biografia

Maria ‘Ora yõ Arara

Autor(es): Jandira Keppi
Categorias:Etnias, Arara, Biografia, Estado, Rondônia
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 No início

Nasci no Prainha, aqui por perto mesmo. Antes do contato a gente andava sem roupa, enfeitados com colar, pintados com urucum. As mulheres não usavam nada, só enfeites de palha colocados no pescoço e na cintura. E os homens usavam um enfeite de palha para tapar na frente.

Nessa época tinha muita fartura. Tinha banana, cará, milho, carazinho, mandioca mansa. Não tinha mandioca braba. A gente fazia muita festa. Uma turma ia na casa dos outros dançando, todos enfeitados e pintados para chamar os outros para tomar macaloba. Depois ia chamar outro grupo, depois outro, até chamar todo mundo. Dançávamos muitos dias. Tinha muita comida, peixe, jacaré e carne. No Prainha tinha muito peixe. Os homens ficavam dois, três dias caçando, traziam a caça moqueada, traziam macaco, anta, porcão, tatu.

 

Contato

A gente não queria o contato com os brancos. Mas já tinha muito branco por aqui. O tuxaua falou para nós que não tinha para onde a gente fugir. A gente estava cercado pelos brancos. De um lado tinha os Gavião e os Zoró, de outro os Suruí e de outro os brancos. Com o tempo, os brancos rodearam tudo e ficamos acuados. Aí decidimos ter contato com os brancos. Fomos para a boca do Prainha, fomos para lá todos pintados. Decidimos não matá-los porque senão eles iam nos matar também. Nosso primeiro contato foi com o Barros, depois com os outros. Não tivemos conflitos com eles. Eu tinha uns 12 anos nessa época.

Quando conhecemos os brancos, começamos a morrer de doença. Muita gente morreu de diarreia, gripe, sarampo, catapora. A gente nem sabia que doença era. Um bocado de gente morreu na Aldeia Central.

 

Maloca antiga

No lugar que hoje é Ji-Paraná, ali onde era a igreja católica, tinha uma maloca antiga. Ninguém do pessoal de hoje chegou a morar lá, só os antigos. Acho que o Manechula, quando era pequeno, morou lá. Alguns também chegaram a morar pelo lado do Machadinho, em Tabajara. Ali foram atacados pelos brancos, pelos Tenharin e pelos Uru-Eu Wau Wau.

 

Muita gente

Os Arara eram o povo que tinha mais gente. A gente se chamava de ITARAP. Os brancos nos chamavam de Arara porque a gente gostava de usar urucum para nos pintar. Ficava parecendo uma arara vermelhinha.

 

Casamento e partos

Casei com o Dutra, lá no Seringal da Penha, do Firmino. Fui para lá depois que os Gavião nos atacaram. Eu trabalhava com o Dutra na roça, na seringa e ajudava a Dona Miúda também. Tenho 04 filhas mulheres e 02 filhos homens vivos. Um filho e uma filha morreram. A filha ainda era bebê e o filho tinha uns 11 anos, primeiro pegou sarampo e depois hepatite.

O meu marido me ajudou nos meus partos. Outras mulheres de mais idade também ajudavam nos partos. Tem marido que não ajuda, mais é entre as mulheres mesmo, umas ajudam as outras.

Hoje todas as mulheres ganham bebê no hospital. Antes era na aldeia mesmo. Não morria muita criança de parto, nem mulher. Às vezes morria a criança, mas a mãe não. Era mais fácil fazer parto em casa. Hoje as mulheres Arara mais novas são mais fracas.

 

Notas

[1] Narrativa retirada do livro “Nossas vidas: histórias de mulheres Karo Arara. Iba’kât kanã: ma’pâyrap at kanã xet to’”, organizado por Jandira Keppi e Nienke Pruiksma (2018) do Conselho de Missão Entre Povos Indígenas (COMIN).

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