biografia
NOÉMIA BRAZ
Autor(es): ILZA KEKELIS ALMEIDA PONÇADA , RAIANE BRAZ DA SILVA
Biografado: Noémia Braz
Nascimento: 1929
Povo indígena: Pataxó
Terra indígena: Barra Velha
Estado: Bahia
Categorias:Biografia, Etnias, Pataxó
Tags:Bahia, Feminino, Pataxó
Noémia Braz nasceu em 1929, no Rio do Corumbau, conhecido como Ribeirão. É filha de Jovino Braz dos Santos e Maria da Conceição. Atualmente, com 96 anos, carrega uma trajetória marcada pela resistência, pelo trabalho e pela sobrevivência do povo indígena Pataxó. Foi casada com Chico Mariano (in memoriam) e é mãe de nove filhos.
Noémia viveu sua infância no território indígena Pataxó de Barra Velha. Naquele tempo, sua família morava próxima à aldeia, em áreas onde era possível cultivar a terra. Eles plantavam mandioca, banana, entre outros alimentos, pois dentro de Barra Velha predominava a muçununga, um tipo de solo onde não era possível plantar. Assim, a família plantava, colhia e depois retornava para Barra Velha. Ela relata que era muito querida por toda a família e que seus pais tinham grande cuidado com os filhos. Desde cedo, ajudava no sustento da casa, realizando diversas atividades.
“Eu criava porco, criava galinha, vendia. Eu tirava tucum nas capoeiras, fiava e vendia para comprar minhas roupinhas e meus sapatos. Ninguém me ajudava não. Primeiramente Deus. Assim que eu me vestia era nas capoeiras.” Noémia Braz é sobrevivente do Fogo de 51, o massacre ocorrido em 1951 no território indígena Pataxó de Barra Velha, quando muitos indígenas foram mortos, espancados, chicoteados, torturados e estuprados. Outros conseguiram fugir para as matas ou foram obrigados a deixar o território. Ela conta que, quando o massacre começou, tinha apenas 12 anos. Sua família ouviu os disparos de armas e percebeu que soldados estavam procurando indígenas. Todos que estavam em casa correram para se salvar. Noémia fugiu com irmãos e irmãs, mas acabou se perdendo sozinha na mata.
Com o anoitecer, sem encontrar ninguém, dormiu dentro de um oco de árvore.
No dia seguinte, saiu em busca de ajuda e encontrou um casal de não indígenas. Pediu abrigo, e embora o casal tivesse medo de escondê-la, acabou colocando-a debaixo de uma cama. Mais tarde, os soldados chegaram à casa procurando indígenas. A mulher afirmou que ali não havia nenhum, protegendo
a vida de Noémia. Após alguns dias, quando a situação se acalmou e as notícias indicavam o fim da perseguição, seus pais conseguiram localizá-la e buscá-la. Noémia relata que não teve acesso aos estudos durante a infância, pois naquela época não existia escola na região.
“Num existia não, minha fia, veio um homem de Rio de Janeiro, nós não sabia nem o que era isso estudo era, ai ele disse assim, seu Jovino, com pai, ai ele ainda vai vim o tempo das filha do senhor saber a leitura e elas vão trabalhar.” Somente muitos anos depois, já casada e com filhos, a educação começou a
chegar ao território. Mesmo assim, Noémia afirma que nunca faltou alimento, pois havia fartura proveniente das criações e do trabalho na roça. Ela também relembra a festa de Nossa Senhora d’Ajuda, da qual ela é devota. Durante esse período, vendia diversos produtos ao longo do ano para conseguir participar da celebração todos os anos. Ela também relembra o seu casamento que aconteceu em Caraíva. Ela conta que, ao se casar, ela e o esposo não tinham bens, mas com muito trabalho nas roças conseguiram construir sua vida e sustentar a família.
Noémia viveu em Barra Velha desde o nascimento até o período da demarcação das terras, na década de 1970. A pedido de seu primo Alfredo Braz, foi informada de que a terra conhecida como Boca da Mata seria demarcada. Entre 1978 e 1980, mudou-se para Boca da Mata. Quando chegou, as únicas famílias que viviam no local eram as do senhor Josafá e do tio Tibúcio. Para se manter, uma das primeiras iniciativas foi montar roça e produzir farinha. Plantavam mandioca e, no período da colheita, trabalhavam na produção da farinha. Depois, iam até o povoado do Montinho, local próximo, para vender a farinha aos não indígenas, garantindo assim o sustento da família. A trajetória de Noémia Braz é marcada pela força, pela fé e pela resistência do povo Pataxó, revelando uma história de sobrevivência diante da violência, mas também de trabalho, cuidado com a família e ligação profunda com o território.
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