biografia

Zabelê Pataxó

Autor(es): Juliana do Rosário Santos Pataxó
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó
Tags:,

Zabelê: A luta pelo território para a afirmação cultural[1]

 

Zabelê. Foto de Arissana Braz. Aldeia Tibá, TI Comexatiba, 2011.

 

 

“Eu sinto muito orgulho de ser índia e lutar pelos nossos direitos”.

 

Luciana Ferreira, conhecida como Zabelê, cujo significado é pássaro de canto forte, é um dos pilares do povo Pataxó. Luciana hoje não vive mais entre os seus, encantou-se como se diz, mas resiste na memória e na história de seu povo. Filha de Emílio Vicente Ferreira e Salvina Maria da Conceição, nasceu na aldeia Pataxó de Barra Velha, em 10 de dezembro 1932, onde residiu toda a sua infância.

Saiu de sua aldeia natal em decorrência do massacre sofrido pelo povo Pataxó em 1951, conhecido por estes, como “Fogo de 51”[3], o que ocasionou a dispersão do povo para outros municípios vizinhos.

Nós morávamos em Barra Velha, perto do Monte Pascoal, quando os policiais chegaram e foram atirando em todo mundo, meus parentes morreram tudo. O meu pai morreu porque foi espancado. Meus irmãos morreram. Quando eu me alembro, eu sinto o que eu vi fazendo com meu pai. Meu pai foi pisado, pisaram em cima dele. Ele morreu disso. Minha mãe foi amarrada para ela mostrar onde estavam os outros índios. Os policiais tirou nós de lá e levaram a gente para Perigoso (Itamaraju). Lá deram comida para nós. Pegaram meu pai e levaram para Cachoeira do Mato. Meu irmão foi levado doente para Coroa Vermelha e lá eles morreram. Depois de muito tempo, meus parentes vieram aqui me buscar, mas eu estava casada,tinha meus filhos e pra lá eu não volto mais. Eu falei que não vou voltar. Eu vou ficar aqui. Eu não saio mais daqui. Aqui é o meu lugar, perto de meus parentes. (referindo-se à aldeia Tibá, em Cumuruxatiba).

O relato acima foi uma entrevista de Zabelê à pesquisadora Helania Veronez[4], onde ela narra o sofrimento de seu povo no massacre de 1951, que a fez mudar de território e não voltar à sua aldeia de origem.

José Fragoso, filho de Zabelê, cacique da aldeia Tiba de Cumuruxatiba, conta que sua mãe foi uma grande guerreira e que sempre lutou pelos filhos. Ele ainda se surpreende com a força da sua mãe, pois o sofrimento que ela passou em vida, o que padeceu no “fogo de 51”, era para ter desistido da luta, contudo, ela perseverou e não negou sua cultura.

Após o massacre de 1951, parte da família Ferreira migrou para o município de Cumuruxatiba, que também é território tradicional dos Pataxó, onde residiu por vários anos, resistindo bravamente para manter sua cultura viva.

Zabelê orientava os seus filhos sobre os direitos que eles tinham e a importância da afirmação cultural, que para ela a cultura é que mantém um povo vivo, a sua língua, seus cantos, contos e suas danças. Zabelê era uma mulher conhecedora dos direitos de seu povo, principalmente o direito à cultura. Direito este que é resguardado em nossa Carta Magna e no artigo 27 do Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (PIDCP)[5].

Essa liderança ensinava a sua comunidade os seus direitos e a lutar por eles, além da bravura e valentia com que batalhou para a demarcação de seu território. Zabelê foi uma grande professora e defensora da cultura e das tradições Pataxó.

Zabelê foi uma mulher que manteve sempre dentro de si uma cultura viva, pois nossos(as) mais velhos(as) são considerados(as) um livro vivo, uma vez que são os(as) guardiões(ãs) das tradições Pataxó. São eles (as) que têm o papel de ensinar a cultura para os(as) mais novos(as). Zabelê foi uma das últimas anciãs a falar a língua de seu povo, contribuindo incisivamente para a memória do Patxohã (língua Pataxó)[6], deixando assim o seu legado na história do seu povo. Sua neta, Letícia Ferreira, narra com orgulho, todas as palavras da língua pataxó que aprendeu na infância com sua avó[7].

Essa mulher sempre reivindicou uma educação diferenciada, onde as crianças não aprendessem só português, matemática, geografia, os componentes curriculares dos não índios, mas que desde cedo aprendessem também a história de seu povo, onde seus anciãos pudessem estar em sala de aula ministrando conteúdo sobre a cultura, como plantar e cuidar das florestas. Essa foi a luta de Zabelê, pois a educação imposta pelo Estado sempre foi um símbolo de dominação branca, desde a colonização do Brasil.

Historicamente, a educação imposta aos povos indígenas foi uma educação de dominação, com o objetivo de converter os (as) indígenas à religião cristã, numa perspectiva colonizadora. Zabelê nunca aceitou essa escola, sempre demandou por uma educação plural, onde se reconhecesse, valorizasse e respeitasse a cultura de seu povo.

José Fragoso lamenta que essa luta para trazer a escola para sua comunidade e ver na prática a educação diferenciada, sua mãe conseguiu alcançar, porém, seu outro objetivo, que era a demarcação de seu território, ela não conheceu[8].

Maria Lúcia Ferreira, filha de Zabelê, relatou que muitas pessoas de sua cidade tinham preconceito com os índios, mas Zabelê não se intimidava e usava seus trajes tradicionais. “Às vezes eu chegava em casa e encontrava minha mãe pintada e com seu tupissay[9]. Ela nunca teve vergonha de quem era, ela se orgulhava de ser indígena, nunca se escondeu”.

A filha descreve o sentimento de pertença de Zabelê a sua identidade étnica e o orgulho de fazer parte do povo Pataxó. Ela ainda contou que foi Zabelê quem incentivou os(as) Pataxó de Cumuruxatiba a lutar pelo direito ao território e foi uma grande inspiração para a afirmação cultural.

O cacique da comunidade Pataxó de Tibá afirmou que Zabelê, apesar de estar morta, vive na memória do povo por tudo que fez e pela coragem que ela tinha. “Mesmo enfrentando dificuldades de saúde, ela viajava para representar seu povo, deixando como legado os seus ensinamentos sobre a cultura ritual e a língua Pataxó e luta pela demarcação do território”.

Zabelê é uma grande referência para o povo Pataxó no que diz respeito à luta, tanto pelo território, quanto pela educação. Trazer a escola para a sua comunidade foi além de uma conquista, foi também permanência em seu território. A entendimento semelhante chegou Vera Lucia da Silva.

A partir dessa reflexão, que julgo coletiva, entende-se que a Escola conquistada, assim como o seu funcionamento de acordo com os anseios da comunidade, vai muito além do atendimento a uma demanda por educação formal oferecida em ambiente escolar. Parece-me que a existência da Kijêtxawê relaciona-se estreitamente com a permanência do povo Pataxó em seu território ancestral retomado. (SILVA, 2014,p.50)

Vale salientar aqui que a escola está no território Pataxó de Cumuruxatiba e recebe o nome de Zabelê, em homenagem a ela. Esse reconhecimento resulta de sua luta para a permanência desse povo em sua terra e pelo direito à igualdade, bem como o respeito à diversidade.

A figura do pajé é muito importante nas comunidades indígenas, sendo este um ancião muito experiente. O pajé possui uma função de líder espiritual, possui o conhecimento dos rituais e tem o dom de manipulação de ervas medicinais. Também é o pajé um dos responsáveis por transmitir aos mais jovens os saberes tradicionais e as formas de fazer, viver e criar.

Segundo Veronez (2006, p.67), na comunida pataxó de Tibá não existia a figura do pajé, sendo Zabelê conhecida como uma benzedeira.

Especificamente nessas comunidades não há a presença do líder religioso, chamado pelos Pataxó de pajé. No entanto, há a importante presença da benzedeira, que conhece as rezas e medicamentos extraídos da flora. Em Tibá, Zabelê é considerada a benzedeira da aldeia (Veronez, 2006, p. 67).

As benzedeiras no povo Pataxó conhecem as manipulações das ervas  para curar as doenças, fazem rezas, banho de folhas, ou seja, cuidam de doentes através do que a natureza oferece.

De acordo com Silva (2014), Zabelê era uma anciã que tinha a aprovação dos Pataxó para contar a história de seu povo, era ela também uma protetora e educadora da cultura Pataxó. Desse modo, ela era reconhecida pelo seu povo como uma liderança feminina.

Zabelê representou um marco de luta, persistência, pois possuía um grande conhecimento sobre a cultura Pataxó e era conhecedora da língua do seu povo. O  povo Pataxó a terá sempre como uma grande uma líder, aquela, que além de orientar a mobilização para as retomadas de áreas tradicionais Pataxó afetadas por fazendas, plantações de eucalipto e parques ambientais, foi fundamental para encorajá-los na retomada da língua e autoestima do povo Pataxó. Zabelê costumava questionar afirmações de que a língua Pataxó estava morta. Como poderia estar se ela mesma a ensinava para seus filhos e netos?

 

Referências bibliográficas

SILVA, V. L. In: _________. Leitura einterculturalidade em uma escola Pataxó no Prado – BA. 132 f. Dissertação (Mestrado Literatura, Cultura e Contemporaneidade). Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. Rio de Janeiro, 2014. Disponível em: <http://www.dbd.pucrio.br/pergamum/tesesabertas/1211737_2014_completo.pdf>. Acessado em: 18 mar. 2017.

VERONEZ, H. T. P. As escolas indígenas das aldeias de Cumuruxatiba (BA) e a reconstrução da identidade cultural Pataxó. Dissertação (Mestrado Interdisciplinar em Educação, Administração e Comunicação). São Paulo, 2006. Disponível em:<https://semanaacademica.org.br/system/files/artigos/as_escolas_indigenas_das_aldeias_de_cumuruxatiba_ba_e_a_reconstrucao_da_identidade_cultural_pataxo.pdf>. Acessado em: 18 mar. 2017.

 

Notas 

[1] Texto adaptado e revisado por Jurema Machado de A. Souza (UFRB), a partir de capítulos do trabalho de conclusão de curso intitulado “O Protagonismo da Mulher Indígena Pataxó na luta e defesa de direitos territoriais”, do Bacharelado em Direito da Universidade Federal da Bahia, 2017, de autoria de Juliana do Rosário Santos.

[2] Indígena Pataxó da aldeia de Coroa Vermelha, Juliana Santos é bacharela em Direito pela UFBA e membro do MUPOIBA – Movimento Unido dos Povos Indígenas da Bahia. E-mail juliana_pataxo@hotmail.com.

[3] O “Fogo de 51” foi um ataque efetuado por policiais de Porto Seguro e Prado à aldeia de Barra Velha, em 11 de junho de 1951. Contra os índios pesava a acusação de furtos a um comerciante de Corumbau. A repressão resultou na prisão de 38 índios, incêndio de casas e roças, e em grande desespero e dispersão de muitas famílias. “No dia 11 de junho de 1951, o comandante das tropas, Major PM Arsênio Alves, declarou que o levante fora político e comunista e que em Barra Velha encontrara listas de endereços de militantes da Bahia e outros estados (A Tarde, 11/06/1951). No que concerne ao incêndio da aldeia, ele afirmou ter sido uma medida sanitária, aconselhada pelo médico da força policial, uma vez que no interior das casas havia, apodrecendo, “… bois abatidos dois dias antes… (A Tarde, 11/06/1951).” (https://pib.socioambiental.org/pt/povo/pataxo/print)

[4]Helania Veronez pesquisou sobre a reconstrução da identidade Pataxó através das escolas das comunidades indígenas de Cumuruxatiba. Zabelê foi a grande interlocutora da pesquisa.

[5]Art. 27. Nos Estados em que haja minorias étnicas, religiosas ou lingüísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter, conjuntamente com outros membros de seu grupo, sua própria vida cultural, de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua.

[6] No contexto de luta pela terra, fortalecimento cultural e consolidação da educação diferenciada, um grupo de pesquisadores pataxó da Aldeia Reserva da Jaqueira deu início, em final dos anos 1990, ao que chamaram “Projeto de pesquisa e documentação da cultura e língua pataxó”. Um processo de retomada da língua pataxó, hoje nomeada Patxohã, que priorizou a memória dos mais velhos, especialmente Zabelê. A pesquisadora pataxó, atual doutoranda no PPGAS/MN/UFRJ, Anari Braz Bonfim, estudou em sua dissertação de mestrado “as motivações para o uso e estudo do patxohã no presente, como iniciativa de construção de política linguística autônoma, de autoria Pataxó”, e reafirma o papel fundamental de Zabelê neste processo. Hoje o Patxohã é ensinado em todas as escolas indígenas pataxó, do ensino fundamento ao médio. Alguns professores de Patxohã não hesitam em afirmar, por exemplo, que eles são biligues. (Bonfim, Anari Braz. “Patxohã, “língua de guerreiro”: um estudo sobre o processo de retomada da língua Pataxó”. Dissertação de mestrado em Estudos Étnicos e Africanos. Salvador, UFBA, 2012.

[7] “Aí uns diz que essa língua, uma língua que eu sei umas, num é do Pataxó, é do Maxacali, mas eu sei as do Maxacali também, eu sei” (Zabelê). Permanece na memória pataxó um período “onde muitos velhos cortavam língua”, uma referência ao fato de que falavam uma língua indígena. Porém, com o passar do tempo a língua teria “adormecido”, só sendo reavivada após o retorno de um grupo de pataxós que estivera, entre o final dos anos 1930 e início de 194, entre os Maxacali. Zabelê foi a última a falecer entre os participantes dessa viagem, e por isso a ela é atribuído o conhecimento fundamental que desencadeou a revitalização da língua pataxó através do Patxohã. Zabelê afirmava que a língua pataxó não era a mesma maxacali, mas que, contudo, após a visita a estes índios maxacali, houve o “inteiramento” da língua, ou seja, a língua pataxó foi inteirada, juntada, acrescentada. (Bonfim, Anari Braz. “Patxohã, “língua de guerreiro”: um estudo sobre o processo de retomada da língua Pataxó”. Dissertação de mestrado em Estudos Étnicos e Africanos. Salvador, UFBA, 2012.

[8] Em 1999, enquanto lutavam e já aguardavam providências para regularização do seu território no município de Prado, os Pataxó foram surpreendidos com a criação do Parque Nacional do Descobrimento com área de 21.129 hectares, através do Decreto de 20 de abril de 1999. Em 2012, esse decreto é revogado e substituído por outro de 05 de junho de 2012, quando a área do parque é ampliada para 22.693 hectares. Criado sobrepondo-se a aldeias pataxó como Cahy, Pequi, Tibá e Algria Nova, após conclusão de relatório de identificação e delimitação da TI Comexatiba, publicado em 2015, cerca de trinta por cento da área do parque foi reconhecida como terra tradicional pataxó. Zabelê residia na aldeia Tibá, região da vila de Cumuruxatiba, local para onde sua família migrou após o “Fogo de 51”, e ajudava os filhos na resistência frente as impedições de uso fruto de sua terra tradicional. É sobre essa luta que José Fragoso lamenta sua mãe não ter alcançado vitória.

[9]Tupissay  é como os(as) Pataxó denominam seus trajes tradicionais, que são feitos da casca da madeira conhecida como Ibiriba.

baixar
biografia

galeria