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José Francelino Xukuru-Kariri

Autor(es): Cássio Júnio Ferreira da Silva
Categorias:Estado, Alagoas, Biografia, Etnias, Xukuru-Kariri
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José Francelino é uma icônica liderança Xukuru-Kariri e sua trajetória está na memória coletiva do grupo. No entanto, pouco de sua vida foi registrado em escritos. O único registro que temos foi feito pelo bacharel em direito Carlos Estevão de Oliveira, que nos anos 1935 e 1937 realizou pesquisas de cunho antropológicas e arqueológicas com grupos que ele identificava como remanescentes de indígenas no Nordeste brasileiro, especificamente nos estados de Alagoas, Pernambuco e Bahia.

Chegando em Palmeira dos Índios – AL, foi para a região que hoje é conhecida como aldeia Cafurna de Baixo, localidade que servia como reduto para famílias de indígenas Xukuru-Kariri, que nesse período tinham sua identidade étnica negada e eram chamados de caboclos e/ou mestiços.Na mesma teve contato e pôde dialogar com o ancião José Francelino.

Em seu encontro com Carlos Estevão, José Francelino ou Francelino Velho como é citado pelo povo Xukuru-Kariri, teria por volta de 98 anos. Silva Junior (2013) nos indica que o ancião faleceu em 1940 com 101 anos de idade. Com essa informação podemos indicar que o ano de seu nascimento foi 1839. Com pouco mais de um século de vida, José Francelino acompanhou diversos momentos da história do povo Xukuru-Kariri.

O índio pôde vivenciar a extinção dos aldeamentos em Alagoas, ainda no contexto do Brasil império no ano de 1972, momento em que os povos indígenas do estado foram expropriados de suas terras e perderam o reconhecimento oficial como grupos indígenas. Essa extinção foi determinada pelo presidente da província de Alagoas, Luiz Rômulo Peres Moreno que, em sua argumentação para justificar essa medida, afirmou que as populações que compunham os aldeamentos haviam deixado de ser índios, pois estabeleceram contato com outros grupos étnicos não-indígenas e se tornaram mestiços (SILVA JÚNIOR, 2011).

Mesmo com a extinção do aldeamento indígena em Palmeira dos Índios, algumas áreas de terra continuaram ocupadas por famílias indígenas. Podemos citar como exemplo as áreas que hoje são as aldeias Serra do Capela e Cafurna de Baixo que são recorrentemente lembradas pelo povo Xukuru-Kariri como áreas que nunca foram tomadas por ‘brancos’.

É provável que a não tomada dessas áreas por parte das elites locais, através do decreto de 1972, tenha ocorrido por se tratar de duas regiões com relevos irregulares e impróprios para a prática da pecuária. As famílias Xukuru-Kariri que permaneceram na região da Cafurna de Baixa, em certo momento passaram a ter José Francelino como líder político e como ancião detentor de conhecimentos ancestrais.

Esses conhecimentos foram constatados por Carlos Estevão de Oliveira que em sua passagem por Palmeira dos Índios questionou ao ancião sobre práticas dos ancestrais indígenas que viviam na região. José Francelino forneceu informações sobre rituais funerários praticados por seus antepassados na região, informando que em tempos passados os índios eram sepultados em potes de barro.

Instigado por essa informação, o pesquisador perguntou ao índio se ele conhecia locais onde essas urnas funerárias estavam depositadas. Francelino respondeu positivamente e indicou que as mesmas se encontravam na região da Serra do Goiti, acidente geográfico próximo a zona urbana de Palmeira dos Índios. Em seguida, o pesquisador e José Francelino marcaram uma visita à região. Chegando ao local, Carlos Estevão realizou escavações e conseguiu retirar do solo um pote de barro que continha em seu interior ossos humanos.

Essa foi a primeira escavação de cunho arqueológico, que se tem registro em Palmeira dos Índios, e deu início a uma série de retiradas de ‘igaçabas’ – nome como são chamadas as urnas funerárias em formato de pote – que foram encontradas no solo Palmeirense nas décadas seguintes. Posteriormente, foi identificado que as igaçabas de Palmeira dos índios, são pertencentes a uma tradição de cerâmica chamada ‘Aratu’, cultura com registro de achados nos estados da Bahia, Alagoas, Sergipe, Piauí, Minas Gerais, Espirito Santo e São Paulo (TEIXEIRA, 2012).

Teixeira (2012), nos indica que nunca foram feitas datações nas cerâmicas encontradas em Palmeira dos Índios, no entanto as datações feitas em peças da mesma tradição em outros estados brasileiros, chegaram a ser identificadas como pertencentes ao século IX da Era Comum. Nesse sentido, podemos pensar que a presença indígena na região que hoje é Palmeira dos Índios, remete a um período longínquo e pré-cabralino.

Ao falecer em 1941, José Francelino não chegou a vivenciar o ‘reconhecimento’ do povo Xukuru-Kariri como etnia indígena, fato que só veio ocorrer em 1952, quando a maior parte da etnia passou a ser liderada por Alfredo Celestino, então jovem Xukuru-Kariri, que diante da velhice e posterior falecimento de José Francelino, passou a liderar a articulação política do povo. Nesse contexto de organização política, Alfredo conseguiu além do ‘reconhecimento’ oficial da etnia por parte do estado, a compra da ‘Fazenda Canto’ – primeira aldeia Xukuru-Kariri oficialmente reconhecida no contexto do Brasil republicano –, como uma área para o aldeamento das famílias indígenas que estavam dispersas nas regiões periféricas do município.

Tanto para a efetivação do reconhecimento da etnia, quanto mais recentemente para a demarcação da terra indígena Xukuru-Kariri – atualmente a terra encontra-se demarcada, no entanto ainda não ocorreu a desintrusão – foram fundamentais os achados arqueológicos na região, pois indicavam a presença indígena ancestral no local onde hoje é a cidade de Palmeira dos Índios. Como já foi citado, José Francelino foi detentor dos conhecimentos sobre essas peças e a localização das mesmas.

Nem todas as famílias Xukuru-Kariri se aldearam na Fazenda Canto em 1952, no ponto de vista prático se aldearam as famílias que estavam nas redes de relações e se alinhavam politicamente a Alfredo Celestino. Nesse contexto, muitas famílias continuaram morando em periferias da zona urbana ou trabalhando em fazendas de Palmeira dos Índios e regiões circunvizinhas. Ou ainda, residindo em aldeias não reconhecidas oficialmente, como é o caso da aldeia Cafurna de Baixo que, atualmente, tem o reconhecimento oficial e que, mesmo com a extinção dos aldeamentos em Alagoas, permaneceu sob a posse de algumas famílias indígenas.

A aldeia Cafurna de Baixo é o reduto da família de José Francelino. O grupo familiar tem um histórico de liderança e atuação política na localidade. Com a compra da Fazenda Canto, Alfredo Celestino passa a liderar as famílias aldeadas na referida aldeia. No entanto, na aldeia Cafurna de Baixo, quem permaneceu como liderança foi Antônio Francelino, filho de José Francelino.

A Cafurna de Baixo, é uma aldeia que se localiza muito perto da zona urbana de Palmeira dos Índios, fazendo limite com o Bairro ‘Cafurna’ que é uma região periférica que conta com baixos indicativos sociais. Das 8 aldeias do povo Xukuru-Kariri em Palmeira dos Índios, é uma das menores, contando apenas com 11 hectares de extensão, devidamente regularizados.

Além da extensão territorial ser extremamente reduzida, a mesma é pouco produtiva, contando com pequenas áreas cultiváveis. Devido à problemática territorial, os Xukuru-Kariri da Cafurna de Baixo mantem, nos dias atuais, duas áreas de retomadas, movimento político que consiste em uma estratégia indígena para recuperar uma terra que era sua e foi tomada por invasores. Geralmente ocorre devido à morosidade dos dispositivos estatais em demarcar a terra indígena.

Para demonstrarmos a importância da família de José Francelino na organização e articulação política das famílias que vivem na aldeia Cafurna de baixo, iremos apresentar uma breve cronologia dos Caciques – líderes políticos – da comunidade. Ficará explicito que uma linhagem dessa família tradicionalmente ocupou o referido cargo.

Como já foi explicitado, com a morte de José Francelino, assume a liderança política da aldeia o seu filho, Antônio Francelino. Por sua vez, quando Antônio chega ao fim de sua vida, quem assume o cargo é Cícero Francelino – neto de José Francelino – popularmente conhecido como Ciço França, uma liderança com forte atuação política.

Com o falecimento de Cícero Francelino, quem assume o cargo de cacique é seu filho José Alex da Silva, que chegou ao cargo ainda bem jovem, exercendo a função por um curto período. No entanto, chegou a liderar junto a outras lideranças uma retomada que teve como objetivo ampliar a área de terra indígena da aldeia Cafurna de Baixo.

Por uma série de questões internas, o bisneto de José Francelino, não conseguiu se consolidar na liderança política da Cafurna de Baixo e deixa o cargo de cacique por não ter apoio popular. Com o ocorrido, constatou-se que não havia uma alternativa para assumir a liderança política da comunidade, que não fosse alguém da linhagem de José Francelino, pois não houve nenhum nome que pudesse centralizar o poder político da aldeia.

Uma alternativa para esse problema de quem poderia liderar a comunidade, foi a criação de um ‘conselho’ de lideranças, que é composto por uma série de representantes das famílias que vivem na aldeia Cafurna de Baixo. Foi uma opção fora do comum para o povo Xukuru-Kariri, pois todas as outras aldeias têm um Cacique – mesmo que, concretamente, existem outras lideranças, Cafurna de Baixo é a única aldeia que tem um órgão colegiado na liderança política.

 

Referências bibliográfica

OLIVEIRA, Carlos Estevão de. O ossuário da “Gruta-do-padre”, em Itaparica e algumas noticias sobre remanescentes indígenas do Nordeste. IN: Boletim do Museu Nacional. p. 151-240. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1942.

SILVA JÚNIOR, Aldemir Barros da. Aldeando sentidos: os Xucuru-Kariri e o serviço de proteção aos índios no agreste alagoano. Maceió: EDUFAL, 2013.

______.  Terra e trabalho: Indígenas na província das alagoas. IN: Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH. São Paulo: 2011.

TEIXEIRA, Luana. Para além da “pedra e caco”: o patrimônio arqueológico e as igaçabas de Palmeira dos Índios, Alagoas. Dissertação apresentada ao curso de Mestrado Profissional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. Rio de Janeiro: 2012.

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