biografia

Major Libânio Koluizorocê

Autor(es): Rita de Cássia Melo Santos
Categorias:Etnias, Ariti, Biografia, Estado, Mato Grosso
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Resumo

De nascimento incerto, o Major Libânio Koluizorocê foi um indígena Ariti que teve uma atuação fundamental na conquista, desbravamento e consolidação da ocupação estatal dos sertões do Mato Grosso empreendidos pela Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) chefiada por Cândido Mariano da Silva Rondon entre 1906 e 1915 e, por isso, conhecida como “Comissão Rondon”. Libânio foi o principal guia de Rondon a partir da segunda expedição de 1908, quando promoveu o reconhecimento da região compreendida entre a Serra do Norte e o Rio Madeira. Em seu retorno ao Rio de Janeiro em 1910, Rondon levou consigo Libânio que acompanhou ainda a Expedição Científica Rondon-Roosevelt, na época formada pelo marechal e pelo ex-presidente dos Estados Unidos. A ida ao Rio foi repetida algumas vezes até a sua última viagem para participação nos eventos comemorativos do centenário da Independência em 1922, quando em seu regresso ao Mato Grosso faleceu. Esse artigo pretende explorar através da trajetória de Libânio Koluizorocê a promoção de uma elite indígena pela CLTEMTA e pelo SPI na primeira metade do século XX, sua articulação com a formação de uma ciência brasileira e os horizontes políticos de participação indígena no contexto analisado.

 

Introdução: A Comissão de Linhas Telegráficas e a produção de uma elite indígena

     A Comissão de Linhas Telegráficas do Mato Grosso ao Amazonas (CLTEMTA) foi oficialmente instituída em 1906 pelo presidente Affonso Pena cuja intenção primordial era conectar a capital federal, Rio de Janeiro, ao recém adquirido estado do Acre pelo Tratado de Petrópolis de 1903. A CLTEMTA atuou no Oeste do Brasil de 1907 a 1915 e fez parte de um amplo processo de conquista e afirmação da presença do Estado brasileiro em suas fronteiras, ao mesmo tempo em que constituiu um importante mecanismo de conhecimento das riquezas e potencialidades lá existentes por meio da sua articulação científica com o Museu Nacional do Rio de Janeiro e com o Museu Paulista.

A passagem entre Cuiabá e Porto Velho foi realizada em três grandes expedições. A primeira, em 1907, de Cuiabá até o Rio Juruena. A segunda, em 1908, do Juruena a Serra do Norte. E a terceira, de 1909 a 1910, que alcança por fim o Rio Madeira. A bibliografia relativa à temática é unânime em referir-se à experiência anterior de trabalho de Cândido Rondon sob o comando de Antônio Ernesto Gomes Carneiro na Comissão Construtora de Linha Telegráfica responsável pela ligação de Goiás a Mato Grosso, de 1891 a 1898, e o período em que interligou Cuiabá a Corumbá, de 1900 a 1906, como os momentos nos quais o futuro Marechal pode constituir as técnicas de atração e pacificação largamente utilizadas pela CLTEMTA durante sua existência[1].

O processo estabelecido por Rondon nas experiências anteriores, teve que ser ajustado ao novo contexto de exploração de uma região desconhecida e ocupada por povos indígenas em parte não contatados e em parte sem chefia definida. Os grupos com os quais mais dialogou nessa passagem foram os Nambiquaras, hostis aos contatos; e, os Parecis, dotados  de  ‘Amuris’ que apesar de não serem reconhecidos como ‘chefes’ influenciavam grandes contingentes populacionais[2]. Diante disso, para realização das expedições a utilização dos guias indígenas se tornava de fundamental importância e, sobretudo, se ele era um ‘Amuri’ ou uma pessoa diretamente vinculada a um ‘Amuri’.

Eram os guias que garantiam as primeiras comunicações e facilitavam a identificação dos povoados e trilhas estabelecidos por populações precedentes, além de arregimentarem mão-de-obra para todos os trabalhos necessários às expedições – desde o carregamento dos suprimentos e cargas, à instalação dos roçados e, posteriormente, o próprio funcionamento dos postos telegráficos. Dos primeiros e principais guias de Rondon, destacou-se Uazá-Curiri-Gaçu,  ele próprio um importante ‘Amuri’. Foi Uazá que conduziu a travessia de Rondon até o Mato Grosso quando o Marechal ainda integrava a Comissão Construtora de Linha Telegráfica[3] e foi a ele que o marechal recorreu em 1907 para sua primeira expedição de desbravamento de Cuiabá até o Rio Juruena, apesar da desconfiança com a qual ele era percebido e retratado em seus relatórios administrativos:

Era corrente, entre os seringueiros, ser o velho Uazácuriri-Gassú um typo falso. Ligado aos índios que habitam o Papagayo e o Burity, aproveitava dessa relação para trahir os expedicionarios que tinham a desgraça de tel-o como guia, como aconteceu com a expedição americana que demandava a cidade de Matto Grosso em 1896,  cahindo todos victimas daquelles indios, chefiados pelo velho Uazá.[4]

Somente a importância de Uazá e sua influência sobre os demais indígenas explica a recorrência de Rondon em tê-lo como guia nas duas primeiras travessias, bem como os modos pelos quais o mesmo era remunerado pelo seu trabalho. Não apenas lhe fornecia dinheiro em espécie – 100$000 rs pelos trabalhos como guia na travessia de Cuiabá ao Rio Juruena – como também o pagamento através de uma espingarda, algumas foices, facões e roupas comuns.  Ao Uazá foi dado ainda o próprio uniforme de Rondon de Major Engenheiro; e, a Tohoerá, seu filho, o uniforme de 2o Tenente de Artilharia do  Tenente Lyra[5]. A farda militar era um elemento de extrema distinção entre os indígenas e configurava, junto com o trabalho nos postos telegráficos, um importante símbolo da equivalência entre indígenas e militares[6] – equivalência quase sempre apenas no plano simbólico uma vez que ela não era de fato implementada em termos institucionais e salariais.

Na travessia que vai do Juruena a Serra do Norte, realizada no ano de 1908, Rondon recorreu a Mathias Tolôiri ele também um ‘Amuri’[7], e, ao seu irmão, Dionisio. Ambos haviam sido contatados em expedições anteriores e reconhecidos por sua inteligência e capacidade de atuação como desbravadores de áreas desconhecidas. Além disso, Dionisio ainda era conhecedor da língua Nambiquara e podia atuar como seu intérprete caso viessem a encontrar algum grupo dessa etnia[8]. O uso de guias interligados entre si e ocupando posições de influência na organização social indígena não foi mero acaso, mas, fruto de uma escolha direcionada e recorrente.

 

 Libânio Koluizorocê e a sua participação no empreendimento Rondoniano

Quando conheceu Libânio, Rondon o encontrou no barracão do seringalista Manoel Rondon. Estabelecido há alguns anos na região circunscrita pelos rios Sacre, Buriti e Papagaio[9], Manoel Rondon utilizava largamente a mão-de-obra indígena em seus seringais e a relação de trabalho entre ele e os seus funcionários não parecia satisfatória, pelo menos aos olhos de Uazá, que ao encontrar o genro assim proferiu:

‘Ocê ruim memo, deixou criança (Canaizalocê – mulher do Major e filha do Uazá) e veio traibaiá para seringueiro, ladráo mêmo. Criança ficou chorando e ocê aqui tá como bôbo  mêmo. Seringueiro não presta mêmo, ladráo mêmo’[10].

Uazá narrou isso tudo em português, na frente de Rondon. Em seguida, passou a falar em sua própria língua, sem que o militar pudesse dar-se conta do que falavam. A relação de parentesco entre Libânio e Uazá, destacou o indígena na atenção do militar. O fato de Libênio  também ser filho de Camaizorocê, cacique de uma grande aldeia Pareci na barra do rio Acetiateare-suê[11], sem dúvida corroboraram com a primeira impressão.  Nesse momento, Rondon ainda dispunha dos seus guias de confiança, Mathias e Dionisio, e não recorreu ao jovem Libânio descendente de duas grandes aldeias como guia.

Foi somente a morte prematura e inesperada de Mathias, vitimado por uma pneumonia ainda na saída do Juruena, que fez com que Rondon fosse obrigado a buscar outro guia para sua expedição até a Serra do Norte e de lá ao Rio Madeira.  Dionisio, embora fosse a escolha naturalizada, não aceitou a designação. Primeiro, por desejar permanecer ao lado do irmão  quando esse ainda estava doente, e, após a sua morte, a negativa foi reafirmada diante do impacto do luto. Libânio, que já passara a acompanhar a expedição, intermediado pelo sogro, ofereceu-se para atuar na função mesmo diante da recusa dos seus dois companheiros que o auxiliavam nos trabalhos da comissão[12].

A recusa dos auxiliares de Libânio pode ser explicada diante do percurso estimado pelo comandante. A partir dali, pretendia Rondon estabelecer um posto avançado no Juruena e dali chegar ao Rio Madeira, de onde alcançaria Santo Antônio – ponto final da linha telegráfica. Até então, poucas notícias havia sobre o grande rio. As cartas eram imprecisas e somente o trabalho de desbravamento por terra poderia constituir os caminhos da Linha. Contando com o apoio dos seringueiros locais no fornecimento de tropas de burro, comida e hospedagem e utilizando-se das trilhas abertas pelos índios Pareci, desde muito empregados nos seringais, Rondon havia em sua primeira expedição alcançado o Juruena em pouco mais de 50 dias de expedição[13].

 

 

Durante a sua segunda investida, em 1908, Rondon inaugurou o primeiro destacamento, na margem esquerda do Rio Juruena, com 52 homens comandados pelo 2º tenente José Joaquim Teixeira da Silveira. Era seu objetivo estabelecer os primeiros destacamentos, para em seguida proceder a sedentarização dos índios Parecis no entorno dos postos. Aproveitando, assim, sua mão de obra para manutenção da linha, criação de gado e cultivo de plantações Foi também durante essa expedição que os primeiros indícios da presença dos índios Nambiquaras começaram a ser avistados.

Foi justamente a partir dessa expedição, diferentemente das outras, que Rondon iniciou o seu trânsito, pela primeira vez, em regiões desconhecidas e sabidamente em poder de índios hostis. E foi também nesse momento que Libânio tornou-se o seu guia principal apesar da recusa de seus companheiros em se aventurar pelo território desconhecido e hostil dos Nambiquaras.  Apesar da recusa dos companheiros de Libânio, as tropas partiram rumo a 3ª expedição realizada ao longo de todo 1909.

Além dos indígenas e dos militares usuais nas expedições, pôde London contar com a presença de Miranda de Ribeiro, naturalista do Museu Nacional, que havia se dirigido à região com Cícero Campos e Frederico Hoehne ainda no ano anterior para acompanhar os trabalhos da Comissão e, assim, acessar as reservas de espécimes desconhecidos. A expedição contava ainda com a presença do médico Joaquim Tanajura, do Comandante de Pelotão, Antônio Pirineus de Souza e dos tenentes Emanuel Silvestre Amarante e Antônio Pirineus, num total de 42 homens[14].

A comitiva foi dividida em três frentes. A primeira seguiria rumo ao Jaci-Paraná, pelo Norte; a segunda, pelo Amazonas até a foz do Rio Madeira; e, a terceira, sob comando de Rondon, foi pelo Sul através da floresta amazônica. Em Campos Novos, Rondon fundou mais um posto avançado, e ali deixou sob comando de Severiano Godofredo, 10 homens, 40 bois de cangalha, 21 burros, 3 cavalos e provisões[15]. O restante da comitiva seguiu em direção ao Amazonas.

Todas as perspectivas poderiam parecer a Miranda de Ribeiro favoráveis a seu empreendimento de pesquisa. Seguiria pela floresta amazônica nunca investigada; em companhia de Rondon, experimentado desbravador dos sertões brasileiros e conhecedor das línguas indígenas e, ainda, teria o apoio e proteção da comitiva. No entanto, o percurso foi muito mais surpreendente do que as expectativas que poderia ter Miranda de Ribeiro. Em poucos meses, faltaram provisões, começou o período de chuvas, os ataques dos insetos e as febres. Diante do risco que corriam, Rondon desfez-se dos animais cargueiros e, com eles, das coleções de história natural e chapas fotográficas recolhidas até ali[16].

Libânio ao longo de todo percurso atuava em duas grandes frentes. A primeira e mais valorada, como batedor. Seguia buscando as informações deixadas pela equipe de reconhecimento. Ocupava o espaço que Mathias havia deixado, segundo Rondon, com  igual ‘docilidade’, ’dedicação’ e habilidade’[17].  Numa segunda frente, menos valorizada nos primeiros anos por Rondon, Libânio contribuía para as pesquisas desenvolvidas pelos cientistas que acompanhavam as expedições. Foi através dele que Alípio de Miranda, zoólogo do Museu Nacional, recebeu um espécime de Speothos venaticus Lund[18]; foi por meio dele ainda que Heohne, botânico do Museu Paulista, veio a conhecer a composição do veneno utilizado pelos Nambiquaras em suas caçadas[19]; e, em expedições seguintes, foi dele também que E. Roquette-Pinto em 1912 obteve auxílio direto para formação das coleções etnográficas do Museu Nacional[20].

 

 

Esse período compreendido entre 1910, fim da expedição de desbravamento do Rio Madeira, e, a chegada de E. Roquette-Pinto, na expedição de 1912, foi o momento em que pela primeira vez Libânio pode ir ao Rio de Janeiro. Nessa ocasião, visitou as dependências do Museu Nacional onde conheceu o antropólogo que viria a receber poucos anos depois no Mato Grosso. Nesse interim, Libânio estabeleceu para si por meio da Comissão Rondon um importante domínio de influência sobre os Parecis. Domínio muito maior do que poderia fazê-lo unicamente pelas regras de funcionamento social indígena. Em seu retorno do Rio de Janeiro, Libânio trouxe consigo não somente bens materiais conhecidos – como gado, roupas, facas e dinheiro, mas, também bens simbólicos como uma vitrola e alguns uniformes militares[21].

Roquette-Pinto em sua passagem pelo Utiariti menciona que Libânio chefiava muitas famílias, que ali viviam felizes. Segundo o antropólogo os roçados de mandioca e milho mantinham todo o grupo formado quase que exclusivamente por Parecis, com a exceção de dois brancos[22]. Muito tempo depois, já quase no final do século, Maria de Fátima Machado investigando a relação dos indígenas Parecis com Rondon os indígenas ainda lembram dos uniformes militares de Libânio aos quais se juntava o prestígio de realizar as refeições entre os inspetores e dos objetos doados pelo Marechal, como um forno de cobre que somente Libânio possuía[23]. Objetivamente, após o retorno de Libânio do Rio para o Mato Grosso, Rondon constituiu para ele um posto no Utiariti. A área compreendia um espaço de cerca de 406 kilometros cuja  conservação havia sido confiada ao indígena com a esperança de que ele promovesse rapidamente a conversão desses indígenas em aliados do seu empreendimento[24].

Nesse momento iniciava Rondon a formação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN) que existiu entre 1910 e 1908, quando foi reduzido apenas a Serviço de Proteção aos Índios, sem contudo perder sua prática de conversão dos indígenas em trabalhadores nacionais. O decreto n.o 8.072  de 1910, designava como principais finalidades do SPILNT, “estabelecer a convivência pacífica com os índios; agir para garantir a sobrevivência física dos povos indígenas; fazer os índios adotarem gradualmente hábitos “civilizados”; influir de forma amistosa sobre a vida indígena; fixar o índio à terra; contribuir para o povoamento do interior do Brasil;  permitir o acesso ou a produção de bens econômicos nas terras dos índios; usar a força de trabalho indígena para aumentar a produtividade agrícola; fortalecer o sentimento indígena de pertencer a uma nação.”

Naquela altura o telégrafo já havia se tornado um instrumento relativamente decadente frente à expansão do rádio, e a estrutura montada por Rondon rapidamente se convertera em outro elemento mais que necessário à reinvenção da Nação promovida naqueles anos – a formação do povo nacional. Para isso, os postos passaram a contar com escolas que ao meu tempo que introduziam entre os indígenas os símbolos nacionais – hino, bandeira, língua portuguesa, o sentimento de pertencimento a um povo etc. – construíram alicerces para a formação de uma mão de obra através do incentivo à agricultura e à produção de bens de consumo.

Quando entre 1913 e 1914, Saturnino de Arruda Lobo foi nomeado para telegrafista do posto do Utiarity, sua esposa propôs que fosse fundada uma escola para o sexo feminino onde as meninas pudessem aprender a instrução primária e também aulas de crochê, costura etc. Nessa ocasião, Libânio mostrou-se favorável e apresentou boa vontade para com a iniciativa, ao tempo que contemporâneos indígenas seus, como o Capitão Fanché chefe do posto de Ponte de Pedra, opôs-se firmemente não tendo cedido se não com muita má vontade. Em Utiariti 17 meninos e 6 meninas frequentaram as aulas regularmente, enquanto que em Ponte de Pedra, foram 15 meninos e 4 meninas[25].

Durante os anos de 1913 e 1914, Libânio ainda participou de uma inesperada realização. Theodore Roosevelt, ex-presidente dos Estados Unidos, após sofrer uma derrota nas urnas para Taft decide retomar o seu interesse pela região Sul-Americana. Partindo através do Paraguai, Roosevelt pretendia incialmente seguir de barco até a região central da Amazônica brasileira onde encontraria Rondon para suas incursões na atual região de Rondônia. Por sugestão do militar, objetivavam explorar o curso do Rio da Dúvida, posteriormente renomeado como Rio Roosevelt, em sua companhia e de seus guias. Em parte patrocinado pelo Museu Americano de História Natural, a expedição tinha ainda por objetivo formar coleções para aquela instituição, sobretudo zoológicas, e também obter informações de âmbito geográfico.

Os resultados da expedição foram apresentados por Roosevel em seu livro ‘Throught the Brazilian Wilderness’ (Através da natureza brasileira), publicado em 1914. Por meio dele, é possível saber que mesmo com a presença de aliados e já com o percurso parcialmente  descoberto, aquela ainda era uma região inóspita para estrangeiros.

 

 

Roosevelt sofreu, assim como os seus predecessores, com a falta de mantimentos, a presença de mosquitos e com as infecções que quase o mataram na travessia. Apesar desses infortúnios, no caminho a comitiva foi recebida por Libânio que segundo Rondon o recebeu com calorosos festejos em Utiariti[26]. Na foto  acima não é possível identificar com precisão se Libânio acompanha o grupo, contudo, parece muito claro o lugar reservado aos indígenas – junto aos animais e atrás dos brancos que planejam entre si a realização da expedição.

Cerca de vinte e cindo anos depois, Claude Levi Strauss assim descreveria a região atravessada por Roosevelt:

Quem vive ao longo da Linha Rondon facilmente se julgaria na Lua. Imagine-se um território do tamanho da França, três quartos inexplorados; percorrido somente por pequenos bandos de indígenas nômades que estão entre os mais primitivos que se possam encontrar no mundo; e atravessado de ponta a ponta por uma linha telegráfica.[27]

A recorrência em apresentar os indígenas como nômades e primitivos fez parte de um processo muito mais amplo de objetificação – realizado por meio das instituições científicas, sobretudo dos Museus com o apoio da Antropologia; e, de infantilização e de incapacitação de sua força de trabalho e intelectualidade – realizado por meio dos estatutos e instrumentos de gestão pública desses grupos humanos, sobretudo pelo SPI e posteriormente pela FUNAI, concretizado com o Estatuto do Índio.

As últimas notícias que temos de Libânio é de sua participação nas exposições comemorativas do centenário da Independência do brasil, realizadas no Rio de Janeiro, entre setembro de 1922 e março de 1923. Nessa ocasião foram reunidos mais de 14 países e estima-se que circularam cerca de 3 milhões de pessoas. Libânio foi designado com um conjunto de indígenas a apresentar o ‘Zicunati’, jogo  Ariti que consiste em lançar uma bola com a cabeça. Disputado entre dois grupos com 8 ou 10 ou  15 jogadores cada um conduzido por um chefe[28].  O jogo foi denominado pelo ex-presidente Roosevelt como Headball, em referência ao modo como é jogado.

 

 

Em seu retorno ao Mato Grosso após cumprir a função delegada por Rondon na Exposição do Centenário da Independência Libânio veio a falecer em sua passagem por São Paulo. Na memória dos indígenas permaneceu a ideia de morte por envenenamento. Segundo um dos informantes de Maria de Fátima Machado, a morte estaria associada ao fato de Libânio ter-se recusado a apresentar o jogo a um fazendeiro paulista[29].

 

 

Segundo esse mesmo informante, Libânio teria sido envenenado pelo fazendeiro e morrido ante de chegar a Cuiabá. Sendo enterrado em Barão de Melgaço, na baixada Cuiabana.

A morte de Libânio não cessou contudo a formação das elites indígenas promovida primeiramente pela Comissão e, em seguida, pelo SPI – ambos coordenados por Rondon. A memória de Libânio foi transmitida ao longo do tempo por meio dos seus descendentes, dos quais destaca-se o filho Rafael educado por Rondon nas melhores escolas de Cuiabá e do Rio de Janeiro. Segundo Schmidt (1943:9), o menino havia mesmo aprendido um pouco de francês na sua estadia em Cuiabá.

O segundo mecanismo de celebração pública da figura de Libânio deu-se por meio da fundação, em 1945, do Posto indígena Libânio Koluizorocê na região dos Iranches, nas proximidades do Rio Cravari. O posto que foi durante um tempo de atração caiu em decadência quando os indígenas, em virtude das epidemias constantes, da atuação dos seringueiros e dos grupos hostis, preferiam se refugiar no Utiariti. A área do posto acabou sendo vendida pela Funai em 1977 sem que houvesse sido discutido com os indígenas o destino dos recursos. Isso gerou grave insatisfação por parte dos indígenas que se reconheciam como herdeiros do posto e senhores de sua terra[30]

 

Considerações Finais – os limites da participação indígena nos projetos nacionais

Alguns anos depois da morte de Libânio, já numa época de franca decadência do projeto Rondoniano, seu idealizador retorna a Utiariti onde reencontra a viúva do Major indígena. Ela, aproveitando a interlocução franca estabelecida entre seu marido e Rondon, aproveita para apresentar as dificuldades pelas quais os indígenas estavam passando. Pouco alimento, maus tratos às crianças, educação rígida – tudo dito no âmbito privado e quase em confissão foram assim pronunciados. Rondon diante da hora do almoço na qual o chefe do posto convenientemente havia preparado a melhor refeição, tratado as crianças com mais esmero, feito a melhor apresentação de si, questiona publicamente D. Escolástica sobre se aquelas eram as condições por ela denunciada. Se a boa comida, os meninos limpos e bem tratados eram o que de pior ela havia visto porque, em sua concepção, melhor não poderia existir. Ela, constrangida e humilhada, não lhe pode retrucar. Dizer-lhe que aquilo era uma excepcionalidade e um dia incomum em sua rotina. Resignou-se, baixou a cabeça e silenciou, retornando ao seu lugar[31].                       Quando Rondon encontra Libânio no Seringal e o sogro lhe anuncia que o patrão é mau, que não presta, que o melhor seria retornar ao convívio com a família e a esposa, num primeiro momento nos faz parecer que o trabalho nas linhas telegráficas constituía a melhor saída para aqueles grupos indígenas – que eles necessariamente estariam encurralados entre duas únicas opções: o seringal, com as suas formas de exploração, e a comissão Rondon com os seus mecanismos de liberdade e de proteção. O que não nos contam é que o trabalho na Comissão poderia ser e, por vezes o foi, uma escolha ainda mais perversa e redutora que o trabalho nos seringais.

Ao ingressar na carreira de telegrafista (seja de operador de máquina ou das diversas funções relacionadas ao telegrafo), os indígenas estavam necessariamente fadados à confiar a sua subsistência ao estado. Se num primeiro momento de instalação dos postos foi-lhes permitido e incentivado o trabalho de agricultura, com o tempo, esse foi sendo substituído pelo pagamento em espécie com o qual deveriam adquirir seus alimentos e bens de consumo sendo paulatinamente desestimulados ao trabalho agrícola. Isso funcionou relativamente bem enquanto a Comissão pode subsidiar os preços dos alimentos e dos bens. Nesse período, havia escolas para as crianças, havia trabalho para os adultos que com os seus salários tudo de necessário podiam comprar – esse efeito produziu na memória Pareci uma lembrança de tempos positivos e de fartura.

Aliada a essa boa imagem, havia ainda a ilusão da progressão nas carreiras militares, produzidas pela fabricação de uma falsa elite indígena. Falsa não porque os indígenas fossem falsos, mas, porque inexistentes eram os mecanismos institucionais de sua realização. Utilizando no caso analisado dos diferentes ‘Amuris’, Rondon os incorporava em seu sistema de patentes    de modo voluntarioso e sem nenhum respaldo institucional. Libânio nunca foi de fato para o Exército Brasileiro um Major. Recebeu a denominação, assim como o seu sogro havia recebido os fardamentos militares anos antes. Tudo reduzido a um simbolismo inoperante no plano institucional. Ele não possuía de fato a patente de major e com ela a capacidade decisória, os proventos compatíveis, o lugar social designado a um Major.

Entre os indígenas essa dimensão funcionava unicamente porque ao contrário do que apregoava o SPI, o plano não era integrá-los plenamente como cidadãos de direito, sujeitos plenos. Mas, como elementos de segunda classe, mão-de-obra barata enquanto lhe usurpavam as terras, a língua e a cultura. A produção final desse processo, contudo, não pode ser reduzida à estilhaços de índios. Aqueles que sobreviveram, apesar de tudo, guardaram forte em sua memória os caminhos para reconstrução contínua da sua identidade e foi por meio deles que em parte conseguimos recuperar a trajetória de Libânio Koluizorocê aqui narrada.

Que os descendentes de Libânio, educados de modo torto e enviesado por Rondon, surpreendam o seu destino traçado e possam construir novos horizontes de participação políticas – mais inclusivos e, de fato,  igualitários. Para isso, precisamos voltar nossos olhos para esse Libânio que inaugura as considerações finais: um Libânio despojado dos seus uniformes militares e com eles das múltiplas camadas sobrepostas da história, e que ao contrário aposta em sua indianeidade.

 

Notas

[1] Ver, por exemplo, os trabalhos de LIMA, A.C.S. O Santo Soldado: pacificador, bandeirante, amansador de índios, civilizador dos sertões, apóstolo da humanidade. Uma leitura de Rondon conta sua vida de Esther de Viveiros. Comunicação. n.21, Rio de Janeiro: UFRJ/PPGAS/Museu Nacional, 1990.; LIMA, A.C.S. Um grande cerco de paz: poder tutelar, indianidade e formação do Estado no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1995. ;  e, ERTHAL, R. Atrair e pacificar: a estratégia da conquista. Rio de Janeiro. 1992. 277f. Dissertação. (Mestrado em Antropologia Social). Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992.

[2]  E. Roquette-Pinto em sua obra Rondônia (1935:134). O mesmo é confirmado por SCHMIDT, Max. Los Paressis. Rev. De la sociedad cientifica del Paraguay, 6 (1), 1-226, 1943.

[3] Comissão Rondon – Luiz Bueno Horta Barbosa Pelo Índio e pela sua proteção oficial – Publicação: 86 (1) p36, 1a edição 1923, 2a edição 1946

[4] COMISSÃO RONDON\RONDON – RELATÓRIO GERAL – PUBLICAÇÃO: 01 (8), p. 59

[5] Comissão Rondon – Rondon -Relatório apresentado à Diretoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia (G5) do Departamento da Guerra, 1o volume – Estudos e Reconhecimentos – Publicação: 01 (8) P. 61. Acervo Museu do Índio/Funai

[6] BARBIO, Luciana Alves. Identidade e representação: uma análise da sociedade Paresi através do discurso sobre as fotografias da Comissão Rondon. Luciana Alves Barbio. Rio de Janeiro: UFRJ, 2005. 146 p. il. Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia-Universidade Federal do Rio de Janeiro. P.96.

[7] COMISSÃO RONDON\RONDON – RELATÓRIO GERAL – PUBLICAÇÃO: 01 (3) p.344

[8] ERTHAL, Regina. Op. Cit. P117.

[9] COMISSÃO RONDON\RONDON – RELATÓRIO GERAL – PUBLICAÇÃO: 01 (7), p.41

[10] Comissão Rondon – Rondon -Relatório apresentado à Diretoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia (G5) do Departamento da Guerra, 1o volume – Estudos e Reconhecimentos – Publicação: 01 (24) Papelaria Luz Macedo, Rio de Janeiro Sem Ano, p.50

[11] Comissão Rondon – Rondon -Relatório apresentado à Diretoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia (G5) do Departamento da Guerra, 1o volume – Estudos e Reconhecimentos – Publicação: 01 (24) Papelaria Luz Macedo, Rio de Janeiro Sem Ano, p80

[12] Comissão Rondon – Rondon -Relatório apresentado à Diretoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia (G5) do Departamento da Guerra, 1o volume – Estudos e Reconhecimentos – Publicação: 01 (24) Papelaria Luz Macedo, Rio de Janeiro Sem Ano, p 190.

[13] ERTHAL, 1992, o. cit. p.88

[14] SÁ, D. M.; SÁ, M.R.; LIMA, N.T. Telégrafos e inventário do território no Brasil: as atividades científicas da Comissão Rondon (1907-1915). História, Ciências, Saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v.15, n. 3, p. 779-810, jul-set. 2008. p.791

[15] ERTHAL, 1992, op. cit. p.119

[16] SÁ, D. M.; SÁ, M.R.; LIMA, N.T. Op. Cit. p.793.

[17] Comissão Rondon – Luiz Bueno Horta Barbosa Pelo Índio e pela sua proteção oficial – Publicação: 86 (1) p36, 1a edição 1923, 2a edição 1946 p. 344.

[18] Comissão Rondon – Alípio de Miranda, Zoologia/Mamíferos Publicação 17 (1) p.27

[19] Comissão Rondon – F. C. Heohne – Botânica – Publicação: 08 – Parte I (2) P11, Dezembro de 1910

[20] ROQUETTE-PINTO, E. Rondônia: anthropologia-ethnographia. 7.ed. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005. p.197

[21] SCHMIDT, Max. Die aruaken : ein beitrag zum problem der kulturverbreitung / von Max Schmidt. —  Leipzig : Veir & Comp., 1917.P 69.

[22] ROQUETTE-PINTO, E. Rondônia: anthropologia-ethnographia. São Paulo : Ed. Nacional, 1935. P.294

[23] MACHADO, Maria de Fatima. Índios de Rondon. : Rondon e as linhas telegráficas na visão dos sobreviventes Waimare e Kaxiniti, grupos Paresi / Maria Fátima Roberto Machado. —  Rio de Janeiro : UFRJ, 1994. P.203

[24] Comissão Rondon – Rondon -Relatório apresentado à Diretoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia do Departamento da Guerra pelo Tenente-Coronel Candido Mariano da Silva Rondon, chefe da comissão, 2o volume , Construção (1907 a 1910). 39 (02). P 100.

[25] Comissão Rondon – Rondon -Relatório apresentado à Diretoria Geral dos Telegraphos e à Divisão Geral de Engenharia do Departamento da Guerra pelo Tenente-Coronel Candido Mariano da Silva Rondon, chefe da comissão, 2o volume , Construção (1907 a 1910). 39 (02). P 100.

[26] Comissão Rondon – Cândido Mariano da Silva Rondon – Conferências – Publicação: 42 (1), p 41

[27] LÉVI-STRAUSS, Claude. Tristes Trópicos. Lisboa: Edições 70, 1979. p.267.

[28] COMISSÃO RONDON\RONDON E FARIA – ESBOÇO GRAM.; VOCAB.; LENDAS E CÂNTICOS…-PUBLICAÇÃO: 78 (6) p71

[29] MACHADO, 1994, Op. Cit, P158.

[30] PERIÓDICOS\BOLETIM DO CIMI. BRASÍLIA, DF: CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO\1977\Nº35 (2) Ano 6, n.35, Março de 1977. P.30.

[31] MACHADO, 1994, Op. Cit. P.345-6

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