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Edilson Rosário Paumari

Autor(es): Edilson Rosário Paumari
Categorias:Estado, Amazonas, Biografia, Etnias, Paumari
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Edilson Rosário Paumari: Professor bilíngue, intelectual e liderança do povo Paumari (Autobiografia)

 

Meu nome é Edilson Rosário Paumari, tenho 36 anos, sou do povo Paumari. Na língua paumari, meu nome é Makokoa. Vou começar a contar um pouco da minha história. Nasci na Aldeia Estirão, Terra Indígena Paumari do Lago Marahã. O povo Paumari pertence ao tronco linguístico Arawá e é conhecido como povo das águas, porque nós vivíamos mais nessa área. A maioria do povo vivia na beira do lago, em casas flutuantes, que o próprio povo fazia; agora, não se usa mais. As comidas principais que a gente usa são o pirarucu, o peixe-boi, a tartaruga – é o que a gente está mais acostumado a usar. Agora, vivemos tanto perto da água, quanto na terra firme também. Antes, o povo ficava indo de lá para cá, habitanto lagos, rios e igarapés. Agora, a gente pertence à àgua, mas também plantamos em terra firme e na beira do rio.

O povo Paumari vive na região sul do Amazonas, no município de Lábrea, na Terra Indígena Paumari do Lago Maharã. E ainda temos Paumari em Tapauá e Cuniuá. Além da Terra Indígena Paumari do Lago Marahã, nós temos, entre outras, a Terra Indígena Paumari do Rio Ituxi. A principal festa que ainda temos viva é o Amamaju, que é a saída da menina moça. E agora está sendo forte o Campeonato da Língua Paumari.

Hoje, os Paumari lutam pelo reconhecimento de sua língua. Também lutamos por educação, saúde e terra. A gente coleta castanha, e achamos isso muito importante para o povo. A gente precisa melhorar o preço da venda da castanha, porque os atravessadores pagam muito pouco, e precisamos que a pesca seja legalizada. Os Paumari que vivem na cidade estão por aqui procurando estudar, para, quem sabe, melhorar as condições do povo Paumari nas aldeias, principalmente nas áreas de educação e saúde.

A gente morava em uma aldeia onde a maior parte das pessoas era evangélica, onde tinha a presença missionária. Para sair de lá, claro que fui apoiado pela missionária também. Porque, se não fosse isso, eu não tinha uma base de estudo. Mas eu sentia que a gente era uma família um pouco mais distante de todos, discriminada, porque o papai era pajé e a mamãe também, eles praticavam a nossa parte cultural. E foi indo. Com o nosso desenvolvimento na educação, parece que foram nos acolhendo cada vez mais, para ajudar.

Depois, nós saímos dessa aldeia e fomos morar em uma aldeia chamada Palhal. Lá, a gente começou a estudar um pouco. A gente teve contato com os missionários da Associação Internacional de Línguistica (SIL). Eles tinham aquele projeto de ensinar os indígenas e aí a gente começou a estudar, primeiramente, a nossa língua. Mas eles estavam mais interessados que a gente aprendesse a língua portuguesa. Depois, comecei a trabalhar, pois eu já sabia ler um pouco e escrever. Eles me colocaram como agente de saúde, por dois anos, como trabalho voluntário. Depois, a minha irmã também já estava preparada, ficou como agente de saúde e eu como professor. Fiquei três anos como professor. Depois, tive que sair, pois a gente ficava repetindo, repetindo a primeira, a segunda, a terceira e a quarta série. Depois disso, não tinha como ir para a frente, voltava de novo: primeira, segunda, terceira e quarta série. Foram uns três anos assim e eu vi que não tinha como dar continuidade. Eu falei para a comunidade que não tinha como dar aula, porque eu não estava preparado. Com a ajuda dos missionários, fui estudar fora. Aproveitei e estudei três anos, fazendo um curso transcultural.

Quando terminei, trabalhei um ano com meu povo. Depois de trabalhar um ano na aldeia, retornei para Porto Velho, e fiquei trabalhando e estudando durante três anos. Eu corrigia as traduções da Bíblia na nossa língua em Paumari. Eu trabalhava e também ajudava, porque eles pagavam o meu curso. Estudei informática e fiz um pouco de inglês também. Depois, eu tive que vir para cá, porque minha mãe estava com a idade avançada. Eles queriam muito que eu ficasse com eles. Tive que vir para cá, para o município de Lábrea. Aqui, terminei o ensino médio, pensando na situação da minha aprendizagem. Comecei a pensar  na situação dos parentes que moram na aldeia, onde  a língua portuguesa estava entrando – estava muito, muito forte. Eu pensando, como professor, vi que gente tinha que fazer alguma coisa para ajudar os parentes.

Nós falamos de educação diferenciada e na língua indígena. Então, pensei: “Vamos ter que fazer alguma coisa”. Enquanto estava aqui em Lábrea, eu pensei em criar um projeto. Consultei as lideranças da aldeia, a nossa organização e falaram que tinha que sentar e começar a fazer o rascunho da ideia. Daí, eu fiz e então nasceu o programa “Sou bilíngue intercultural”, que funciona desde 2011 – quer dizer, eu já vinha trabalhando antes, mas funciona mesmo a partir de 2011. Daí, a gente continuou dando andamento ao projeto, ministrando aula tanto na língua paumari, quanto apurinã.  Porque era isto que a gente queria mesmo: a gente vê os alunos na cidade, estudando só português, e nós vimos que era importante, se nós somos indígenas, ver esse lado, que a língua é importante para nós.

A partir do programa “Sou bilíngue intercultural”, a gente pensou também em uma coisa mais voltada para a aldeia. E nos perguntamos: “Como é que a gente vai trabalhar com os parentes na aldeia, sem eles se sentirem pressionados, o aprendizado da língua?”. Junto com outro professor, pensamos em criar uma coisa mais dinâmica, sem ser sala de aula. Criamos o Campeonato da Língua Paumari, que é um projeto de ampliação do vocabulário através do diálogo, para fortalecer a língua paumari.

Quando fomos realizá-lo, muita gente tinha dúvida, sem saber o que era. Mas a gente foi lá, explicou para eles que era um trabalho de educação diferenciada, para poder coletar material didático. Depois, foram entendendo que o Campeonato da Língua Paumari é importante, para a coleta de material didático. E o nosso objetivo, que queremos tanto, é produzir um desenho animado, com áudio em paumari e legendado em português. É para o aprendizado, pois a gente aprende vendo, escrevendo e ouvindo também. Então, acho que o desenho animado ajudaria os parentes dessa nova geração, até aqueles que não falam a língua, a aprender a língua para relembrar a história também.

A gente viu que deu certo até aqui. A gente tem essa parceria agora com a Fundação Nacional do Índio (Funai), a Federação das Organizações e Comunidades Indígenas do Médio Purus (Focimp), o Instituto Federal do Amazonas (Ifam), a prefeitura (que agora está mais perto também) e mais outra universidade. A gente gostaria que saísse esse livro e o desenho. Está um pouco difícil, mas a gente vai trabalhando. Vamos  ver como vai ficar daqui para a frente. A gente tem vários objetivos – por exemplo, que do campeonato saíssem os próprios indígenas preparados para fazer filmagens, fazer gravação e fazer o desenho animado. Para mostrar que o indígena também tem competência. E tem essa divulgação do trabalho do Voz do Purus, que são os que fazem também – então, esse já foi fruto do programa “Sou bilíngue intercultural” e do campeonato.

O objetivo geral do nosso trabalho é voltado para a língua paumari, para tentar fortalecer esta nova geração, para que não esqueçam a língua. E, ainda, fortalecer a história, tendo a língua viva. A gente tem o nosso conhecimento, nossa história viva.

Agora, estou estudando no curso de Licenciatura Intercultural da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que está abrindo mais a nossa mente, para que, quando  a gente comece a trabalhar, esteja mais preparado. Porque quanto mais a gente tem conhecimento, a gente vai vendo a situação e as necessidades. Meu objetivo é fortalecer a educação escolar indígena do povo Paumari.

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