biografia

Alfredo Braz
Autor(es): Juari Braz Bomfim
Biografado: Alfredo Braz
Nascimento: 1951
Morte: 1984
Povo indígena: Pataxó
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó
Tags:Bahia, Masculino, Pataxó
Trajetória de luta e vida de Alfredo Braz
“Quem geme é quem sente a dor”
Alfredo Braz
Resumo
O presente artigo registra a memória e a história de Alfredo Braz e sua passagem de lutas com seus companheiros. Alfredo Braz foi assassinado em 1984, provocando uma grande desordem na comunidade, gerando um grande conflito familiar. Neste artigo procuro identificar a luta de vida dos Pataxó na época e como foi todo o processo de luta de Alfredo e seus companheiros que tanto deram de si para garantir o que temos hoje.
Introdução
O meu trabalho de pesquisa trata da memória da história de luta e de vida do meu avô, Alfredo Braz Salvador, que nasceu no Território Indígena de Barra Velha, no Parque Nacional Monte Pascoal, no município de Porto Seguro. Meus pais sempre nos ensinaram as histórias, músicas e costumes do nosso povo. Nasci no local chamado Serra da Gaturama, nos limites do Parque Nacional Monte Pascoal, entre grandes montanhas, muitas matas e rios em abundância. Sou o segundo filho de oitos irmãos que foram criados de forma bem simples, lidando e aprendendo com as dificuldades da roça. Durante a minha pesquisa descobri muitas coisas boas e muita coisa sobre familiares meus que ainda não conhecia. É aprendizagem que vou levar para o resto da minha vida. Meu pai foi uma das pessoas fundamentais para a minha pesquisa, pois conheceu meu avô antes de se casar com minha mãe, na Aldeia Barra Velha. Gostaria muito que meu pai tivesse no dia da minha apresentação, mas Deus o levou no dia 11 de agosto de 2017; foi um momento de muitas tristezas onde superamos as dores lembrando do grande homem que foi, dos seus ensinamentos e da sua contribuição com o povo Pataxó.
Cresci ouvindo meu pai relatar histórias dos indígenas “bravos” que já viveram na região, e das suas vivências com eles. Isso despertava mais interesse em saber da nossa origem e aprender muito com o nosso velho pai. Percebi que muitas dessas histórias estavam na oralidade e poucos registros eram encontrados em livros. No ano de 1999, nos mudamos para a Aldeia Coroa Vermelha. Eu estava com 17 anos e comecei acompanhar meu tio, que participava do movimento indígena juntos com outros lideres pataxó. Comecei a perceber que em todas reuniões, sempre alguém se lembrava da luta dos lideres indígenas mais velhos e que muitos desses já tinham falecidos, como Alfredo Braz, Rufino Ferreira, Josefa Ferreira, Luiz Capitão, Honório Ferreira. Outros ainda estão vivos, como Manoel Santana. E outros, ainda que anônimos, também participaram dessa luta.
Meu avô faleceu em 1984, eu tinha 7 anos de idade, e me lembro da sua feição: um índio alto e forte de cabelo grande. Minha mãe se parece muito com ele, até na lida com a roça. Minha mãe e meu pai não tiveram a oportunidade de estudar, mas têm o dom da sabedoria da oralidade, e isso me ajudou muito no meu trabalho. Uma das coisas mais importante que meus pais nos incentivaram foi a estudar, apesar das grandes dificuldades que tivemos. Neste trabalho, espero despertar outros pesquisadores indígenas a relatar histórias de outros lideres, anciões, parteiras e pescadores pataxó, ou seja, de pessoas importantíssima na construção do processo de luta, pois muitos ainda são anônimos diante da história, e que precisa ser relatado para que possam ser lembrados no futuro. Esses relatos, além de serem registrados, são importantes para o registro histórico do povo Pataxó, pois são ferramentas de grande importância para garantia da ampliação do território, que vem se arrastando há muito tempo. Além de possibilitar a continuidade da memória viva, possibilita as pessoas a terem acesso a esses trabalhos que são riquíssimos e não podem desaparecer.
Não posso deixar de lembrar da lida da roça e dos ensinamentos da minha mãe, uma mulher guerreira que passava tudo o que aprendeu para nós. Diante das dificuldades enfrentadas, ouvimos as histórias de luta dos mais velhos, que passaram todo tipo de barbaridades e humilhações, que jamais serão esquecidas. Quando viajei para Brasília recebi um livro intitulado “Barra Velha, o Último Refúgio” escrito por Cornélio Vieira de Oliveira. Nesse livro, ele conta a vivência do povo Pataxó e de suas lutas. Ao lê-lo percebi que muitos relatos eram narrados a partir das vivencias de Alfredo Braz e outros indígenas. Isso me despertou mais curiosidade em pesquisar e escrever sobre sua história.
Outro momento marcante na minha trajetória foi no ano de 2010. No mês de outubro fomos convidados a participar da “Festa das Águas” na aldeia Retirinho, no município de Carmésia, no estado de Minas Gerais, local em que fomos bem acolhidos pela comunidade e lideranças. Também realizamos, no mesmo período, o II Encontro de Pesquisadores e Professores de Patxôhã. Na hora das apresentações na comunidade fiquei muito emocionado por ter tido o privilegio de ser homenageado por ser um dos netos de Alfredo Braz Salvador. A cacique disse que tinha orgulho que dois netos de um grande homem, que deu sua vida para lutar pelo povo Pataxó, estivessem pisando na sua aldeia. Isso ficou marcado na minha memória, e nunca me esquecerei daquele momento. É importante lembrar que na luta pataxó existiram grandes lideres, muitos dos quais já morreram, e outros estão surgindo para dar continuidade a árdua luta do nosso povo.
Para o desenvolvimento deste trabalho fui obrigado a me conhecer melhor, ir bem a fundo no passado através de pesquisas feitas por estudiosos e de um melhor conhecimento da genealogia da minha família. Ter muitas horas de conversas, andadas e leituras, principalmente com quem na época conviveu com meu avô. Um dos grandes registros que me ajudou muito foi o livro de Cornélio Vieira, “Barra Velha: o último refúgio”, que relata trechos da vida e luta do povo Pataxó através de registros feitos pelo autor quando passou em Barra Velha e conviveu com as lideranças da época. Isso resultou em uma grande obra, muito útil para nós pesquisadores indígenas.
Durante as pesquisas consegui ter acesso a um acervo de fotografias da época de 80, através do Sr. Moacir Melo, que trabalhou como Chefe de Posto da FUNAI da Aldeia Barra Velha. Nessas fotografias pude notar que, na maioria delas, meu avô estava lá. Segundo Moacir Mello, Alfredo Braz era seu grande amigo e também um grande líder apaziguador dos conflitos da comunidade. Meu pai, minha mãe, meus tios e os irmãos dele que ainda estão vivos, foram as peças fundamentais para essa pesquisa, já que muita coisa não está nos livros, mas sim em suas memórias.
Períodos de resistências
Uma das coisas que me chamou atenção na pesquisa foi as estratégias, a união e o domínio de lidar com a situação da época, aliás umas das piores épocas, onde o dominador perseguia os indígenas e isso resultava em muitas mortes e dispersão para outras regiões.
Eu defino essa época em três períodos.
Período da sobrevivência: neste período houve uma das maiores matança dos povos indígenas, e mesmo com o passar do tempo, muitos indígenas tiveram que deixar suas culturas, origens. Eram obrigados a esconderem-se e negar sua própria identidade para garantir a sobrevivência. Um período de ganância desumana, onde matar era uma questão de honra para sustentar o “progresso” de poucos. Muitos indígenas tiveram que desenvolver estratégias de sobrevivências para que seu sangue não fosse derramado dentro de suas próprias casas. Isso resultou na extinção e expulsão de vários povos que habitavam a região. O povo Pataxó teve que se adaptar e buscar estratégias para garantir a continuidade de suas origens e sua existência até os dias de hoje.
Período de luta pelo território: com o surgimento do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), no ano de 1910, que servia mais para beneficiar o governo que os indígenas, surgiu também uma oportunidade de continuação da luta do movimento indígena nacional organizado que se fortaleceria na década de 1980. Foi neste período que os Pataxó passaram a conhecer o direito à terra, período de transição entre o SPI e a Fundação Nacional do Índio – FUNAI. A necessidade de lutar pelo território se tornou algo de fundamental importância para garantir a sobrevivência e resistência do povo Pataxó. O povo Pataxó teve que resistir no território mesmo contra a vontade do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal – IBDF, que, a todo custo, queria expulsar os Pataxó da região. Teve também que aguentar as perseguições do próprio governo, que lutava para expulsar os indígenas de suas terras para beneficiar os políticos e os grileiros, os mesmos que se tornaram os latifundiários de hoje .
Período do fortalecimento da identidade: com as diversas perseguições aos povos indígenas, que passavam por várias lutas, desde a sobrevivência até a garantia do território que já se havia garantido na Constituição, houve também a perseguição da identidade indígena, onde o próprio governo chegou a relatar a extinção do povo Pataxó e dos povos indígenas do nordeste. Com todo esse processo de perseguição, o povo Pataxó fez adormecer e esconder parte de sua cultura, mas não a deixou morrer, e foi passando de geração a geração até, de repente, ressurgir com muita força, desbravando historiadores, pesquisadores, linguistas e antropólogos que não aceitavam a luta da identidade Pataxó. Tivemos que passar por diversos tipos de ataques preconceituosos, para sermos reconhecidos como povo que, mesmo tendo tido contato há muitos anos, ainda assim soube preservar sua cultura. Essa luta se entrelaçou com a luta do território, educação, saúde, esportes, com a luta da garantia dos direitos e de políticas públicas para os povos indígenas.
Os Pataxó
Os Pataxó pertencem a família linguísticas macro-jê, mesma família do povo Maxacali, que hoje vive no Estado de Minas Gerais. O povo Pataxó vivia em um amplo território, mudando sempre a sua morada e possuindo grande habilidade para caçar. Isso garantiu a sua sobrevivência e permitiu que vivessem sem contatos com os europeus durante muitos anos.
Por serem indígenas com grandes habilidades em se defender dos ataques dos portugueses e por serem grandes arqueiros, eram temidos pelos “brancos” e até por outros povos indígenas. Foram considerados pelos colonizadores “índios bárbaros”, ou seja, os indígenas mais temidos da região. Como não viviam em aldeamentos, faziam suas “choças”, espécie de casas de folhas de palmeiras. Essas “choças” eram constantemente mudadas de locais, seguindo as estações climáticas para fugir do frio e procurar as épocas com mais fartura dos alimentos (Wied-Neuwied, 1989).
Com o avanço dos colonizadores mata adentro em busca de ouro e madeira e com a expansão da ocupação das terras começaram os ataques e a aproximação junto aos Pataxó. Foram realizadas várias emboscadas para matá-los e afugentá-los da região. No entanto, não obtiveram sucesso nas suas tentativas. Então tiveram que usar a estratégia de estabelecer alianças com os indígenas catequisados para se aproximarem dos Pataxó que até então não falavam o português. Essa aproximação foi através dos Maxakali, com que, frequentemente, os Pataxó faziam trocas (utensílios, mel, cera e fios de tucum). Foi assim que, após três séculos de resistências, começou a aproximação com os “colonos”.
No relato do príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied, intitulado Viagem ao Brasil (1989) e escrito no século XIX, fica bem clara a presença dos Pataxó nessa região, principalmente próxima a região do Monte Pascoal, provando que os Pataxó sempre foram os dono deste território. Isso também sempre é relatado nas falas dos indígenas mais antigas, que sempre ouviram falar dos seus pais sobre suas moradas antigas.
Para afirmação do território, em 19 de agosto de 1999, os Pataxó reocuparam o território do Parque Nacional Monte Pascoal que estava sobre a gerência do IBAMA, antigo IBDF que sempre manteve conflitos com os Pataxó. A partir da reocupação dos territórios tradicionais pelas famílias Pataxó se constituíram novas aldeias. Atualmente, os atritos com os órgãos de proteção ambiental, como o ICMBIO (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade), órgão que está na gerencia do Parque Nacional Monte Pascoal, parque este que foi implantado sobre território Pataxó no século XX, contínua vivo.
A História e a Geneologia de Alfredo Braz
Mesmo depois dos aldeamentos, algumas famílias foram deslocadas para outras regiões, misturando-se com outros grupos étnicos. Os conflitos territoriais e os ataques aos indígenas também fizeram muitas famílias pataxó refugiarem-se e buscarem abrigos em outras regiões. Até mesmo em outros Estados, como é o caso dos Pataxó que foram para o Estado de Minas Gerais. A luta pela terra tem sido um dos grandes fatores das dispersões e constituições dessas famílias. Através das pesquisas que fiz, descobri que uma das irmãs de Alfredo Braz, foi levada aos 8 anos de idade para a cidade de Salvador (BA). Hoje ela constituiu uma família com filhos e netos, sem nunca esquecer seu povo, falando sempre de suas origens.
De acordo com os mais velhos, antigamente o indígena não tinha sobrenomes. Isso passou a ocorrer devido aos batismos feitos pela Igreja Católica e os registros da FUNAI. Foram batizadas famílias com os seguintes sobrenomes: Braz, Ferreira, Santana, entre outros. Hoje a família Braz é uma das maiores. Ela casou-se com os Ferreira, constituindo famílias em diversas aldeias.
Segundo Domingo da Conceição Braz, veio da região de Olivença uma indígena conhecida por Derdina, que possivelmente era Pataxó. Ela conheceu João Braz, que era filho da Aldeia Barra Velha,. Eles se casaram e foram morar na própria aldeia e tiveram vários filhos que foram se misturando com outras famílias pataxó de Barra Velha e que com o tempo as famílias foram crescendo.
De acordo com Joel Braz, no Ribeirão, local que fica dentro do território Pataxó de Monte Pascoal, só morava a família de João Braz e de Dona Derdina Braz. Seus filhos foram se misturando com outras famílias do território.
Uma de suas filhas se chamava Maria Marcelina da Conceição Braz e casou-se com Salvador. Dessa união nasceu Acrízio Augusto Braz, Manoel Braz, conhecido como Mané Súia, Elvira Braz e o Velho Antônio Braz, único dos irmãos ainda vivo. Acrízio Braz se casou com Luzia Maria Rosa da Conceição Braz, que era filha de Pedro Ferreira e de Rosa Ferreira.
Segundo, Maria da Conceição Braz, irmã de Alfredo Braz, seu pai Acrízio Augusto Braz e sua mãe Luzia Maria Rosa da Conceição Braz tiveram seus 10 filhos, todos no Ribeirão. Todos os partos foram feitos por parteiras, e dificilmente tinham complicações nos partos. Primeiro nasceu Benedito da Conceição Braz, e em seguida nasceram Jonga da Conceição Braz, Maria da Conceição Braz, Paulo da Conceição Braz, Alfredo Braz Salvador (que foi o quinto filho), Benedita da Conceição Braz, Albino Braz Salvador, Jacira da Conceição Braz, Domingo da Conceição Braz e Rosenia da Conceição Braz.
O Ribeirão é um lugar cercado por matas de difícil acesso, nas margens do Rio Corumbau, dentro do Parque Nacional Monte Pascoal. Do outro lado do rio começa o município do Prado, local que fica a Aldeia Águas Belas, onde mora a família de Emília Pataxó que também saiu de Barra Velha.
Alfredo Braz, que foi o quinto filho do casal, nasceu no dia 1 de maio de 1932 na Aldeia Barra Velha, município de Porto Seguro. Nessa época, moravam poucas famílias na Aldeia. Elas viviam de pequenas roças, pesca e mariscos retirados nos mangues.
Segundo Domingos Braz (irmão de Alfredo Braz), nascido em 4 de agosto de 1951, na época do “Fogo de 51”, massacre que aconteceu na Barra Velha, ainda não existia Posto do SPI na região. “Ninguém defendia o índio”, diz ele. Também conta que ele e seus irmãos foram registrados em Caraíva, único local onde registrava-se as crianças que nasciam na região. Relembra que tinha uma senhora chamada Dona Neném que fazia os registros das crianças indígenas e de todos da região. Ela era casada com um senhor que se chamava “Sr”.
No vilarejo do Vale Verde tinha um cartório, um dos mais antigos da região, e muitos desses velhos foram registrados lá. O João Braz, velho que ramificou a família Braz, teve doze filhos e um foi Salvador Braz, pai do velho Acrízio. E todos nessa época moravam no Ribeirão, próximo ao rio Corumbau. O velho João Braz e Jovino Braz também morava no Ribeirão, onde faziam suas roças de feijão, milho, mandioca, cana. Ninguém via falar em dinheiro. No tempo passado era muito ruim, mas não passava fome, pescava, pegava muito marisco (entrevista com Joel Braz).
As famílias Pataxó constantemente mudavam de locais, em busca de novas terras férteis, onde realizavam seus pequenos plantios de mandioca, milho e abacaxi. Esses grupos familiares procuravam fazer suas casas e roças principalmente às margens dos rios, de onde também retiravam os alimentos diários.
Os Pataxó moravam em grupos familiares, uma forma de manterem-se próximos uns aos outros e desenvolverem atividades comunitárias. No Ribeirão morava Seu Acrízio Braz, e seus filhos. Seis quilômetros em direção à praia ficava a Aldeia Barra Velha, que era constituída por poucas famílias na época e que constantemente também mudavam de lugar. Outros grupos Pataxó se deslocaram para o município do Prado. Mas sempre retornavam para Barra Velha no intuito de rever os familiares e trocar farinha por peixe.
Domingo Braz (irmão mais novo de Alfredo Braz) relatou que seu pai falava muito dos momentos difíceis, por exemplo, quando perdeu seu irmão mais velho, Benedito da Conceição Braz, no ano de 1945. Faleceu e deixou muita gente abalada. Mas mesmo com a morte do filho, a família continuou vivendo no mesmo local. Depois de seis anos, no ano de 1951, época em que aumentou o ciclo da produção do cacau e café, as fazendas da região começaram a usar mão-de-obra pataxó, fazendo com que muitas famílias emigrassem para essas fazendas por períodos de vários meses, em ciclos repetidos ao longo de todo ano.
Em conversa, Joel Braz relatou que o velho Acrízio Augusto Braz era muito trabalhador, que ele criava muita galinha e fazia roçados para plantio de batata, abacaxi e mandioca para fazer farinha. Segundo ele, Acrízio levava esses produtos aos vilarejos de Corumbau e Caraíva para trocar por açúcar, café, sabão e sal.
Alfredo Braz e o “Fogo de 51”
Na década de 50 a situação não era a das melhores para os Pataxó, pois eram obrigados a saírem pelas fazendas vizinhas em busca de trabalho para ajudar no sustento familiar e também para arrumar dinheiro para compra de ferramentas e outros utensílios domésticos necessários à sobrevivência. Eram obrigados a trabalhar para os fazendeiros (que, muitas vezes, pagavam os serviços apenas com comida) ou fazer roças na meia. O velho Honório, nesse tempo, era o cacique da aldeia. Ele era muito respeitado e muito alegre, e lutava pelo povo que ali morava. Nessa época, na aldeia, só existia uma pequena rua na parte baixa e as casas eram feitas de palha de xandó ou de taipa (casa de barro). Por ali só moravam algumas famílias. Muitas outras moravam mata adentro, onde buscavam locais mais adequados para plantar. Esse era o caso da família Braz, que morava às margens do Rio Corumbau, no local chamado Ribeirão.
Foi nesta década de 50 que ocorreu o “Fogo de 51”. Alfredo Braz tinha 14 anos de idade. Ele e seus irmãos, Paulo Braz e João Braz, trabalhavam na fazenda do Senhor João Paulo, na Serra do Gavião, que ficava entre o município de Montinho e o de Itamaraju, em um local distante da Aldeia Barra Velha. Trabalhavam no mesmo local também sua tia Elvira, com seu filho Acelino, e mais outros rapazes da aldeia.
O “Fogo de 51” foi uma violenta ação policial que destruiu a Aldeia Pataxó de Barra Velha no ano de 1951, dispersando os Pataxó que viviam no território do Monte Pascoal. A violência aconteceu numa madrugada e se propagou por dias, após os Pataxó receberem 2 homens na aldeia que diziam terem vindo ajudar na demarcação territorial e ajudar na resolução do conflito com o IBDF. Dizendo serem agentes enviados pelo governo, pediram aos homens da aldeia que buscassem ajuda junto ao comércio próximo. Acompanhando os 2 homens, os pataxós foram até o comércio e ao chegarem no local foram surpreendidos com a voz de assalto ao comerciante por parte dos 2 homens. Nesse momento, foram obrigados pelos malfeitores a levar toda mercadoria da venda para aldeia. De acordo com os mais velhos, nesse momento todos perceberam que haviam caído em uma cilada. Mas já era tarde. A notícia de que os Pataxó haviam roubado a mercearia espalhou-se rapidamente pela região, fazendo com que a aldeia e o povo Pataxó fosse alvo de ataques policiais na madrugada do dia seguinte.
Após dias trabalhando na fazenda, Alfredo Braz e seus familiares receberam a notícia que policiais tinham invadido, na madrugada, a tiros de fuzil, a Aldeia Barra Velha e que tinham dado ordem de prisão para todos os indígenas da região, que não era para deixar um escapar, que muitos já tinham sido apanhados e presos e que outros ainda estavam corridos pelas matas. De acordo com Cornélio Vieira de Oliveira, em seu livro Barra Velha: o último refúgio, foi o fazendeiro, Sr. João Paulo, que chegou trazendo as notícias dos acontecimentos em Barra Velha, relatando que “estão atacando os caboclos […] dizem que é para acabar com todos da aldeia e não é para deixar nenhum vivo” (Oliveira, 1985). Imediatamente, todos ficaram apavorados com a triste notícia, e muito preocupados com o que teria acontecido com os seus familiares que estava na aldeia. Ao mesmo tempo não sabiam se escondiam-se ou se voltavam correndo para a comunidade. O medo maior era de acontecer algo na volta e serem atacados no caminho, pois não sabiam o que realmente estava acontecendo.
De acordo com Oliveira, a cada momento aquele grupo recebia uma notícia nova do fazendeiro, dizendo que a situação não estava boa para os indígenas, que a polícia estava atrás dos indígenas pelas fazendas da vizinhança, que não era bom eles voltarem para a aldeia nesse momento, que era bom eles ficarem por ali mesmo e que podiam se esconder na gruta que ficava dentro da mata, nos cacaueiros. Então Alfredo, Paulo, João e demais resolveram ficar escondidos na gruta, na Serra do Gavião, um lugar bem escondido dentro da mata de cacau. Uma gruta do tamanho de uma casa. Colocaram folhas de jussari para esconder a entrada, e só saía alguém quando o Sr. João batia no cocho: um sinal de que era para buscar comida.
As notícias se espalharam pela região e os que eram amigos dos Pataxó logo mandavam que se escondessem. Segundo Oliveira, na roça do Seu Aurindo, morava um indígena que ele criava e que tinha parentes na Aldeia da Barra Velha. A polícia esteve por lá para levá-lo. No entanto, a família do Aurindo não deixou que levassem o rapaz.
Ainda segundo Oliveira, para garantir a segurança da gruta onde estava Alfredo Braz e o restante do pessoal, eram feitas sentinelas dia e noite. Quando dava fome comiam bananas e cacau. Passaram dez dias amoitados, alimentando-se apenas de frutas, sem dormirem direito, muito assustados que estavam, com medo de que a qualquer momento alguém podia chegar e pegá-los. Mas o tempo já tinha passado sem contato com família.
Quando veio uma notícia que as coisas já tinham se acalmado pela redondeza, veio também uma ordem do governador que era para soltar os indígenas que haviam sido apreendidos. Que era para deixá-los em paz. No entanto, muitos Pataxós já tinham se espalhado por toda região. Muitos haviam sumido sem deixar notícias. Oliveira descreve que Alfredo e seu irmão João correram para a fazenda do Beija Azevedo, no Macaco Gordo, para buscar seu irmão Paulo que lá trabalhava. Estavam preocupados porque a fazenda ficava na beira da estrada. Mas não houve meio de convencer Paulo a sair. Estava de namoro com uma mocinha que também trabalhava na fazenda.
Já estavam vivendo debaixo da pedra há dez dias, quando chegou a notícia que a confusão em Barra Velha havia acabado.
– Agora vou procurar meus pais e os irmãos menores, disse Alfredo.
– Rapaz, você vai fazer o que, lá? Não tem mais ninguém lá não. Acabaram com tudo, disse o fazendeiro.
– Quando nada, vou saber alguma noticias. Nós deixamos muita galinha, porco, perú, criação de pato. Vou ver como está por lá.
Passando na Gameleira, encontrou o Cidani e chamou-o para que fosse com eles. Quando chegaram na Paranha, souberam que seus pais e as crianças estavam na Corrida. Resolveram passar primeiro na casa deles para ver como estavam as criações. A roça ficava no Ribeirão, do lado do Corumbáu. A casa tinha sido queimada. Tudo em silêncio, nenhum sinal das criações. Resolveram chegar na roça, que ficava um pouco mais adiante. Ao chegarem, avistaram um piseiro danado. Os porcos estavam todos lá, escaparam porque a roça ficava longe da casa e ninguém descobriu o local (Oliveira, 1985, p. 33).
Alfredo resolveu procurar sua família, na aldeia onde aconteceu o ocorrido, mas não sabia o que ia encontrar pela frente, ou mesmo se iria encontrar alguém vivo. O desespero espantou o medo de caminhar pelas matas, e a cada localidade encontrava alguém com uma noticia. Quando chegou ao Ribeirão, não encontrou ninguém, apenas os porcos espalhados pelos matos e a casa queimada. Desesperados, Alfredo e seu irmão, caíram na mata para buscar notícias, pois nos vilarejos não estariam, posto que todos estavam entregando os indígenas. Depois encontraram um conhecido que informou que muitos indígenas estavam à beira do Rio Corumbau e que outros haviam fugido para Minas Gerais e Espirito Santo. Então eles pegaram o caminho subindo às margens do Rio Corumbau à procura dos familiares. Quando chegaram bem acima do rio, avistaram um grupo de pessoas da comunidade. Seus pais também estavam lá. Ao revê-los, ficaram muito contentes, pois não sabiam o que havia se passado com eles, pois haviam estado acurralados por muitos dias com medo, sem saber o que fazer. Já tinham mais de 30 dias fora de casa.
Seu Acrízio ficou com tanto medo que não quis voltar para o seu lugar. Ficou com muito medo que os policiais voltassem novamente.
Barra velha ficou vazia. O mato crescia no meio da rua e no lugar das casas. As roças foram destruídas, ou melhor, colhidas pelo pessoal de Caraíva.
Todo o povo foi espalhado pelas fazendas. Havia índio na fazenda do Edgar Caldas de Oliveira, em Porto Seguro. Na fazenda do tenente Rocha, no rio do Prado, chamada Fazenda Perigoso. Na fazenda do capitão Fernandes, em Alcobaça. No rio das Palmeiras, o fazendeiro Anjo Apolon, conseguiu ajuntar muitos índios, porque ele era muito bom e tratava a todos muito bem. Até havia se ajuntado com uma índia, que agora é mulher do velho Júlio, o fazedor de cordas.
A maioria dos velhos morreu logo. Não conseguiram recuperar-se daquele infortúnio. O Cosme teve a omoplata quebrada com uma coronhada de fuzil. Uma índia chamada Ana, que estava gravida, perdeu uma criança, porque haviam batido com os pés no peito dela.
O Cacique Honório ainda seguiu para o Rio de Janeiro para ver se conseguia alguma ajuda. Muito tempo depois foi encontrado no Campo do Boi, dirigindo-se para aldeia. Mas informaram-lhe que não deveria ficar andando pela região, porque todos estavam revoltados contra ele, considerando-o culpado de tudo. Mais tarde soube-se que havia morrido em Canavieira. (Oliveira, 1985, p. 33)
Muitos dos indígenas que foram espancados, poucos dias depois, morreram devidos aos hematomas e à tristeza de terem sido tirados de suas casas, sem direito a nada.
Dificuldades e sobrevivência após “o Fogo de 51”
Depois de 7 anos as coisas começaram a se normalizar. Muitas pessoas voltaram para a aldeia. No entanto, outras não tiveram coragem, pois tinham medo que ocorresse toda aquela situação novamente. Nessa época quem ficou como cacique foi Epifânio, pai de Dona Josefa. Mas as coisas não estavam boas por conta de uma grande solina na região. Nada que plantava nascia. Com a dispersão dos Pataxó, o governo aproveitou para instalar definitivamente o Parque Florestal de Monte Pascoal, que seria gerenciado pelo I.B.D.F. Com a criação do parque tudo começou a mudar para os Pataxó, pois já não tinham mais a liberdade de antes. Então, a partir daí, começou uma nova luta para ter a garantia de usufruir o que antes tinham de direito. Usufruir o que a mata lhes dava, já não se podia mais. Então, uma nova luta começou a ser travada.
Muito tempo depois, Alfredo Braz e sua família retornaram para o Ribeirão, depois de viverem perambulando pela região em busca de lugares onde morar. Nessa época, nada era fácil. Uma grande seca assolou a região e era muito difícil plantar. O governo já tinha implantado o Parque Nacional do Monte Pascoal e deslocado guardas do I.B.D.F para tomar dos limites da área do parque e não permitir a entrada de ninguém. Nessa época, Alfredo já estava na faixa etária dos 20-25 anos. Ele gostava de caçar com seus irmãos e tendo sido sempre muito trabalhador, gostava de fazer suas roças para ajudar o pai.
Domingo Braz conta que eles iam para a mata da Varejeira tirar piaçava, um trabalho de rotina para ganharem algum trocado:
A gente, por exemplo, não tinha cachorro, mas com as vivências que tínhamos na mata, dos nossos costumes de caçar e pescar, facilitava. O finado Alfredo era mais velho e mais experiente nas matas e campos, então ele levava uma vara nas mãos, como se fosse uma lança, que ele via um buraco cheio de folhas, ele cutucava, se saísse os mosquitos das folhas, ele falava que tinha tatu, então ele colocava o ouvido na boca do buraco e via o tatu mexendo e emburrava aquela vara para dentro, via o tatu se mexendo. Ele logo gritava: “Os meninos aqui tem um tatu aqui! É mesmo!”. Aí eu colocava o ouvido no chão e escutava o tatu cavando. Eu perguntei, “e o que vamos fazer agora para o tatu não cavucar?”. Alfredo pedia logo para tirar uma folha de patioba e dava um nó na folha e colocava na boca do buraco e logo o tatu parava de cavucar por causa daquele nó. Aí a gente fazia um cavador de pau, para abrir o buraco. Tinha vez que pegávamos dois, três tatus por dia.
Lá na mata da Varejeira, onde nós pegava essas caças, fazia um moquém e moqueava as caças para a gente comer, não tínhamos panela e pegávamos três folhas de patioba e amarava em uma vara, colocava o fogo debaixo e a carne dentro com água, e dessa forma cozinhava nossos alimentos na mata (entrevista com Domingo Braz).
Domingo Braz conta também que Alfredo Braz tinha gostado da filha do velho Jacó – Seu Defino e de Rosalina Santana, mais conhecida como Dona Neném – que estava ficando mocinha, mas morava do outro lado do Rio Corumbau. Nessa época, não existia namoro. Quando a pessoa gostava, ela logo se ajuntavam e quando os pais não permitiam, acabavam fugindo. Isso era constante na aldeia. Certo dia Alfredo foi até a casa do Velho Jacó pedir a mão de sua filha Francisca, e de lá saiu com o casamento marcado, com direito a festa. Mas não foi bem assim. As coisas tomaram outro rumo. Alguns dias depois a menina fugiu com Alfredo e foram morar com seus pais no Ribeirão. Ele ficou com muito medo e preocupado com o casamento que tinham marcado. Ao chegar em casa falou com seus pais e logo ela foi aceita pela família. Depois de algum tempo, os pais de Francisca vieram morar em Barra Velha e as coisas normalizaram-se.
Nesse casamento, Alfredo e Francisca tiveram 12 filhos. Alguns dos filhos foram batizados com os nomes de santos das festividades da aldeia, como Pena Braz Santana, Cremilda Braz Santana, Antônia Braz Santana, Zizi Braz Santana, Alfredo Braz Santana, Sebatião Braz Santana, José Conceição Braz Santana, Damião Braz Santana, Uelson Braz Santana, Juceli Braz Santana, Marília Braz Santana, Alcione Braz Santana. Os 3 mais velhos nasceram no Ribeirão. Já os demais nasceram em Barra Velha. Nessa época, as coisas ainda não estavam boas na região, pois ainda continuava a seca e os conflitos com IBDF.
Como a situação não estava boa em Barra Velha, e Alfredo Braz já estava com três filhas maiores, que eram Penina (Pena), Meruka (Cremilda) e Tonha (Antônia), ele chamou seu irmão Paulo e resolveram ir morar no Arraial D’Ajuda, na beira do rio Buranhém, onde hoje formou a comunidade de Aldeia Velha. Paulo também levou a moça do Macaco Gordo com quem tinha se casado. Chegando lá, isso foi em 1962, pegaram uma empreitada do fazendeiro para derrubar 150 tarefas. As crianças passavam o dia todo no campo, comendo goiaba, e os adultos chupavam limão para matar a fome (Oliveira, 1985).
Oliveira descreve em seu livro que Alfredo e Francisca, e seu irmão Paulo, viram que a coisa não estava boa. Já tinham passado por tantas necessidades, além de trabalharem sem direito a nada. Desta forma, resolveram retornar para Barra Velha e irem para o Ribeirão. Foram a pé com suas três filhas. A menor tinha que ser carregada nas costas e toda a caminhada era feita pela beira da praia. Quando chegaram em Itaquena tiveram que parar para matar a fome, descansar e passar a noite, para no outro dia seguir viagem.
Quando chegaram à Aldeia Barra Velha, perceberam que as coisas também não estavam bem por lá. Com a seca na região, as roças não deram bons plantios. E assim logo seguiram para o Ribeirão, para ver como estariam as coisas por lá. Ao chegarem se depararam com sua pequena casa, que era feita de taipa e coberta de palmeira. Viram que ela estava toda coberta de mato que havia crescido durante o tempo que haviam ficado fora.
Alfredo ficou no Ribeirão, refazendo suas roças e cuidando da sua família. Depois se mudaram para a beira do Rio Caraíva, próximo ao Porto do Boi. Nesse lugar nasceu mais uma de suas filhas: a Zizi. Depois resolveram morar num lugar próximo ao Champrão, logo após o Rio Corumbau, no município de Prado. Neste local, já moravam os pais de Francisca, e nesse lugar nasceu mais um filho que foi batizado Alfredo Braz. Lá ele fez um roçado para plantar abacaxi, mandioca e banana. Esse roçado que ficava a pouca distância. No entanto, Alfredo Braz saía todos os dias para cuidar da plantação. Depois de um mal entendido, e para evitar confusão, voltaram novamente para a Aldeia Barra Velha. Quando chegaram à Barra Velha fizeram uma pequena casa de taipa no centro da aldeia, próximo à casa da sua mãe Luzia, que ficava na rua de baixo. Também morava Maria, que era casada com José, João Nascimento, a mãe de Luís Capitão, a família de Seu Tururim, Velho Júlio e Dona Santa, entre outros. Nessa época estavam tendo muitas dificuldades por conta das perseguições dos guardas do IBDF que não deixavam a comunidade fazer roças, tirar piaçava, caçar e pescar.
O trabalho era penoso. Passavam uma primeira noite cortando piaçaba. No dia seguinte ficavam escondidos no mato dormindo, na noite seguinte traziam a piaçaba escondida perto de casa. Somente na outra noite vendê-la.
Viviam como ladrões, roubando em sua própria terra. Índio Paulo Braúna. Que só tem uma mão, por ter sido atacado por um desconhecido, no tempo que andou disperso, recebeu um tiro dos guardas, quando estava trepando num pé de piaçaba e teve que jogar-se lá de cima.
O dinheiro da piaçaba é que garantia a farinha (Oliveira 1985, p. 45).
Mas graças aos rios, as caças dos campos, as frutas e ao mangue, que eram as fontes principais de alimentos da comunidade, garantiam os seus sustentos, pois todos os dias as famílias saíam para o mangue catar caranguejo.
Meruka, minha mãe, contou que quando ela já estava mocinha, ela e sua mãe, Dona Chica, iam para Corumbau tentar conseguir peixes, e que muitas vezes era muito difícil encontrar. Muitas vezes não tinha nada para dar de comer aos seus irmãos e para complementar com os caranguejos que seu pai, Alfredo, pegava. Sua mãe cozinhava banana verde e as amassava. Era a única coisa para comer durante o dia.
Todos os dias as famílias saíam para os mangues, como se fosse um grande ritual. As mulheres, os homens e as crianças passavam nos campos para catar coquinhos de xandó, mangaba, caju, murta e garu nos meses de dezembro e janeiro. Era uma grande festa para as crianças. Nessa época, a solução era mesmo comer o caranguejo sem farinha, lá no mangue mesmo. Sempre aproveitavam para catar siris, bujigão e conchas para complementar os alimentos.
Nesse tempo, começou a aparecer um pessoal do Pongó e do rio Preto, que vinha trazer farinha e beiju para vender. Quando era avistado ainda bem longe, o pessoal ficava animado, porque na maioria das vezes já estavam sem comer farinha a mais de uma semana.
Os beijus eram tão duro que tinha que ser colocado de molho para que as crianças pudessem comê-los no outro dia. Mas mesmo assim, o pessoal chegava a fazer uma roda em volta dos vendedores e iam pegando tudo. Muitos até pegavam alguma coisa sem ser anotados. E o negocio prosseguia, um pouco de farinha para um, dois ou três beijus para outro. Uns compravam banana, outros batata. Um dos vendedores se chamava Nelson das Batatas (Oliveira, 1985, p. 43).
Seu Alfredo, em noite de lua cheia e nova, gostava de ir até as pedras no dia de maré grande para catar ouriços. Suas filhas e dona Chica enchiam os samburá e panacum. Eles eram levados para casa, onde se fazia uma fogueira no meio do terreiro e onde eram colocados os mariscos nos braseiros. Todos se deliciavam.
No outro dia, Alfredo tinha que acordar bem cedo para ir até a roça, ver como estavam os plantios de mandioca, abóbora e batata. Com seis meses, as coisas começaram a melhorar, as plantações já estavam boa para colheita. Dona Francisca, esposa de Alfredo, pegava uma lata de querosene, abria-a ao meio, e fazia uma espécie de forno para torrar farinha. Com a outra metade da lata fazia-se o ralo para ralar a mandioca, que depois era espremida em um pano ou em um tapiti de palha. Dona Francisca e suas 3 filhas maiores ficavam responsáveis por arrancar e ralar a mandioca, e preparar a farinha e beijus. Enquanto isso, Alfredo ficava responsável por abrir clareiras para colocar novas roças em um lugar chamado Porto da Palha, que fica mais próximo das matas do parque, onde a terra era melhor para plantar. Nesse local fizeram uma roça maior. Seu Alfredo gostava de caçar e colocar mundéus e laços para pegar tatu.
Meruka conta que não tinha muita roupa e nem coberta. Quando o frio era demais, sua mãe aproveitava sua saia, que era grande, para cobrir as crianças, e seu pai acendia o fogo no chão do barraco. Assim todos aqueciam-se deitados em esteiras feitas de taboa. Nós não tínhamos roupa suficiente e quando ia para lagoa, esperávamos secar para vestir de novo e retornar para casa.
Nessa época nasceu Sebastião, batizado com o nome do santo padroeiro da aldeia, que se comemora todo dia 20 de janeiro. As meninas já estavam ficando moças e ajudavam a família no cultivo.
Mas para ajudar no sustento da família, Alfredo com os companheiros resolveram tirar piaçaba, mas tinha que ter cuidado com os guardas do IBDF, que começaram a perseguir os indígenas. Para driblar os guardas eram obrigados retirar a piaçaba durante a noite.
A formação e a história de luta de Alfredo Braz
Com a morte do velho Epifânio, seu irmão Luiz se tornou cacique. Dona Josefa fez de tudo para que o velho Epifânio não morresse. Devido a sua idade e fraqueza não resistiu. No entanto, lhe fez um pedido para que “cuidasse do seu povo”.
As perseguições do IBDF aumentavam, pois queriam impedir, de qualquer forma, que os Pataxó cultivassem suas roças, uma vez que a piaçaba já estava escassa e havia terras melhores dentro do parque. Não tinham para onde ir: do outro lado do rio Caraíva e Corumbau já estava tudo ocupado por posseiros. Então tinham que enfrentar as agressões dos guardas que, por várias vezes, expulsava algum Pataxó quando o encontrava fazendo roça. Nada era fácil. Estavam acurralados feitos animais e viviam uma vida miserável dentro de suas próprias terras, sem o direito de entrar dentro de suas próprias casas.
Durante muito tempo ficaram nessa situação. Eram discriminados e ainda tinham que ficar quietos, pois se falassem eram presos. O único alimento era o caranguejo, que tinha sua época, mas não se encontrava mais farinha, pois não havia mais roças de mandiocas, já que eram proibidos de plantar. Muitos faziam as roças pequenas às escondidas para tentar colher alguma coisa.
Certo dia, Alfredo conseguiu reunir uns 15 homens e formar um mutirão para fazer uma derrubada e colocar uma roça para a comunidade. Prepararam quase uma roça por dia, trabalhando praticamente sem comer. De manhã, tomavam somente água e seguiam para o trabalho. Chegaram a comer folhas de mato para saciarem a fome.
A situação era cada vez pior. Eram perseguidos pelos guardas, liderados pelo tenente Siguara, que não os deixavam em paz. As brigas eram constantes. Sem condições de defenderem-se os Pataxó já não sabiam mais o que fazer. Muitos indígenas já tinham fugido pela situação em que viviam. Cada vez, mais famílias queriam ir embora. Eram as consequências da recente marca deixada pelo massacre de 1951 que ainda rodeava e que ainda não tinha cicatrizada. Foram muitas lutas e muitas perdas para se garantir como indígena. A vida cercada de desafios sem saídas.
Nessa época, começa um novo cenário pela garantia do direito de viver em nossas terras. Uma época onde pudessem plantar e reconstruir tudo de novo. No entanto, para muitos, ali já tinha tudo acabado. Muitos já tinham ido embora, largando para trás suas origens e as historias de um passado que ficou marcado em seus corpos e mentes. Alguns tiveram coragem de voltar, e tentar de novo, pois ali estavam enterrados seus avós, e não podiam deixar que tudo isso se apagasse. Pois era efetivamente isso que o governo queria.
Diante da situação das perseguições dos guardas do parque, só vinham aumentando os conflitos e a revolta da comunidade. Na época posterior ao “Fogo de 51”, veio uma grande seca na região. Nada que plantava dava, e principalmente nos locais onde as terras não eram férteis. Os melhores locais de plantar eram justamente onde ficavam os guardas do IBDF. E eles não deixavam a comunidade fazer suas roças nesses locais. A comunidade se sentia humilhada dentro da sua própria casa. E para não ver coisas piores acontecerem, tiveram que buscar seus direitos, já que não sabiam mais o que fazer.
A sede da FUNAI ficava em Brasília. Antes da FUNAI, o SPI funcionava no Rio de Janeiro, antiga capital federal. Havia sido para lá que o Capitão Honório havia ido buscar apoio antes de 1951. Para não ficarem padecendo, as lideranças se reuniram com a comunidade para decidir quem até Brasília em busca de apoio. Segundo Oliveira, foram arrecadados 7 contos. Alfredo Braz propôs-se ir com o cacique Luiz Capitão, enquanto os restantes ficavam tomando conta da comunidade. Muitos achavam que eles não deveriam ir, porque era muito ariscado, que eles não tinham as condições de viajar pelo mundo a fora. No entanto, não tinham outro caminho: se ficassem ali ficariam vendo seu povo sofrer, sendo expulso do único pedacinho de terra e ao mesmo tempo correndo o risco de perder esse único pedaço que restava.
Colocaram os sacos nas costas e com o pouco de dinheiro arrecadado seguiram a pé. Ao anoitecer chegaram em Itamaraju. Na madrugada seguinte, continuaram até o vilarejo de Patioba, logo abaixo de Medeiros Neto, onde compraram 1 quilo de carne com o dinheiro que tinham arrecadado. Quando a carne acabou tiveram que arrumar serviços nas fazendas em troca de comida. Depois de alguns dias, chegaram à cidade de Teófilo Otoni, já no Estado de Minas Gerais. Chegaram muito magros, muito cansados e muito assustados com aquela multidão de pessoas diferentes. Todos ficavam olhando enquanto iam passando. Sem ter onde dormir, foram buscar se agasalhar na ferroviária, que era o lugar mais seguro. Durante a noite tiveram que dividir seus espaços com os mendigos que, para eles, eram muito novidade.
Ao amanhecer compraram suas passagens de trem com o dinheiro que tinham conseguido ganhar com os trabalhos que realizaram durante o caminho. E assim seguiram viagem até Brasília.
Durante a viagem passaram por diversas necessidades, sofreram piadinhas preconceituosas e fome, pois não tinham dinheiro nem para tomar um café. Tudo era uma grande novidade. Não sabiam ler e, ao mesmo tempo, todos olhavam de forma estranha para os dois.
Teve uma situação em que Alfredo Braz precisou fazer sua necessidade e perguntou a uma senhora que estava varrendo. Ela informou que o banheiro era na próxima porta. Mas ao se deparar com um vaso bonito na parede, ele logo foi esvaziando sua bexiga. Mas de repente uma criança saiu gritando: “Pai, o homem está urinando na pia!”. Logo apareceu gente e a confusão estava feita. Como os policiais perceberam sua inocência, liberaram e ele pediu desculpas pela sua ignorância. Mais tarde veio a vontade de ir de novo ao banheiro. A dor apertou e ele foi obrigado a correr novamente ao banheiro para aliviar. No entanto, não sabia o que fazer com a fezes. Logo veio o medo e esmagou-as com as próprias mãos. Saiu correndo ao encontro do seu companheiro.
Depois de muitos dias de viagem chegaram finalmente à Brasília. Devido à longa viagem e necessidades estavam magros e fracos. A fome ainda atormentavam e nenhuma moeda para tomar um cafezinho. Ficaram por ali sentados, observando sem saber o que fazer. Alfredo resolveu caminhar para ver se arrumava alguém que desse um cigarro. Seu companheiro, Luiz Capitão, já não estava bem de saúde, precisava logo comer alguma coisa. Então se aproximou de um senhor, alto, branco e forte, que parecia estar aguardando alguém. Alfredo logo lhe pediu um cigarro e assim começaram a conversar. Ele logo perguntou a que etnia pertenciam e de onde eram. Logo responderam que eram Pataxó da Bahia e que eles estavam procurando a FUNAI. O homem disse que sabia onde ficava, e ofereceu-lhes uma carona. Foram direto para a FUNAI. Ao chegarem foram recebidos pelos funcionários. Deram comida, e como a situação de saúde deles não era boa, foram encaminhados para o Hospital. Luiz Capitão teve que ficar internado por alguns dias, pois estava muito doente.
Então o presidente da FUNAI os recebeu, e logo foi perguntando o motivo daquela viagem à Brasília, pois era a primeira vez que estavam recebendo os Pataxó do Sul da Bahia. Logo foram relatando a situação que a comunidade estava passando em suas terras, relatando as perseguições dos guardas do IBDF que não os deixavam viver em suas próprias casas. Após horas de conversas, o presidente da FUNAI prometeu enviar um documento para Salvador, solicitando que o IBDF deixasse os Pataxó em paz, e que providenciassem a demarcação de suas terras. Disse que iria mandar uma equipe da FUNAI até a região para avaliar toda a situação da região. Para retornarem, receberam roupas e dinheiro para que pudessem chegar a sua comunidade com saúde e segurança.
Durante toda a viagem passaram por varias dificuldades. Na época, 2 indígenas sem leitura nenhuma, saindo pela primeira vez, não era normal. No entanto, não tiveram outra escolha, já que precisavam buscar alguma ajuda para não ver seu povo penar nas mãos dos guardas do IBDF. Na época, o único indígena que havia viajado era o velho Honório. Foi a partir dessa viagem que recomeçou a luta pelo território Pataxó, dando assim continuidade à luta de Honório Borges. Para muitos não entrava na cabeça essa tal de demarcação, pois para eles a terra não tinha um dono, todos eram donos e podiam viver até o tempo que quisessem. E de repente chega alguém, falando que ali não podem mais plantar, caçar e morar. O processo de reocupação do território pataxó não foi nada fácil, assim como viver sobre pressão também não era fácil.
Domingo Braz conta que Alfredo Braz sempre foi uma liderança e nunca desapontou sua comunidade. Que ele ajudou muito na luta pela demarcação. A coragem dele e de Luiz Capitão, de saíram sem dinheiro, é uma historia que não podemos esquecer.
Através de sua coragem, Alfredo Braz, que já era filho de um grande líder, ganhou respeito do finado Epifânio, Luiz Capitão, Cassiano e da finada Dona Josefa. Essas eram as lideranças mais velhas da aldeia. Foi assim que começou sua lida como liderança da comunidade. Foi então que eles perceberam que Alfredo Braz precisava ser um líder do cacique ou vice cacique de Luiz Capitão, que neste momento era o cacique. Depois de tempos ficou sendo o vice-cacique de Tururim. Nessa época só os Ferreira, Braz e os Alves é que viviam de forma bem tradicional na Aldeia Barra Velha, ainda não demarcada.
Pois seu avô era um grande amigo meu e ele era um grande DIPLOMATA, pela sua habilidade de negociação nos diversos assuntos das nossas inúmeras reuniões, um sábio apaziguador de conflitos, e um homem de fala mansa, sempre com grande senso de humor. Ele era mestre nisso, conseguia nos momentos de discussões árduas sempre fazer alguma brincadeira e todos davam risadas e acalmava assim a discussão. Essa era uma grande estratégia diplomática que ele sempre usava de quebrar a perna da pessoa e calar a boca do outro com alguma brincadeira. Tururin e ele eram muito amigos, e Tururin nunca discordou de nenhuma palavra do finado Alfredo, sempre concordava com tudo que ele falava. (Fala de Moacir Mello, ex-chefe de posto da FUNAI de Barra Velha, março de 2016).
Depois de muitas lutas e andanças durante toda a década de 70, a FUNAI mandou até Barra Velha um Chefe de Posto chamado Rogério. Ele passou a conhecer as necessidades da comunidade e a FUNAI começou a acompanhar todo processo junto ao governo.
Nessa época as coisas começaram a ter sentido, e o povo que era chamado de caboclo tinha sua identidade. Para fazer o estudo da área foi enviado uma equipe de antropólogo de Salvador que era conduzida pela Rosarinha que começaram a lutar com Alfredo Braz, Tururim e o chefe de posto, o Rogério. A Rosarinha também se interessou pela luta da terra, onde fez documento, relatório, carta e todo mundo foi para o campo tirar caco de panela e as marcas dos índios antigos e ela levou tudo para Salvador e depois ela voltou em 1979 (entrevista com Domingo Braz).
Com a luta da terra começou também a luta pela educação: o sonho da comunidade em ter uma escola na aldeia e também um posto de saúde para atender os 271 indígenas da Aldeia Barra Velha.
A perda de um grande líder e seu legado para o povo Pataxó
Depois de 35 anos do massacre do “Fogo de 51” muitas coisas mudaram. Algumas famílias começaram a voltar para Barra velha. Muitas crianças nasceram e já tinham muitos casamentos entre Ferreira, Braz e Alves. Já existia o Posto da FUNAI, sala de aula e atendimento à saúde. No entanto, as cicatrizes de um passado de tristeza estava presente na fala dos mais velhos no dia-dia. Mas as viagens, o reconhecimento e luta pela demarcação do território ainda continuava um grande desejo, que já se tornava uma realidade. Seu Rufino Ferreira e Alfredo Braz, além de seus companheiros, sempre viajavam para Salvador, Governador Valadares e Porto Seguro, em busca da demarcação da terra. Com a luta das lideranças, os Pataxó começaram a ter mais respeito diante das autoridades e ganharam destaques nas mídias locais. Nessa época, Alfredo Braz continuava morando na roça, em um lugar mais afastado do centro da Aldeia Barra Velha. Alguns filhos já estavam casados. Nasciam seus primeiro netos. Como sempre, ele gostava de cuidar de suas plantações e criações, e desta forma preferiu morar afastado, onde cultivava o abacaxi, feijão, milho, mandioca, coco e melancia. Nessa época, a FUNAI deu um pequeno barco para que a comunidade pescasse e fosse vender seus produtos no centro de Porto Seguro. Muitas coisas boas estavam surgindo para a comunidade. No entanto, nunca pararam de sonhar com dias melhores. A paz tornava a reinar e muitos Pataxó mais velhos, que correram do “Fogo de 1951”, começaram a retornar. Algumas famílias não retornaram com medo de tudo acontecer novamente.
Em certa ocasião, os parentes da aldeia saíram para uma pesca. No alto mar uma tempestade os pegou. O pequeno barco e todos os que estavam a bordo desapareceram, ninguém nunca os encontrou. Esse dia ficou marcado na comunidade, deixando familiares com muita dor no coração: uma tragédia que deixou a comunidade de luto por vários anos. Isso ainda é lembrado por seus entes queridos.
Nessa época, o acesso à comunidade era muito difícil. Só era possível chegar a pé ou no lombo de um animal, pois as estradas existentes eram apenas de animais. Outra forma de chegar à comunidade era pela beira da praia, até Caraíva ou Corumbau, ou então pelo mar, através de barcos de Porto Seguro, Trancoso, Prado e Caravelas. Quando a FUNAI fez a sede na aldeia, era muito complicado levar medicamentos e alimentos para a comunidade. Desta forma fizeram um aeroporto de pequeno porte para atendar e levar os funcionários que atendiam a comunidade.
Nas nossas historias, houve muitos líderes guerreiros(as) que foram grandes heróis para nosso povo Pataxó. Pessoas que lutaram, que passaram grande parte de suas vidas dedicas à luta da comunidade. Muitos desses heróis ficaram no anonimato. Outros se destacaram mais. Muitos desses líderes já morreram de velhice. Outros foram mortos em conflitos, assassinados por latifundiários. Nem toda história foi assim. Ela é triste, mas é uma realidade, e neste artigo procurei entender detalhadamente o que de fato aconteceu, o que ocasionou a morte de Alfredo Braz. Quem foi que o matou? Isso não importa, e não foi esse meu interesse. Mas escrever o quanto ele e outros foram importantes para a luta de resistência do povo pataxó. Depois de varias entrevistas, coletando informações, cheguei a uma conclusão que não poderei citar neste artigo alguns fatos sobre a morte de Alfredo Braz, pois essa ferida ainda mexe com os mais velhos, principalmente os familiares. Também nessas caminhadas ouvi muitos relatos do homem bom, alegre, batalhador, que nunca desejava mal a ninguém. Diante deste trabalho faço uma grande reflexão que nem todos os brancos, indígenas e negros são bons, em todas as raças existem pessoas más e boas, pessoas que não se importam com o bem de seu próximo.
Alfredo Braz foi assassinado em 1984 em plena luz do dia, quando retornava do vilarejo do Corumbau, que fica a 6 km da aldeia, do outro lado rio, lugar onde sempre a comunidade ia vender peixe ou trocar alimentos. Nessa época, o seu filho Alfredinho Braz e seus companheiros estavam jogando futebol, em um antigo campo, que ficava as margens da lagoa, onde a comunidade tomava banho e lavava roupas. De repente ouviram um tiro que vinha da estrada que vai para o Corumbau. Logo alguém disse: “O seu Mané Periquito está caçando!”. Era rotina ouvir esses tiros. Minutos depois chegou um rapaz, trazendo a notícia que seu pai estava morto nas mangabeiras e murteiras próximas à estrada. De repente todos correram em direção ao local. Logo a notícia se espalhou. Com essa situação, uma grande revolta tomou conta de toda comunidade e uma grande dor tomou conta dos familiares, que não entenderam o porquê da barbaridade.
Devido essa grande revolta, seus irmãos Paulo, Domingos e João foram embora para uma aldeia em Minas Gerais, e nunca mais voltaram. Hoje, seus filhos e netos cresceram em outras aldeias e formaram novas aldeias para esquecerem esse passado de muita dor.
Na época do acontecimento, sua mãe estava viva e morava na Aldeia Barra Velha, com uma das suas irmãs caçula, Rosenia da Conceição Braz, que tinha 11 anos de idade. Hoje ela está com 59 anos de idade e mora na Aldeia Pé do Monte, vivendo da sua aposentadoria. Ela se casou aos 14 anos de idade com Valmir da Ressurreição Braz (conhecido como Sapica) e tiveram 10 filhos. No início moravam em Barra Velha. Depois mudaram-se para Campo Boi e Boca da Mata, e depois para a aldeia Pé do Monte. Hoje Rosenia já está com quase 20 netos. Os seus filhos são: Gildazio Braz, Maria Braz, Zeti Braz, Nareis Braz, Alexandre Braz, Marcelo Braz, Seris Braz, Coquimar Braz, Saiuri Braz e Indinar Braz.
Depois da morte de Alfredo, a família teve que sair do lugar. A mãe criou os filhos através das roças e morava no Ribeirão, que era terra dos Braz. “Nos Pataxó era feliz. Se Alfredo não tivesse sido liderança, estaria vivo”. ( Domingo Braz).
Considerações finais
Diante de várias lutas, perdas e conquistas, estamos agora vivendo uma nova luta, que defino como “Luta da contemporaneidade indígena”, onde estamos nos organizando com estratégicas políticas para garantir que indígenas assumam cargos nas gestões públicas, nas esferas municipal, estadual e federal, para que possam lutar pelos direitos das políticas públicas para as comunidades que também estão enfrentando novas realidades, tendo que se adaptar sem perder a identidade étnica.
Hoje enfrentamos novos desafios em nossas comunidades, como o surgimento de novas doenças devido à mudanças de alimentação ou o aumento das famílias indígenas faz com que as terras se tornem cada vez menores, tornando-se um grande caos social. Mas acredito que estamos muito melhor que antes. A cada ano são formados diversos indígenas nas universidades e isso é o resultado de muita luta das lideranças. Devemos agradecer aos mais velhos que deram suas vidas por todos nós. Hoje vejo que nós, estudantes indígenas, temos que contribuir com a luta da nossa comunidade, é o mínimo que podemos fazer. E vejo que temos que virar a nossa história, reescrevendo e deixando registrada para a nova geração. Não podemos deixar nossa história morrer, temos que fazer parte dela e garantir que os nossos filhos continuem a sonhar com dias melhores.
Na garantia de passar essa historia para meus filhos e toda a nova geração Pataxó, me debrucei em escrever a historia do meu avô, que também faz parte da historia de muitos que ainda precisam serem escritas. Dessa forma poderemos contribuir com a continuidade da nossa cultura. Não pretendo parar nesse trabalho, tenho muito a contribuir com o meu povo, assim como temos muitos que podem fazer parte dessa contribuição.
Referências biliográficas
OLIVEIRA, Cornélio Vieira. “Barra Velha. O último refúgio”. Londrina , 1985.
WIED-NEUWIED, M. Viagem ao Brasil. Tradução de Edgar Mendonça e Flávio Figueiredo. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1989.
biografia