biografia

Maria Canoeiro

Autor(es): Suelen Siqueira Julio
Categorias:Biografia, Estado, Goiás, Etnias, Kaiapó
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O conturbado contexto da província de Goiás na primeira metade do século XIX nos proporciona fragmentos sobre a história de uma indígena canoeiro chamada Maria. Naquela época, os canoeiros eram descritos pelos brancos com adjetivos do tipo “nação cruelíssima”. Deles se dizia que combatiam até a morte, inclusive contando com a ativa participação das mulheres do grupo e de cães bravos que traziam consigo. Naquela área de fonteira, mulheres apareciam em papéis inesperados pelos colonos. Inclusive na guerra[1].

Maria, a quem iremos chamar de Maria Canoeiro, foi chamada também de a “nova Damiana”, em referência a uma líder caiapó notável, Damiana da Cunha, que também vivia em Goiás à época[2]. A Revista Informação Goyana relatou que aldeias dos canoeiros foram atacadas em 1798. Em uma das aldeias a brutalidade dos colonos teria sido tão grande que, de um total de dois mil indígenas, apenas uma menina de dois anos de idade foi poupada[3]. Mary Karasch registra que por essa época houve mesmo expedições que atacaram os canoeiros na região do rio Tocantins. Apesar disso, eles não foram subjugados nem aldeados. Ao longo de todo o século XIX, recusaram-se a receber missionários e resistiram a todas as tentativas de conquista, continuando em embate com os colonos[4].

A pequena canoeiro mencionada pela Informação Goyana foi batizada e recebeu o nome de Maria. Na casa dos trinta anos, durante o governo do marechal Miguel Lino de Morais, Maria Canoeiro começou a atuar na mediação entre indígenas de seu povo e as autoridades de Goiás. Em 14 de fevereiro de 1829, o marechal procurava saber quem era Maria, a fim de poder contratá-la para atrair os obstinados canoeiros para os aldeamentos. Um dos membros do conselho provincial teve notícia de uma mulher estabelecida nos Sertões de Amaro Leite ou onde quer que seja, com quem alguns daqueles índios se darão; por tanto convém saber quem seja esta mulher, habitação, e as mais informações necessárias afim de se diligenciar por ela a forma de nos convencionarmos com os referidos Índios (…)[5].

Não sabemos de que forma o conselheiro ficou sabendo da existência de Maria nem de que forma ela foi parar “nos Sertões de Amaro Leite ou onde quer que seja”.

O que sabemos é que uma vez contratada, ela conversou com os canoeiros e ouviu dos principais que o grande ódio do grupo nascera com a famosa carnificina de 1798, da qual ela fora a única sobrevivente. Segundo Karasch, os canoeiros eram falantes da língua Tupi, diferente da maioria dos grupos existentes em Goiás, que eram jês. A busca pela presença da intérprete índia parece ter menos a ver com a língua do que com busca de maximizar as possibilidades de sucesso através de alguém que já tinha algum vínculo com os canoeiros, pois estes não mostravam interesse em acordo. Escrevo isso porque falantes do tupi existiam até mesmo entre os não índios, enquanto havia uma maior dependência em relação aos índios intérpretes dos idiomas “tapuia” [6].

A interação de Maria com os canoeiros não terminou bem para os colonos. Em relatório ao Conselho Geral da Província de Goiás (1830), Miguel Lino relata a continuidade da guerra na fronteira. Segundo ele, os xavantes atacaram alguns fazendeiros em Porto Real e, a 13 léguas do arraial, mataram 18 das 43 pessoas com as quais entraram em conflito. Além disso, recebera notícia de que, em 20 de março de 1830

Os Índios Canoeiros também atacaram em 20 de março, e mataram uma patrulha de seis praças de 2ª linha, que rondava o Rio Maranhão, a Índia Intérprete foi a única que escapou, e conduzida à aldeia de seus parentes, esteve lá dois dias, donde fugira; relatou quanto aqueles índios estão inconciliáveis pelas ofensas recebidas no ataque que se lhes dirigira em 1819, e abertamente declararam que não estavam para serem nossos escravos [7].

Como se pode ver, mais uma vez Maria foi a única sobrevivente. Se nessa história entra o fator sorte, não é nosso papel especular. O que podemos fazer é levantar a hipótese de que a índia conseguiu negociar sua sobrevivência com o grupo indígena, talvez apelando para sua identidade canoeiro. Assim que pôde, Maria fugiu do meio dos “seus parentes” e voltou para relatar aos colonos o que havia acontecido. O presidente da província logo relacionou a atitude dos índios às escravizações e brutalidades levadas a cabo pela bandeira enviada por Joaquim Teotônio Segurado à região do Tocantins (1819).

Apesar de a canoeiro não alcançar o sucesso esperado, segundo Maria Meire de Carvalho, ela passou a receber uma gratificação mensal do governo da província[8]. O que não representa uma benevolência do presidente de Goiás, mas aponta para o fato de que Miguel Lino não desistiu de enviar Maria aos canoeiros. Menos de três meses depois da desastrosa expedição, o marechal escrevia:

convém mandar a Intérprete à sua Aldeia com um brinde para os seus parentes, a quem fará de novo todos os protestos às nossas boas intenções; declarando-lhes que o Capitão grande agora já não é o de outro tempo; que o atual é bom, e quer amizade com todos os Índios do mato: nas persuasões, que está a fazer não forceje com eles a que venham todos, mas sim a que algum acompanhe, a ver como é por nós tratado, e, quando se consiga vir algum, mimoseado, e deixado ir em liberdade para a sua Aldeia, procurando assim e com repetidas visitas da Intérprete o ir amansando aquela Aldeia [9].

Esse contexto – marcado por conflitos brutais, ataques aos índios e buscas de aproximação com grupos indígenas, por parte de certas autoridades – que nos fornecerá os poucos fragmentos que temos para pensar sobre a vida de mulheres indígenas que, como outras que poderíamos encontrar, destacaram-se no papel de mediadoras. Papel durante muito tempo relegado ao esquecimento na historiografia, que tendeu a ver nas mulheres indígenas objetos sexuais, seres de sexualidade exacerbada, mães de mestiços. Nos últimos anos, novas pesquisas têm buscado um olhar mais cuidadoso sobre tais mulheres, mostrando serem as indígenas não um apêndice na História, mas uma parte integrante, ativa e importante para que possamos compreender a história da América[10].

 

Fontes

“Ofício de Miguel Lino de Moraes a João Soares Baptista Baptista”. Cidade de Goyaz, 14 de fevereiro de 1829.  Secretaria de Governo – Livro de Registro de Ofícios e ordens expedidas pelo governo provincial (1828-1830), nº 0155. Arquivo Histórico Estadual de Goiás (AHEG).

“Ofício de Miguel Lino de Moraes ao Alferes Francisco José de Campos”. Cidade de Goiás, 8 de junho de 1830. Secretaria de Governo – Livro de Registro de Ofícios e ordens expedidas pelo governo provincial (1828-1830), Nº 0155, ff. 74v., 75. AHEG.

“Relatório de Miguel Lino de Moraes ao Conselho Geral da Província de Goiás”, 1 de dezembro de 1830. BNRJ, I- 28.31,26, f.8. Sobre os xavantes, ver as páginas 7 e 8 do mesmo documento.

SILVA E SOUZA, Luiz Antonio da. “Memoria sobre o descobrimento, governo, população, e cousas mais notaveis da capitania de Goyaz”. Revista do Instituto Historico e Geographico Brazileiro 16, 1849, pp. 429-510.

 

Referências bibliográficas

CARVALHO, Maria Meire de. “Damiana da Cunha: uma capitã-mor nos sertões dos goyazes nos séculos XVIII e XIX”. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 14, n. 6, jun. 2004, pp. 1111-1124.

DIAS, Thiago Cancelier. “Contatos e desacatos: os línguas na fronteira entre sociedade colonizadora e indígenas (1740 a 1889) – Goiás”. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 7, n. 2, jul./dez. 2013, pp. 205-226.

FARIAS, Erika Karine Gualberto de. Mulheres indígenas imersas nas lutas: Vivências e ações femininas nas guerras e conflitos ao norte da América Portuguesa (1576-1770). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura Regional da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Recife: UFRPE, 2014.

JULIO, Suelen Siqueira. Damiana da Cunha: uma índia entre a “sombra da cruz” e os caiapós do sertão (Goiás, c.1780-1831). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2015.

KARASCH, Mary. “Catequese e Cativeiro: Política indigenista em Goiás: 1780-1889. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura: Fapesp, 2006 (1992), pp. 397-412.

______. “Interethnic Conflict and Resistance on the Brazilian Frontier of Goiás, 1750-1890”. In: GUY, Donna & SHERIDAN, Thomas (eds.). Contested ground: comparative frontiers on the northern and southern edges of the Spanish Empire. Tucson, AZ: University of Arizona Press, 1998. pp. 115-134.

LAVRIN, Asunción. “La mujer en la sociedad colonial hispanoamericana”. In: BETHELL, Leslie (ed.). Historia de América Latina: América colonial: población, sociedad y cultura, v.4. Barcelona: Crítica, 1990 (1984), pp. 109-137.

MARTÍN, Maria Tereza Díez. Perspectivas historiográficas: mujeres indias en la sociedad colonial hispanoamericana. In: Espacio, Tiempo y Forma, Serie IV, Historia Moderna, t. 17, 2004, pp. 215-253.

MONTEIRO, John M. Negros da Terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 (1994).

NEPOMUCENO, Maria de Araújo. 1998. A Informação Goyana: seus intelectuais, a história e a política em Goiás (1917-1935), São Paulo: PUC/SP. Tese de doutoramento.

 POTTHAST, Barbara. Madres, obreras, amantes…Protagonismo femenino en la historia de América Latina. Madrid: Iberoamericana, 2010 (2003).

SARMIENTO, Jacqueline. “Indias, categorias sociales y alteridades en el Buenos Aires virreinal”.  Indias urbanas en Buenos Aires (1744- 1820). Condiciones específicas, formas de sujeción y estrategiasposibles. Tesis para optar por el grado de Doctor en Historia. La Plata: Universidad Nacional de La Plata, 2015, pp.44-80.

SOCOLOW, Susan Migden. The Women of Colonial Latin America. New York: Cambridge University Press, 2007 (2000).

 

Notas

[1]SILVA E SOUZA, Luiz Antonio da. “Memoria sobre o descobrimento, governo, população, e cousas mais notaveis da capitania de Goyaz”. Revista do Instituto Historico e Geographico Brazileiro 16, 1849, pp. 494-496.

[2]CARVALHO, Maria Meire de. “Damiana da Cunha: uma capitã-mor nos sertões dos goyazes nos séculos XVIII e XIX”. Fragmentos de Cultura, Goiânia, v. 14, n. 6, jun. 2004, pp.1114, 1115. A Revista Informação Goyana chamou Maria Canoeiro de “a nova Damiana”. Informações sobre essa revista na nota abaixo. Sobre Damiana da Cunha, ver: JULIO, Suelen Siqueira. Damiana da Cunha: uma índia entre a “sombra da cruz” e os caiapós do sertão (Goiás, c.1780-1831). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Niterói, 2015.

[3]CARVALHO, Maria Meire de. Op.cit., pp. 1111-1124. A revista foi lançada em agosto de 1917 no Rio de Janeiro. Circulou na Capital federal, em Goiás, nos principais estados do país e em países estrangeiros, até 1935. Em seu editorial de lançamento, declarou-se comprometida com a divulgação dos atributos naturais e das possibilidades econômicas do Brasil Central. Apesar do compromisso com esta vasta região do Brasil, seus colaboradores dedicaram especial atenção ao estado de Goiás. Ver: NEPOMUCENO, Maria de Araújo. 1998. A Informação Goyana: seus intelectuais, a história e a política em Goiás (1917-1935), São Paulo: PUC/SP. Tese de doutoramento. Disponível em: http://sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema4/0424.pdf. Acesso em 26 dez.2014.

[4]KARASCH, Mary. “Catequese e Cativeiro: Política indigenista em Goiás: 1780-1889. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. In: CUNHA, Manuela Carneiro da. (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura: Fapesp, 2006 (1992), p. 397. Em outra obra a autora afirma que, segundo Cunha Mattos (1824) e Couto Magalhães (1862), os canoeiros eram originalmente índios carijós que acompanharam bandeiras de São Paulo na década de 1720. Fugindo dos paulistas, foram para o norte de Goiás entre 1725 e 1726, onde estabeleceram identidade como índios de canoas e iniciaram interações hostis com xavante, xerente e luso-brasileiros ao longo do rio Tocantins. Ver: “Interethnic Conflict and Resistance on the Brazilian Frontier of Goiás, 1750-1890”. In: GUY, Donna & SHERIDAN, Thomas (eds.). Contested ground: comparative frontiers on the northern and southern edges of the Spanish Empire. Tucson, AZ: University of Arizona Press, 1998. pp. 115-134.

[5]“Ofício de Miguel Lino de Moraes a João Soares Baptista Baptista”. Cidade de Goyaz, 14 de fevereiro de 1829.  Secretaria de Governo – Livro de Registro de Ofícios e ordens expedidas pelo governo provincial (1828-1830), nº 0155. Arquivo Histórico Estadual de Goiás (AHEG). As citações deste artigo tiveram a ortografia atualizada, sem prejuízo do sentido original.

[6]Sobre isso, Thiago Dias escreve: “No litoral os missionários obtiveram certa independência em relação aos intérpretes indígenas com a institucionalização de métodos de aprendizagem em Tupi a partir da elaboração de gramáticas e dicionários. Mas no centro-oeste dos domínios portugueses a presença de indígenas falantes do tronco macro-jê era massiva, o que fez a presença dos línguas tapuia uma constante na documentação referente aos descimentos, bandeiras, aldeamentos, presídios e escolas voltados aos indígenas em Goiás”. DIAS, Thiago Cancelier. “Contatos e desacatos: os línguas na fronteira entre sociedade colonizadora e indígenas (1740 a 1889) – Goiás”. Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 7, n. 2, jul./dez. 2013, p.207. O objetivo do comentário sobre as línguas é sublinhar a importância da intérprete no caso em questão e não abordar a temática dos troncos linguísticos, a qual não é objeto neste trabalho.

[7]“Relatório de Miguel Lino de Moraes ao Conselho Geral da Província de Goiás”, 1 de dezembro de 1830. BNRJ, I- 28.31,26, f.8. Sobre os xavantes, ver as páginas 7 e 8 do mesmo documento.

[8]CARVALHO, Maria Meire de. Op.cit., p.1115.

[9]“Ofício de Miguel Lino de Moraes ao Alferes Francisco José de Campos”. Cidade de Goiás, 8 de junho de 1830. Secretaria de Governo – Livro de Registro de Ofícios e ordens expedidas pelo governo provincial (1828-1830 Nº 0155), ff. 74v., 75.  Arquivo Histórico Estadual de Goiás.

[10]Entre outros, ver: LAVRIN, Asunción. “La mujer en la sociedad colonial hispanoamericana”. In: BETHELL, Leslie (ed.). Historia de América Latina: América colonial: población, sociedad y cultura, v.4. Barcelona: Crítica, 1990 (1984), pp. 109-137; MONTEIRO, John M. Negros da Terra: Índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 2009 (1994); SOCOLOW, Susan Migden. The Women of Colonial Latin America. New York: Cambridge University Press, 2007 (2000); FERNANDES, João Azevedo. De cunhã a mameluca: a mulher tupinambá e o nascimento do Brasil. João Pessoa: Editora Universitária, 2003; POTTHAST, Barbara. Madres, obreras, amantes…Protagonismo femenino en la historia de América Latina. Madrid: Iberoamericana, 2010 (2003); SARMIENTO, Jacqueline. “Indias, categorias sociales y alteridades en el Buenos Aires virreinal”.  Indias urbanas en Buenos Aires (1744- 1820). Condiciones específicas, formas de sujeción y estrategiasposibles. Tesis para optar por el grado de Doctor en Historia. La Plata: Universidad Nacional de La Plata, 2015, pp.44-80; MARTÍN, Maria Tereza Díez. Perspectivas historiográficas: mujeres indias en la sociedad colonial hispanoamericana. In: Espacio, Tiempo y Forma, Serie IV, Historia Moderna, t. 17, 2004, pp. 215-253; FARIAS, Erika Karine Gualberto de. Mulheres indígenas imersas nas lutas: Vivências e ações femininas nas guerras e conflitos ao norte da América Portuguesa (1576-1770). Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social da Cultura Regional da Universidade Federal Rural de Pernambuco. Recife: UFRPE, 2014; JULIO, Suelen Siqueira. Op.cit.

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