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Fen’nó

Autor(es): Joziléia Daniza Jagso Inácio Schild e Elis do Nascimento Silva
Categorias:Biografia, Etnias, Kaingang, Estado, Paraná
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Á luz forte de Fen’nó:  A luta da guerreira Kaingang pela terra

 

(Fonte:CIMI/SUL)

 

Seu nome Fen´Nó, significa “arma”, “flecha em pé” na língua Kaingang. É tão expressivo de sua trajetória de luta pelos direitos originários de seu povo quanto seu nome em português: Ana da Luz Fortes do Nascimento.

Nascida em oito de setembro de 1898, às margens do rio Irani, teve registro de nascimento lavrado em documento no dia 18 de janeiro de 1917, em Palmas (PR). Fen´Nó foi mãe de nove filhos, parteira e guardiã dos saberes tradicionais do povo Kaingang, também reconhecida como a mãe velha do povo Kaingang da T.I Chimbangue. Transitou por muitas “paragens” na terra de seu povo (que hoje é conhecida como Oeste Catarinense), onde antigamente só havia taquaral e erval, até a chegada dos fóg (“brancos”), que ela costumava chamar de “inço” – erva daninha que destrói toda a mata.

No filme que retrata sua vida, “Féndô – um tributo a uma Guerreira”, realizado pelo cineasta Penna Filho (2000), Fen´Nó contou um pouco de sua história e sua percepção sobre a colonização na região:

Eu nasci no Chimbangue, aqui. E minha mãe foi me encontrar no mato, ela me trouxe no vestido. Tinha minhas vó e elas me cortaram o umbigo. Ainda elas disseram: “- Vai ficar aqui!” Às vezes nós vinha do pinhão assim, fazia uma sapecada no mato pra nós come. Pra nós tava bom, agora pra mim tá ruim. Agora pro índio tá ruim. Lá no peincâ eles iam, eu ia lavar roupa lá e eles ficavam nadando pra lá e pra cá, pegando pexinho. Nós lavava roupa e tomava banho no Irani. Naquele tempo, o peicâ era bem limpo. Agora hoje em dia tem umas sujeiras que não dá nem pra tomar. O branco sujou tudo, o branco ponhô lá o lixo lá em cima e agora a água tá virando um óleo. Vem tudo quanto é sujeira, porque o rico ele faz só sujeira, ele não faz capricho. Agora vem aqui esses carro, ali era mato. Agora o índio não tem com o quê fazer um balaio, tem que ir lá longe buscar taquara, tem que pedir pro colono. Tinha pinhão, tinha jaboticabal, tinha o penoá e o milho, aqui. Virou uma campina, agora plantam eucalipto pra dizer que tem madeirama. Eucalipto estraga toda a terra. Não é fácil! Ali perto do posto plantaram, naquele gramadão ali encheram de eucalipto plantado. Mas é pra ele, não é pro índio. Pra cortar um pedaço de madeira pra cortar pra fazer lenha eles não querem, tem que pedir pra eles. Assim mesmo eles querem dizer: “- É planta pra vocês, pros filhos, pros neto.” É mentira! Esse não cola comigo. Pra ela ficar boa tem que plantar no mato virgem, pra ela ver se ficava boa, mas nem assim não fica boa. Ela tá muito estragada demais. Agora tão plantando com veneno tudo por aí né. Fica ruim tudo né? (Depoimento de Fen´Nó. FILHO, Penna, 2000).

 

(Fonte:CIMI/SUL)

 

Foi grande liderança feminina Kaingang com forte atuação política em plena ditadura civil-militar, fazendo parte do “tronco velho” Kaingang na luta pela terra e participando dos movimentos pela retomada do lugar chamado, anteriormente, Toldo Irani e, depois, Toldo Chimbangue. Durante pelo menos meio século, os Kaingang do Toldo Chimbangue ficaram afastados de suas terras e espalhados pela região, devido às situações de intrusão e violências a que estavam sendo submetidos pelas frentes de colonização e sociedade regional. Em 1954, o Serviço de Proteção ao Índio, à época, fez um acordo com o governo do Estado de Santa Catarina visando “limpar” os indígenas do Toldo Irani (Brighenti, 2014). Fen´Nó honrou e cumpriu as palavras de suas avós, resistindo em deixar sua terra de nascimento e enfrentando com suas armas a batalha para reconquistar a terra de seus ancestrais.

A partir da década de 1970, os Kaingang no Sul do Brasil passaram a se organizar e se mobilizar para lutar pela retomada de suas terras e garantia de seus direitos, sendo uma marco histórico a retomada do Toldo Chimbangue em todo Brasil – batalha em que Fen´Nó atuou também como protagonista e mostrou a força de seu nome indígena.

 

(Fonte:CIMI/SUL)

 

Foi em 1985 que uma comissão de lideranças Kaingang se destinou à Brasília para reivindicar as terras do Toldo Chimbangue, que até então estavam escrituradas e vendidas para não-indígenas da região, integrando este grupo a guerreira Fen´Nó. Eles acamparam no Gabinete da FUNAI em Brasília e declararam só sair quando suas terras fossem desocupadas pelos colonos, os quais bloquearam a entrada dos indígenas e da FUNAI para prestar serviços.

 

(Fonte:CIMI/SUL)

 

Nesse contexto de luta pela reivindicação de 2 mil hectares de terras como de posse imemorial, Fen´Nó fez muitas vigílias e greve de fome, acampando na Esplanada, nos Ministérios e no Gabinete da FUNAI, como disse:

 Fiquei uma semana dentro do prédio da FUNAI. Eu eu falei: – “Eu não saio daqui! Eu vim pra dormir aqui.” Eu dormia em cima de um sofá com meus filhos. A gente tava sofrendo né, até fome. O que que a piazadinha ia comer? Este era pequeno, este já tinha um aninho. Comer o que? Eles [colonos] se viram, estão tudo estudado, de certo eles sabem o que vão fazer. Eu não tenho estudo. Porque quem me ajudou com meus filho agora eles não quer. Porque nós sofremos muito, agora os novo que lute! E essa terra eu quero que um dia chegue: Aqui é do Kaingang! Pra eles criar os filhos deles. (Depoimento de Fen´Nó. FILHO, Penna, 2000).

 Durante três meses, Fen´Nó participou de muitas reuniões com ministros e assessores, período em que também buscou apoio das organizações, sociedade regional e parentes indígenas. Segundo ela, naquele momento determinou: “Iremos demarcar nossas terras com as próprias mãos, se até dia 14 deste mês o Governo não publicar decreto criando nossa reserva!” (FILHO, 2000).

Como resultado das ações e articulações dos Kaingang, foi realizado o primeiro Laudo Antropológico no Brasil para a demarcação de suas terras (SILVA, 2016), processo que se estendeu até dia 30 de dezembro de 1985, quando foi determinado e oficializado pelo Decreto Presidencial n. 92.253/85 o reconhecimento e demarcação de 988 hectares das terras reivindicadas pelos Kaingang do Toldo Chimbangue como de posse imemorial pelo comitê interministerial. Esta vitória influenciou também na composição do artigo 231 da Constituição de 1988 que dispõe sobre os direitos dos povos indígenas no país. Em 2006, os Kaingang tiveram a conquista de mais 975 hectares recuperados na delimitação da Terra Indígena Toldo Chimbangue.

Em reconhecimento de sua caminhada de vida e legado, em 1999 Fen´Nó foi homenageada pela Câmara Municipal de Chapecó (SC) no Dia Internacional da Mulher por sua contribuição na construção da história do município.

 

(Fonte: CIMI/SUL)

 

Em 2004, seus parentes Kaingang da Terra Indígena Toldo Chimbangue também a homenagearam e reconheceram seu grande valor para toda comunidade, mudando o nome da Escola Indígena de Ensino Fundamental Iraní para Escola Indígena de Ensino Fundamental Fen’Nó.  A gratidão e reverência consagrados a ela por todos da aldeia, foi expressa na “Canção à Fen´Nó” feita por sua neta, Adriana da Veiga:

 

Canção à Fen´Nó

 Anciã da aldeia toldo chimbangue. Hoje ela está bem velhinha, por se esforçado na vida, ela lutou muito pela terra para criar seus filhinhos.Todos seus filhos a rodeiam, pois é mãe de todos nós, por isso fiz essa canção a ela, e o seu nome é Fen’Nó. Se um dia ela nos deixar, fica a homenagem a ela, pois nos deu esperança e fica aqui a sua lembrança.

 (Adriana da Veiga. In: SAVOLDI, A. 2017)

 

No dia 06 de Março de 2014, Fen´Nó deixou presente sua luz para o povo Kaingang aos 110 anos, fazendo sua passagem para outras terras e abrindo novos caminhos de esperança a seu povo onde quer que esteja. Foi uma árvore forte que abrigou a todos, deixando-nos os frutos de sua sabedoria e da luta pelos direitos originários de seu povo, semeando também suas palavras de guerreira:

“Somos a multiplicação das lutas como a terra multiplica

o cereal plantado. Somos a raiz da esperança” (Fen´Nó)

 

 

Referências

BRIGHENTI, Clóvis. Fen´Nó, uma guerreira: uma mulher, uma história, uma lenda. Disponível em: https://www.cimi.org.br/2014/03/35780/ Acesso em: 29/03/2018.

FILHO, Penna. Féndô – Tributo a uma Guerreira. Duração: 25´15´´. 2000. Disponível em: https://vimeo.com/25980870 Acesso em: 29/03/2018.

SAVOLDI, Adiles. A força da Fen´Nó: uma dádiva aos Kaingang da Terra Indígena Toldo Chimbangue. Seminário Internacional Fazendo Gênero 11& 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017. Disponível em: http://www.en.wwc2017.eventos.dype.com.br/resources/anais/1503455154_ARQUIVO_Fen.pdf Acesso em: 29/03/2018.

SILVA, Elis N. Entre aqueles que incomodam: a práxis antropológica na relação entre hidrelétricas e povos indígenas no sul do Brasil. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis, 2016.  Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/175854/345676.pdf?sequence=1 Acesso em: 29/03/2018.

*Imagens cedidas pelo Conselho Indigenista Missionário, Regional Sul.

 

Notas

[1] Kaingang e Coordenadora Pedagógica da Licenciatura Intercultural Indígena do Sul da Mata Atlântica/UFSC. Mestra e doutoranda em Antropologia Social (PPGAS/UFSC).

[2] Mestra em Antropologia Social (PPGAS/UFSC) e pesquisadora vinculada ao Núcleo de Estudos de Povos Indígenas (NEPI/UFSC).

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