biografia

Nino Fernandes

Autor(es): José Fernandes Mendonça
Categorias:Estado, Amazonas, Biografia, Etnias, Ticuna
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Nino Fernandes e suas memórias

 

Magüta (palavra que na língua Tikuna significa “gente” ou “povo”)

grupo de pessoas que foram pescados com vara.

 

Das origens

NINO FERNANDES, clã de boy (woca/ Metacϋ), nasceu no dia 8 de novembro de 1954, na comunidade indígena de Filadélfia da Terra Indígena de Santo Antônio, ao meio dia. Oriundo de uma família formada por cinco integrantes, sendo ele o segundo filho de Delvina Fernandes ou Toe´, seu nome em Ticuna, da nação/clã de mutum (ngu’nϋ), e seu Irineu Fernandes, da nação/clã de onça (aicϋã’). Delvina e Irineu tiveram mais quatro filhas, irmãs de Nino, a mais velha se chama Olinda Felix Basques; a segunda irmã de Nino se chama Zulmira Alfredo Salvador, a terceira se chama Mariza Fernandes, e sua quarta irmã caçula se chama Irena Marculino Fernandes. Seus avós paternos se chamavam Alfredo Fernandes Bastos ou Wie’ (seu nome em Ticuna), da nação/clã de onça (aicϋã’), e Candida Félix ou Aǖ’ga (seu nome em Ticuna), da nação/clã de mutum (ngu’nϋ). Wie’, avô de Nino Fernandes, nasceu na ilha de Cleto terra indígena de Bom Intento na área do Município de Benjamin Constant/AM.

Nino Fernandes foi abandonado pelo seu pai Irineu Fernandes aos seus quatro anos de idade. Nessa época a sua irmã mais velha tinha dez anos de idade, a segunda, três anos, a terceira, dois anos, e a caçula ainda estava dentro da barriga da sua mãe, com oito meses de gestação. Nino passou por vários momentos difíceis da sua vida. Cresceu pescando, caçando, fazendo roça junto as suas irmãs e sua mãe. Iniciou sua trajetória escolar exatamente no ano em que o pai o abandonou. Nessa época, aos quatro anos, estudava em uma igreja católica que ficava na Terra Indígena de Santo Antônio. Quando a igreja Católica dos padres fechou, sua primeira professora, Francisca, mais conhecida como Chiquinha, passou a levar seus alunos para sua casa para continuar ensinando-os. Nino ia estudar só com um par de camisa e uma bermuda. Quando acabavam as folhas de seu caderno e o seu lápis, ele buscava papelão e carvão para escrever, para não perder a aula.

Mesmo enfrentando as dificuldades Nino nunca pensou em desistir da vida. Realmente ele era o verdadeiro herói – Nino Fernandes SEMPRE PRESENTE. Quando ele não ia para a aula, é porque estava preocupado com a obrigação de pescar para levar comida para sua casa. Ele era o único homem da família, quando não estava pescando ou estudando, estava ajudando sua mãe, fazendo sozinho o Tururi (um tecido espesso, chamado ngo’ȇ) para vender para os seus patrões – que na época eram Sr. Izílio e o Sr. Munízio, os primeiros patrões que tinham comércios para abastecer a cidade, e, segundo a minha avó, eles também foram os primeiros delegados de Benjamin Constant.

Aos oito anos de idade o Nino Fernandes teve que sair de perto da sua família para estudar na Colômbia, em uma comunidade indígena chamada Arara, onde ele morou com sua tia Luzia, prima da sua mãe. Depois de quatro anos ele teve que retornar para sua família porque a sua mãe não teve mais recurso para manter ele na Colômbia. Quando retornou, aos doze anos de idade, sua mãe, preocupada com seus estudos, matriculou Nino em uma escola de Benjamin Constant, onde começou a cursar a quinta série do ensino fundamental. Nino casou aos dezenove anos de idade e teve seis filhos, cinco homens e uma mulher.

Em 1985 a Assembléia dos Ticuna realizada na aldeia Vendaval elegeu Nino Coordenador do Conselho Geral da Tribo Ticuna-CGTT. Entre 2002 a 2007 também coordenou o Convênio de Saúde do Distrito de Saúde Especial Indígena (DSEI-Alto Solimões). Nessa época Nino Fernandes travou sua luta contra o extremo autoritarismo do governo brasileiro, lutou pela demarcação de terras indígenas, pela saúde indígena, pela educação diferenciada, pela identidade, pela preservação do meio ambiente e pela cultura indígena. Lutou contra os preconceitos, contra as perseguições, contra as rejeições, teve altos e baixo durante a sua luta, mesmo assim continuou lutando.

Nino lutou junto ao seu povo Ticuna e à sua família até a sua morte. Foi Monitor Bilíngue, servidor da FUNAI, e um dos principais líderes ícones de luta, força, garra, persistência, e resistência do Movimento Indígena no Alto Solimões. Lutou pela demarcação de terras, pela saúde indígena, pela formação dos professores. Sua postura sempre foi preparar caminho para as próximas gerações.

Em 1982, assumiu a presidência da Organização Geral dos Professores Ticuna Bilíngues- OGPTB. No decorrer da sua gestão, Nino Fernandes lutou pela educação indígena diferenciada, defendeu muito os direitos humanos, lutou com muita resistência, repudiou e se manifestou contra o massacre do Capacete, em março de 1988. Em sua carta sobre essa tragédia, Nino tentou transmitir a governantes locais o sofrimento causado pela morte de seus parentes Ticunas, o sofrimento causado desde que nós, Ticunas, estamos morrendo nas mãos do branco.

Nino Fernandes era servidor da Fundação Nacional do índio (FUNAI) desde 1986 e diretor do primeiro museu indígena do país, o Museu Magüta, localizado no município de Benjamim Constante, que foi muito importante na conquista de respeito dos ticunas no Alto Solimões. Magüta significa “povo pescado”, porque os Ticuna são como peixes, por isso deram o nome de Magüta ao museu. Nino dedicou sua vida à causa indígena, lutando pela preservação da sua cultura e demarcação das terras. Conseguiu uma parceria com a prefeitura para a manutenção do Museu apresentando um projeto, deixando para novas gerações de Ticunas projetos e ações previstas para os próximos anos. Nino sempre dialogou com as ONG’s e cooperação internacional relacionadas aos direitos humanos, além de buscar apoio e parceria junto a outros povos indígenas em projetos de desenvolvimento comunitário e outras reivindicações comuns. Ele costumava dizer que nós, ticunas, crescemos muito enquanto povo, resolvemos nos organizar, e conseguimos.

Desde então lutava pela demarcação das nossas terras, para solução dos problemas de educação e saúde. Enquanto não tivesse cursos para saber trabalhar com seu próprio chão, com sua própria terra, Nino não ficaria satisfeito. Nino Fernandes sempre manteve sua preocupação quanto à preservação do Museu Magϋta, da cultura, suas terras e fronteiras. Nino foi o primeiro professor Ticuna, formou muitos ticunas, supervisionava escolas ticuna desde 1997, contribuindo enormemente para a educação indígena do país.

Aos 63 anos de idade, Nino encerra sua jornada em vida, três anos após o falecimento de sua mãe. O falecimento do Nino, dia 6 de fevereiro de 2018, ocorreu devido a um infarto. Ele começou a sentir dor no ombro do lado direito, próxima à região do coração, às 16 horas do dia 05 de fevereiro. Estava partindo lenha para torrar farinha quando começou a sentir a dor. Então ele permaneceu ali enquanto a esposa estava torrando farinha. Ao terminar de torrar, ele subiu pra casa tomou seu banho entrou no quarto e deitou na cama. Às 22hs pediu que sua esposa e sua filha chamassem a ambulância, mas elas não puderam localizar nenhum contato de emergência que atendesse àquela hora. Apenas no dia seguinte, a ambulância da saúde indígena foi acionada, às 17 horas. Como sempre em qualquer lugar a ambulância demorou a chegar até sua casa. A dor já era bastante intensa, ele mal aguentava, gritava de tanta dor, e a sua respiração já estava curta, estava sem ar. Por falta de oxigênio no Hospital de Benjamin Constant, precisou esperar ainda para ser removido para o Hospital de Tabatinga, a meia hora de barco de distância de onde estava. Durante essa remoção ele não aguentou e faleceu. Morreu durante a viagem, no rio Solimões, próximo à ilha do Bom Intento, onde nasceu Wie´, seu avô.

Por falta de respeito, de compromisso com a saúde púbica, de atendimento de qualidade, Nino veio ao óbito. A família considera isso como uma negligencia física, por ser pobre, por ser indígena, por não ser elitizado ou não ser da família de um político importante. É claro, na concepção do povo Ticuna, existe outra visão a respeito da morte do Nino Fernandes. Nosso entendimento é a intervenção de agentes externos enviada pelo pajé/ o feitiço. Toda essa interferência é causada pela inveja, quando são acumulados alguns bens ou ter mais ou menos a condições de vida melhor do que conjunto da comunidade, isso passa atrair a “inveja”. Nino não morreu à toa, tudo isso é por causa da inveja, ódio, raiva. A morte do Nino Fernandes é uma morte súbita, inaceitável, ninguém esperava por isso. A família não se conforma com essa morte. Era muita dor, lamentações, gemidos. A família não aceita porque ele não estava doente há nem um mês, foi apenas de um dia para o outro.

Hoje o povo Ticuna perde uma das maiores lideranças do povo Ticuna. Nino era considerado como um advogado do povo Ticuna, era ele quem resolvia os problemas, não só familiares e sim para todos. Hoje Nino é lembrado em todos os momentos entre a família, gerando muita comoção. Nino Fernandes sempre será lembrado. NINO FERNANDES – PRESENTE.

 

José Fernandes Mendonça, autor desta biografia, é sobrinho de Nino Fernandes, filho de Mariza Fernandes e José Eude Mendonça. Foi professor na rede estadual de educação do Amazonas, é mestre em Linguística pelo Museu Nacional.

Email: biofernandesufrj@gmail.com

 

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