biografia

Mundiquinho Rolim

Autor(es): Ana Moreira Gavião
Categorias:Biografia, Etnias, Gavião, Estado, Maranhão
Tags:,

 


Biografia de guerreiro indígena Crỹ Tohmre Cahohw

Crỹ´tohmre Cahohw, Mundiquinho Rolim

Os brancos lhe deram o nome de Mundiquinho Rolim. Na língua materna Pyyhcop cati ji (Gavião), era Jõo wỳt. Mas, em nosso território, ele é conhecido popularmente como Crỹ´tohmre Cahohw, pertencente ao grupo Pihỳyre’ cati ji, que significa “povo do xexéu”. Ele foi cacique da aldeia Governador e foi o chefe principal do pátio, ou seja, ele era responsável por chamar o povo para o pátio, centro de decisões e de planejamento da aldeia. Ele tinha problema de vista, mas conhecia perfeitamente a estrada  e sabia como chegar ao pátio.

Em uma de suas histórias, ele afirma ser o único e o verdadeiro dono do território gavião, a Terra Indígena Governador, e diz que as pessoas que aqui vivem vieram de os outros lugares e se juntaram a ele aqui neste território. Ninguém sabe exatamente o ano em que ele nasceu – o mesmo acontece com muitos outros idosos do nosso território, inclusive da minha aldeia. Mas, para poder tirar o registro de nascimento, a cédula de identidade e a carteira de trabalho, e para adquirir a aposentadoria dele, um funcionário da Fundação Nacional do Índio (Funai) fez uma estimativa para obter a idade dele. Com isso, no seu registro consta que ele nasceu no dia 12 de março de 1904.

Crỹ´tohmre Cahohw também ajudava na organização de quase todos os rituais existentes entre o nosso povo. Os mais velhos da aldeia contam que ele foi atleta de alto nível quando era mais jovem – inclusive, disputou uma corrida com um cavalo, e venceu o cavalo na corrida. Além de ser o narrador, organizador de rituais e contador de histórias, de mitos, lendas e fábulas, e atleta de alto nível, ele foi um grande artesão.

Ele foi um ótimo narrador. As pessoas falam que, quando ele ficava no pátio da aldeia narrando os acontecimentos e chamando o povo para ir ao pátio, ouvindo a narração dele, dava um arrepio danado e você ficava com medo só de escutar a voz dele. Quando a aldeia ficava em um silêncio danado, ele chegava ao pátio e começava a fazer o discurso, fazendo medo nos que estavam em suas casas, e, aos poucos, a comunidade começava a aparecer no pátio junto a ele.

Ele foi um grande guerreiro. Na época da demarcação do território gavião, fazendeiros e posseiros ameaçaram a atacar a aldeia Governador. Muitos correram com medo e se esconderam nas matas e em suas roças. Ele, por sua vez, com toda a sua coragem, ficou no meio do pátio da aldeia, fazendo discurso e cantando todas as canções do guerreiro, a noite toda.

O Mundiquinho sabia de muitas histórias, mitos, lendas e fábulas, e ele gostava muito de contar essas coisas. Se você pedisse para ele contar uma dessas histórias, você tinha que ter muita paciência; caso contrário, você poderia desistir, pois, apesar da idade bem avançada, ele tinha o fôlego de um jovem e era capaz de contar histórias e mitos o dia todo, até mesmo alongando-se a altas horas. Por causa disso, os jovens saíam em busca de alimentos para ele; alguns traziam peixes e comida para ele poder se alimentar.

Quando uma pessoa da aldeia tinha um comportamento ruim, se por acaso esse ato chegasse aos ouvidos dele, ele falaria desse ato publicamente, em um discurso em voz alta, para que a aldeia toda ficasse ciente do comportamento da pessoa. Para que isso não viesse a acontecer, a pessoa dava um agrado para ele, qualquer coisa, a fim de que  ele não viesse a revelar seus atos publicamente.

Mundiquinho veio a óbito no dia 1 de março de 1986 e o seu corpo foi sepultado na terra que ele mencionava como terra dele, o território dos Pyyhcop cati ji (Gavião), aldeia Governador. Vinte e dois anos após a sua morte, a comunidade da aldeia Governador fez uma homenagem a esse guerreiro, dando o seu nome para a Escola Indígena Crỹ´tohmre Cahohw.

E assim foi a história do Mundiquinho Rolim, para que as crianças e as pessoas que não tiveram oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, possam conhecer através desta biografia a vida desse saudoso guerreiro do povo Gavião.

 

baixar
biografia

galeria