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A trajetória de resistência de Dona Taquara Pataxó

Autor(es): Ana Ione dos Santos Cruz , Eduardo Rafael Galvão , Tatiana Bittencourt Albino
Biografado: Ana da Conceição Santos
Povo indígena: Pataxó
Terra indígena: Reserva Indígena da Jaqueira
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó
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Ana da Conceição Santos, conhecida como Dona Taquara Pataxó, nasceu em Barra Velha, território ancestral do povo Pataxó, e atualmente vive na aldeia da Reserva Indígena da Jaqueira. Embora não tenha frequentado o ensino regular das escolas formais, Dona Taquara é reconhecida como uma verdadeira enciclopédia viva dos saberes, fazeres e memórias de seu povo, guardiã de conhecimentos transmitidos pela oralidade, pela observação e pela experiência cotidiana. Em conversas de voz mansa e tom baixinho, ela relembra a infância marcada pelo aprendizado junto às tias, quando observava atenta a feitura da cerâmica tradicional. Pratos, panelas e potes moldados à mão, com barro retirado da terra, eram queimados em buracos abertos no chão. Ainda jovem, Dona Taquara viveu um dos episódios mais violentos da história recente do povo Pataxó, conhecido como o “Fogo de 51”, massacre ocorrido no ano de 1951, no local conhecido como “aldeia mãe” pelo seu povo. Ela conta que, naquele período de terror e perseguição, precisou se esconder no mato junto com sua família para escapar da violência.
Posteriormente, refugiaram-se em uma fazenda, onde permaneceram por anos trabalhando sem remuneração, em troca de abrigo e da promessa de não serem denunciados.
Após o casamento, passou a viver na aldeia de Boca da Mata, onde enfrentou uma das maiores dores de sua trajetória: a morte do marido, por causa indeterminada, que a deixou viúva e responsável por criar sozinha seus seis filhos: Karajá, Murici, Nitxinauã, Jandaia, Nayara e Aponém. Com coragem e determinação, seguiu adiante e enfrentou o desafio.
Mais tarde, mudou-se com uma de suas irmãs para a aldeia de Coroa Vermelha, levando consigo os filhos ainda pequenos. Em Coroa Vermelha, trabalhou na produção de artesanato indígena, garantindo o sustento da família e, ao mesmo tempo, fortalecendo a cultura Pataxó por meio do fazer tradicional. Criou seus filhos com dignidade, transmitindo valores, saberes e seu exemplo de resistência indígena feminina. Suas filhas Nitxinauã, Jandaia e Nayara tornaram-se referências na luta pela valorização cultural e
territorial do povo Pataxó, sendo protagonistas na fundação da Reserva Indígena da Jaqueira, espaço de educação, memória e afirmação identitária.
O nome Taquara, termo popular no Brasil para designar diferentes espécies de bambu, carrega profundo simbolismo. De ocorrência comum em áreas úmidas da região, a taquara é utilizada há milênios pelas comunidades tradicionais, transformando-se em flechas, flautas, varas de pesca, utensílios domésticos e elementos estruturais dos quijemes, nas técnicas de taipa de sopapo. Essencial à vida material e simbólica do povo Pataxó, a taquara representa flexibilidade, força e resistência. Assim também é a Dona Taquara.
Com sua força silenciosa, criou seus filhos, transmitiu conhecimentos forjados na prática de uma vida marcada por lutas, perdas e conquistas. Sua maior vitória foi sobreviver e, ao sobreviver, manter viva a memória, a cultura e a dignidade de seu povo. Esta mulher de aparência frágil e delicada, é esteio identitário da comunidade onde vive, inspirando, ensinando e convivendo com os seus de forma amável e presente. A poética de seu legado se inscreve em seu próprio corpo, testemunha viva da resistência indígena frente às opressões enfrentadas desde a invasão dos territórios originários e a formação da nação brasileira. Dona Taquara é memória viva, raiz profunda e exemplo de continuidade para as gerações que se seguem, reafirmando que existir, lembrar e ensinar também são formas potentes de luta. Awêry, Dona Taquara!

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