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Dona Potência

Autor(es): Suelen Siqueira Julio
Categorias:Biografia, Estado, Goiás, Etnias, Xavante
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Dona Potência Xavante

 

Em trabalho sobre a Amazônia portuguesa, Almir Diniz Carvalho Júnior escreve sobre a importância dos mediadores indígenas – os índios cristãos, que faziam a ponte entre populações indígenas e os aldeamentos. Tais índios cristãos, muitas vezes criados nas missões dos jesuítas, tornaram-se peças essenciais para a manutenção do controle sobre a população indígena. Entre esses mediadores, o autor cita algumas mulheres[1].

Aqui iremos tratar de um exemplo de liderança exercida por mulheres indígenas, dessa vez em Goiás. Estamos falando de uma xavante que tinha o sugestivo nome de D. Potência, da qual apenas conhecemos fragmentos de sua interessante trajetória. Ela oferecerá o ensejo para que nos aproximemos da situação dos povos indígenas em Goiás, na primeira metade do século XIX.

Na década de 1840, o conde de Castelnau foi enviado pelo rei Luís Filipe como chefe da expedição científica francesa à América do Sul, visitando alguns aldeamentos construídos para os índios. Em Goiás, Castelnau visitou São José de Mossâmedes e Carretão, lugar em que encontrou uns poucos xavantes chefiados por uma anciã muito respeitada, D. Potência. Carretão, que em outras épocas abrigara milhares de índios, naquele momento se encontrava reduzido a “muito poucos”. O conde observou que

O aldeamento era governado por duas autoridades muito diferentes uma da outra; o capitão-mor, que é a autoridade principal e uma mulher, a Sra. Potência, pela qual os índios tinham grande respeito. Essa mulher é tida como rica, o que não a impediu de nos pedir um pedaço de carne-seca e de nos vender as velas que ela fabricava com suas mãos amarelentas[2].

Castelnau encontrou em Carretão uma população reduzida por doenças, fugas e saídas de índios que iam atrás dos tropeiros das caravanas. Porém, o aldeamento conservava certo dinamismo, pois recebia novos habitantes vindos do sertão. Essa chegada de novos aldeados pode explicar a existência de vários xavantes que tinham “o peito marcado das cicatrizes com que costumam indicar o número de inimigos mortos e devorados” [3].

  1. Potência figura entre as mulheres que exerceram um papel importante em Goiás, o que nos sugere que nessa capitania fronteiriça desenvolveu-se uma cultura política na qual as mulheres tinham chances consideráveis de alcançar um lugar de destaque, desde que reunissem em torno de si condições propícias e tivessem habilidade política [4].

Mulheres como D. Potência viveram numa época em que os aldeamentos passavam por uma fase que os observadores não indígenas apontavam como decadente. Viajantes ou autoridades, aqueles que visitaram as aldeias no século XIX – dentro e fora de Goiás – concordavam em afirmar seu estado de “decadência”. Sobre o caso de Goiás, Oswaldo Ravagnani escreve que tal deterioração pode ser explicada pelo próprio declínio econômico da região[5].

Na aldeia do Carretão, o lar de D. Potência, uma epidemia de sarampo havia matado quase todos. Muitos dos que escaparam da doença fugiram do local. Quando lá esteve, em 1818, o viajante Emanuel Pohl encontrou 227 indígenas. Observou que já começavam a usar roupa, falavam só o português e estavam bastante habituados aos costumes do cristianismo. Além disso, muitos se confessavam assiduamente, a maioria já sabia usar armas de fogo e vários conheciam o valor do dinheiro[6]. Em 1851 havia 70 habitantes. Já em 1888 restavam somente “uma ponte de madeira, casas arruinadas, um homem e duas mulheres mestiças” [7].

O esvaziamento das aldeias era um fato. Diversos motivos levavam os índios a se retirar permanente ou temporariamente, como castigos físicos, cerceamento da liberdade, epidemias, exploração do seu trabalho. Porém, precisamos problematizar essa retórica da “decadência”. Isso porque, em primeiro lugar, o que para um europeu ou um luso-brasileiro era um lugar decadente, sujo e destinado ao desaparecimento, para os aldeados era o seu lar, sua garantia de posse sobre suas terras com um mínimo de segurança num contexto cada vez mais hostil.

Aliás, como mostra Maria Regina Celestino, os significados dos aldeamentos sempre variaram de acordo com o grupo: se para os índios as aldeias significavam terra e proteção, para a Coroa e os missionários eram lugares habitados por súditos cristãos, enquanto os colonos lutavam para que fossem uma fonte de mão de obra para seus empreendimentos. Se na lei os aldeamentos deveriam servir a todos esses agentes e especialmente à Coroa, na prática os interesses amiúde esbarravam uns nos outros. O grupo mais beneficiado era o que conseguia vencer as disputas de interesses. Nestas, os índios foram os maiores perdedores, já que estavam numa posição subalterna. Contudo, isso não quer dizer que as aldeias não lhes trouxessem nenhum tipo de ganho. Conforme a sociedade envolvente se expandia, os sertões se retraíam e se tornavam um espaço cada vez mais marcado por guerras, violência, escravizações. Aldear-se podia significar a opção pelo mal menor diante das condições cada vez mais caóticas dos sertões[8].

Outra questão que precisa ser problematizada ao nos depararmos com a retórica da decadência é o fato de que por trás dela havia profundos e escusos interesses econômicos. Era a suposta ausência de índios que justificava a extinção dos aldeamentos e a apropriação das suas terras por fazendeiros. Conforme John Hemming, no início do século XIX, quando o Barão de Eschwege se encontrava no extremo oeste de Minas Gerais, certo potentado local mostrou-lhe “um plano que visava pura e simplesmente à expulsão gradativa dos índios do distrito, para dividir entre os portugueses” [9]. O barão, indignado, recusou-se a assinar o documento.

Ainda de acordo com Hemming, em 1821, os indígenas dos rios das Velhas e Grande esboçaram um tímido protesto junto às autoridades contra a espoliação de suas terras. Apesar de relatórios de autoridades, escritos de intelectuais e relatos de viajantes descreverem os aldeamentos como espaços decadentes, miseráveis, mal administrados e habitados eminentemente por índios “misturados”, os aldeados seguiam na luta por manter a posse coletiva dessas terras, embasando-a na sua identidade indígena. Sobre isso, Maria Regina Celestino escreve que, ainda que não possamos negar que as descrições de decadência pudessem conter uma boa dose de verdade – sobretudo aos olhos de autoridades e viajantes que valorizavam a “civilização” e o “progresso” –, é fundamental considerar que os aldeados não só não estavam caminhando para a extinção, como “teimavam em continuar existindo e reivindicando direitos apesar de todas as pressões e discriminações contra eles” [10]. Ainda segundo a autora, é preciso também perceber que apesar dos rendimentos das aldeias serem descritos muitas vezes como irrisórios, mal administrados e insuficientes, eram muito disputados e os índios conseguiram mantê-los por várias décadas do século XIX, até que as aldeias fossem finalmente extintas.

Através da existência dos mencionados interesses, compreendemos discursos como o de Cunha Mattos.  O militar, que escrevia sobre a decadência dos aldeamentos de Goiás e o inevitável desaparecimento dos índios, fundou, na margem direita do Rio Tocantins (1824), a aldeia Graciosa. Esta chegou a reunir 800 cherentes, segundo o próprio[11]. Esse discurso reflete também a dicotomia apresentada pela retórica do século XIX sobre os índios. Por um lado, havia os índios “puros” e “selvagens”, que como os cherentes, deviam ser chamados do sertão à civilização através dos aldeamentos. De outro lado, estavam aqueles índios que viviam em aldeamentos já “decadentes”. Esses deveriam ser integrados ao conjunto da população, não havendo então necessidade de mantê-los sob a condição de aldeados[12].

Embora diminuída pelas doenças e pelas guerras, a população indígena brasileira adentrava o século XIX longe de ser uma camada insignificante, o que era amplamente sabido pelas autoridades. Por ocasião da posse de seu sucessor (1809), o governador de Goiás, D. Francisco de Assis Mascarenhas escreveu:

Também merecerá alguma parte da atenção de V. E. no governo desta capitania a conservação das aldeias de índios de São José de Mossâmedes, Maria I, Carretão, Sant’Ana e suas anexas, as quais, se bem tenham custado em diversas épocas grandes somas à Real Fazenda, agora pouco ou nada com elas se despende e apesar de que a opinião mais seguida é que tais estabelecimentos devem ser abolidos, contudo, pelo contrário será sempre o meu parecer[13].

Anos depois, os assuntos de política indigenista, como os conflitos e a administração de aldeias, notadamente São José de Mossâmedes e Carretão, eram uma constante na documentação produzida pelo presidente da província de Goiás, Miguel Lino de Moraes (1827-1831).

Manoela Carneiro da Cunha aponta que Goiás se relaciona com o debate geral que ocorria no Brasil entre finais do século XVIII e meados do XIX: se os índios “bravos” deviam ser exterminados, a fim de “desinfestar” os sertões ou se eles deviam ser “civilizados” e incluídos na sociedade política. A primeira opção era a defendida geralmente pelos colonos, enquanto a segunda tendia a ser proposta por estadistas e supunha sua possível incorporação como mão de obra. Na prática acaba vigorando um compromisso:

nas rotas ou regiões que se quer desinfestar de índios – por exemplo, no rio Doce no início do século e na rota do Tocantins e Araguaia a partir da metade do século – estabelecem-se presídios, como eram então chamados, ou seja, praças-fortes com destacamentos militares. Estes presídios, que pretendem se tornar núcleos de futuras povoações, combatem os índios que resistem e instalam os índios que logram atrair em aldeamentos, como uma reserva de remeiros, de agricultores e, mais tarde, de fornecedores de lenha para os vapores[14].

Ainda que a permissão legal para guerra ofensiva e escravidão tenha sido revogada só em 1831, governantes como Miguel Lino de Moraes buscavam antes dessa data levar a cabo uma política não ofensiva. Em 1830, ao saber das baixas que os canoeiros causaram aos colonos, escreveu ao alferes Francisco José de Campos que já estava tomando providências para a defesa. O alferes deveria se incumbir de acalmar os moradores, que estavam em pânico. Miguel Lino escreve ainda que os colonos podiam se defender, mas não atacar os canoeiros, pois seriam “castigados aqueles de quem se receber notícia de os haver hostilizado”[15].

A descentralização trazida pelo Ato Adicional de 1834 deu ensejo para que várias províncias tomassem iniciativas contra os índios. Em Goiás, o presidente da província, José Rodrigues Jardim, organizou em 1835 e 1836 expedições ofensivas contra os índios canoeiros e cherentes, assim como atacou quilombos, “oferecendo-lhes as alternativas seguintes: se aceitassem a paz, seriam expulsos de seus territórios e suas lavouras queimadas, para que não retornassem; seriam mortos e os prisioneiros escravizados, caso não aceitassem” [16]. Enquanto isso, no Ceará, a Assembleia Provincial apressou-se em extinguir, em 1835, duas vilas de índios, seguidas de mais algumas em 1839.       Assim, Carneiro da Cunha concorda com Karasch em sua afirmativa de que a legislação indigenista do século XIX, sobretudo até 1845, é marcada por interesses locais, sendo flutuante, pontual e, em larga medida, subsidiária de uma política de terras – o que não difere muito da época colonial. Novas diretrizes gerais para o governo dos índios aldeados só foram traçadas com o Regulamento das Missões, em 1845.

Como se pode ver aqui, a vida de mulheres indígenas como D. Potência Xavante foi atravessada pelas flutuações nas relações entre colonizadores e indígenas na capitania e, mais tarde, província de Goiás.

 

Fontes

CASTELNAU, Francis. Expedição às regiões centrais da América do Sul. Trad. Olivério M. de Oliveira. 2 vols. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1949.

MATTOS, Raymundo José da Cunha. “Corographia histórica da Província de Goyaz”. Revista do Instituto Historico Geographico e Etnographico do Brasil 37 (1874), pp. 213-398.

“Ofício de Miguel Lino de Moraes ao Alferes Francisco José de Campos”. Cidade de Goiás, 8 de junho de 1830. Secretaria de Governo – Livro de Registro de Ofícios e ordens expedidas pelo governo provincial (1828-1830), nº 0155, f.75. AHEG.

POHL, Johann Emanuel. Viagem no Interior do Brasil. Trad. Milton Amado e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1976 (1832).

 

Referências bibliográficas

 ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: Identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

______. “Índios mestiços e selvagens civilizados de Debret: reflexões sobre relações interétnicas e mestiçagens”. Varia Historia, Belo Horizonte, v.25, n.41, jan./jun.2009, pp.85- 106.

CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz. Índios cristãos: A conversão dos gentios na Amazônia Portuguesa (1653-1769). Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2005.

CUNHA, Manoela Carneiro da. “Política indigenista no século XIX”. In: ______ (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura: Fapesp, 2006 (1992), pp.133-154.

FERNANDES, João Azevedo. De cunhã a mameluca: a mulher tupinambá e o nascimento do Brasil. João Pessoa: Editora Universitária, 2003.

HEMMING, John. Fronteira Amazônica: A derrota dos índios brasileiros. Trad. Antônio de Padua Danesi. São Paulo: EdUsp, 2009 (1978).

JULIO, Suelen Siqueira. “Mulheres indígenas na América Latina Colonial”. Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História – Anpuh 2015. Disponível em: http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1439240941_ARQUIVO_Anpuh2015.pdf. Acesso em 27 mar.2018.

RAVAGNANI, Oswaldo Martins. “A agropecuária e os aldeamentos indígenas goianos”. Perspectivas, São Paulo, 9/10, 1986/87. pp.119-143.

 

Notas

[1]CARVALHO JÚNIOR, Almir Diniz. Índios cristãos: A conversão dos gentios na Amazônia Portuguesa (1653-1769). Tese de Doutorado apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2005.

[2]CASTELNAU, Francis. Expedição às regiões centrais da América do Sul. Trad. Olivério M. de Oliveira. 2 vols. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1949, p.243. As observações do viajante foram analisadas por John Hemming, que se enganou ao afirmar que Castelnau descreveu Potência como uma “espécie de macaco velho, com uniforme de oficial português e arrastando atrás de si uma enorme espada” É ao capitão-mor que ele se refere dessa maneira. HEMMING, John. Fronteira Amazônica: A derrota dos índios brasileiros. Trad. Antônio de Padua Danesi. São Paulo: EdUsp, 2009 (1978).

[3]CASTELNAU, Francis. Op.cit., p.244.

[4]A atuação de outras mulheres indígenas em Goiás parece confirmar isso. Ver: JULIO, Suelen Siqueira. “Mulheres indígenas na América Latina Colonial”. Anais do XXVIII Simpósio Nacional de História – Anpuh 2015. Disponível em: http://www.snh2015.anpuh.org/resources/anais/39/1439240941_ARQUIVO_Anpuh2015.pdf. Acesso em 27 mar.2018.

[5]RAVAGNANI, Oswaldo Martins. “A agropecuária e os aldeamentos indígenas goianos”. Perspectivas, São Paulo, 9/10, 1986/87. pp.119-143. O texto oferece mais detalhes sobre o estado dos vários aldeamentos em Goiás no século XIX.

[6]POHL, Johann Emanuel. Viagem no Interior do Brasil. Trad. Milton Amado e Eugênio Amado. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: EdUSP, 1976 (1832), pp.180-182.

[7]RAVAGNANI, Oswaldo Martins. Op.cit., p.136.

[8]ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: Identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003.

[9]Barão de Eschwege apud HEMMING, John. Op.cit., pp. 215,216.

[10]ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. “Índios mestiços e selvagens civilizados de Debret: reflexões sobre relações interétnicas e mestiçagens”. Varia Historia, Belo Horizonte, v.25, n.41, jan./jun.2009, p.104. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/vh/v25n41/v25n41a05.pdf. Acesso em 29 jan.2015.

[11]MATTOS, Raymundo José da Cunha. “Corographia histórica da Província de Goyaz”. Revista do Instituto Historico Geographico e Etnographico do Brasil 37 (1874), p.357.

[12]ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. “Índios mestiços e selvagens civilizados de Debret…”. Op.cit.

[13]D. Francisco de Assis Mascarenhas apud RAVAGNANI, Oswaldo Martins. Op.cit., p.134.

[14]CUNHA, Manoela Carneiro da. “Política indigenista no século XIX”. In: ______ (org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras; Secretaria Municipal de Cultura: Fapesp, 2006 (1992), p.137.

[15]“Ofício de Miguel Lino de Moraes ao Alferes Francisco José de Campos”. Cidade de Goiás, 8 de junho de 1830. Secretaria de Governo – Livro de Registro de Ofícios e ordens expedidas pelo governo provincial (1828-1830), nº 0155, f.75. AHEG.

[16]CUNHA, Manuela Carneiro da. “Política indigenista no século XIX”. Op.cit., p.138.

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