biografia

Samado Bispo dos Santos

Autor(es): Jurema Machado de Andrade Souza
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó Hã hã hãe
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Samado Bispo dos Santos – “Sirvo até adubo para esta terra, mas dela não saio”

 

Quando perguntei para Diógenes Ferreira dos Santos o que o fazia lembrar seu pai, ele respondeu “esse trabalho aí que você está fazendo porque trabalhei muitos anos lutando mais ele com esses problemas da terra”.  Durante a nossa conversa, ele, além de rememorar fatos marcantes da luta, também fez questão de enfatizar que das coisas que Samado mais gostava de fazer na vida eram “trabalhar a roça, fazer festa de bumba, de samba, com gaita, e dar festa pra Santo Antônio”. Vez ou outra a narrativa de luta, guerra e dureza da vida foi entrecortada por uma memória que aos poucos revelou um líder alegre e emotivo, “como são as pessoas que lutam por justiça. Samado era pelo que é certo”.

Samado na aldeia Panelão, em 1984. Foto: Hermano Penna

Samado Bispo dos Santos talvez seja a figura mais emblemática da luta e da determinação do povo Pataxó Hãhãhãi para reaver suas terras. Os Pataxó Hãhãhãi têm muitos líderes e mártires para cultivar, no entanto, as referências mais recorrentes quando relacionamos palavras como luta e resistência, em lados oposto mas complementares, são Samado e Bahetá.

 

Da partida de Pedra Branca, das passagens por Santa Rosa e São Bento, e a chegada a Reserva Caramuru-Paraguassu

“Como eu falei para a senhora aquele dia, que eu sou descendente de Pedra Branca. Agora, eu sou do pessoal mais velho mesmo. Quando eles saíram de Pedra Branca, vieram fazer aldeamento num lugar por nome de Santa Rosa. Bom, agora, de Santa Rosa, eu já sou filho de Santa Rosa. Já nasci e criei em Santa Rosa. Agora, o seguinte é que a minha avó falava que Pedra Branca… Vocês querem saber do…, de algumas coisas que foram citadas, do acabamento de Pedra Branca ?”

O trecho acima, retirado de uma entrevista realizada por Maria Rosário Carvalho (UFBA) com o próprio Samado, lá nos idos de 1994, revelou uma memória prodigiosa e uma capacidade de se inserir na luta antes mesmo de ter existência material no mundo.  A Reserva Caramuru Paraguassu é um conjunto de lutas anteriores, “cada tronco que tem aqui trouxe uma história, e a rama espalhou na luta por essa reserva aqui”. O tronco de Samado era, pois, os dos índios Kariri-Sapuyá de Pedra Branca, saídos do recôncavo sul da Bahia em inícios do século XX. Expulsos dalí, quando o poder local não lhes reconhecia o direito às terras do antigo aldeamento de Nossa Senhora de Nazareth da Pedra Branca, e passou a persegui-lhes violentamento, os Kariri-Sapuyá ainda resistiram por cerca de 5 décadas[2]. As famílias dispersas teriam fundado nova aldeia, dessa vez, mais ao sudoeste da Bahia. “Quem fez a aldeia de Santa Rosa foram os índios que vieram de Pedra Branca pra cá por dentro do mato como ele contou aí. Quando chegaram nesse local, eles acharam que podia fazer aldeia ali. E aí fizeram aldeia e foi casando eles e foi crescendo mais. E quando eu me entendi por gente também, a aldeia tinha acabado, já estava no poder do tal Ramiro Tourino”. Samado completa para Maria Rosário, que de lá de Santa Rosa foram para uma localidade chamada São Bento, “lá não era aldeia, mas tinha muito índio”.

 

Teodoro, filho de Samado, conhece, em 2003, a Vila onde se localizou o aldeamento de Nossa Senhora de Nazareth da Pedra Branca. Foto: Jurema Machado

Foi quando em 1937, aproximadamente, ele e sua família receberam a notícia que “saiu essa medição aqui no posto; correu a notícia pra lá que o exército tava medindo este posto”, contou-nos Justina dos Santos, irmã mais jovem, e companheira de toda uma vida. Samado teria dito à mãe, Antônia Bispo dos Santos, que estavam recrutando gente para trabalhar “dizem que tão trabalhando, minha mãe, dizem que tão abrindo uma terra lá, que tão medindo, então vou pra lá, vou ganhar um dinheiro lá”. Essa terra era a Reserva Indígena Caramuru Paraguassu criada em 1926 em terras devolutas do Estado da Bahia, mas demarcada entre 1936 e 1937, medição a que Samado referiu. Então Samado viajou pra lá, trabalhou, e o exército perguntou de onde é que ele era, e assim, ele foi buscar a família em São Bento. À essa época seu pai, Marcelino dos Santos, já havia falecido, e ele muito precocemente assumiu os rumos dos seus. Levou a mãe, os avós e irmãos (Bune e Justina) para uma área do Posto Paraguassu, que eles nomearam de ´Entra com Jeito´, uma alusão às características do lugar: mata fechada com muita onça e sem qualquer trilha que lhe desse acesso. Justina conta a trabalheira que tiveram para limpar um local para fazer a palhoça e abrir roça. “O SPI [Serviço de Proteção aos Índios] só apontou o local e deu alguma ferramenta. Os índios que fossem cuidar de abrir estrada e se cuidar pra lá”.

“Então ele quando nós entrou pra aqui, Curt veio e falou que ele viesse e que ele tava vindo pra aqui trazer presente pra dar aos índios, pra essa mata bruta, aí então, aqui  não tinha estrada era uma [arvoreda], ele tava ranchado (hospedado) na casa de Catarine eo irmão de Catarine”. Aí ele veio, né, foi buscar. Ele disse: os índios que você ver Samado, que é de lá, você vai trazendo. Ele foi lá e foi avisando o povo [os Kariri- sapuyá que estavam entre Santa Rosa e São Bento]. E aí o pessoal, os que vinha mais ele, voltava e buscava os outros até que ele foi trazendo nós aqui, todo mundo”.

(Justina dos Santos)

O etnólogo Curt Nimuendaju permaneceu na Reserva Caramuru Paraguassu de 22 de setembro a 28 de novembro de 1938, quando observou o estado de abandono em que ela se encontrava e que teria ensejado sua intrusão por parte da população regional[3]. Justina conta que ele trouxe 21 índios de São Bento, “o pessoal de Pedra Branca”, para o Caramuru. Os demais, os próprios parentes se encarregavam de ir buscando, principalmente Samado. Como o Entra com Jeito era muito distante da sede, Samado ia de quinze em quinze dias buscar “farinha, um pouquinho de sal, um pouco de café pra minha mãe, açúcar, a carne bem pouca também – porque não güentava, ele sozinho não güentava trazer, né? Mas a nossa vida era comer peixe, caça, como a gente já tava acostumado”.

 

A coragem e o encanto que seguram os tiros

Samado não passou pelos bancos escolares, nem por qualquer educação formal, “o que ele tinha era memória”, orgulha-se Diógenes, “um homem destemido, não tinha medo de falar nada com ninguém. Um homem bom de lutar”.

Escuto muitas referências a certas características mágicas, de encanto, que possuíam Samado e sua irmã Justina, e que teriam agido de maneira fundamental na sua trajetória, na capacidade de se articular e defender-se do inimigo. “Samado não era qualquer um”, me diz Domingos de Oliveira, morador da aldeia do Panelão, fundada por Samado na Reserva Caramuru-Paraguassu. Foi Samado quem conduziu a família de Domingos (mãe e irmãos) até as terras da reserva, e em troca tinham sua lealdade na luta.

“Samado tinha as conclusão dele bem tratada, tinha o ritual dele. Se ele tava na frente de uma pessoa assim, quando via, ele já tava lá na frente. Uma pessoa assim, que sabia cuidar. Morreu porque Deus levou e nosso pai tupã quis ele lá com ele, mas que ele foi uma pessoa bem preparada, foi”. (Domingos Oliveira)

Muito emotivamente, e quase enunciado como discurso, Domingos conta que as habilidades de Samado extrapolavam a explicação natural da vida na terra. Certa vez, em uma das retomadas na aldeia do Panelão, ainda nos anos 1980, Samado e seus liderados desciam a serra empunhando uma bandeira do Brasil, quando encontraram uma trincheira de pistoleiros, que começaram a atirar de imediato, ao passo que Samado teria tomado a frente do grupo e todas as balas foram desviadas. Quando pergunto a Domimgos a que ele atribui esse e outros ocorridos semelhantes, “em primeiro lugar nasceu a força dele. Um brasileiro legítimo desse país. A primeira força de Samado é essa aí. O senhor que lutou por todo mundo.  O brasileiro legítimo que ele era, o grande indígena. Samado foi um guerreiro lutador pra ver os indígenas no lugar merecido. O senhor da terra”.

 

Aldeiao do Panelão, 1984. Samado, Diógenes, Roque e família. Foto: Hermano Penna

 

Josivaldo dos Santos, neto de Samado, diz que a maior lembrança de seu avô foi do dia que ele, Samado, selou dois animais, um burro e uma égua, e pediu pra Roque, seu filho e pai de Josivaldo, que permitisse o menino, à  época com 14 anos de idade,  acompanha-lo em uma empreitada. O ano era 1997 e os Pataxó Hãhãhãi estavam envolvidos nas retomadas de cinco fazendas ocorridas nos dias posteriores ao assassinato de Galdino Jesus dos Santos[4]. Seguiram montados pela estrada que desemboca em Pau Brasil, “onde só passava gente de fazendeiro que tivesse arma e quisesse caçar e matar índio”.  Quando chegaram a área onde se situava a fazenda do invasor Durval Santana, se depararam com o primeiro impedimento: uma fila de homens armados olhava e inspecionava quem passasse. Samado disse ao neto “vamos!”, os pistoleiros os olharam “de cima abaixo e mandaram a gente passar”. Seguiram viagem em paz até o Caramuru, quando encararam mais uma trincheira. “Nessa vez, eles já começaram a atirar à distância. Meu avô aproximou o animal dele do meu de um jeito que passou o braço em mim. Abaixamos a cabeça e passamos por todos sem nada de mal acontecer. Eu tremendo de medo”.

Dentre essas cinco retomadas, está a fazenda Paraíso, do invasor Marcus Vinícius, notório inimigo dos índios, que no terceiro dia de retomada encheu uma caminhonete de homens armados e foi tentar afugentar os índios. “Eles não sabiam que a gente tinha dançando Toré a noite toda, e que quando o dia amanheceu, tinha três cobras esmagadas debaixo dos nossos pés, e ninguém tinha percebido”, me disse, certa vez, Edna dos Santos, Edinha, sobre esse mesmo dia. Marcus Vinícius e seus pistoleiros encontraram os índios “preparados” e deram meia volta na estrada.

Essa “preparação”, segundo Domingos, “é de pessoas que tem dentro de suas oração, que deus deixou pra usar na hora necessária”. Josivaldo diz que o avô  tinha uma inteligência especial que morreu com ele. “Não ensinou a ninguém e ninguém também nunca aprendeu”.

“Se não fosse essa preparação os índios não teriam mais nada!”, me diz Diógenes ao retomarmos a conversa sobre seu pai.

“Naquele tempo [no tempo que ainda estavam no Entra com Jeito], não tinha justiça, a justiça era daqueles homens grileiros, que antes chamava pistoleiro. Ele tinha uma área de  terra no Entra com Jeito, e tinha lá nesse trecho, era major Liberato, Leonildo, Pedro leite, Luís Nogueira, que era o chefe das pistolagem, ele era morador, prefeito de Pau Brasil, que chamava  Santa Rosa, e aí começaram a perseguir, ele saiu tinha ainda o SPI no Rio. Várias viagens ele fez para o SPI no Rio. Mas naquele tempo quem valia era quem tinha dinheiro. Ele acabou saindo daí e indo pra Machacalis, não ficou lá muito tempo não, depois ele voltou de novo…” (Diógenes dos Santos)

Quando Entra com Jeito ´já estava no jeito´, os arrendamentos corriam soltos nas terras da Reserva Caramuru-Paraguassu. Samado e família enfrentavam a cobiça dos invasores que não cansavam de expandir seus limites para dentro das posses dos indígenas. Ciente de seus direitos e cansado de apelar para a chefia interna do Posto Indígena, Samado viajou algumas vezes para o Rio de Janeiro para denunciar junto à sede do SPI, a invasão das terras. A primeira viagem ao Rio – caminharam até o norte de Minas e de lá conseguiram carona – não resultou em muita coisa. Samado então resolveu tentar a sorte na terra dos índios Maxakali, pois sabia que Telesforo Martins Fontes[5] havia ido para lá quando saiu da Reserva Caramuru-Paraguassu. Não encontraram Fontes e permaneceram pouco tempo em Minas, pois souberam que as coisas na reserva teriam acalmado e assim resolveram retornar. Não tardou, as perseguições recomeçaram, com roças e palhoças queimadas e intimidações com o uso da força policial. Samado, mais uma vez, parte com destino ao Rio de Janeiro, em companhia de sua esposa Zeferina Maria Ferreira — mãe de 7 dos seus 8 filhos — deixando os dois filhos mais velhos – Diógenes e Roque — aos cuidados dos irmãos Bune e Justina.

“Eu andava nas costas de finado Bune. De lá a gente já veio pra cá para o Caramuru, saindo do Entra com Jeito pra cá, mas, olhe, meu pai viajava pro Rio, deixou roça, tudo plantando. Finada Justina e finado Bune, cansamos de dormir no mato. Tinha um cachorro que a gente precisava amarrar a boca pra não latir porque eles passavam alí caçando a gente. Aí nós não suportou mais, pra que não acontecesse uma coisa mais pior, deles matarem a gente, fomos de novo pra Maxakalis. Eles quando voltaram do Rio, meu pai e minha mãe, já acharam a gente lá. Quando voltou a gente já veio pro mundo novo, de lá nós fomos pra um local, no Caramuru mesmo, de frente, uma serra, e nós fomos trabalhar de contrato. Nós trabalhava pra um homem chamado Dino, fazendeiro. Depois o Dino vendeu pra Basto Rebouças”.(Diógenes dos Santos)

 

Diógenes (em primeiro plano) e Roque, filhos mais velhos de Samado Santos. Panelão, 1984. Foto: Hermano Penna.

 

O incansável e teimoso indígena e as represálias do inimigo

As famílias indígenas viram-se obrigadas a trabalhar para terceiros dentro de suas próprias terras. Os arrendatários, que julgavam-se proprietários, negociavam livremente as terras, passando para filho, vendendo para amigo, e dispondo da mão-de-obra indígena como bem lhes servisse. Porém, Samado se negava a subordinação e frequentemente constrangia os invasores cobrando-lhes pagamentos para fazer cerca, abrir roças, cuidar de animais, e cumprimento de acordos entre eles realizados, como por exemplo “deixar as roças dos índios em paz em troca de trabalho”.

“Nossa maior perseguição aconteceu quando o velho Bastos vendeu pra Jenner [Jenner Pereira Rocha]. Paremos de trabalhar, mas a gente tinha coisa pra se alimentar bem. Juntou Jenner, Luis nogueira, José Brasileiro, que chefe da sede aí no Caramuru., e um dia chegou três policiais, um chamava Normando, outro chamava agora me passou… Aí chegou 3, meu pai tava dentro de casa, pegou pelo braço e levou lá pro terreiro e falou “tira a bagagem de vocês daí desse rancho, que era de palha, e tacou fogo, queimou. Aí nós foi juntar tudo que tinha, era umas 2h da tarde. Eu tenho o documento que a terra era de meu pai. Aí nós desceu, nós tinha 60 cabeças de ovelha, tinha porco, galinha, guiné, tinha tudo, foi morrendo. Aí nós veio praqui, alí na aldeia velha, que tava na mão do velho Mamédio [referindo-se a mudança para o Panelão]. A gente chegou e veio morar num lugar alí embaixo, a gente chegou ajeitou tudo, abriu manga, plantou tudo. Aí queriam tomar de novo. Aí nós foi em Brasília”. (Diógenes dos Santos)

Mais uma vez Samado viaja para buscar seus direitos, mas desta vez o destino já era Brasília, a nova capital federal, e local da sede do novo órgão indigenista recém-criado pela ditadura militar, a Fundação Nacional do Índio, que substituiu o Serviço de Proteção aos Índios – SPI. Samado, que nessa viagem já foi acompanhado por Diógenes, trouxe na bagagem um documento encaminhado ao chefe José Brasileiro, que ordenava que Samado Santos e família fossem realocados nas suas terras. Diógenes descreveu a ira de José Brasileiro quando eles entregaram o documento. No mesmo momento voltaram e refizeram a casa. Contudo, a vingança dos poderosos não tardaria, e com quinze dias, dois policiais e um sargento chegaram à roça para comunicar que Samado e Diógenes deveriam se apresentar ao Capitão Pinheiro[6] que estava em Pau Brasil Chegando lá, ficaram presos por 6 dias até que foram conduzidos para o Reformatório Krenak[7].

“Chegamos e ficamos uma noite preso em Belo Horizonte, depois descemos pra krenak. Lá em krenak ficamos preso mesmo, prisão desgraçada. Nós preso a noite na cela mesmo. Quando era de manhã tirava pro café e depois nós ia pra um brejo batendo aqui, dentro da lama plantando arroz. Nós saia dessa lama, eu como gostava jogava futebol, ia brincar, e meu pai nunca pegou bola nem de gude. Passamos 18 dias em krenak preso, plantando arroz, capinando, limpando milho…” (Diógenes dos Santos)

Na lista de detenções do Reformatório Krenak, no Anexo 4 da dissertação de José Gabriel Corrêa, encontrei os nomes de Diógenes Ferreira dos Santos e Samado Bispo dos Santos, enviados pelo Cap. Pinheiro em 07 de janeiro de 1970. O motivo constante para a prisão é “desentendimentos com o chefe”. Não é mesmo de estranhar que José Brasileiro não fosse engolir à seco o documento dos seus superiores sobre a posse de Samado, e que certamente se articularia com os invasores interessados para a vingança. O momento histórico era propício para criminalizações de toda ordem camufladas por argumentos como “desordem”, “baderna”, etc. Diógenes e Samado saíram do presídio indígena em 21 de fevereiro, 45 dias após terem sido presos.

“Minha mãe foi em Brasília com finado Roque, e depois de 18 dias veio autorização pra gente, a ordem veio pra soltar a gente. Chegou a carta e o sargento disse que a gente tava liberado. Pegamos o trem, e depois chegamos em Ilhéus, o delegado da policia federal tinha uma intimação que Mamédio [fazendeiro invasor para o qual Samado e família haviam trabalhado] já tinha mandado que nós era invasor. No outro dia, nós sentou com o delegado mais o Mamédio, que ficava dizendo que nós era invasor da terra dele, “Eu quero minha terra desocupada”, gritava Mamédio. O delegado disse “agora conte seu caso Samado. “Ô, seu Mamédio, o senhor sabe que nós fez uma cerca e o senhor não me pagou. Aquela mata que nós derrubou, você me pagou? Seu Mamédio, tudo que foi feito lá dentro foi feito por nós”. “É, mas vocês invadiu”. O delegado da Polícia Federal falou que a terra não era de Idalina, não era de Mamédio, não era de ninguém, era pra usofruto dos índios.  “Seu samado vá lá pra dentro”. Voltemos. Aí ficaram dizendo assim que não era aldeia, não sei o que.” (Diógenes dos Santos)

 

Samado e Diógenes. Aldeia do Panelão, 1984. Foto: Hermano Penna

A prodigiosa memória que Justina dos Santos possuia era tão encantadora quanto sua força e segurança. A vida desses dois irmãos foi muito entrelaçada por admiração e confiança mútua, mesmo com os 10 anos que os separava geracionalmente. “Samado foi meu pai, irmão e compadre”. Entre todas as conversas que mantive com Justina, em nenhuma delas o nome de “Samado, meu irmão” deixou de aparecer.

Dona Justina. Mundo Novo (Antiga Faz. Paraíso), 2012. Foto: Jurema Machado

Samado! Quando ele pegou na luta dessa terra aqui dentro. Ele tinha dois filhinhos quando pegou nessa luta dessa terra. E aí dessa ocasião pra cá, ele correu porque o tenente Anselmo ia matar o pessoal lá, os índios que tavam mais Zé Caboclo, ia matar tudo. Ele correu mais o finado Vini, foi pra Minas de pé pra pedir socorro. Aí que quando ele foi lá, ele foi no Rio, quando ele chegou em Minas não topou Fontes. Aí a mulher dele telefonou. Ele foi então pensando que Fontes estivesse lá, porque Fontes tinha saído daqui na época da revolta e tinha ido pra lá, né? Ele tava trabalhando na terra pra não entregar a terra ao fazendeiro. Então foi quando ele [Fontes] foi pra Minas, ele foi tomar conta lá do posto de Maxakali. Quando Samado foi lá ele tava no Rio, aí Samado falou pra mulher dele, aí ela foi e telefonou pra ele, ele disse: Gertrudes, Vargas disse: você pode ir rompendo que eu vou mandar a comissão, e aí foi quando eles voltaram. Ele voltou pra trás [Samado] mas o finado Gino. Repare bem, Samado e Gino! Voltou pra trás! Quando eles chegaram aqui a Comissão chamada já ia chegado lá fora, em Itajú, na sede né? O tenente Anselmo já estava em Itajú tomando umas cachaça pra vim matar os índio, mas quando ele veio já tinha chegado Barrada mais o Pinto Coelho e dona Clotilde, a mulher de Barrada. Dois homem que vieram e duas mulher. E então Pinto Coelho foi chegando e perguntou a mulher que tomava conta da sede, disse: Onde é que tem aqui uns índio que diz que tá preso? Ela disse: aí nesse quarto. E o tenente Anselmo foi pra rua tomar uma cachaça, pra quando chegar  matar eles tudo. Aí ele foi, meteu a chave, destrancou e soltou os índio.

“Ele disse “Samado também não vai ficar porque é gente como Amaro, ele é sobrinho do finado Amaro”. Desse dia pra cá, deu no meio desse pessoal pra tomar as fazenda dos índio, e ele [Samado] caiu fora lá do Rio, viajou muito, a gente ficava se escondendo pelo mato, nós ficava sempre se escondendo por essas pedras, esses morro que tem por aí, dentro das mata, aquelas matona ainda. Pra comer nós ia roubar no nosso terreiro mesmo, aí buscava um arroz que ficasse lá, um pouco de feijão, matar um pinto por lá pra poder ter…, os cachorro nós pegava amarrava a boca com cipó pra num latir. Era uma coisa séria,  foi feio, foi feio. Nós aqui güentou muita coisa. Meu irmão não podia mais aprumar aí porque o dia que ele chegou a gente tava sem esperar, quando ele deu fé, de manhã cedo antes dele levantar, já foi chegando Leonídio, que era o jagunço de Liberato; foi chegando Leonídio e Paulo e o Bernardo. Eles já foi chegando assim com os pé na porta. Minha cunhada levantou e disse: o que é assim? Ele disse: cadê Samado? Ela disse assim: Não tá aqui não. Aí ele foi e respondeu: pode falar que eu tô aqui, aí ele levantou. Quando ele saiu eles tavam tremendo na porta. Ele [Samado] disse: entra pra dentro. Eles entrou e sentou.  “Zeferina [esposa de Samado], faz um café e dá a esses homem aí”. Queriam matar ele! Aí foi e disse: Samado, muito obrigado, Samado, eu não vim aqui pra conversar contigo não, nós viemo mandado pra nós chegar te topar, só foi te enxergar e te derrubar, mas não. Também tomaram café e viajaram. Depois, de outra vez, eles tornaram a vim de novo aí deram em cima dele toda vida, aí ele corria, ia embora tal e nós ficava escondido pelos mato até quando ele aparecia de novo e então nessa luta a gente correu daqui muitas vezes, a gente foi pro lado de Caraíva, ia pra lá perto de Barra Velha – não é morar, passear né? Porque a gente ficava seis meses, voltava pra aqui de novo”.

(Justina dos Santos)

As posses que Samado resistia duramente para manter foram fundamentais para a luta que viria depois. A reação indígena ao esbulho foi coletivamente organizada em finais dos anos 1970, e iniciada em 1982 em forma de retomadas. Samado começou o processo de “juntar o povo” mais uma vez — como fizera antes quando trouxe as famílias de São Bento — visando impedir a completa intrusão do território e tentando reverter a dispersão que ocorria desde as últimas décadas. Em 1982, a mobilização indígena culminou com a retomada de 1.200 ha – Fazenda Lucas –, simbolicamente localizada na região do Mundo Novo, sede do PI Paraguassu. A Fazenda São Lucas era de propriedade de Jenner Pereira da Rocha, conhecido grileiro e inimigo de Samado, que mandava atear fogo nas suas roças, e que teria também sido um dos articuladores da sua prisão no Reformatório Krenak.

 

A determinação em fazer valer o direito à terra, ou, a luta se intensifica

 

Reunião do “grupo de luta pela terra”. Samado está ao centro. Acervo de Maura Titiá

A mobilização mais ampla se inicia em 1978, quando Samado se dirigiu mais uma vez à sede da Funai para reclamar sobre as terras invadidas da reserva. Nessa mesma ocasião, encontrou o tio Ursulino Fernandes e o tupinambá Nailton Muniz. Então percebem que estão ali para um mesmo fim: fazer voltar os índios à reserva. De volta a Pau Brasil, Samado procura Nailton e Higino – tio de Nailton –, que residiam com suas famílias no povoado de Palmira, próximo a Itajú do Colônia; e  se dirige à sede do Posto de Itajú, na tentativa de mobilizar os “descendestes dos índios do mato”. Lá encontra a velha índia Bahetá, e Maura Titiá, que tomou o ímpeto de garantir a ação pelos lados de lá.

Segundo Diógenes, Antonio Carlos Magalhães, na época governador do Estado da Bahia, teria feito, inicialmente, vistas grossas à retomada da São Lucas para se vingar de Jenner, por motivo que Diógenes não reconhece. “Depois foi que ele viu que o movimento ia se ampliar, foi que começou a agir contra os índios”.

A ameaça de pistoleiros e desprezo dos regionais em relação aos índios eram tão ostensivos, que a Polícia Militar da Bahia instalou dois postos no local. Obviamente, a presença da PM baiana tinha por objetivo impedir o avanço dos índios com novas ocupações. “A polícia baiana é anti índio”, afirma Diógenes.

 

Nailton Muniz (em primeiro plano) e Samado Santos. Acervo de Maura Titiá.

Ainda em maio de 1982, a Funai passa a ser porta-voz das propostas do Estado da Bahia e dos fazendeiros. Propuseram uma troca: os índios sairiam da área retomada, da reserva, e receberiam uma outra terra. Ocorre que as terras que estava sendo oferecidas pelo Estado da Bahia eram federais, a Reserva Biológica de Una, do Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF)[8].  Graças às pressões de Samado e outros líderes, a proposta não foi adiante. Em 08 de setembro de 1982 uma segunda proposta é apresentada em audiência entre a Funai e o Instituto de Terras da Bahia – INTERBA[9]. A Funai queria 6.500 ha., mas o Estado da Bahia oferecia 2.200 ha., no município de Wenceslau Guimarães. Nesta reunião os índios não estavam presentes, e quando tomaram conhecimento da proposta apresentada pela FUNAI em nome deles, recusaram-na inteiramente, assim como a transferência para Wenceslau Guimarães. Em matéria da Folha de São Paulo de 13/09/1982, Samado e outros líderes afirmam não querer a transferência. Os índios também foram levados para ver 16 ha. na aldeia de Coroa Vermelha, município de Santa Cruz da Cabrália, Bahia. Proposta igualmente recusada. A quarta e última proposta do Governo da Bahia, que foi apresentada pela Funai, tratava de uma transferência temporária para o Centro de Estação Experimental de Almada, a 25 km de Ilhéus. 130 ha de terra não cultiváveis, onde os índios viveriam às custas da Funai até o término das eleições. Após isso, voltariam para a reserva. O ano de 1982 era de eleições diretas para governador após a instalação da ditadura militar. Antônio Carlos Magalhães, já em segundo mandato indicado pelos militares e referendado pela Assembleia Legislativa do Estado, primeiro em 1970 e depois em 1978, almejava fazer sucessor nas eleições diretas. O movimento dos índios representava óbices ao seu projeto, já que ele contava com a força e apoio dos fazendeiros da região sul.

A proposta da transferência temporária para Almada foi parcialmente acatada. Algumas famílias para lá se mudaram, entretanto Samado, assim como Maura Titiá, Nailton Muniz e seu tio Higino Muniz negaram a transferência e resistiram na Fazenda São Lucas, o que foi fundamental para garantir a posse e a continuidade da luta para a ampliação do território levada a cabo nas décadas subsequentes.

 

Jornal Porantim de 1983. Acervo CIMI Itabuna

 

Ato final

A retomada da São Lucas deu início a um processo jurídico que durou 30 anos até seu julgamento final no Supremo Tribunal Federal. Foi só em 2012 que os Pataxó Hãhãhãi puderam expulsar seus invasores e opressores definitivamente. Samado já não vivia mais alí entre eles, ou melhor, como os indígenas gostam de referir “ele já havia encantado”. No entanto, e como por encanto mesmo, sua imagem esteve presente no dia do julgamento da Ação de Nulidade de Títulos naquele 02 de maio de 2012, quando dezenas de Pataxó Hãhãhãi vestiam camisas com sua foto, onde atrás lia-se  ´Sirvo de adubo para essa terra, mas dela não saio´.  Essa frase foi dita por Samado em uma das inúmeras vezes em que tentaram negociar suas terras e fazê-lo desistir de seus direitos.

Roque, Diógenes, Elita, Laura, Gerosina, Antonio, Teodoro foram os filhos que Samado teve na sua união com Zeferina. Da sua união com outra companheira, Zinha, nasceu Idaci, conhecida como Pouran.  Melancolicamente, encerro minha conversa com Diógenes, no pé da aldeia Velha do Panelão, com ele dizendo “Samado morreu em Eunapólis, à míngua, por não ter tido assistência devida na época da Funai, não teve medicamento pra ele, morreu de tuberculose, devia ter uns 80 anos por aí assim. Era meio velho o meu pai”.

Samado morreu em 9 de setembro de 1998.

 

Notas

[1] Professora de antropologia do Centro de Artes, Humanidades e Letras da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Pesquisadora associada do Programa de Pesquisas sobre Povos Indígenas do Nordeste Brasileiro PINEB/UFBA.

[2] CARVALHO, Maria Rosário. As revoltas indígenas na aldeia da Pedra Branca no século XIX”. In: ELISA REIS et al (orgs.). Ciências Sociais Hoje. São Paulo: ANPOCS/HUCITEC, 1995, p. 272-90.

[3] Carta encaminhada por Curt Nimuendaju para o Diretor do Museu Goeldi, Carlos Estevão de Oliveira, datada de Ilhéus, BA, 8 de dezembro de 1938.

[4] Em 1997 ocorreu, em Brasília, a violenta morte do índio Galdino, transformado em uma tocha de fogo por jovens da classe média alta de Brasília — onde se encontrava para tratar de assuntos indígenas, e que o teriam confundido com um mendigo.

[5] Notório funcionário do Serviço de Proteção aos Índios, Telesforo Martins Fontes foi dos primeiros sertanistas do SPI. Atuo na Reserva Caramuru-Paraguassu desde a sua fundação até 1937.

[6] Capitão Manoel Pinheiro, da Polícia Militar do Estado de Minas Gerais, responsável pelo Reformatório.

[7] O Reformatório Agrícola Indígena Krenak, um “centro de recuperação” de índios mantido pela ditadura militar no município de Resplendor (MG), começou a funcionar em 1969 em uma área rural dentro do Posto Indígena Guido Marlière. Para maiores informações ver A Ordem a se preservar: a Gestão dos Índios e o Reformatório Agrícola Indígena Krenak. Dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Museu Nacional/UFRJ, sob orientação de Antônio Carlos de Souza Lima. 2000.

[8] Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF), entidade autárquica, era integrante da administração descentralizada do Ministério da Agricultura. Criado por Decreto-Lei 289, de 28 de fevereiro de 1967. Extinto pela Lei 7.732, de 14 de fevereiro de 1989.

[9] Órgão em regime de programação especial da administração centralizada, que estava diretamente subordinado à Secretaria da Agricultura, e tinha a finalidade de executar a política estadual de disposição de terras públicas. Criado pela Lei nº 3.255 de 15 de maio de 1974. Após várias reformulações, foi extinto com a Lei 7.435, de 30 de dezembro de 1998. Atualmente, o órgão estadual que geri as terras do Estado da Bahia é a Coordenação de Desenvolvimento Agrário – CDA, vinculada a Secretaria de Desenvolvimento Rural. Em relação ao INTERBA, a CDA tem muito menos recursos e autonomia.

 

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