biografia

Catarino Sebirop: Cacique dos Ikólóéhj Gavião de Rondônia

Autor(es): Lediane Fani Felzke
Biografado: Catarino Sebirop
Povo indígena: Ikólóéhj Gavião
Terra indígena: Terra Indígena Igarapé Lourdes
Estado: Rondônia
Categorias:Biografia, Etnias, Gavião, Estado, Rondônia
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Sebirop é cacique dos Ikólóéhj Gavião que vivem na Terra Indígena Igarapé Lourdes em Rondônia. Filho de Sorabáh Djigúhr, zavidjaj (dono de maloca) que travou relações com os brancos nos anos 1950. Foi por meio do seu pai que o etnógrafo Harald Schultz (1955) conheceu os Ikólóéhj a quem chamou de povo Digüt, nome o chefe. Coube a Sebirop desfazer o equívoco, anos mais tarde.

 

Festa dos Gavião em homenagem ao cacique Sebirop. Aldeia Ikólóéhj. Abril/2017.

Figura 01. Homenagem ao cacique Sebirop em abril de 2017.

Créditos: Lediane Fani Felzke.

 

Não lembro ao certo quando eu conheci este grande líder, possivelmente tenha sido em 2004 quando acompanhei minhas alunas do curso de Serviço Social de uma faculdade privada de Ji-Paraná em um trabalho de pesquisa junto aos técnicos da FUNAI sobre os indígenas do município. O que é certo que desde 2006 tenho tido o privilégio de conviver mais de perto com este homem que lutou (e continua lutando) pela terra e pela cultura do seu povo.

Nossa maior aproximação, no entanto, teve lugar na aldeia Ikólóéhj durante os treze meses que vivi com os Ikólóéhj por ocasião da minha pesquisa de campo para o doutorado em Antropologia, entre 2013 e 2015. Naquele período, as tarde de domingo eram reservadas para sentar à sombra e ouvir as histórias de Sebirop. Aprendiz dos grandes xamãs Xípo Ségóhv e Alamàh, meu amigo é hoje um dos principais guardiões dos conhecimentos xamânicos deste povo da família linguística tupi mondé.

À medida que os dias passavam, as informações sobre sua vida foram surgindo, entremeadas pelos os conhecimentos cosmológicos dos pajés ikólóéhj. Foi assim que ele passou-me a narrar sua história.

 

  1. A infância e o encontro com o mundo dos brancos

 “Olha, eu me lembro da aldeia onde meu pai morava e que se chamava Gorá Áxoéhj Abihv Váh. Foi como um sonho, onde a gente dorme e acorda e vê uma pessoa. Assim aconteceu comigo. Foi como se eu tivesse dormindo e quando acordei vi o branco. Era o Baiano, um dos seringueiros dos Barros, o dono do seringal Santa Maria. Esse Baiano que morava na minha aldeia foi o primeiro branco que eu conheci. A aldeia ficava na Serra da Providência. Naquele tempo os brancos procuravam seringa e caucho e tinha muito caucho naquela região. Foi com ele que meu pai aprendeu a derrubar caucho. Ele não pagava não, meu pai era escravo, trabalhava de graça pra ele. Derrubava o caucho e anelava depois que a árvore estava no chão. Escorria o leite e depois de uma semana iam lá catar o caucho seco, lavava dentro da água e colocava na prensa, prensava, colocava pedra em cima. Cada prancha de caucho pesava uns 50 quilos. Da nossa aldeia até o Rio Machado e a sede do seringal era uns 80 quilômetros. Os índios transportavam nas costas, viraram animal de carga, cada um levava a peça de borracha nas costas até o seringal Santa Maria, do outro lado do rio Machado. Demoravam uns três dias pra chegar lá. Depois que o Barros e o Baiano viram que tinha muito produto e condições de trabalhar na serra com os índios, mandou cinco burros para transportar a borracha. Foi quando conheci o tropeiro que me chamava de Alexandre. Eu nasci em 1953 e nessa época o Baiano já estava lá. Acho que foi ele que anotou a data do meu nascimento. Meu pai não ia me registrar, o branco já estava lá na aldeia de meu pai e me registrou. Quando eu fiquei grandinho começaram a me chamar de Catarino. Eu acho que um desses tropeiros que gostava muito de mim e me levava de no lombo do burro era catarinense. Passaram a me chamar de Catarino por causa desse tropeiro. Eu achava Alexandre bonito, mas quando eu passei a andar com a tropa pra cima e pra baixo meu nome apareceu Catarino.

Todo mundo aprendeu a trabalhar em troca de facão, machado, panela, menos arma, o Barros não entregava arma pros índios. Eu cresci vendo tudo. Teve um tempo que os Gavião começaram a tirar as peles dos animais, caititu, queixada, onça, jaguatirica, em troca de facão. Era sempre assim, alguma coisa acontecia na aldeia do meu pai, a história se espalhava e todo mundo fazia igual. Os tropeiros vinham do seringal e voltavam com o produto, eram vários tropeiros, os índios trocavam caucho, castanha e pele de animais.

Uma vez o Baiano falou para meus pais que ia me levar a Porto Velho. Meu pai deixou porque fazia tempo que ele morava com a gente.  Eu tinha uns cinco ou seis anos. Fui de barco a motor até Ji-Paraná – que se chamava Urupá na época – onde tinha aeroporto e dali, de avião para Porto Velho. Eu não levava nada, os brancos carregavam minha rede. Nunca tinha andado no barco antes. Não lembro se fiquei assustado. Não lembro na hora do pouso, mas lembro quando saiu de Urupá, a mata, os rios, tudo lindo. Não lembro da viagem de volta, só lembro quando entrei no barco de novo para descer o rio em direção ao seringal. Quando cheguei ao seringal Santa Maria, meu pai já estava lá me esperando. Essa foi minha primeira experiência na cidade. Meu pai não quis ir mais para o seringal porque ficou com medo do branco me levar de novo.

Neste tempo ficamos sabendo que o Barros matou seringueiro a tiro no igarapé Azul e todos ficaram com medo. Depois chegaram as doenças. A catapora chegou primeiro e atacou os índios. Eu peguei também. O povo fugiu para o mato pra não pegar catapora e gripe. Antes do contato a gente já sabia que roupa tem veneno, o veneno sai do facão, do machado, das panelas, das roupas e o povo tinha medo. Muitos fugiam da aldeia para morrer no mato. Morreu muita gente de catapora e gripe. O sarampo pareceu depois, na aldeia Igarapé Lourdes.

Foi por causa do Baiano que meu pai mudou da Serra da Providência para perto do rio Machado. Ele convenceu os índios a chegar mais perto do seringal. Abrimos uma estrada na beira do Igarapé Lourdes e fomos morar no rio Machado pra ficar mais perto do Baiano e trabalhar pra ele.

Nesta época começou a aldeia Igarapé Lourdes e eu fui morar com meu pai Fernando Xenepoabáh nessa aldeia. Eu era pequeno, mas trabalhava com o burro que o Xenepoabáh comprou pra transportar a borracha dos Gavião. Ai Baiano começou a trabalhar no garimpo, veio o padre Adolfo e veio o missionário Orestes. O padre usava roupa grande. O Fernando sabia que era padre, que era crente, mas eu não sabia de nada, eu achava que era qualquer branco. Ai depois Orestes chegou e dormia dentro de nossa casa com a mulher dele, ele morou não sei quanto tempo, não sei se um ou dois anos. Ele conversou com o pai Fernando Xenepoabáh e este o autorizou a fazer uma casa na aldeia. Depois chegou o SPI. Eram três ou quatro homens armados com carabina que chegaram falando que eram do SPI e ficaram morando com a gente. O SPI logo virou FUNAI [1967]”.

 

  1. Assumindo as reponsabilidade de chefe

 “Com a chegada do SPI o Baiano sumiu, foi embora. Nessa época comecei a me formar como homem, como gente. Mudei de novo pra casa do meu pai de verdade, Sorabáh, que já estava na aldeia se chamava Berav Váh (igreja), perto da aldeia Igarapé Lourdes. Ali meu pai fez uma festa grande. Eu não era casado ainda. Foi ali que conheci o Apoena Meireles da FUNAI. Ele chegou e falou pra nós: ‘vamos embora amansar os Suruí’. Havia uma confusão com os nomes naquele tempo. Nós chamávamos os Zoró de Suruí e de Pangueyen. Não tinha o nome Zoró. O nome Suruí acabou sendo dado pelos brancos aos Paiter e os Pangueyen ficaram sendo Zoró.

Quando Apoena chegou com a proposta de amansar os Suruí vi minha mãe chorando e perguntei ‘o que a senhora tem mãe?’. Ela respondeu: ‘filho, você não sabe de nada ainda, eu sou Pangueyen, a sua mãe é Pangueyen, só seu pai é Gavião, os Gavião tão matando meus parentes, tão matando teus tios, tu tem muitos tios lá, tua tia lá, tem parente teu lá na aldeia dos Pangueyen. Ai eu falei, ‘pode deixar que eu vou encontrar meus parentes’. Aí eu encontrei meus parentes. Quando minha mãe morreu, eu estava lá na aldeia com ela. Naquele tempo havia conflitos entre Gavião e Zoró, mas tinha casamento também.

Agora nós estamos junto de novo, por causa da FUNAI, né. Apoena levou meu pai e meus parentes pra amansar os Suruí, eu fui junto. Nós fomos da aldeia pra Ji-Paraná (Vila Rondônia), de Ji-Paraná pra Riozinho, de Riozinho, 70 km pra dentro do mato. E nós chegamos lá e vimos barraco, não era parecido com a casa dos Pangueyen, era outro tipo, outro desenho. Aí colocamos o material lá, na estrada dos índios, facão, machado, e eles deixaram flecha pra nós, e vimos flecha que não era Pangueyen, eram outros índios, os Paiter.

Eles chegaram ao nosso acampamento e nós falamos com eles quem a gente era. Eles perguntaram onde eu morava e eu apontei: ‘pra cá’. Eles falaram ‘tem aldeia aqui pertinho e esses índios são brabos, muito brabos’. Perguntei: ‘como é o nome desses índios?’. Responderam: ‘nós não podemos contar o nome porque senão nosso joelho vai contar e eles vão estar amanhã aqui pra nos atacar’. Os índios tem fé que o joelho é sabido e vai contar os segredos. Pedi pra contarem baixinho no meu ouvido. Aí o Suruí contou pra mim, ‘são os Zaroéhj, os Zarohv’. Foi assim que Apoena registrou Pangueyen de Zoró. Naquele tempo não entramos contato com Pangueyen, só com os Suruí.

Depois que Suruí amansou tudinho nós viemos embora. E meu pai me levou direto para a aldeia do pai [classificatório] dele, Xikov Pí Pòhv, tio do meu pai. E o Xikov Pí Pòhv falou que não ia me deixar sair, que eu tinha que casar com sua filha. Foi aí que casei com a Teresa Ábagàh e não voltei mais pros Suruí. Nossa luta passou a ser a demarcação da terra.

Quando chegou o chefe de posto da Aldeia Igarapé Lourdes nós começamos a pedir a demarcação da terra. Grande parte da nossa terra ficou fora da demarcação, era Mato Grosso. Depois da demarcação em 1977, tivemos que trazer a maloca de Xikov Pí Pòhv pra dentro da terra demarcada, pois tinha ficado de fora. Até hoje a Teresa lembra da aldeia dela, ‘minha casa era lá’ ela sempre fala, era uma aldeia grande e famosa pois o pai dela era um grande chefe. Agora é do fazendeiro e nós perdemos nossa terra”.

 

  1. A luta pela terra

As constantes ameaças sobre a terra sempre estavam presentes nas narrativas de Sebirop. Inúmeras foram as invasões que colocavam em risco a terra já demarcada e que viria a ser homologada em 1983 pelo decreto nº. 88.609. Meu amigo contou sobre a picada aberta por fazendeiros que atravessava a área indígena, sobre a posterior estrada que cortou o território, e que continua operando até os dias de hoje. Trata-se de uma estrada que interliga Rondônia ao noroeste do Mato Grosso e por onde passam, diuturnamente, caminhões repletos de bois e madeira. Mas o maior desafio para Sebirop foi o esforço para a retirada dos colonos que ocuparam o sul da terra indígena nos anos 1970 e 1980.

“Com a estrada aberta, começou a entrar um pessoal aqui. Eu fui até a FUNAI e falei com Apoena sobre a invasão. Os brancos entraram depois de 1977, depois da terra demarcada. Foram derrubando a mata até a aldeia dos Arara. Os Arara vieram me avisar que tinha branco entrando aqui. As autoridades estavam demorando para tirar o pessoal. Os anos iam passando e nada. Aí resolvemos reunir os guerreiros e expulsar os invasores. Levamos 17 brancos para a aldeia Igarapé Lourdes. Falei pro Apoena que nós íamos matar, comer assado o pessoal. Só assim vieram os policiais federais para retirar essa gente.

Os policiais estavam há três meses aqui pra tirar os invasores, mas os brancos ficavam enganando a polícia. Diziam que tinham que colher feijão, café, pilar arroz e nada de sair. Foi então que reuni mais ou menos uns 50 guerreiros e viemos queimando as casas dos invasores. Naquele dia, todo mundo que ainda não tinha saído, saiu [1984]”.

Depois de expulsar os invasores da sua terra com o apoio de seu irmão Roberto Padag, Sebirop liderou seus guerreiros para ajudar a retirar os invasores da terra do povo Zoró, vizinho dos Ikólóéhj, no estado do Mato Grosso. Nas duas situações precisou acionar suas convicções para convencer alguns indígenas que não queriam conflito com os brancos e que estavam dispostos a abrir mão de suas terras. Em ambos os casos a liderança de Sebirop foi mais forte e assim, conseguiu manter as terras demarcadas – que já eram menores do que as originárias – a despeito das pressões externas. Não fosse pela intervenção assertiva dos guerreiros indígenas, possivelmente os Ikólóéhj Gavião, os Arara e os Zoró teriam perdido parte significativa das terras demarcadas.

 

Figura 02: Terra Indígena Igarapé Lourdes em Ji-Paraná – RO.

 

  1. O território cosmológico

 Além da terra constantemente ameaçada por madeireiros e fazendeiros e que demanda vigilância constante, o esforço atual de Sebirop é para não deixar as canções, suas e dos antigos, a cosmologia e a pajelança dos Ikólóéhj caírem no esquecimento. Para isso, ele não perde oportunidade para ensinar seu povo e os brancos, para cantar e dançar, e para manter viva relação social dos Ikólóéhj com as gentes dos planos cosmológicos que compõem seu universo e que os brancos chamam de espíritos. Tudo isso em meio a influência do protestantismo fundamentalista que atua há mais de cinquenta anos entre seu povo.

A presença do protestantismo fundamentalista e da consequente censura aos rituais de pajelança e às festas tradicionais não obliterou totalmente o desejo dos Ikólóéhj, em especial dos mais velhos, pelo xamanismo. Sebirop deixou isso bem claro ao afirmar que:

“Eu tenho a minha verdade, que eu conheço. A palavra de Deus, a Bíblia, é verdade, é tudo, é viva. A minha verdade é verdade também e isso é de Deus. Não é de mim, a minha verdade é projeto dele. Não fui eu que criei a minha verdade. Não fui eu que criei a pajelança. Não fui eu que criei a minha vida. Tudo vem de Deus. Meu conhecimento e minha cultura, não fui eu que criei. Então tenho que obedecer”.

 

Notas 

[1] Historiadora, doutora em Antropologia pelo PPGAS da Universidade de Brasília, docente do Instituto Federal de Rondônia (IFRO) campus Ji-Paraná, pesquisa junto aos Ikólóéhj desde 2005. Contato: lediane.fani@ifro.edu.br ; celular: 61 98171 8704.

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