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Zorobabé – Os Brasis e suas Memorias

biografia

Zorobabé

Autor(es): Geraldo Gustavo de Almeida
Biografado: Zorobabé
Povo indígena: Potiguara
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Potiguara
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Famoso cacique potiguara. Era soberbo e irrequieto. Resistiu bastante aos invasores portugueses, mas acabou fazendo as pazes com eles e seus aliados tabajaras em 1599. Foi um homem de muitas proezas e aventuras. Vejamos alguns relatos de suas façanhas: “Em 1603 estava a Bahia sob a ameaça de ser assolada pelos aimorés, que já haviam reduzido a ruínas as capitanias de Ilheus e Porto Seguro. Nada podiam os moradores locais nem as guarnições do governo contra esses ferozes indígenas. Mandou-se então para Paraíba e do Rio Grande do Norte, por ordem do governador-geral, uma força, de oitocentos índios potiguaras, porque se entendia que só com semelhante gente seria possível bater terrível inimigo. Outra razão concorreu para o envio dos potiguaras, porquanto já estavam em paz com os portugueses e convinha distrai-los na luta, evitando-se desta forma o perigo de um levante, sob qualquer pretexto”.  O número de oitocentos flecheiros vem mencionado em Frei Vicente e Varnhagen, mas de uma certidão fornecida pela câmara de Olinda, datada de 15 de março de 1603, “tal numero se eleva para 1500, embarcados em Olinda, em 7 navios”, conforma esclarece Rodolfo Garcia nos seu comentários a Varnhagen. Bem mais poderia ser, pois que os Potiguaras de Capaóba, na opnião de Simão de Vasconcelos, “tinham condições para por em campo de 20 a 30 mil arcos”. Os potiguaras somente concordaram em descer a Serra de Capaóba, depois que lhes foi dada a garantia de que, acabada a luta, voltariam ao seio de suas famílias. Assim, estabelecido o pacto, tomaram as armas, tendo por capitão o oficial Francisco da Costa e por guia espititual o jesuíta Diogo Nunes. Chefiava os índios o famoso cacique Zorobabé. “Ao chegarem à Bahia o perigo dos aimorés estava passado. Surgiu, porém, um perigo maior, já agora contra os próprios potiguaras, ameaçados de ficarem cativos agora na Bahia, como era costume dos colonos ali residentes”. Segundo Southey, cuja opinião Galanti endossa, o oficial comandante parecia comprometido no plano de cativeiro dos potiguaras, tanto que, para facilitar a sua execução, aquartelou uma parte dos índios na cidade de Salvador e outra em Ilhéus. Isto feito pôs todo o seu empenho para que os índios resolvessem ficar e quando viu a inutilidade dos seus esforços quis obriga-los pela força, ameaçando declara-los rebeldes, caso em que estariam sujeitos ao cativeiro. “Diante do perigo que punha em risco a sua liberdade os potiguaras se puseram em som de guerra, conforme declara Frei Vicente do Salvador, preferindo perder a vida com dignidade a submeter-se ao torpe procedimento dos que se dizem civilizados. Os padres jesuítas foram chamados a intervir, mas a sua ação foi pálida, limitando-se a aconselhar os índios a ficarem na Bahia. Conheciam o caráter da gente da governança e não achavam prudente contraria-la nos seus propósitos de ganancia, tornando-se cumplice dessa torpeza”. “Estavam as coisas nesse pé, ameaçados os potiguaras de extermínio ou escravidão, quando chegou à Bahia o governador Diogo Botelho, que um ano antes havia desembarcado em Pernambuco, onde permanecera tanto tempo a governar o Brasil. Informado do que estava ocorrendo, determinou que se honrasse o compromisso assumido, mandando de volta os potiguaras. E, como deviam regressar a pé pelos caminhos do interior, deu a ordem para que, de passagem pelos palmares de Itaperucu, a poucas léguas do Rio Real, destruíssem um quilombo de negros que ali se formava, tomando para si os que apanhassem vivos. Essa proeza Zorobabé executou com muito garbo. Não somente deu cabo da nascente republica dos palmares, que ressurgiu com dobrado vigor, como levou, dos negros capturados, “um magote não pequeno”, que foi vendendo pelo caminho para comprar uma bandeira de campo, tambor, cavalo e vestidos, com que entrasse triunfante na sua terra”. A distância percorrida a pé pelos potiguaras foi de mais de mil quilômetros. Os que estavam em Ilhéus andaram mais ainda: cerca de 1.300. Como andarilhos experimentados, qualquer distancia para os índios era como se fosse um simples passeio. “A recepção que teve na Paraíba foi de fazer inveja a qualquer chefe de Estado. Os potiguaras da terra, avisados por mensageiros que de longe lhes trazia a boa nova, foram espera-lo à distância de dez e até vinte léguas, abrindo e limpando o caminho por onde havia de passar o valoroso chefe. Na chegada, todos corriam a vê-lo como a um rei poderoso que volta aos seus domínios coberto de glorias. Só Pirajibe, que era tabajara, se deixou ficar com os seus na sua aldeia, e, porque Zorobabé se determinou passar por ela, lhe mandou dizer que saísse espera-lo na estrada, pois mais o haviam feito tão longe; ao que respondeu o velho, ainda que já centenário, que fora da guerra nunca fora esperar no caminho senão damas, e, pois ele não era dama, nem vinha dar-lhe guerra, não se levantaria de sua rede”. Zorobabé passou ao largo da aldeia de Pirajibe, e foi jantar no Inhobim, meia légua adiante. De lá mandou recado aos religiosos para que aparecesse com os ‘curumins’ das escolas, porque queria apreciar alguns números de musicas e dança; pediu também que enfeitassem a igreja, pois nela ia entrar. Desculparam-se os padres dizendo que os meninos se haviam espalhado desde cedo com o alvoroço de sua chegada e quanto a igreja não podiam enfeitá-la porque o dia não era de festa de santo, mas estava aberta para nela entrar como desejava”. A tarde, vistosamente vestido e montado em seu cavalo, com acompanhamento de bandeira e tambor, um índio na frente esgrimando uma espada afim de afastar a gente que era inumerável, marchou Zorobabé na direção da igreja, onde o esperavam os padres franciscanos. Passou pelo templo e não entrou, mas logo chegou um parente seu incumbido de avisar aos religiosos que a visita ficava para o dia seguinte. Zorobabé estava muito bêbado e por isso não queria entrar no templo”. “No dia seguinte mandou que se pusesse em frente ao cruzeiro da igreja cinco cadeiras, a do centro em forma de trono, coberta de alto a baixo com uma faixa listrada. Ao chegar ao local, sentou-se  na cadeira que lhe estava reservada, ladeado dos principais de outros aldeias, e a seguir recebeu os cumprimentos dos religiosos e de quantos lhe foram dar as boas vindas. Terminada esta parte do cerimonial, visitou a igreja e uma escola, onde viu o canto dos curumins. Mas, enfadou-se da escolar e quis logo sair dela porque os assentos eram um toros de madeira lavrada”. Zorobabe continuou morando na aldeia de Inhobim, a duas léguas de Joao Pessoa. Não esteve presente a solenidade de paz firmada entre Pau Seco e Pirajibe em 1599, pois como morubixaba ficou encastelado na Serra de Capaoba, onde esta hoje a Serra da Raiz, em local que nenhum branco ousava chegar. O Rei de Portugal lhe deu uma tenca de 400 reais de soldo, sem que ele pedisse, em recompensa dos seus serviços. Quando bebia ficava turbulento, mas o que fazia mais temido pelos invasores era a grande influencia que exercia sobre os potiguaras como chefe soberano. Com receio de sua incrível liderança, os portugueses prenderam-no e enviaram-no para Portugal, com mulher e filhos, em 1608. De Lisboa, de onde as autoridades achavam que ele ainda podia fugir de navio, mandaram-no para Évora, morrendo na prisão. Foi, pois, o primeiro exilado brasileiro. Apesar disto, não consta haver na Paraíba sequer uma rua em homenagem a esse índio.