biografia

Manoel Santana

Autor(es): Estevão Palitot
Categorias:Biografia, Estado, Paraíba, Etnias, Potiguara
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MANOEL SANTANA – Regente dos Potiguara na primeira metade do Século XX. Sediado na aldeia São Francisco (Baía da Traição), representava o amplo conjunto de famílias indígenas distribuídas ao longo das margens dos rios Camaratuba, Sinimbu, Grupiúna, Silva, Jacaré e no estuário do rio Mamanguape. As primeiras visitas do Serviço de Proteção aos Índios-SPI se deram no período em que estava à frente da liderança dos Potiguara exercendo diversas atividades de mediação entre as famílias indígenas e outros grupos sociais: padres, comerciantes, proprietários de terras, arregimentadores de mão-de-obra, os industriais Lundgren, pesquisadores da Missão de Pesquisas Folclóricas, agentes do SPI, entre outros.

O título de Regente vinha desde o período do Brasil Império e comportava obrigações rituais e políticas, como a arrecadação de fundos (dinheiro, velas e fogos) para a festa do padroeiro São Miguel, “a prerrogativa de falar primeiro com visitantes”, intermediação em contratos de trabalho e empreitadas para corte e fornecimento de madeira, autorização para moradores não-indígenas fixarem-se nas terras na aldeia, etc. A fiscalização dos limites das terras e a intermediação de conflitos em nível local também eram parte das atividades desenvolvidas pelo Regente.

No início dos anos 1920, Manoel Santana lidera um grupo de caboclos do sítio (indígenas da aldeia São Francisco) numa viagem ao Rio de Janeiro, onde procuraram o Marechal Rondon no Serviço de Proteção aos Índios em busca de proteção com relação às invasões de terras realizadas na Baía da Traição pelos irmãos Dantas. O curioso é que, nesta viagem, os Potiguara contaram com o apoio do Coronel Frederico Lundgren, outro notório invasor de terras indígenas na região, principalmente na área da aldeia de Monte-Mór. No retorno da viagem, Manoel Santana tem sua posição de Regente dos Índios confirmada por Rondon, agregando uma dimensão de legitimidade a mais à liderança que já exercia. Tal fato contribuiu para a manutenção de melhores condições de controle indígena sobre as terras da Baía da Traição nas décadas seguintes.

É a partir daí que se consolida uma memória histórica entre os Potiguara sobre o tempo de Mané Santana, como um período de relativa tranquilidade e grande autoridade moral e material da figura do Regente, que agregava às suas atribuições rituais e tradicionais, o status político do reconhecimento oficial da condição de líder e a proximidade com os poderosos industriais da família Lundgren.

Quando o inspetor do SPI, Dagoberto de Castro e Silva, visita os Potiguara no ano de 1923 ele registra uma estatística de 442 indígenas e cita a família de Manoel Santana vivendo na aldeia São Francisco. Chama Manoel de chefe e diz que este é casado com Porfiria Thereza, e o casal tem os filhos: Sebastiana (13 anos), Josefa (10), Severina (8), Rosa (6), Daniel (5) e Maria (2).

Quando o SPI instala definitivamente o Posto Indígena na Baía da Traição (anos 1930), Manoel Santana muda-se para as imediações do Posto com sua família e passa a receber o título de Tuxaua, dando início à uma vasta descendência que carrega o sobrenome Santana e de onde saíram vários líderes indígenas nas décadas seguintes para cargos de cacique, chefe de posto e, até mesmo, prefeito.

Manoel Santana faleceu no ano de 1942 e sua sucessão foi marcada por sérios conflitos envolvendo os indígenas da aldeia São Francisco e a Chefia do Posto do SPI, cada lado apontando uma pessoa diferente. O Chefe do Posto decide colocar o genro de Manoel, o índio conhecido como João Batista. Porém, os Cabocos do Sítio, como são conhecidos os habitantes de São Francisco, já haviam escolhido Pedro Ciríaco para representá-los. Pedro Ciríaco havia sido uma espécie de ajudante de Manoel Santana, e para uma parte dos índios seria a escolha natural para a sucessão na chefia. Deu-se o impasse e foi convocada uma reunião no Posto para decidir-se quem seria o novo líder dos índios. Nesta reunião, o conflito chegou ao momento máximo e, a partir daí, iniciou-se um longo processo de divisão nas linhagens de lideranças Potiguara, que só serão reunificadas no começo do Século XXI. Uma linhagem, relacionada ao SPI, passa a ser assumida por Daniel Santana, filho de Manoel. A outra linhagem, encarnando o espírito independente dos indígenas da aldeia São Francisco, foi assumida por Pedro Ciríaco.

 

Fontes

MOONEN, Frans & MAIA, Luciano Mariz. Etnohistória dos Índios Potiguara: Ensaios, Relatórios e Documentos. João Pessoa: PR/PB-SEC/PB. 1992.

_________. (Orgs). História dos índios Potiguara: 1500-1983. 2 ed. Digital. Recife, 2008a.

PALITOT, Estêvão Martins. Os Potiguara da Baía da Traição e Monte-Mór: história, etnicidade e cultura. Dissertação de mestrado, PPGS/UFPB.  2005.

VIEIRA, José Glebson. A (im)pureza do sangue e o perigo da mistura: uma etnografia do grupo indígena Potyguara da Paraíba. Curitiba. Dissertação de Mestrado. PPGAS/UFPR. 2001.

VIEIRA, José Glebson. Amigos e competidores: política faccional e feitiçaria nos Potiguara da Paraíba. Tese (doutorado em Antropologia). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2010.

 

 

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