biografia

Povo Xukuru do Ororubá

Autor(es): Edson Silva
Categorias:Biografia, Estado, Pernambuco, Etnias, Xukuru
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O povo Xukuru do Ororubá habita nos municípios de Pesqueira e Poção, a cerca de 215 km do Recife, na região Agreste do Semiárido pernambucano. Em 2013 os Xukuru do Ororubá, sendo a maior população indígena em Pernambuco, foram contabilizados em 12.139 indivíduos (LEAL e ANDRADE, 2012, p.8), em 24 aldeias a Serra do Ororubá e adjacências. Além de várias famílias indígenas habitando em sua maioria o Bairro “Xucurus” e também em outros bairros na cidade de Pesqueira.

LOCALIZAÇÃO DO TERRITÓRIO XUKURU DO ORORUBÁ
Fonte: jornal Folha de São Paulo, 07/04/1996, p.11.

 

A convivência com a região do Semiárido é muito difícil. Com pouca quantidade de chuvas, onde ocorrem secas periódicas, muitas vezes calamitosas, agravando a qualidade dos solos e o aproveitamento dos recursos naturais disponíveis. Avida está intimamente relacionada a alguns poucos rios intermitentes que nascem nas serras e correm em direção ao litoral, bem como os chamados “brejos de altitudes” e os “brejos de pé-de-serra”, espaços de clima ameno onde uma elevada densidade populacional coexiste com as atividades agrícolas e a pecuária. A região montanhosa favoreceu a formação desses brejos constituídos de espaços úmidos, manchas ou bolsões, diante da aridez acentuada do clima predominante (SILVA, 2016).
Nas cercanias do Vale do Ipojuca estão localizados os brejos de São José e Ororubá, ambos situados na Serra do Ororubá, em Pesqueira, e o de Poção, no município vizinho com o mesmo nome. A fertilidade das terras nos brejos na Serra do Ororubá, onde habita o povo Xukuru do Ororubá, foi sempre evidenciada. No Diccionario Chorographico, Histórico e Estatístico de Pernambuco, publicado em 1908, foi ressaltada a produção agrícola de Cimbres, com milho, feijão, mandioca, algodão, fumo, cana-de-açúcar e batatas, além de frutas como ananases, laranjas, cajus, goiabas, bananas e pinha. O autor acentuou, porém, que essa produção advinha da Serra, pois, “geralmente fraca no município, a agricultura, é futurosa na Serra do Ororubá pela uberdade de que oferece” (GALVÃO, 1908, p. 181).
Em outro trecho, o autor afirmou que, além da abundância da criação de gado, cavalos, ovelhas e cabras, existiam animais silvestres na região, como veados, caititus, onças de diversas espécies, raposas, gatos maracajás, tatus, tamanduás, coelhos, mocós, preás, guarás, furões, maritacas e tejus, juntamente com aves de diversas espécies e portes. Afora o cedro, foram citadas outras árvores nativas e seus usos medicinais (Idem, ibidem).

 

MAPA DO TERRITÓRIO INDÍGENA XUKURU DO ORORUBÁ

Fonte: Projeto de Capacitação e Assessoria Técnica Xukuru do Ororubá, 2007.

 

A colonização portuguesa na região onde habitam os atuais Xukuru do Ororubá, ocorreu a partir de 1654 quando O Rei de Portugal fez doações de grandes sesmarias de terras a senhores de engenho do litoral para criação de gado. Em 1661, atendendo solicitação oficial, os padres Oratorianos fundaram o Aldeamento do Ararobá de Nossa Senhora das Montanhas, onde também possuíram fazendas de gado utilizando a mão-de-obra indígena. (MEDEIROS, 1993). Conforme determinou a legislação portuguesa, após o Diretório do Marquês de Pombal de 1757, o antigo Aldeamento do Ararobá foi elevado em 1762 à categoria de Vila com o nome de Cimbres. Em 1880 a sede do município foi transferida para Pesqueira e Vila de Cimbres passou a condição de distrito.
Num ambiente de clima predominante seco e com falta de chuvas, as disputas pelas regiões úmidas e pelas fontes de água foram intensas: os conflitos nas terras do antigo aldeamento de Cimbres envolvendo fazendeiros invasores e os índios os primeiros habitantes. Com expansão pastoril cada vez mais acentuada, restringindo, assim, as lavouras de subsistência. Os brejos das serras, foram sendo usados como refrigério para o gado, em períodos de longas estiagens. Por outro lado, o plantio do capim para a pecuária, em áreas de caatinga ou nas cercanias das matas de serra, provoca a erosão do solo tão pobre.
As terras do antigo aldeamento de Cimbres foram ao longo do tempo invadidas por arrendatários que se apossavam das terras indígenas. No Século XIX aumentaram as invasões das terras indígenas pelos antepassados das famílias tradicionais, a oligarquia em Pesqueira. Com a Lei de Terras em 1850, esses invasores e as autoridades provinciais passaram a solicitar ao Governo Imperial a extinção do aldeamento Xukuru. A Câmara de Pesqueira em ofícios endereçados as autoridades provinciais, alegando que não existiam mais índios Xukuru e sim caboclos e da necessidade de expansão do Município, requeria continuadamente as terras indígenas como patrimônio. Atendendo as insistentes solicitações, em 1879 o Governo Imperial decretou oficialmente a extinção do Aldeamento de Cimbres. Foram favorecidos os arrendatários, muitos deles vereadores e fazendeiros invasores das terras Xukuru, membros da elite local com consideráveis relações e influências na política provincial e nacional.
Fugindo das perseguições famílias Xukuru se dispersaram pela região, ou foram morar em terras de outros ex-aldeamentos e nas periferias das cidades. Dona Josefa recordou que os seus antepassados contavam como foram enganados com bebida e perseguidos se dispersaram.
Meu pai também contava, meu avô também contava. Naquele tempo todo mundo tinha suas terras. E os brancos fazia o quê? Os brancos pegava dava uma garrafinha de cachaça para os índios, os índios inocente, não é? Dava uma garrafa de cachaça para os índios, os índios ficava bêbado, depois jurava de morte, os bichinhos fugia tudo, eles tomava conta das terras toda. Foi assim que aconteceu. Por isso que está tudo pelo meio do mundo, uns na cidade, outros longe, outros em São Paulo, meus irmãos mesmos estão tudo em São Paulo
Outras famílias mesmo discriminadas sendo chamadas de “caboclos do Orubá”, resistiram em pequenas glebas de terras, os chamados “sítios” em locais de difíceis acessos, e outras ficaram trabalhando em suas próprias terras, exploradas como mão-de-obra pelos fazendeiros, como relatou o Pajé Xukuru “Seu Zequinha”,
Tinha um fazendeiro, um fazendeiro não, um capitão. Chamava-se Capitão Américo, que veio pedir uma queimadinha para plantar cabaço para fazer cuias para os escravos, que ele tinha uma senzala de negro. Para fazer cuia para os negros comerem dentro das cuias, dentro dos batedor. Ele disse, “olha caboclo, aonde eu queimar é meu, não é?”. Aí o caboclo pensou que era… chamava caboclo, para diminuir já, não chamava mais índio. Ele disse “é tá certo, onde queimar…”. Danou fogo, sem fazer acerto, sem fazer nada, o fogo veio sair perto de Cana Brava. Aí ele disse “aqui tudo é meu”, sabedoria! Ele ameaçou os índios, aí tomou tudo, tomou. Isso não dá nada, não dá nada, parece que dá uns 5 mil hectares por aí, oxente dá muito mais, dá uns 10 mil hectares! Aí ele passou a mão até tomar… Américo, Capitão Américo na época. Aí disse que hoje os familiares dele tomaram até Capim de Planta que chamavam… a Serra toda, para chegar em Cana Brava, tudo era dele! Agora eles venderam a outros proprietários, os tempos passaram eles venderam para outras pessoas (grifamos).

Entre os fins do Século XIX e nas primeiras décadas do Século XX, encontravam-se índios Xukuru dançando o Toré na Vila de Cimbres, como registrou o pesquisador Pereira da Costa no livro Vocabulário pernambucano. Em 1935 o jornalista Mário Melo publicou o artigo “Etnografia pernambucana: os xukurus de Ararobá”, na Revista do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP), onde afirmava a presença de famílias Xukuru em Cimbres, inclusive com falantes da língua indígena. Mário Melo afirmou também ter recebido informações do sertanista Curt Nimuendajú que recentemente “estivera em contacto com os descendentes dos xucurus” (MELO, 1935, p.44).
Escreveu ainda Melo, “Existem ainda cerca de 50 indivíduos, já cruzados alguns, porém que conservam estigmas dos ameríndios, como tais facilmente reconhecíveis, apesar de ausência completa de semelhança com o mongol”. (Id., ibidem). O autor pernambucano fez uma comparação com os índios Carnijó de Águas Belas, acentuando que contrariamente aqueles os de Cimbres “vivem desagrupados” e que “já não conservavam tradições, nem religião”. “Quase que perderam a língua”, mas guardavam ainda algumas palavras, faladas com o Português “em forma de gíria”. (Id., ib.).
Sobre a religião Mário Melo escreveu que se tratava de “uma espécie de idolatria, por infiltrações do catolicismo”. E ainda, “Sabem, perfeitamente, que descendem da Tribu xucurú, que ocupou aquela região, tem orgulho da sua procedência e julgam superiores aos outros habitantes, guardando rancor dos brancos por lhes haverem tomado as terras”. (Id., ib.). Depois de citar informações históricas da formação “Aldeia do Ararobá”, Melo destacou a importância das investigações de Nimuendajú em razão da “identificação dos remanescentes indígenas”, criando um neologismo para expressar sua visão sobre a situação: ocorria uma ocorria uma “defamiliarização”.
O então conhecido jornalista Mário Melo, também Secretário Perpétuo e editor Revista do IAGHP, afirmou ao longo do texto e nas conclusões do seu artigo a necessidade de estudar “os remanescentes indígenas” que estavam “desaparecendo sem deixar vestígios”, em localidades do Agreste e Sertão pernambucano. Fazendo comparações entre o primitivo/degenerado, o bárbaro/moderno, o autor expressou nesse e em demais artigos publicados na imprensa pernambucana, uma perspectiva que via os índios como vítimas do progresso inerente à civilização. Uma civilização naturalmente construída sobre as ruínas de grupos inadaptáveis. Civilização da qual o próprio autor se julgava um representante, um observador enquanto estudioso dos “remanescentes” de índios, os caboclos em degeneração.
Mesmo após a decretação oficial do fim do Aldeamento em fins do Século XIX e diante das proibições, perseguições e violências coloniais, os Xukuru praticavam seus cultos religiosos realizando-os às escondidas. Nas primeiras décadas do século XX, os Xukuru assim como outros povos indígenas no Nordeste, retomaram com mais vigor as mobilizações pela posse de suas terras e garantia de seus direitos, pressionando as autoridades do Serviço de Proteção ao Índio/SPI. O primeiro relatório oficial contemporâneo sobre os Xukuru data de 1944 e foi feito por Cícero Cavalcanti, sertanista a serviço do SPI. (ANTUNES, 1973, p.40-43).
Nesse Relatório o sertanista citou os Xukuru como habitantes em várias localidades na Serra do Ororubá e que os “caboclos mais velhos” por se reunirem para realização dos seus rituais, eram denunciados à polícia como catimbozeiros pelos “brancos”, os fazendeiros invasores nas terras indígenas. Líderes dos cultos indígenas foram intimados a comparecer à Delegacia em Pesqueira e os índios estavam proibidos pela polícia de praticar “o segredo” do Ouricuri. Os invasores das terras indígenas procuravam reprimir as expressões de afirmação da identidade indígena a qualquer custo. Outros indígenas foram denunciados tendo as autoridades policiais “os proibido de curatórias”. O sertanista afirmava ainda que “alguns costumes Xukurus ainda vivem em seu coração”. O Toré era dançado na Festa de Nossa Senhora das Montanhas, em Cimbres.
Em 1954 foi instalado um Posto do SPI na Serra do Ororubá. Uma conquista dos Xukuru, mas que não solucionou os conflitos com os fazendeiros invasores nas terras indígenas. Isso porque a política do órgão indigenista oficial para o Nordeste foi baseada no discurso da falta de comprovação documental/jurídica de territórios indígenas, compensada pela redução de áreas pretendidas ou a aquisição de pequenas glebas de terras. Ou seja, em um modelo de ação de “insularização” das populações indígenas em “ilhas” geridas pelo SPI, cercadas por não índios, como no caso dos Xukuru. (PERES, 1992, p.126-127).
A partir dos anos 1990 os Xukuru passaram a se autodenominarem Xukuru do Ororubá. Afirmando terem escolhido essa denominação para não serem confundidos pelos não-índios (leia-se a imprensa e a sociedade em geral) com um outro povo indígena, os Xukuru-Kariri em sua a maioria habitando no Município de Palmeira dos Índios/AL.

 

As memórias Xukuru do Ororubá sobre a Guerra do Paraguai

Entre os índios no Nordeste encontramos diversos relatos da participação de seus antepassados na Guerra do Paraguai. Os Xukuru do Ororubá expressam em muitos relatos orais, suas memórias sobre aquele conflito. Nas narrativas dos Xukuru são lembrados enfaticamente “os 30 do Ororubá”, combatentes que se destacaram em uma das batalhas na Guerra do Paraguai,
Eu ouvi falar assim, é uma história nossa que nós temos dizendo que os Xukuru foram para a Guerra do Paraguai brigarem. Foram 30, morreram 12, voltaram 18. Então eu ouvi falar, então foi os índios do Brejinho, não lembro nem aonde mora, nem o nome deles. Eles são da família dos Nascimento, lá na Aldeia Brejinho. E foi mais uns outros de outras aldeias Xukuru, e foi uma índia chamada Maria Coragem também. E lá eles brigaram na Guerra… aí levaram a bandeira… e pediram para eles irem buscar. Então, eles foram, eles já tinham passado… E eles chegaram na beira do rio, e eles já tinham atravessado o rio, eles entraram no mato, cortaram madeira, cortaram cipó, fizeram um barco, foram lá, cortaram tudo de facão e trouxeram a bandeira para a Princesa Isabel.
Sobre o relatado acima, um pesquisador escreveu que o fato ocorreu durante a Batalha de Tuiuti, um dos maiores embates da Guerra do Paraguai quando,
O inimigo arrebatou a bandeira dos “30 de Voluntários”, batalhão integrado pelos nossos índios xucurus. O Comandante, Ten. Cel. Apolônio Peres Cavalcanti Jácome da Gama, em assomo de desapontamento, bradou para os seus soldados (os nossos índios) que retomassem a bandeira e pouco depois a companhia de guerra que partira no cumprimento da ordem, regressava reduzida a 10 ou 12 homens trazendo o nosso pavilhão a despeito de quase transformado em farrapos. (MACIEL, 1980, p.116).

Os Xukuru do Ororubá relatam também que os seus antepassados voltaram com condecorações da Guerra do Paraguai: “O Irmão da Hora trouxe um terno, de reis. Digo, porque o terno eu vi. De coroa, galão e todo, porque ganhou esse prêmio Irmão da Hora, Antônio Molecão e Antônio Tavarinho”. Em seus relatos, os indígenas falam ainda de quepes, medalhas, espadas, “diplomas da Guerra”, roupas e outros adereços militares, além dos “títulos de terra”, trazidos pelos que retornaram da Guerra. Como afirmou ainda um entrevistado,
Da Guerra do Paraguai o que eles trouxeram espada, trouxeram coturno, trouxeram estrela e um major Candinho eles foi Chefe de Posto aqui dentro e levou essas coisas, essas coisas ninguém sabe onde elas estão, se estão em museu, se estão no Exército. É uma história que estou contando porque a gente ouviu falar, mas não sentou aquela pessoa para me dizer à verdade sobre a Guerra do Paraguai.

A partir das leituras da participação de seus antepassados na Guerra do Paraguai, os Xukuru do Ororubá afirmam que “eles venceram a guerra”, o que lhes garante o direito às suas terras, como relatou um dos entrevistados,
Chamavam o número Trinta dos Voluntários. Chama os Trinta dos Voluntários porque foram pro Paraguai, lutaram na guerra lá, venceram… mas quando veio de volta, passaram no Rio de Janeiro, o rei e a rainha não tinham com que agradecer a eles e disse: ‘vocês faça sua divisão de terra, é patrimônio que eu vou assinar pra vocês” (grifamos).

Dona Josefa também relatou sobre o significado da participação de seus antepassados na Guerra do Paraguai,
A pessoa que foi para a Guerra, naquele tempo eu não era nascida, eu sei contar coisa assim, alguma coisa que eu já ouvi meu avô falar, meu pai. Os parentes deles foram para a Guerra, lutaram, venceram a Guerra. E depois que eles lutaram e venceram a Guerra, a Princesa Isabel queria dar dinheiro para eles. D. Pedro disse “não dê, porque eles são inocentes, os brancos vão roubar o dinheiro, a terra deles. Dê terra a eles, não dê dinheiro, não”. Aí ela foi e deu a terras a eles. Ganharam aquela roupa de ouro, com aqueles botão de ouro, aquele chapéu, aquelas coisa, não é? E ganharam a terra também. O principal foi a terra que justamente essa terra que ainda hoje estão lutando, querendo acabar com os índios, sabendo que a terra é dos índios porque foi ganha. Está lá no Rio de Janeiro, essa cópia das terras está no Rio de Janeiro.

Ou ainda, como afirmou de forma mais explícita, o Zé de Santa, o Vice Cacique Xukuru do Ororubá:
Olhe, a dádiva que da Guerra foi oferecido dinheiro e ouro. Só que para os índios, dinheiro e ouro não eram interessantes, interessante era a terra. Aí eles disseram que ao invés de ouro eles queriam uma coisa que nunca se acabasse, que era a terra que estava na mão de algumas pessoas que não deixavam eles trabalhar. Então, eles queriam a terra para eles viverem, os filhos deles viverem e os filhos dos filhos deles. Isso aí foi o pagamento que eles receberam, que eles pediram (grifamos).

 

Os tempos do SPI

Os povos indígenas no Nordeste que tiveram os aldeamentos extintos na segunda metade do Século XIX, ao tomarem conhecimento da existência do SPI um órgão federal fundado em 1910 para prestar assistência aos índios, iniciaram mobilizações para obterem o reconhecimento pelo Estado brasileiro. Nas memórias orais Xukuru do Ororubá, encontramos narrativas dessa mobilizações pelo reconhecimento oficial. Os indígenas narram, a exemplo do relato abaixo, que após procurarem ajuda financeira do padre de Bom Conselho/PE, três índios foram a pé ao Rio de Janeiro encontrar-se com o Marechal Rondon, fundador do SPI
Aí eu disse: – vocês vão lá, chegar em Bom Conselho, tem um padre chamado beneditinos, ele protege o índio de Águas Belas, de Palmeira dos Índios. Esse padre é muito bom… vocês se entendem com ele que ele dá mais uma proteção, conhece Cândido Rondon. Aí arranjei uns dinheiro, o padre vai dá 500 mil réis. Esses homens saíram daqui no 1º de outubro de 1953 e chegaram no Rio de Janeiro no dia 1º de janeiro de 1954. Levaram três meses. Foram de pés. Passaram 90 dias de viagem.
As viagens dos indígenas para Recife na tentativa de falar com as autoridades provinciais, ou as viagens ao Rio de Janeiro para conseguir uma audiência com o Imperador, na busca pela garantia de seus direitos, ocorreram desde o século XIX. Na documentação da Diretoria dos Índios de Pernambuco, disponível no Arquivo Público estadual, existem registros de viagens de Manuel Valentim ao Rio de Janeiro. Líder dos índios no Riacho do Mato, que foram transferidos da extinta Aldeia da Escada e estavam sendo perseguidos por grandes posseiros invasores do novo local a eles destinados, Valentim foi pelo menos três vezes à Corte reclamar os direitos de seus parentes indígenas (SILVA, 1995).
Com a viagem ao Rio de Janeiro, além do reconhecimento oficial, os Xukuru conquistaram o direito à instalação de um Posto do SPI nas terras onde habitavam. Um passo político decisivo diante das perseguições dos fazendeiros invasores do território indígena, como afirmara em seu Relatório de 1944 o sertanista Cícero Cavalcanti.

 

Os tempos do Cacique “Xicão”

Em fins dos anos 1980 após a participação na campanha da Assembleia Nacional Constituinte, com a atuação marcante do Cacique “Xicão” (Francisco de Assis Araújo), os indígenas retomam a mobilização por seus direitos. Motivados pelas conquistas na Constituição de 1988 e contando com o apoio de outros povos indígenas no Nordeste e de setores da sociedade civil, a exemplo do Conselho Indigenista Missionário/CIMI, os Xukuru do Ororubá iniciaram a retomada de seu território tradicional, reocupando áreas de várias fazendas até então nas mãos de posseiros.
O acirramento dos conflitos entre os “Xucurus” e fazendeiros que eram posseiros nas terras então reivindicadas pelos indígenas, entre os fins dos anos 1980 e meados dos anos 1990, foi motivo de extensas reportagens publicadas no Diário de Pernambuco, no Jornal do Comercio ambos do Recife e no jornal Folha de São Paulo. Enquanto os fazendeiros negavam a presença de índios “puros” ou a ocorrência dos conflitos, os indígenas denunciavam as violências, a miséria e a fome em razão de terem suas terras invadidas por grandes criadores de gado.
Nas mobilizações Xukuru do Ororubá na década de 1980, destacou-se a atuação de Francisco de Assis Araújo, o Cacique “Xicão” como ficou conhecido. Além de ser uma liderança carismática para o seu povo, foi também uma expressiva e reconhecida liderança entre os demais povos indígenas no Nordeste, alcançando ainda uma considerável projeção no movimento indígena no país. Sob sua liderança os Xukuru do Ororubá pressionaram os órgãos públicos pelo reconhecimento de seus direitos e a demarcação de suas terras.
A atuação do Cacique “Xicão” provocou a ira dos fazendeiros, a oligarquia de Pesqueira, tradicionais invasores das terras Xukuru, financiadores de um pistoleiro que assassinou o Cacique em 20/05/1998. A atuação do Cacique “Xicão” foi bastante significativa para o povo Xukuru, já que sob sua liderança as áreas do território indígena retomadas das mãos dos fazendeiros, permitiram que os indígenas pudessem plantar e colher superando a miséria e a fome de anos, voltarem a ter dignidade. Por isso e em razão de “Xicão” ter sido assassinado de forma brutal, “Mandaru”, como ele é chamado pelos indígenas, é reverenciado como um herói do povo Xukuru.

 

Toré na Vila de Cimbres em 23/05/2005

(Foto: Edson Silva)

 

Na Festa anualmente celebrada na Aldeia Vila de Cimbres dedicada a N. Sra. das Montanhas, a quem os Xukuru do Ororubá chamam de “Nossa Mãe Tamain”, os índios afirmam que a santa é uma cabocla e lhes apoia nas mobilizações pela terra. Depois da procissão os índios entram no templo católico romano carregando o andor gritando “Viva Tamain, Pai Tupã e o Cacique Xicão” (SILVA, 2002).
“Xicão”, portanto é bastante lembrado e reverenciado, como expressou um dos entrevistados,
(…) estava falando sobre o tempo em que aqui existia cacique da Funai, não tinha cacique, era cacique da Funai e até que nasceu o Cacique Xicão foi lutar por nós, foi assassinado…morreu por nós, não se vendeu a ninguém, certo? E estamos lutando para que o nosso povo seja liberto, na nossa área. Aqui chegou o tempo de nós trabalharmos aqui dentro das nossas terras… E hoje nós temos aqui, essa área aqui, nós temos muito trabalho do Cacique Xicão, a saudade é grande que nós temos, mas quando o Cacique Xicão levaram ele, que lá ou os fazendeiros achava que calando a boca do Cacique Xicão, calava a boca dos Xukuru, mas não. Nós nos unimos, nos organizamos e nasceu mais índio Xukuru”.

A 1ª Assembleia do Povo Xukuru do Ororubá com o tema “Em memória viva do Cacique Xicão”, foi realizada na Aldeia Pedra D’Água de 18 a 20 de maio de 2001, três anos após o assassinato do seu líder. Os Xukuru discutiram a história e o processo de organização que vivenciavam naquele momento. A importância de “Xicão” para o povo os indígenas pode ser compreendida pela dimensão dos atos religiosos e políticos que anualmente vem sendo realizados no dia 20 de maio, data de seu assassinato. No ato público que ocorre naquela data participam um considerável número de delegações de outros povos indígenas e parceiros da causa indígena. Os Xukuru do Ororubá visitam o túmulo do seu querido Cacique, que como afirmam “está plantado, para que dele nasça novos guerreiros” na mata da Aldeia Pedra D’Água. Participam de uma missa celebrada no local e em seguida caminham em um grande número da Serra do Ororubá até a Cidade de Pesqueira, para o Bairro “Xucurus” até o local onde o Cacique foi assassinado, onde realizam um grande ato público encerrando as manifestações daquele dia.

 

História, memórias e identidade Xukuru

A história Xukuru é pontuada por acontecimentos, marcos e situações que os indígenas consideram fundantes tais como: a Guerra do Paraguai, os tempos do SPI e os tempos de “Xicão”. A participação dos Xukuru na Guerra do Paraguai foi e é relida em diferentes contextos. Um deles foi a reorganização e mobilizações para retomada das terras nos anos 1980, sob a liderança do Cacique “Xicão”.
Questionado sobre qual foi a importância da participação dos seus antepassados na Guerra do Paraguai, o Pajé “Seu Zequinha”, uma das figuras centrais no processo de reconhecimento dos marcos para o processo de demarcação do território Xukuru do Ororubá nos anos 1990 afirmou,
Foi importante porque na época aqui existia uns coronéis, uns capitães, uns tenentes. Só bastava, era o pessoal que podia comprava aquelas patentes de tenente, de capitão e aí massacrando os índios. Depois que eles vieram, melhorou. Trouxeram os títulos, aí eles não puderam… Eles tomavam a terra, eles tomavam, “aqui é meu, é meu e pronto, acabou-se”.
Observando-se as narrativas recentes das memórias Xukuru do Ororubá, constata-se que os acontecimentos passados também sãos relidos a partir dos “tempos do Cacique Xicão”. Em Janeiro de 2002 ocorreu um conflito interno resultando em uma divisão entre os indígenas. As disputas foram estimuladas por interesses políticos externos, provocando um atentado contra o atual Cacique Marcos (filho de “Xicão”) e o assassinato de dois índios que o acompanhava. Após o atentando, um grupo de famílias dissidentes foram expulsas do território Xukuru do Ororubá constituindo os Xukuru de Cimbres
Durante o tempo em que durou o conflito as memórias sobre o Cacique “Xicão”, chamado o “Guerreiro da Paz”, foram outra vez lembradas. As formas de organizações elaboradas no tempo de sua liderança foram enfaticamente recordadas como as únicas e legítimas, como garantia da unidade, pelo grupo majoritário que permaneceu no território Xukuru do Ororubá.
Compreender os significados das narrativas sobre o Cacique “Xicão” para os Xukuru do Ororubá é compreender a “história de experiências”. Um debruçar sobre essas narrativas, possibilita entender como “pessoas ou grupos efetuaram e elaboraram experiências”. (ALBERTI, 2004, p.25). Essas experiências foram e são marcantes porque foram intensamente vividas. As narrativas do povo Xukuru do Ororubá nos ajudam ainda “entender como pessoas e grupos experimentaram o passado e torna possível questionar interpretações generalizantes de determinados acontecimentos e conjunturas” (Idem, p.26).
Analisando os relatos Xukuru do Ororubá, é possível afirmar como escreveu Michael Pollak quando discutiu sobre memória e identidade social, que entre os citados indígenas é “perfeitamente possível que por meio da socialização política, ou da socialização histórica, ocorra um fenômeno de projeção ou de identificação com determinado passado, tão forte que podemos falar numa memória quase herdada” (POLLAK, 1992, p.2). Buscamos evidenciar como os Xukuru do Ororubá, apoiados na memórias e na história que compartilham sobre o passado, fazem à releitura de acontecimentos e situações que escolheram como importantes, para construírem a identidade, afirmarem seus direitos enquanto o povo indígena Xukuru do Ororubá.

 

Índios Xukuru no corredor do Congresso Nacional em Brasília/DF, no período da
Constituinte. Da esquerda para direita o 2º é “Xicão” e, o seguinte, o Cacique Zé Pereira.

(Arquivo Pessoal de Zé Pereira Xukuru do Ororubá)

 

A partir dos anos 1980, liderados pelo Cacique “Xicão”, os Xukuru do Ororubá estimulados pela participação nas mobilizações da Assembleia Nacional Constituinte que reconheceu e fixou os direitos indígenas na Constituição aprovada em 1988, iniciaram a retomada dos seus territórios. Para impedir a organização e mobilização indígena os fazendeiros planejaram o brutal assassinato do Cacique “Xicão” ocorrido em maios de 1998. A despeito dos assassinatos posteriores de outras lideranças como “Xico Quelé” , das perseguições e ameaças, os Xukuru do Ororubá tiveram suas terras homologadas pelo Governo Federal, em 2001.
Após a demarcação, tornaram-se visíveis matas que cresceram em vários pontos do território Xukuru do Ororubá. Uma delas, a mais importante, é a Mata da Pedra d’Água, na Aldeia do mesmo nome, primeira área retomada pelos indígenas em 1991, por estar sendo desmatada. Era nesse local onde apesar das proibições e perseguições dos fazendeiros os indígenas realizavam rituais e também onde atualmente estão sepultados guerreiros e guerreiras. Ou como dizem os Xukuru do Ororubá, naquele local estão os que assim como o Cacique “Xicão” foi “plantado”, para que deles nasçam novos guerreiros e guerreiras.

 

Cacique “Xicão” discursa durante audiência de lideranças indígenas com o Governador Miguel Arraes, no Palácio Campo das Princesas (Recife/PE), em 30/01/1996.

(Foto: Arquivo CIMI-NE)

 

Após a demarcação, os indígenas cuidaram em preservar as áreas de matas restantes que aumentaram consideravelmente. Com a caça proibida em comum acordo entre os indígenas, circulam notícias da presença de veados e outros animais de grande porte. Constata-se ainda uma diversidade de pássaros antes considerados extintos no território indígena. As matas são locais tidos como a Natureza sagrada, morada dos “Encantados” cultuados pelo Xukuru do Ororubá, que se reinventam e reescrevem a História como um povo indígena habitando o Semiárido nordestino
Apesar da degradação ambiental com o mau uso dos recursos naturais pelos invasores ao longo de anos, a demarcação do território em 2001 foi a concretização do sonho tão esperado, que vem possibilitando a fartura, o vicejar da vida e a dignidade para os indígenas. Produtos agrícolas orgânicos, trazidos por índios de aldeias na Serra do Ororubá e que são vendidos em uma feira semanal no centro de Pesqueira e também na vizinha cidade de Arcoverde, são representativos de uma nova etapa na história do povo Xukuru do Ororubá.

 

Referências

ALBERTI, Verna. Ouvir contar: textos em História Oral. Rio de Janeiro, FGV, 2004.
ANDRADE, Manoel C. de. A terra e o homem no Nordeste. 6º ed. Recife, Edufpe, 1998.
ANTUNES, Clóvis. Wakona-Kariri-Xucuru: aspectos sócio-antropológicos dos remanescentes indígenas de Alagoas. Maceió, UFAL, 1973.
GALVÃO, S. V. Diccionario chorographico, histórico e estatístico de Pernambuco. Rio de Janeiro: [s.n.], 1908.
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2004.
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