biografia
Cacique Tonheira
Autor(es): LÍBIA SANTOS BEZERRA
Biografado: Cacique Tonheira
Nascimento: 1914
Morte: 1989
Povo indígena: Pataxó
Terra indígena: Aldeia Imbiriba
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó
Tags:Bahia, Masculino, Pataxó
A DIÁSPORA DO “FOGO DE 51” E O PAPEL DE TONHEIRA NA
RECONSTITUIÇÃO DA ALDEIA IMBIRIBA: Uma Análise da
Resiliência Comunitária
1. INTRODUÇÃO
Esta mini-biografia aborda a trajetória de Cacique Tonheira, uma figura emblemática da resistência indígena no sul da Bahia, Brasil. Como líder do povo Pataxó na Aldeia Imbiriba, Tonheira personificou a luta pela preservação territorial e cultural em meio a conflitos históricos com colonizadores e latifundiários. Utilizando uma abordagem historiográfica e etnográfica, este texto busca reconstruir sua vida a partir de fontes documentais e orais, destacando sua relevância para o movimento indígena contemporâneo. A biografia é estruturada para enfatizar não apenas fatos biográficos, mas também lições de resiliência coletiva, alinhando-se a estudos sobre memória indígena e direitos territoriais.
2. DESENVOLVIMENTO
Cacique Tonheira, cujo nome civil era Antônio Josino da Silva Pataxó, nome Indigena Arauê Pataxó, nasceu por volta de 1914 na Aldeia Imbiriba, localizada próximo a Trancoso, no município de Porto Seguro, Bahia. Como líder tradicional do povo Pataxó, ele residia na mesma aldeia onde passou a maior parte de sua vida, dedicando-se à agricultura de subsistência, como o plantio de mandioca, feijão e milho, além de práticas culturais indígenas. Tonheira era casado, pai de três filhos e avô de 19 netos, em 1984, conforme relatos da época. Sua relevância para a comunidade Pataxó reside na defesa incansável das terras ancestrais contra invasões, simbolizando a resistência coletiva em um contexto de exclusão das demarcações iniciais da Funai, como as reservas de Monte Pascoal e Coroa Vermelha. Como cacique, ele representava não apenas autoridade espiritual e política, mas também a continuidade cultural em meio a violências coloniais (Acervo Jornal da Bahia. 1984). Tonheira faleceu em 2002, mas seu legado perdura através de descendentes que fundaram a Comunidade Familiar Tonheira. Figura 1: Cacique Tonheira (Acervo Jornal da Bahia, 1984). Profissionalmente, Tonheira atuava como agricultor e artesão, mas sua trajetória política o vinculou a processos formativos não-formais, como assembleias indígenas e alianças com organizações de apoio. Não há registros de educação formal extensiva, mas sua liderança era ancorada em saberes tradicionais Pataxó, transmitidos oralmente. Suas conquistas incluem a pressão pela inclusão da Aldeia Imbiriba em áreas protegidas, culminando na homologação da Terra Indígena Imbiriba em 2007 (396,05 hectares, abrigando cerca de 721 indígenas hoje). (BRASIL, 2007; COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DE SÃO PAULO, 2025).
3. METODOLOGIA
Esta pesquisa adotou uma abordagem qualitativa mista, combinando análise documental com coleta de dados orais. Foram consultadas fontes secundárias, como relatórios da Fundação Nacional do Índio (Funai), arquivos jornalísticos e publicações acadêmicas sobre o povo Pataxó, incluindo o portal Terras Indígenas e documentos históricos do Centro de Documentação Indígena (CEDI). Adicionalmente, incorporou-se uma entrevista semiestruturada com as bisnetas de Tonheira, Fernanda Gonçalves Lima, professora da rede municipal de ensino e Cicera Gonçalves Lima, terapeuta integrativa e agricultora, ambas representantes da Comunidade Família Tonheira, para enriquecer a narrativa com perspectivas familiares e culturais. Para realização da entrevista, foi usado o software GOOGLE MEET e foi elaborado um protocolo ético, visando posteriormente uma aprovação por um Comitê de Ética em Pesquisa. O protocolo inclui: (1) Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), apresentado em linguagem acessível, explicando objetivos, riscos mínimos (como exposição emocional) e benefícios (preservação da memória ancestral); (2) Garantia de anonimato ou pseudônimos, se solicitado, e direito de retirada a qualquer momento; (3) Confidencialidade dos dados, armazenados em ambiente seguro; (4) Respeito à autonomia comunitária, com aprovação prévia da liderança da aldeia ou comunidade.
4. ENTREVISTA
Para enriquecer a reconstituição histórica com fontes orais, realizou-se em 9 de dezembro de 2025 uma entrevista semiestruturada com Fernanda Gonçalves Lima, bisneta de Cacique Tonheira e integrante da Comunidade Familiar Tonheira. Como representante da quarta geração descendente direta, Fernanda, atua ativamente na preservação da memória ancestral por meio de ecoturismo cultural, oficinas de artesanato e publicações nas redes sociais da comunidade. A entrevista foi conduzida de forma assíncrona, com início às 13h15, por meio da plataforma Google Meet, que permitiu a gravação das perguntas e respostas em vídeo. Antes da coleta, foram apresentados oralmente todos os itens do protocolo ético, abrangendo objetivos da pesquisa, riscos mínimos (especialmente desconforto emocional), benefícios para a memória ancestral, direito de interrupção ou retirada a qualquer momento, confidencialidade dos dados e escolha quanto à identificação. A autorização foi obtida verbalmente e registrada no início da gravação. As narrativas de Fernanda, transcritas com sua permissão, oferecem uma perspectiva íntima e intergeracional, articulando o registro documental oficial com a memória viva que circula nas rodas de conversa, rituais e práticas cotidianas da Aldeia Imbiriba. Transcrição editada e formatada da entrevista (seção inicial)
Pesquisadora: Para começarmos, poderia nos dizer seu nome completo e qual é o seu grau de parentesco com o Cacique Tonheira?
Fernanda: Meu nome é Fernanda Gonçalves Lima e sou bisneta do Tonheira. Cicera: Meu nome é Cicera Gonçalves Lima e sou bisneta do Tonheira , neta da sua única filha mulher que se chamava Maria Pereira da Silva, quando era pequena meu avô me chamava de Ciço.
Pesquisadora: Qual o ano do falecimento de Tonheira?
Fernanda: Ele faleceu no ano de 2002, e eu tinha de 12 para 13 anos.
Pesquisadora: Tonheira ainda tem filhos vivos?
Fernanda: Sim, ainda tem dois vivos, o filho caçula se chama Antonio Josino Filho, este ele teve com a esposa chamada Julia, que era a segunda esposa, e o outro se chama, Manoel Pereira da Silva.
Pesquisadora: Fernanda, como a memória do Cacique Tonheira chegou até você? Quem na família mais contava as histórias dele quando você era criança?
Fernanda: Eu tive a sorte de conviver diretamente com o meu bisavô até os meus 12 ou 13 anos de idade. Mesmo já muito idoso e com dificuldades para falar, ele ainda contava muitas histórias para nós. Depois que ele partiu, a memória dele continuou viva principalmente pela minha mãe e tias da aldeia. Quando eu era pequena, era costume da minha mãe, das minhas tias se reunirem, seja na beira da fogueira ou dentro de casa, e recontar tudo o que ele tinha vivido.
Pesquisadora: Quais são os episódios da vida dele que mais marcaram a família? (Por exemplo: o Massacre de 1951, as viagens dele para Salvador e Brasília, ou momentos do dia a dia na aldeia.)
Fernanda: Como história de vida, o que mais marcava era a luta pela terra indígena em geral, não só pela etnia. Meu bisavô Tonheira foi casado duas vezes. A primeira esposa se chamava Inês; ela já tinha sete filhos de outro casamento e ele criou cinco deles como seus, além dos dois que tiveram juntos. A segunda esposa chamava-se Júlia. Algumas pessoas que vieram correndo do Fogo de 51 ou de outras situações de violência também eram acolhidas: elas viravam agregados, viravam parentes. Ele dizia que “Não deixava sangue abandonado”. Além disso, o que todo mundo admirava era a coragem, o apoio e a sua disposição para ajudar. Em 1984, um homem que não sabia ler nem escrever teve a coragem de ir sozinho para Salvador e depois para Brasília, sem conhecer ninguém, enfrentando a descrença de muita gente. Ele contava que muitas pessoas duvidavam que ele tinha viajado: “Você foi mesmo?”. Até que viam ele estampado nos jornais, como notícia, defendendo a terra e o seu povo. Dependia só da coragem dele e da força que tinha para falar, para se expressar. Era isso que fazia a diferença. Tivemos acesso ao jornal da época pelo acervo ANAÍ (Associação Nacional de Ação Indigenista) que é uma das primeiras associações indígenas do Brasil, e tem uma sede localizada no bairro do Pelourinho, em Salvador. Ele conheceu algumas pessoas do jornal durante o processo de demarcação e estudo de Barra Velha e também uma professora aposentada da Universidade Federal da Bahia (UFBA) chamada Maria do Rosário G. de Carvalho que escreveu uma tese para o seu Mestrado em Ciências Sociais com tema: Dissertação: Os Pataxó de Barra Velha, seu Subsistema Econômico. Cicera: O Tonheira viveu na região e foi um dos poucos Tupiniquins que sobreviveram. Quando aconteceu o massacre do Fogo de 51, ele ficou muito assustado e com medo de permanecer na aldeia por causa de tudo aquilo. Aí se mudou para a aldeia-mãe, que é a Barra Velha, até as coisas se acalmarem. Mas ele não conseguia se adaptar ao modo de vida de lá, aos costumes diferentes, então resolveu voltar para Imbiriba. A terra dele sempre foi o principal: o domínio das terras ancestrais. Depois que ele voltou, alguns parentes pediram abrigo e ele foi acolhendo todo mundo. Aos poucos as famílias foram se mudando e a aldeia Imbiriba foi se formando de novo. Os fazendeiros começaram a pressionar, chegando do outro lado do rio. Meu bisavô Tonheira começou a criar búfalos, e esses búfalos acabavam invadindo as roças deles. Aí os fazendeiros construíram cerca para impedir a passagem dos búfalos, mas de repente começaram a invadir a nossa roça e até cercaram a fonte de água da gente. O vovô Tonheira foi questionar e descobriu que eles queriam mesmo tomar as terras. Então ele viajou até Brasília para denunciar tudo o que estava acontecendo. A família ficou assustada e começou a se dividir por causa do território que tem até hoje a Aldeia Imbiriba 1 e Imbiriba 2. Para resolver isso, o Tonheira separou a terra para os parentes: cada membro da família ganhou um pedaço para poder ficar independente. Foi assim que foram fundadas a aldeia de Itaporanga e a Comunidade Tonheira. Figura 2, 3 e 4: Tonheira e seus netos e bisnetos (Acervo Comunidade Tonheira)
Pesquisadora: Quando você era pequena, como os mais velhos falavam do “Fogo de 51”? Esse acontecimento mudou a forma como a família via a luta pela terra?
Fernanda: Eu acredito que todo mundo que tem descendência indígena e ainda não conhece a história do Fogo de 51 é porque, na verdade, não conhece a própria história. O meu bisavô Tonheira quase não falava sobre isso, porque era um assunto proibido, porque até hoje causa medo. Ele abria poucas palavras, mas a gente sabe que ele foi quem abriu as portas depois daquele conflito. Grande parte das famílias da Imbiriba, inclusive muitas das lideranças de hoje, veio daquela diáspora do Fogo de 51. A minha avó, que é uma mulher branca, está viva até hoje com 84 anos e conta a história de um jeito diferente, porque ela não viveu o conflito diretamente. Ela só dizia: “Foi muita morte… muita morte mesmo”. Quando a gente começou a ter contato com as lideranças de Barra Velha e de outras aldeias, aí foi que entendemos: o Fogo de 51 é um fogo que não se apaga. Ele nunca se apagou. É um fogo que continua queimando até hoje, porque os indígenas ainda continuam morrendo pelas mesmas disputas de terra que motivaram o massacre de 51.
Pesquisadora: O que o Cacique Tonheira mais ensinava sobre a importância de permanecer na terra Imbiriba?
Fernanda: Ele sempre ensinava a gente a valorizar e a construir as coisas com as próprias mãos, e principalmente a não deixar a terra parada. Plantava café, mandioca, cacau… Até hoje ainda tem pé de jaca e cacau nas terras que foram dele. A lembrança mais forte que tenho da infância é caminhar com ele pela roça: eu via a alegria no rosto dele a cada pedacinho de chão que era dele. Ele me ensinava a respeitar os ciclos da terra, a saber o tempo certo de plantar, de colher, de deixar descansar. Tudo isso era lição de vida, né. Cicera: Até hoje é uma boa memória lembrar das histórias que ele contava. As que mais ficavam na cabeça eram as que ele contava quando a gente era criança: falava dos bichos da mata, do respeito que se deve ter pela floresta, ensinava que só devíamos tirar dela aquilo que era mesmo necessário usar, e usar sem desperdício. Também nos ensinava as rezas, os rituais de cura com as ervas. O Tonheira era muito conhecido pela honestidade dele.
Pesquisadora: Existem objetos, fotografias, cantigas, receitas de remédio ou rituais que a família ainda guarda em homenagem a ele?
Fernanda: Era raro ter fotos naquela época, não era algo comum, as pessoas tinham que se arrumar e ficar enfileirados quando aparecia uma máquina de fotografia na aldeia, tem algumas fotos de quando ele era criança e dos bisnetos pequenos, e outras de quando ele estava próximo de falecer, os objetos também não existem, o que sobreviveu foi os costumes, o varrer de casa, o jeito de construir o fogão de lenha e a forma de plantar, eu vejo que os meus tios ainda usam alguns instrumentos de pesca dessa época, tipo um cesto para selecionar os peixes grandes e pequenos chamado samburá, eles ainda tem o hábito de caminhar pelo mato e de pescar de forma tradicional. Cícera: Na Comunidade Tonheira, a principal característica da nossa cultura é mesmo a culinária. O modo de pescar, a forma de usar poucos temperos nos alimentos e muitas ervas da mata… Tem a moqueca de ouriço, a farinha de puba, o peixe moqueado que é uma espécie de caça de fumeiro. O preparo do moqueado consiste em colocar o peixe em cima do forno a lenha para defumar, fica tipo uma carne defumada. A palavra “moqueado” é usada pelo meu povo, é nossa mesmo. Figura 5, 6 e 7: Colheita e produção do beiju da farinha da mandioca. (Acervo Comunidade Tonheira)
Pesquisadora: Depois da homologação da Terra Indígena Imbiriba em 2007, o que mudou na vida da aldeia e da família? Vocês acham que foi uma conquista que ele sonhava ver?
Fernanda: Foi uma conquista sim, mas a parte da terra que foi homologada não ficou com a família do Tonheira. Ficou separada, e isso até se justifica porque o Tonheira era da etnia Tupiniquim, enquanto quase toda a população da aldeia Imbiriba já era Pataxó. Quando terminou a demarcação, a família dele ficou de fora mesmo. Uma parte ficou com o filho mais velho dele, o Manuel. Essa parte não virou aldeia, virou terra particular e grande parte já foi vendida. Outra parte que seria da minha avó, que faleceu em 1989, ficou com o irmão dela, o Antônio Jacinto Filho, e aí virou a Comunidade Tonheira que a gente tem hoje. A aldeia Itaporanga era do enteado dele, o João Lua, filho da avó Inês. Ele aprendeu a ler e escrever e construiu uma escolinha lá. A homologação da Imbiriba é um marco, sim, mas a família do Tonheira acabou fora do processo demarcatório. Até hoje a Comunidade Tonheira é território em disputa, tem processo judicial correndo, tem parte ainda em retomada… Nos relatórios da FUNAI a gente vê que foi uma demarcação muito confusa, a demarcação das terras de Imbiriba foi bagunçada mesmo. Cícera: Com a homologação da terra de Imbiriba ele ficou feliz em participar, porque foi ele mesmo que doou as terras para formar a aldeia Imbiriba. Mas não ficou cem por cento feliz, não, porque foi prometido fazer a separação do território da Imbiriba 1 e isso nunca aconteceu. Até hoje os parentes e a nossa geração continuam lutando pelo território, continuam sofrendo com as ameaças do Moacir de Andrade, aquele grileiro que até hoje nos amedronta. Figura 8 e 9: Comunidade família Tonheira Pesquisadora: Hoje, como vocês, enquanto bisnetas, estão levando adiante o legado dele no trabalho da Comunidade Familiar Tonheira e nas redes sociais? Fernanda: Quando a gente conta para os nossos sobrinhos toda a história e a trajetória do Tonheira, a gente valoriza muito o orgulho de ser indígena. Explica que não é só a aparência física que nos identifica, e sim o modo de vida. Que não é pra ter vergonha, que é pra resgatar a tradição e, ao mesmo tempo, expor isso pro mundo. Manter as redes sociais da comunidade é um trabalho que eu achava que ia ser fácil, mas não é não. Tenho que escrever os textos, selecionar as fotos… É uma busca constante pelo aprendizado. A gente não cresceu na aldeia: nossa avó casou e foi morar longe, então só viemos nos aldear de verdade já adultas. Antes, íamos só visitar os parentes, participar das celebrações e ouvir as histórias. E o ouvir é o que preserva tudo. Hoje eu faço mestrado na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC) e minha pesquisa é em literatura indígena. Quando eu estava estudando, lembrava que já tinha ouvido a história indígena na versão do meu bisavô e na versão da minha mãe. À medida que fui convivendo mais, descobri que eu não me identificava com nada: era preta demais pra ser branca, branca demais pra ser preta, uma “negra branca” pra ser indígena. Mas quanto mais estudei a fundo a vida dos nossos avós e das aldeias, percebi que já tinha ouvido e vivido a nossa história. Nossa cultura é todo um jeito de ser, não é só aparência. O Tonheira era um indígena dentro do padrão mesmo. O legado dele pra gente é ensinar os mais novos a ouvir e a aprender com os mais velhos, pra manter viva a nossa cultura. Cicera: Nós, que somos os bisnetos, temos muito orgulho de trazer de volta o nome do nosso bisavô Antônio Josino o (Tonheira) para contar as nossas memórias e o nosso pertencimento. A gente sente uma felicidade enorme e um prazer verdadeiro em falar da história dele, em manter viva a memória do Tonheira.
Pesquisadora: Tem alguma história sobre ele que vocês acham que todo mundo precisa conhecer e que ainda não apareceu nos livros ou jornais?
Fernanda: O vovô Tonheira não tinha uma data de nascimento correta. Ele mesmo se registrou tarde, e por ser um registro alto, não pôde incluir o nome do pai, só o da mãe dele. Isso é um apagamento da nossa história. Se a gente tentasse fazer uma árvore genealógica, quando chega na parte indígena só conseguimos descobrir duas gerações; a terceira já não dá pra descobrir mais. Preservar a história do Tonheira e de tantos outros caciques é garantir que a gente consiga continuar uma história de séculos, cheia de sabedoria e inteligência.
Cicera: Eu gostaria que os jornais escrevessem sobre o capitão Tonheira, como ele era chamado, que foi uma pessoa íntegra, justa e honesta, que deixou um legado cheio de exemplos a serem seguidos. A gente busca justiça, luta por aquilo que é nosso, luta pela nossa vida, pelo direito de viver nas nossas terras e com a nossa ancestralidade, preservando as raízes. Que a nossa geração possa continuar em cima desta grande árvore, deste grande mato que é a nossa cultura e o nosso modo de vida, preservando e cuidando do entorno e dos nossos parentes. Que continue assim.
Pesquisadora: Se você pudesse falar com o Cacique Tonheira hoje, o que diria a ele?
Fernanda Gonçalves Lima: Eu diria “awere” (muito obrigado em portugues) por ter conhecido o meu bisavô e por poder aprofundar um estudo sobre ele. Isso me fez entender e compreender quem eu sou de verdade. Diria também que estamos indo em frente pra fazer aquilo que você queria: estamos continuando o seu legado.
Cícera: Eu o agradeceria pelo legado que ele deixou e por eu ser quem eu sou hoje. Sinto muito orgulho dele. E que o nome dele e a história dele nunca serão esquecidos nem apagados.
5. CONCLUSÃO
A mini-biografia de Cacique Tonheira transcende o relato individual, configurando-se como um estudo de caso fundamental sobre resiliência, etnogênese e a complexidade da identidade indígena no Sul da Bahia. Sua trajetória, alicerçada na defesa incansável da Aldeia Imbiriba, ilustra como a resistência singular de um líder pode catalisar a sobrevivência e o reagrupamento de um povo em face da violência e do apagamento histórico, inspirando movimentos contemporâneos por direitos indígenas (Jornalistas Livres, 2018). A centralidade de Tonheira reside, paradoxalmente, no interstício de identidades revelado pelas fontes orais. O fato de Antônio Josino da Silva (Tonheira) ser um sobrevivente da etnia Tupiniquim, que acolheu e reagrupou famílias deslocadas após o traumático “Fogo de 51” (o massacre de 1951, central para a história Pataxó), complexifica e enriquece o entendimento da luta territorial na região. Este achado sugere que a demarcação e a afirmação Pataxó contemporânea em Imbiriba foram, em grande medida, edificadas sobre a generosidade e o lastro Tupiniquim de Tonheira, que abriu seu território, aplicando o princípio de que “Não deixava sangue abandonado.” As narrativas das bisnetas confirmam que sua liderança não se limitava à autoridade política, mas se ancorava na transmissão de saberes, como o respeito aos ciclos da terra, o uso de ervas e a prática de pesca tradicional, garantindo a continuidade cultural (Acervo Comunidade Tonheira, 2025). Contudo, a análise revela a amarga ironia da história: a mesma complexidade étnica (sua ascendência Tupiniquim/mistura) que permitiu o acolhimento e a refundação de Imbiriba levou à exclusão da Comunidade Familiar Tonheira do processo de homologação da Terra Indígena Imbiriba em 2007. Tal exclusão, que mantém o território sob disputa judicial e ameaças de grilagem, sublinha a rigidez e as falhas dos critérios demarcatórios estatais, que frequentemente ignoram a dinâmica da etnogênese e do parentesco (Oliveira, 1999). Portanto, a história de Cacique Tonheira convida a uma profunda reflexão sobre a necessidade de a pesquisa acadêmica ir além dos registros oficiais e valorizar a memória oral como fonte de verdade histórica (Bomfim, 2017). Sua vida é um testemunho da resiliência interétnica na luta pela terra e um lembrete de que o “Fogo de 51” e, por extensão, o colonialismo é um “fogo que não se apaga”, persistindo nas ameaças e na negação de direitos territoriais que atingem seus descendentes até os dias atuais (Acervo Comunidade Tonheira, 2025). Preservar e difundir seu legado, como defendem suas bisnetas, é garantir que a história de séculos de sabedoria e luta não seja apagada, fortalecendo o pertencimento e a resistência das futuras gerações e promovendo diálogos que valorizem vozes subalternas e combatam o esquecimento histórico (Rego, 2012).
6. REFERÊNCIAS
BOMFIM, A. B. Patxohã, “língua de guerreiro”: um estudo sobre o processo de revitalização linguística no povo Pataxó. 2017. Dissertação (Mestrado em Linguística) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
COMISSÃO PRÓ-ÍNDIO DE SÃO PAULO. Terras Indígenas no Brasil. São Paulo, 2025. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
COMUNIDADE FAMILIAR TONHEIRA. Instagram oficial. 2025. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
GONDIM REGO, A. “Uma aldeia diferenciada”: etnografia de uma aldeia indígena urbana no sul da Bahia. 2012. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) – Universidade de Brasília, Brasília, 2012. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL. Fazendeiro tenta aliciar pataxó. 1984. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
JORNAL CONTRAPONTO. O massacre dos caboclos: 70 anos do esquecido ataque ao povo Pataxó. São Paulo: PUC-SP, ed. 133, 2022. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
JORNALISTAS LIVRES. Pataxó, uma história de resistência. 2018. Disponível em: . Acesso em: 8 dez. 2025.
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