biografia

Cícero Pereira Xukuru do Ororubá

Autor(es): Edson Silva
Categorias:Biografia, Estado, Pernambuco, Etnias, Xukuru
Tags:,

 

“Seu” Cícero Pereira, na Aldeia Vila de Cimbres, na Festa de Tamain (Nossa Sra. das Montanhas), em 02/07/2005 (Fotografia: Edson Silva)

 

Cícero Pereira: um gigante Xukuru do Ororubá!

O povo Xukuru do Ororubá, habitante nos atuais municípios de Pesqueira e Poção na região do Semiárido pernambucano, desde muito tempo, antes do escritor Guimarães Rosa ter descoberto, afirmam: os idosos partem para o “reino dos Encantados”. Um deles, “Seu” Cícero Pereira, foi importante referência nas mobilizações contemporâneas que garantiram a demarcação das terras desse povo. Pai do Cacique “Xicão” assassinado em 1998, a mando de fazendeiros invasores do território indígena, e avô do atual Cacique Marcos, com uma memória prodigiosa “Seu” Cícero em várias conversas lembrava com muitos detalhes do passado Xukuru, os tempos difíceis das perseguições dos fazendeiros.
Nascido em 1921 na atual Aldeia Cana Brava, ou “Cana Braba”, como ainda chamam os/as mais idosos/as e de onde provém a linhagem do cacicado Xukuru do Ororubá, “Seu Ciço” como era conhecido, filho de uma família numerosa, recordava que desde a infância, assim como muitas crianças da sua época, teve que trabalhar duro na roça, no pequeno pedaço de terra que sua família possuía, quando não nas terras das fazendas invasores das terras do antigo Aldeamento de Cimbres.
“Seu Ciço” foi dono de uma bodega em Cana Brava, reconhecido líder na Serra do Ororubá, conselheiro e apaziguador de contendas entre vizinhos. Em suas memórias falava das “juntadas”, reunião daqueles moradores que possuíam pequenos lotes, os “sítios”, para trabalharem em mutirões de ajuda mútua. Lembrava que quando garoto desceu tantas vezes a Serra do Ororubá em um cavalo com os caçoás carregados de verduras, milho e produtos da roça que vendia na estação do trem em Pesqueira. Mas, como a vida não era só trabalho, recordava também e tão bem com alegria das novenas, das festas animadas ao som das zabumbas, onde além da diversão garantida, se acertava os noivados, futuros casamentos.
Uma das formas em que “o sítio” também expressava um espaço de relações sociais, ocorreu durante os “ajuntados”, “juntada” ou ainda “adjunto”, como os Xukuru chamam o trabalho em mutirão, na roça. Nascido e morador por muitos anos em Cana Brava, “Seu” Ciço Pereira lembrou que a festa, após o trabalho, solidificava a proximidade entre todos:
Meu pai fazia, chamava pra trabalhar quando chegava chamava dez, doze, quarenta, cinquenta. Tinha que matar um porco pra fazer um ajuntado, pra fazer uma festa, naquele dia muita vez quando terminava aqueles trabalho o povo vamos fazer uma festa, mandava buscar um sanfoneiro ali do sitio mesmo, tocava ronco, naquele tempo era ronco, num era sanfona não. Tocava ronco, viola, violão e o povo dançava ali naquelas festas de noite. É mesmo assim.
Para esse trabalho em mutirão, o dono do roçado fornecia a alimentação aos participantes:
Na seca dessa época, os índios aqui em cima dessa Serra aqui. Eles trabalhavam. Se chamava juntada. O índio tinha um roçado muito grande, dizia tal dia, eu vou botar uma juntada. Aqueles mais interessados perguntava: – quantos você vai querer? – Vou querer dez ou doze, quinze ou vinte homens. Os que puder ir. Eles iam, juntava aquela turmona. Se fosse de enxada era de enxada, se foice era de foice, se fosse de enxadeco era de enxadeco. “Pronto, vou fazer esse serviço aqui”. “Vamo fazer”. Balançavam o enxadeco pra cima. Ele dava o café bem cedo, dava a hurinca (bebida), dava o almoço e dava o jantar pra aquele povo todo, podia ser o que fosse. Metia a enxada pra cima, até num dia virava tudo. Eita acabou! Era aquela farra e tal e vira e mexe.
Grande parte dos trabalhadores na fábrica Peixe em Pesqueira era índios vindos da Serra do Ororubá. “Seu” Ciço Pereira lembrou dos índios trabalhando no serviço noturno de carga e descarga nos muitos caminhões com tomate. Sem vínculos empregatício, recebendo apenas café e pão para alimentar-se:
Era muita gente que trabalhava na fábrica Peixe, mas era índio, tudo índio daqui da Serra. Era de vinte, trinta, vinte. Era de vinte, de quinze pra lá que ia. Toda viagem que ia pra fábrica Peixe toda noite. Mas eles iam fazer sabe o que? Iam trabalhar a noite. Num era trabalhador fichado não. Iam carregar coisas nas costas, tomate. Descarregar caminhão todo, que era a fábrica Peixe lutava com cento e tanto caminhão, viu! Carregando tomate. Era aquela fila de caminhão como daqui lá na Igreja. Pegava do Prado (bairro) a fábrica Peixe. Pegava lá debaixo da Igreja prá cima um pouco. Da Igreja da Catedral. Ali tudo era cheio de carro, caminhão pra descarregar. Cada um junto assim. Ia trabalhar, chegavam todo melado. Trabalhava a noite. Só que eles davam café, né, davam pão da noite. Mas toda noite que viesse, marcavam tudo nisso.
Em suas memórias, os Xukuru do Ororubá detalham e fazem outras leituras da estada de Cícero Cavalcanti, sertanista do Serviço de Proteção aos Índios/SPI. Diversos entrevistados citaram que o sertanista se hospedou na casa de “Mané Bilinga”, na atual Aldeia Gitó. A exemplo de “Seu” Ciço Pereira, quando recordou que muitos índios vindos de vários lugares na Serra do Ororubá, inclusive ele próprio, se dirigiram até onde o sertanista se encontrava:
Minha lembrança, meu alcance, parece que 1944 prá 1945. Apareceu aqui aquele Dr. Cícero Cavalcanti, no território… Nesse tempo não se conhecia por aldeia, não sabe? Se conhecia por sítio, viu? No sítio Gitó. E esse homem chamou muita gente atenção em Cana Brava, em Pé de Serra, de Cana Brava de Dentro, de todo canto que existia. Ele dizendo que vinha entregar as terras dos índios; Cícero Cavalcanti. Olha?! E aí, todo dia era gente diariamente em Gitó, era uma festa para o povo, naquela época. E eu, naquela época, tinha um roçado em cima de uma serra, eu trabalhava de bem cedo até onze horas, onze horas eu vinha e almoçava, trocava de roupa e passava, ia pro Gitó, pra essa reunião que tinha lá desse…
Existia uma promessa de devolução das terras aos Xukuru, invadidas pelos fazendeiros e pelos plantios da Fábrica Peixe. O que mobilizou muita gente que se dirigiu por vários dias ao encontro de Cavalcanti, na casa do índio “Mané Bilinga”:
Ai foi correndo notícia prá todo canto, prá todo canto na casa de Mané Bilinga, o pai de Milton. Ai o povo começaram a andar prá lá. Começaram a entrar gente de todo mundo, de todo canto. É de Pé-de-Serra, de Cana Brava, Cana Brava de Dentro, é de Afetos. Era da região de Pão de Açúcar, o movimento dessa beira todinha. Pertencia onde era da área indígena todo mundo ia. E o povo foi aos trabalhos. Aparecendo assim essas novidades e os índios sem saber de nada, né? Aí chegou a se saber. Aí foram caminhando, né. Uns avisando uns aos outros, convidando, espalhando a notícia. Esse homem que se chamava-se Cícero Cavalcanti, ele era da Funai, de Recife.
A notícia da devolução das terras era festejada ao som de zabumbas:
Prá essa reunião desse homem que tava fazendo essa pesquisa ou é de retomada. Não! É entrega que ia fazer. Pegar as terras dos índios e entregar. Agora, era gente de todo canto que vinha. O povo que vinha, passava em Cana Brava prá Gitó. Se ajuntava tudo na casa do finado Antônio Maria, que era meu sogro e quando saía, saía aquele pessoal com mais de duzentas pessoas, cada um com uma cana nas costas, dois terno de zabumba tocando, era uma festa animada. Quando chegava lá no Gitó, chegava logo aquele povo e iam tudo dá entrevista com o Cícero Cavalcanti, né? Ele dizendo que ia entregar as terras dos índios. E aí então continuou nessa vida, parece que um bocado de dias, né?
No local onde estava o sertanista o ambiente era também de festa, com comidas, vendas de bebidas e danças. As pessoas que chegavam se acomodavam para serem atendidos pelo sertanista, que perguntava e fazia anotações, afirmou Cícero Pereira:
E o povo chegava lá era um festão na casa de “Seu” Mané Bilinga. Era tocador de pífano, era de zabumba, que eu digo. Era de matar porco, matava porco, só sei que era um festão medonho. Butiquin, tinha de tudo, lá tinha até boate, que o povo… Era um encontro muito grande. O povo se, como é que diz meu Deus? Se hospedando, né? Se hospedando. E então lá dentro da casa de Mané Bilinga tinha duas mesas. Três mesas grandes com aquele povo tomando nota e chegando e ele fazendo, e ele falando com o povo, né, o que ia fazer na aldeia. Aí tomando nota do povo. Pegando nome do povo, aquele antigo e fazendo as perguntas
Ao tomar conhecimento da mobilização, o Juiz de Pesqueira enviou policiais para prender o sertanista, que, alegando a condição de agente a serviço do Ministério da Agricultura, afirmou que compareceria posteriormente à presença do reclamante. Cavalcanti foi à presença do juiz, acompanhado de um grande contingente, todavia não retornou à Serra:
Aí chegou ao conhecimento do juiz da Cidade de Pesqueira, mandou prendê-lo, né? Mandou uma intimação prá ele, a polícia foi buscar ele. Aí a polícia foi buscar ele. Chegou lá ele disse: “Não, vocês vão embora, que eu vou atrás. Que depois eu compareço lá. Que eu só me entrego ao Ministério da Agricultura, vão lá que eu vou falar com o juiz lá”. E, nesse dia, ele desceu com mais de quase umas oitocentas pessoas, por aí assim, mais ou menos, sabe? Com ele. Quando chegou cá, ele… Eu não sei o que houve com ele, eu sei que esse homem não voltou mais dessa vez.
Os Xukuru continuaram as mobilizações para reconquistar o território. Uma das alternativas foi a Liga Camponesa, apoiada pelo conhecido comunista Gregório Bezerra e por Francisco Julião que estiveram na região. Em 1963, os índios organizaram uma ocupação em Pedra d’Água onde iniciaram o plantio de roça, mas foram perseguidos pela polícia e o Exército. Cícero Pereira rememorou que foram presos: “Porque eles invadiram terreno do governo. Eles invadiram para trabalhar lá. Que foi como um bocado de ciganos, aquela empanada, lá”. Ocorreram outras prisões. Por ter se envolvido na retomada de Pedra d’Água, “Seu” Ciço Pereira, morador em Cana Brava, onde aconteceu “uma reunião”, foi preso com outras pessoas da Serra do Ororubá e de Pesqueira:
Sabe por que eu já fui preso? Só porque eu fazia parte da, desse pessoal, dessas fera que manda nas usina, que tava a favor das terra. Fizeram reunião em Cana Brava ainda na casa de um pai, desse povo aí. Depois dessa reunião, retomada ai de Pedra d’Água, foi dessa retomada, que dessa época ai que eu fui preso. Eu, Manoel Pereira, Joaquim Neto e Alonso. Teve uma porção lá de Pesqueira, foi tudo preso
Preso em 1964 como subversivo, “Seu” Ciço Pereira recordou o apoio do Governador Miguel Arraes à ocupação das terras. A ocupação aconteceu depois de uma missa, por gente vindo de Cana Brava:
Sessenta e três. Ah! Pois dessa década, dessa data. Eu tava que fizeram isso aí. Ai daqui a pouco um mês, Miguel Arraes que era Governo do Estado abriu mão prá D. Luizinha, Zé Arcoverde, Luiz Arcoverde, que era o advogado, que era meu advogado. Eu sei que fizeram essa miséria lá na Serra em Cana Brava, depois da missa, que eu nem assisti. Adepois da missa ajuntaram esse povo, muita gente, já ia pra Cana Brava e abriram Pedra d’Água (…) e só porque eu passava por lá e conversava com o povo me trataram como subversivo.
Cícero Pereira teve um papel fundamental nas mobilizações contemporâneas dos Xukuru do Ororubá. Quando os indígenas se organizaram em meados de 1980, elegendo o Cacique “Xicão”, reconhecida e expressiva liderança desse povo com projeção em todo o país por ocasião das mobilizações na Assembleia Nacional Constituinte que resultou na promulgação da Constituição Federal em 1998, com significativas conquista de direitos para os povos indígenas, sobretudo os índios no Nordeste. “Seu Ciço” foi eleito Vice Cacique. Sua atuação sempre foi discreta, mas garantiu o apoio necessário, muitas vezes também material com recursos financeiros, para a atuação de “Xicão” e a organização indígena Xukuru do Ororubá. Por isso sempre foi visto como uma importante referência nas mobilizações desse povo.
Muito abalado e magoado desde o assassinato do Cacique Xicão, doente se viu forçado a deixar o território indígena e vir morar na cidade. Mas, em sua casa a todos/as recebia com satisfação e sempre disposto a uma longa conversa sobre o passado, as memórias Xukuru e por isso era também uma grande referência. Vibrava com as conquistas no presente do seu povo e depositava muita esperança no futuro, explicitando o orgulho na liderança exercida pelo então jovem Cacique Marcos, seu neto.
Talvez por isso os Xukuru do Ororubá afirmem que não enterram, mas “plantam” seus mortos, para que deles “nasçam novos guerreiros”. E “Seu” Cícero falecido em 2005 “foi plantado” na mata sagrada da Aldeia Pedra d’Água, ao lado de onde “está plantado” o Cacique “Xicão”, também o sempre lembrado “Xico Quelé” e outros xukurus mortos ou matados, que se encantaram. Encantaram-se! Pois, os Xukuru do Ororubá muito tempo antes do escritor Guimarães Rosa ter descoberto, acreditam: os idosos partem para o “reino dos Encantados”. Como afirmam os indígenas “Vou para aldeia encantada”, num dos cantos do Toré os Xukuru do Ororubá. Encantaram-se!

 

Referências

ARAÚJO, Cícero Pereira de. “Seu” Ciço Pereira, 81 anos, falecido em 2005. Entrevista realizada no Bairro “Xucurus”, Pesqueira/PE, em 05/01/2002.
ALBERTI, V. Ouvir contar: textos em História Oral. Rio de Janeiro, FGV, 2004.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2004.
SILVA, Edson. Xukuru: memórias e história dos índios da Serra do Ororubá (Pesqueira/ PE), 1959-1988. 2ª. ed. Recife, EDUFPE, 2017.
SILVA, Edson. “Isso aqui é nosso! Isso é da gente!” Os índios Xukuru e a participação nas Ligas Camponesas: conflitos socioambientais no Agreste. In: SILVA, Tarcísio Augusto Alves da; GEHLEN, Vitória Régia Fernandes. (Orgs.). Conflitos socioambientais em Pernambuco. Recife: Massagana, 2013, p. 95-116.
SOUZA, Vânia Fialho de P. e. As fronteiras do ser Xukuru. Recife, Massangana, 1998.

baixar
biografia

galeria