Serra do Ororubá:

No sul a primeira vez que eu fui, eu trabalhava por semana. Semanal na usina. Era seis mil réis por semana. Tá vendo? Seis mil réis de sábado a sábado. Era seis mil réis, quando eu fui. Depois que eu passei a turbinar, ai subiu. Ai eu ganhava doze mil réis por semana e nunca ficharam carteira. Eu não sei agora, faz tempo que eu fui. Não sei, mas no tempo que eu trabalhei não. Assinava carteira não. Em serviço nenhum. Cortador de cana, cambiteiro, cocheiro, esse povo que lutava com animal, não tinha nada fichado, não. Tudo era avulso. Mas o que a gente ganhava dava. Porque tudo era mais… não era caro. Sempre era mais barato. O charque era mais barato, feijão mais barato, farinha mais barata e pronto. Dava e a gente ainda trazia um trocado pra casa.

“Seu” Gercino lembrou ainda das condições pessoais para a viagem ao “sul”. Questionado sobre os pertences levados, ele falou que alguns transportavam roupas, rede, muitos iam descalços e assim trabalhavam,

Uma rede, um lençol, uma roupinha. Às vezes tinha um parzinho de alpercatas e quem não tinha ia de pé descalço, era. Passei isso muito. Eu nunca fui descalço não, porque toda vida fui prevenido, gosto de possuir um parzinho de calçado, de alpercata de eu viajar. Mas muitos que não ligava pra isso. De certos tempos pra cá é que muitas gente não anda de pé descalço, mas do meu entendimento de trabalho pra trás tinha muitos que não usava calçado não. Brocava, limpava mato, fazia tudo, mas com os pés descalços, calçava não.

A viagem de ida era feita a pé, pois não tinham sequer recursos para a passagem de trem, só na volta. Trabalhavam na colheita e na moagem da cana:

Ia a pé até lá mesmo. Não pegava trem não. Com quê? Passava três dias ou quatro para chegar lá. A volta melhorou uma coisinha, porque a gente ganhou um trocadinho, a gente peguemos, viemos até Caruaru de pé. De lá nos peguemos o trem e cheguemos até aqui. Uma vida dura. Lá era para plantar cana, para cortar cana, era para moer cana.

O trabalho durava os últimos cinco meses do ano. Era realizado sem os direitos legais:

Era assim, nós começava no mês de agosto. Nesse mês, nós chegava lá as vezes a usina já tava trabalhando e as vezes nós chegava se ela não tivesse trabalhando, ia trabalhar. Só voltava no mês de dezembro, sempre era o mês de dezembro, nós voltava. No sul não se assinava nada. Só assinava o nome na folha pra receber.

Com o dinheiro recebido o trabalhador pagava sua manutenção e comprava o mínimo de alimentação:

Pagava barracão. Pagava às vezes uma lavagemzinha de roupa. Às vezes um kilo de carne que a gente comprava assim no meio da semana e pronto. Alimentação era por conta da gente. A gente é que tinha que comprar, fazer a feirinha da gente, comprar o feijão, a farinha. Nesse tempo, arroz era meio difícil, aí nós comprava feijão, a farinha, uma carnezinha pra almoçar. A carne nossa do sul era charque, carne de charque. Nós fazia aquela feira simples, um trocadinho que sobrava, guardava.

O máximo possível do que fora ganho era guardado e trazido para família. O momento do retorno era quando iniciava o armazenamento do açúcar e de preparação da terra para o plantio da cana:

Trazer pra família, guardava não era pra outra coisa. Pra quando dissesse ‘vou m’imbora’, ter o dele. Pagava um transporte se encontrasse, se não encontrasse era de pé mesmo e vinha. Trazer uma remessa em casa. Ai era tempo que começava o serviço de doca. As vezes de limpa de mato. Ai nós não descia mais.

Na maior parte das usinas os trabalhadores, como “Seu” Gercino, assumiam atividades na moagem, como nas turbinas. Durante o período de trabalho as condições de alojamento eram precárias, “os corumbas” ficavam em galpões coletivos, como lembrou “Seu” Gercino:

Morava no barracamento da usina, que a usina tem uns barracamentos pra o operariado todo. Nesse tempo eles não chamava operários, era pião. Tinha pião, que tinha três, quatro numa barraca, cinco, seis noutra, tinha o barracão, a barraca grande, galpão. Era Corumbá. Tinha cinquenta, sessenta corumba tinha. Se tivesse lugar de amarrar rede.

Foi a proximidade da época e o compromisso em participar nas festas na Vila de Cimbres que motivou o retorno de “Seu” Gercino, depois de vários meses longe, sem dar notícias mesmo à família,

Trabalhei dez meses. Sem dar notícia a minha família, a ninguém, porque era difícil. Não aparecia conhecido e eu não tinha por quem mandar, trabalhei dez meses. Foi no tempo, chegou o tempo deu ir pra Vila. Eu digo, “eu vou me bora”. A usina fechou que foi no mês de maio. Ai eu digo, “agora eu vou”. Ai eu vim me bora.

Muitos Xukuru também migraram para o Sertão da Paraíba, onde foram trabalhar nas lavouras de algodão. A Serra do Ororubá está situada na fronteira pernambucana com o Sertão paraibano. “Seu” Gercino também colheu algodão em várias localidades paraibanas. O trabalho era em condições diferenciadas do “sul”. Recebiam alimentação e estadia:

Eu ia na época da safra de algodão, de agosto pra setembro, as vezes chegava lá em setembro. Perto de Monteiro. Paraguai, Contrapina. Era tudo perto de Monteiro, a gente ia. Lá os patrão dava bóia: o almoço, a janta, a dormida, que a gente ganhasse era livre. Não tinha história de fazer feira não. O pouco que a gente ganhasse era livre. Só pra quem fumava, ai comprava fumo pra fazer os cigarro, essas coisas, mas eu não fumava.

Apesar das condições diferenciadas, em caso de acidentes de trabalho as condições para um socorro eram precárias em razão das distâncias. Em comparação com a lavoura canavieira, colher algodão era uma atividade mais leve:

Davam tudo. Davam dormida, dava comida, dava tudo. Ia daqui trabalhar, quando trabalhava que vencia o tempo vinha embora. Aleijado, ou manquejando, ou marcando, tinha que se cuidar. Se fosse um negócio prá medico, era longe três léguas pro cabra ir. Como é que o cabra ia de pé? Não tinha transporte. Existia mas era carro de boi, pronto e outra coisa, nada. Porque o trabalho da gente lá era, num era complicado, era de algodão. As vezes fazia uma cerca, era o mais complicado, mas não. Era somente catar algodão.

Na falta de recursos financeiros, se deslocavam também a pé para as lavouras do algodão, na Paraíba, “Daqui nós ia de a pés prá Paraíba. Ia daqui de Cana Braba (Cana Brava) mesmo, os conhecidos dali de Cana Braba”.

O menino Gercino cresceu em meio a uma trajetória a ser considerada emblemática, por ser uma história pessoal que se fundiu na história do povo Xukuru. Nascido sem-terra e falecendo como morador na retomada Aldeia Pedra d’Água, um lugar mítico-religioso para os Xukuru do Ororubá. Esteve ao lado do Cacique “Xicão”, de quem recebia manifestadas expressões públicas de muita estima e consideração, nas mobilizações contemporâneas dos Xukuru na busca de seus direitos. Acompanhou Xicão nas muitas viagens dos Xukuru ao Recife e a Brasília onde foram pressionar a FUNAI e os demais órgãos públicos. Bem como, para realizar a articulação com aliados, parceiros da sociedade civil nas denúncias das perseguições, violências e assassinatos de lideranças Xukuru, nas reivindicações pela demarcação das terras indígenas. Aos 83 anos “Seu” Gercino via com a posse das terras a concretização do sonho tão esperado, desde criança: a dignidade para o povo Xukuru.

 

Referências

ALBERTI, V. Ouvir contar: textos em História Oral. Rio de Janeiro, FGV, 2004.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2004.

SILVA, Edson. Xukuru: memórias e história dos índios da Serra do Ororubá (Pesqueira/ PE), 1959-1988. 2ª. ed. Recife, EDUFPE, 2017.

SILVA, Edson. Os Xukuru e o “sul”: migrações e trabalho indígena na lavoura canavieira em Pernambuco e Alagoas. In: Clio. Série História do Nordeste, v. 26.2, p. 215-244, 2009.

SILVA, Edson. “Nossa Mãe Tamain”. Religião, reelaboração cultural e resistência indígena: o caso dos Xukuru do Ororubá (PE). In: BRANDÃO, Sylvana. (Org.). História das religiões no Brasil. Recife: Editora Universitária UFPE, 2002, p. 347-362 (vol. 2).

SOUZA, Vânia Fialho de P. e. As fronteiras do ser Xukuru. Recife, Massangana, 1998.

 

Notas

*Professor Titular de História do Colégio de Aplicação/Centro de Educação-UFPE. Doutor em História Social pela UNICAMP. Leciona no Programa de Pós-Graduação em História/UFCG (Campina Grande-PB) e no Mestrado Profissional de História-PROFHISTÓRIA/UFPE. E-mail: edson.edsilva@hotmail.com

[1]“Notas soltas”. A voz de Pesqueira, Pesqueira, 21/06/1953, p.1.

[2]Zenilda Maria de Araújo, “Dona Zenilda”, 55 anos. (Viúva do Cacique “Xicão”). Aldeia Santana. Território Xukuru do Ororubá, Pesqueira/PE, em 04/07/05.

*Raiz tóxica, mas comestível se devidamente preparada.

[3]Maria Alves Feitosa de Araújo, “Dona Lica”, 52 anos. Aldeia Cana Brava. Território Xukuru do Ororubá, Pesqueira/PE, em 15/12/05.

[4]Juvêncio Balbino da Silva, 76 anos. Entrevista realizada na Aldeia Cana Brava. Território Xukuru do Ororubá, Pesqueira/PE, em 15/12/2005.

[5]Entrevista com “Seu” Gercino, 80 anos, realizada na Aldeia Pedra D’Água. Território Xukuru do Ororubá, Pesqueira/PE, em 11/08/2004.

 

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