biografia

Maria Rosa Jesus dos Santos (Dona Nair)

Autor(es): Aline Pataxó
Nascimento: 1951
Povo indígena: Pataxó
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó
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Maria Rosa Jesus dos Santos  (Dona Nair)

Anciã

Idade: 63 anos (1951)

Nascida em Guaratinga – Bahia

Viúva, mãe de 17 filhos (6 vivos), 16 netos e 5 bisnetos.

 

A senhora Maria Rosa, mais conhecida como Dona Nair, participou diretamente da retomada de Aldeia Velha. Dona Nair trabalha como artesã na fabricação de esteiras, vassouras, abajur e outros tipos de artesanatos e também com a agricultura na plantação de feijão, mandioca, cana de açúcar e demais plantios.

Em sua entrevista relata que, mesmo antes de ser chamada pelo cacique Ipê (na época), já era moradora da área há 18 anos. Em seus relatos, dona Nair explica que antes de morar na aldeia, residia em um lugar chamado Braolândia (Rio da Barra), que fica próximo ao distrito de Trancoso, município de Porto Seguro. Na época, eram apenas ela, seu esposo e sua primeira filha, que se chama Terezinha. Nesse local, Dona Nair trabalhava junto com seu esposo na agricultura. Quando veio morar na parte baixa da aldeia, que ainda era denominada de fazenda Santo Amaro, ressalta que havia “um mês e pouco” que a indígena Diomerinda mais conhecida por “Dona Dió” estava residindo no local. Viviam apenas duas famílias na parte baixa, a de dona Nair e dona Dió. Nair afirma que “sua família trabalhava com agricultura e a outra na fabricação de tijolos e esteira”. A vida de dona Nair era “cansada”, quando morou na parte baixa da aldeia, antes da retomada. Ela se ocupou na luta pela criação de seus filhos, trabalhou “fazendo carvão, fazendo dendê, no mangue e no marisco” e o pouco de estudo que deu para os seus filhos foi através desses meios de trabalhos. Porém, neste mesmo período, o fazendeiro expulsou sua família da terra, “ficando apenas Dona Dió e seu filho Damião”.

Nair relata ter ido para a cidade de Itabela. Devido eles não terem se acostumado com o lugar, voltaram para o Arraial D’ Ajuda novamente e ficaram morando no bairro São Pedro. Com o passar do tempo, ela e sua família foram convidados pelo cacique Ipê para participarem da retomada de Aldeia Velha. Dona Maria Rosa informa que eles, junto com outras famílias indígenas não aldeadas, na primeira tentativa, entraram a primeira vez pela reserva, ficaram um período e foram expulsos da terra, pois o fazendeiro entrou com uma liminar para a retirada dos indígenas. Maria Rosa relata com detalhes o que aconteceu. No dia chegou um oficial de justiça e policiais na entrada da reserva, justamente no momento em que Ipê ia saindo do local, os policiais o abordaram e entraram na reserva para retirar os indígenas. Utilizaram de agressividade, vieram atirando para cima, derrubando as casas improvisadas e as panelas com comidas. Não respeitaram os mais velhos e nem as crianças.

Cerca de cinco anos depois da primeira tentativa, reuniram-se novamente, porém, com mais famílias. Na segunda vez, entraram pela parte baixa da aldeia, ficaram durante alguns meses. Após esse período, todos que estavam envolvidos se deslocaram para a reserva da aldeia, conservada hoje como área de preservação ambiental. Ficaram aproximadamente 1 ano e 6 meses no local e, então, tomaram a decisão de retomar a sede da aldeia, que na época estava na posse do fazendeiro, denominada Fazenda Santo Amaro. Assim, as lutas foram continuas para conquista da terra.

Efetivaram a retomada da sede. Depois desse episódio, o fazendeiro não conseguiu mais retirar os indígenas da terra, pois ficou comprovado que o lugar em questão, realmente é denominado como Terra Indígena. O fazendeiro entrou com várias ações para reintegração de posse, mas todas foram negativadas pelo juiz. O território foi demarcado e nomeado como Aldeia Indígena Pataxó Aldeia Velha.

Dona Nair ressalta que sua mãe confeccionava esteira, porém não aprendeu com ela “por que era pequena”. Dona Nair afirma que aprendeu a fazer o artesanato de “cipó e tabu” por ela mesma, quando veio morar na aldeia. Fazia da seguinte forma, entrava nas matas da aldeia, recolhia o cipó e começava a criar esses materiais e não teve ajuda de ninguém para ensina-lá.

No seu trabalho, faz vários tipos de artesanatos. Porém, existem algumas dificuldades para obter a matéria prima, por isso que hoje não realiza com frequência essas atividades. Para tirar o tabu, por exemplo, tem todo um processo de preparação. Com detalhes, ela explica desde a retirada do material ao resultado de seu trabalho como artesã.

Devido a ter todo esse cuidado no processo de preparação dos materiais, é difícil encontrar pessoas que saibam e queiram se envolver nessa atividade, considerada trabalhosa. Dona Nair ressalta que na sua idade encontra certa dificuldade na extração do tabu. Embora exista essa dificuldade derivada das limitações da idade, conta com a ajuda dos filhos.

Em se tratando de esteira, ela é uma referência na aldeia. Apesar de alguns saberem confeccionar na aldeia, as pessoas sempre a procuram para comprar o artesanato, tanto de dentro como de fora da comunidade.

Maria Rosa foi casada há mais de 40 anos, com o senhor Gilbergue Santos Andrade, mais conhecido por “Seu Bergue”. O seu esposo a ajudava bastante, os dois eram muito unidos, sempre trabalharam juntos na roça e com o artesanato. Não se recorda ao certo em que ano veio morar na aldeia, lembra que sua filha mais velha, Terezinha, tinha apenas “1 ano” e que hoje ela está com 43 anos.

Manteve um relacionamento duradouro com o Seu Bergue e tiveram 17 filhos, porém, vivos são 6 (três homens e três mulheres), 16 netos e 5 bisnetos. A única que não nasceu na aldeia foi a filha mais velha, os demais “nasceram e foram criados no interior dessa aldeia”. E os demais que faleceram são o resultado do sofrimento que passaram na parte baixa da aldeia, já que não havia uma alimentação adequada, moradia precária, assistência médica e demais estruturas.

Em seu relato, Dona Nair relembra, com emoção, a perda dos seus onze filhos, pois é uma grande perda. Naquela época, o índice de mortalidade era enorme, devido vários aspectos negativos que as famílias vivenciavam em seus cotidianos, principalmente as rurais, por não terem assistências devidas no momento de necessidade.

Dona Nair detalha como ocorreu o falecimento das crianças que estavam na faixa etária entre 3 a 9 anos de idade, e que um nasceu com deficiência física, “nem sentava, não andava e nem tinha espinhaço”. Ele faleceu aos nove anos. Teve duas barrigas de gêmeos e recorda que duas morreram aos 5 anos. “Quando eu ia levar um para o hospital, os outros ficavam doentes; quando eu voltava já tinha outro morrendo.”

O sofrimento de Dona Nair foi grande nessa época. Em suas gestações, não fazia pré-natal e nunca ganhou filho no hospital, todos através de parteiras. Nem ela e as crianças não tomavam vacinas e não utilizava nenhum método anticoncepcional para evitar gravidez, por não ter dinheiro suficiente para comprar os medicamentos de prevenção. Segundo Maria Rosa, ela engravidava quase todo ano. No entanto, com o passar dos anos, devido à idade ter avançado, não teve mais filhos. Dona Nair menciona que “saia a noite com o candeeiro (lamparina feita de lata, movida por querosene), colocando armadilha para pegar os peixinhos, vendia para o sustento dos meus filhos” para comprar mantimentos para casa.

Seu esposo faleceu recentemente, em agosto de 2014. Com emoção, dona Nair, declara que esse foi um dos momentos mais difíceis da sua vida, pois perdeu um companheiro que conviveu boa parte de sua vida ao lado dele, mas afirma que “Deus que quis assim, tenho que aceitar”.

Dona Nair relata que o lugar mais longe que ela percorreu foi na Bahia mesmo, bem próximo, na cidade de Ilhéus, por motivo de saúde, quando teve que levar sua filha para ser internada as pressas e que, logo após a viagem, a mesma faleceu, pois estava bastante debilitada e não resistiu.

No entanto, mesmo em meio a tantas dificuldades que passaram, dona Nair e seu esposo nunca se deixaram abater, lutaram bastante para criar seus filhos, com honestidade e dignidade. Passaram por todo esse processo de lutas. Dona Nair afirma: “Nunca dei um duro pra ninguém, mesmo depois de véia, os meus filhos nunca viu eu trabalhando pros outros. Nunca dependi de prefeitura, de prefeito, sempre me mantive com o suor do meu rosto e criei meus filhos assim, na luta mais eu”.

Na entrevista, dona Nair relata que, apesar de ter passado por todas essas lutas, sofrimentos e perdas de pessoas que amava, “esposo e filhos”, ela olha para trás, e vê que hoje tem melhores condições de vida e que antes não tinha. Dona Nair afirma: “Tenho uma casa digna e um lugar tranquilo para viver”, onde conseguiu, junto com seu esposo, criar seus filhos e nunca precisou abandoná-los e todos continuam morando na aldeia, perto dela.

Em toda sua trajetória de vida, Dona Nair demonstra para todos que é um exemplo de mulher guerreira e determinada e que, apesar de tudo que já passou, sempre se manteve firme em seu objetivo principal, criar os seus filhos e dar uma boa educação “para serem homens e mulheres de bem”. Em sua comunidade as pessoas têm um grande respeito e admiração pela anciã. Talvez um dos motivos para justificar essa admiração seja exatamente a coragem para enfrentar as dificuldades e a crença de que precisava exercer o papel de mãe e de líder na família.

 

 

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