biografia

Watau Karajá

Autor(es): Rafael Santana Gonçalves de Andrade
Categorias:Biografia, Etnias, Karajá, Estado, Tocantins
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Watau: A trajetória de uma liderança Karajá e o projeto modernista do Estado brasileiro

 

A expansão rumo ao oeste e o jovem cacique Karajá

 Na região central do Brasil, mais precisamente na Ilha do Bananal, que se forma da bifurcação do rio Araguaia na altura média de seu curso, fica a aldeia Santa Isabel do Morro. Aldeia Karajá que foi palco de encontros e decisões importantes durante o processo de interiorização do país no século XX.

A origem de Santa Isabel do Morro se inicia a partir de um conflito na região entre os Karajá e não indígenas. Segundo Fénelon Costa (1978) uma epidemia de gripe teria matado a esposa de Wahuúma, líder de uma aldeia Karajá do médio Araguaia, que por razão da tragédia decidiu armar um ataque aos primeiros não indígenas que avistasse navegando o Araguaia nas proximidades de sua aldeia. Como planejado, Wahuúma, acompanhado de um grupo de homens Karajá, interceptou o batelão de um militar, citado pela autora como “major Basílio”. Mataram os que ali estavam, pegaram todos os suprimentos e afundaram a embarcação (Fénelon Costa, 1978:24).

Com o desaparecimento do batelão um grupo de busca saiu de Leopoldina, atual cidade de Aruanã (GO), já suspeitando da morte do major Basílio. Wahuúma foi encontrado e executado pelos não indígenas, o que provocou uma represália por parte dos irmãos do líder Karajá. A fim de apaziguar o conflito, que já se alongava na época, foi enviado um grupo do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) sob a liderança de Bandeira de Mello com o objetivo de fundar um posto indígena em uma região previamente estudada pelo SPI. No mesmo local onde hoje está a aldeia Santa Isabel do Morro, foi fundado, em 1927, o Posto Carajás que em pouco tempo teve seu nome substituído para Posto Redempção Indígena (Nunes, 2016:76).

A aldeia foi se formando da aglomeração de grupos de outras aldeias que passaram a construir moradias próximo ao posto do SPI para melhor acessar mercadorias industrializadas, ter atendimento de saúde e outros benefícios que o Posto poderia proporcionar. Junto com uma das famílias que chegaram para morar na região, estava o jovem Watau. Lourdes Mahuèdèru, uma das moradoras mais antigas de Santa Isabel do Morro, relatou sobre o momento da chegada de Watau ao antropólogo Eduardo Nunes:

Então os Tori[1] começaram a plantar. Começaram a plantar aqui mesmo, na aldeia, plantaram muita mandioca, milho… Até que amadureceu. Foi quando Wataku[2] apareceu. Com medo dos Tori, os Inỹ se juntaram na praia. Wataku talvez era rapaz, ainda. Ele era rapaz no tempo em que o pessoal do SPI chegou aqui. Aqui mesmo [na aldeia que se formou junto ao Posto] ele se casou. Por isso hoje a Kòmỹtira está aí, a mãe de Iwyraru e seus irmãos, ela é filha dele. Wataku ainda era rapaz, probrezinho. Ele é da família [em português] de Malua. Malua é mais novo, e sua irmã mais velha é Wànahiru, mãe de Wataku. (Nunes, 2016:68)

Como explicou Mahuèdèru a Eduardo Nunes, Watau fazia parte do grupo de Malua, líder de uma das primeiras famílias que chegaram para morar na região de Santa Isabel do Morro, como aponta os relatórios do SPI analisados por Nunes:

Em 1930, o encarregado da Inspetoria de Goyáz do SPI escreve que “varia muito a população em nossos postos, já no que diz respeito aos índios, ainda um tanto nômades”, e relata que a população do Posto estava, à época, constituída de dois grupos: o do “capitão” Malua (139 pessoas) e o do “capitão” Hãdori (72 pessoas) que, somados a 27 “civilizados” – “ajudantes” do Serviço e familiares – 1 índio Krahô e 3 Kayapó, totalizava 242 pessoas. (Nunes, 2016:76)

A partir de 1931 o Posto do SPI foi abandonado, mas a aldeia de Santa Isabel do Morro permaneceu. O abandono do posto fez com que diminuísse a população da aldeia, como foi registrado por Hebert Baldus em 1935. Segundo sua descrição, moravam em Santa Isabel, naquele ano, 156 pessoas em oito grandes cabanas de palha (1948:149).

Pouco mais tarde, a partir de 1937, após o início das políticas do Estado Novo de Getúlio Vargas, o interesse pela região central do Brasil foi amplamente discutido no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro (RJ) – a sede do governo federal na época. Vargas e sua equipe, na condução das políticas de interiorização do país, já articulavam estratégias para o avanço das fronteiras econômicas, como disse o então presidente em seu discurso:

Após a reforma de 10 de Novembro de 1937, incluímos essa cruzada no programa do Estado Novo, dizendo que o verdadeiro sentido de brasilidade é o rumo ao oeste. (…) o programa de “Rumo ao Oeste” é o reatamento da campanha dos construtores da nacionalidade, dos bandeirantes e dos sertanistas, com a integração dos modernos processos de cultura. Precisamos promover essa arrancada, sob todos os aspectos e com todos os métodos, a fim de suprimirmos os vácuos demográficos do nosso território e fazermos com que as fronteiras econômicas coincidam com as fronteiras políticas. Eis o nosso imperialismo. (Vargas apud Velho, 1976:138)

A ideologia da época se baseava na visão heroica que se tinha dos bandeirantes durante a formação do país nos primeiros séculos de conquista. Vargas e os ideólogos do Estado Novo tinham em mente o progresso do país a partir do rompimento com as antigas elites ruralistas que comandavam o Brasil, para então implantar meios de produção modernos e fomentar novos estratégias para o desenvolvimento econômico.

A partir de pressupostos nacionalistas, de consolidação e controle do território nacional, as políticas brasileiras no Estado Novo se voltaram para o interior do país sob o discurso da soberania nacional e da expansão econômica brasileira fazendo alusão à necessidade da conquista, domínio e exploração de seus próprios recursos. A ideia que conduziu as ações de Vargas girava em torno da percepção de que o país ainda era uma terra desconhecida, inexplorada. Os “vácuos demográficos” impediam o desenvolvimento do Brasil e a expansão econômica do país. Foi baseado nesse ideal do território ainda a ser conquistado que os signos das bandeiras do período colonial foram resgatados como sinônimo de brasilidade, se tornando um dos principais objetivos do novo Estado brasileiro que se formava (Esterci, 1972).

Os Karajá, nesse contexto do autoritarismo da unidade nacional (Velho, 1976), se viram diretamente confrontados pelos interesses de Vargas a partir de 1939, quando foi organizada uma visita da comitiva presidencial à Ilha do Bananal, na aldeia Karajá de Santa Isabel do Morro:

O tenente do exército Acary de Passos Oliveira, que trabalhava no Palácio das Esmeraldas, sede do Governo de Goiás, ficou à disposição do gabinete militar da Presidência da República para construir uma pista de avião na Ilha do Bananal e organizar um acampamento de caça para Getúlio Vargas. (Lima Filho, 2001:40).

A primeira tentativa de visita é, contudo, frustrada pelo início da Segunda Guerra Mundial, em setembro de 1939. Diante do momento delicado do cenário mundial a presença de Vargas na capital era indispensável. Uma nova tentativa foi conduzida no ano seguinte, em 1940, dessa vez bem-sucedida.

 

Figura 1. Recorte de Jornal do Arquivo SEMEAR – MN: a reportagem relata sobre a visita de Getúlio Vargas à Ilha do Bananal e menciona Watau como o chefe Karajá que recebeu Vargas em nome de todos os indígenas da Ilha. (SEMEAR, 2005).

 

Em 8 de outubro de 1940, Getúlio Vargas, a bordo do Lockheed 04, estava acompanhado do coronel Beijamin Vargas, do interventor federal Pedro Ludovico Teixeira, do ministro João Alberto Lins de Barros e do Jornalista Francisco Brasileiro, em direção à Ilha do Bananal (SEMEAR, 2005; Lima Filho, 2001). Antes de pousar sobrevoaram aldeias Karajá, Xavante e Javaé, verificando a ocupação indígena na região. Pousaram em Santa Isabel e, segundo a reportagem, o presidente foi recebido por Watau, o “chefe” dos Karajá. Watau, na versão noticiada (figura 1), cumprimentou Vargas em nome de todos os indígenas da Ilha do Bananal, que compreendia também os Javaé, do lado oriental da Ilha.

A visita de Vargas em Santa Isabel do Morro talvez seja o ponto mais controverso quanto às memórias sobre a trajetória de Watau. Alguns relatos dizem que foi uma arbitrariedade de Getúlio Vargas apontar Watau como o “grande chefe”, como por exemplo a versão que é relatada por Toral:

Historicamente, os indivíduos que se ocupam do relacionamento com os torí tem sido identificados como os “caciques” ou “capitães” das aldeias. […] Um dos casos mais famosos de mal entendidos em relação à chefia do grupo ocorreu em 1940, quando o presidente Getúlio Vargas visitou a aldeia Santa Isabel. Encantado com o prestigiado ijesudu (“o que se destaca em lutas”) da aldeia, Wataú, o presidente tomou-o como líder, cumulando-o de presentes para “sua tribo”. Wataú aproveitou-se habilmente da ausência do ixydinodu que estava pescando, para se apropriar das honras devidas ao “cacique”. (Toral, 1992:93)

O mesmo relato de que Watau haveria chamado atenção pela sua postura física de lutador, levando Vargas a identificá-lo como um capitão, também é descrito por Fénelon Costa (1978) e Lima Filho (1994).

 

Figura 2. Watau e um de seus filhos. Fotografia de Amaury Correa Bento, realizada durante a expedição a Mesopotâmia Araguaia-Xingu, em 1945. (Acervo Digital do Museu do Índio)

 

As narrativas que defendem a arbitrariedade de Vargas em alçar Watau à liderança, explicam que na época o capitão Karajá seria Malua, tio de Watau como explicou Mahuèdèru à Nunes (2016:68). De todo modo, Vargas preferindo – por motivos não esclarecidos – Watau como grande chefe, sobrevoou com ele a Ilha do Bananal e o levou para uma visita ao Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. As fotos de Watau foram estampadas em revistas nacionais da época, dando assim uma visibilidade ao jovem Karajá, o que promoveu sua posição de liderança na aldeia, ao mesmo tempo que sustentou as ações populistas do governo de Vargas, o qual se beneficiou da imagem retórica do “bom selvagem” prestes a receber as benesses do progresso modernista (Rodrigues, 2008:188).

A visita de Vargas não só alçou Watau como notório capitão Karajá, como também foi o marco inicial para uma série de mudanças e intervenções por parte do governo brasileiro na Ilha do Bananal, tomando como centro dessas operações a aldeia Santa Isabel do Morro, transformando a dinâmica da região de maneira significativa. O interesse pelo local se dava pela posição geográfica da Ilha e pela navegabilidade do rio Araguaia, fatores propícios para articular o avanço das fronteiras econômicas no Oeste (Lima Filho, 2001).

Mais tarde, em 1947, sete anos depois da visita de Vargas, Hebert Baldus (1948) relata outro cenário de Santa Isabel. O Posto do SPI havia mudado de nome para Posto Getúlio Vargas desde a visita da comitiva presidencial em 1940.  A situação de abandono do posto desde 1931 foi alterada pelos tímidos investimentos de Vargas, que o colocou novamente em funcionamento e deu um salário às lideranças Karajá de Santa Isabel pela condição de “capitães”, como foi relatado por Donahue (1982:64). O levantamento de Baldus apontava 140 pessoas morando na aldeia, em condições pouco favoráveis, como descreve o etnólogo:

Os Karajá de Santa Isabel queixavam-se de que o Serviço de Proteção aos Índios não lhes dá bastante oportunidade para ganhar dinheiro. (…) Dizem ser, além disso, o armazém do Posto tão pouco abastecido que ficam forçados a comprar a preços exorbitantes dos mascates ou da venda de São Félix, povoação recém-fundada na margem oposta e cerca de uma légua distante de Santa Isabel, a montante do Araguaia. (Baldus, 1948: 149)

Desse modo, apesar da monumentalidade que se fazia em torno da visita presidencial, os escassos benefícios que poderiam ter Watau e os Karajá, foram se esvaindo paulatinamente ao longo da década de 1940. Watau soube, nesse meio tempo, consolidar sua posição de liderança, apesar de que – como alguns enfatizam – não tenha se tornando capitão dentro das condições comuns estabelecidas entre os Karajá. Sua posição foi garantida pela relação que manteve com Vargas, o que nos anos seguintes seria evocado para garantir a continuidade de sua posição de liderança. O plano “Rumo ao Oeste” de Vargas não se concretizou da maneira como o tinha idealizado, mas as bases foram lançadas e foram exaustivamente aproveitadas mais adiante por Juscelino Kubitschek, que também cruzou o caminho dos Karajá e de Watau.

 

Watau, Juscelino Kubitschek e a continuidade da Marcha para o Oeste

A liderança de Watau ganhou consistência ao longo das duas décadas que se passaram após a visita de Vargas. Os relatos do final dos anos 1950 (Kubitschek, 2000:416), apontam que ele haveria assumido a posição de líder ritual de Santa Isabel do Morro, função que normalmente é exercida pelas lideranças tradicionais de uma aldeia; homens reconhecidos pelo domínio e conhecimento das tradições Karajá. Watau reforça essa posição de respeito quando é colocado novamente em evidência durante as negociações com Juscelino Kubitschek em 1960.

Em 1956, Juscelino Kubitschek, no início de seu governo, iniciou o plano mais ousado de seu governo: a construção de uma nova capital no interior do país. Brasília foi o motivo central de todo o governo de Juscelino, que parte das bases lançadas desde a proclamação da república e do programa de Getúlio Vargas “Rumo ao Oeste”, para retomar a ocupação do sertão, imaginado como o lugar desocupado e atrasado que ansiava pela modernização.

De modo autoritário, Juscelino Kubitschek orquestrava o ambicioso projeto de interiorização do país, colocando em prática o seu slogan “50 anos em 5” (Velho, 1976; Lima Filho, 2001). Em 1957, pouco tempo depois do início da construção de Brasília, os Karajá retomam espaço no cenário político nacional e marcam presença em um dos atos simbólicos mais significativos do plano de Juscelino: a celebração da “Primeira Missa de Brasília”.

A cerimônia foi planejada por Juscelino de forma a coincidir com a data reconhecida na época como o dia da descoberta do Brasil e da realização da primeira missa do Brasil, em 3 de maio de 1500. Como foi descrito pelo próprio Juscelino:

Escolhi a data de 3 de maio por me parecer a mais expressiva, já que recordava a missa mandada dizer por Pedro Alvares Cabral. As duas cerimónias se equivaliam em simbolismo. A primeira assinalara o descobrimento da Nova Terra; e a segunda, quatrocentos anos mais tarde, lembraria a posse efetiva da totalidade do território nacional. (Kubitschek, 2000:87)

A Missa foi conduzida pelo Cardeal-Arcebispo de São Paulo Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. Foi realizada na Praça do Cruzeiro no dia 3 de maio de 1957, uma sexta-feira. A missa foi transmitida para todo o país via rádio, pelo programa “A voz do Brasil”.

A pretensão era de um novo “descobrimento” do Brasil, com a imagem de que agora era possível a efetiva ocupação do território nacional, já que até então era imaginado como uma vasta formação de consecutivos “vazios demográficos”, como no discurso de Vargas. A missa, em Brasília, se apresentava como a primeira grande cerimônia que marcaria o início do almejado elo entre o sertão atrasado e o litoral moderno, a garantia do progresso nacional. O evento foi realizado com a presença de quinze mil pessoas e foi reconhecido como o marco oficial do início da construção de Brasília.

A proposta do ato, idealizado por Juscelino, era de realizar um evento grandioso, simbolizando uma nova conquista do Brasil. Junto com representantes do alto escalão do governo federal, investidores importantes e representantes da “alta sociedade Carioca” – como definiu Juscelino – foram convidados os Karajá, trazidos da Ilha do Bananal por aviadores da Força Aérea Brasileira especialmente para a celebração (Kubitschek, 2000). O cenário foi construído baseado no quadro de Vitor Meireles, A primeira missa no Brasil. A cena em Brasília almejava recompor elementos do descobrimento do Brasil, como foram imaginados no século XIX.

 

Figura 3. Os Karajá na Primeira Missa de Brasília. Reportagem do Jornal Diário de Notícias (RJ) de 4 de maio de 1957. (Acervo digital da Biblioteca Nacional)

 

A obra de Vitor Meireles, na década de 1860, foi aclamada como a principal representação do surgimento do Brasil. Como ressalta Pacheco de Oliveira:

É a mais forte autorrepresentação do Brasil, inculcada pela escola e naturalizada por toda a população letrada. Nela, os índios, bastante estetizados, parecem fundir-se com a natureza, não sendo efetivamente protagonistas – mas apenas testemunhas – da história da nação e de seu próprio destino. (Pacheco de Oliveira, 2016:16)

Desse modo, os Karajá aparecem para a primeira missa de Brasília, adornados e pintados, reificando os ideais do século XIX (figura 3). Os Karajá são convidados para presenciar a implementação de um novo Brasil que se erguia sob o comando de Juscelino. O acontecimento, desse modo, reificava mais os estereótipos dos índios idealizados do que a sua verdadeira participação no ato histórico e na construção do país.

Os ditos “vazios demográficos”, como definiu Vargas, sempre estiveram na realidade ocupados, como o caso dos Karajá na Ilha do Bananal. Paradoxalmente, ao mesmo tempo que são negados, são também acionados para sustentar a ideologia do bandeirante, do conquistar e da nova conquista do Brasil. Desse modo, a primeira missa de Brasília reproduziu mais uma vez a imagem idilica do índio que assiste ao progresso e ao avanço do conquistador. Assistem, portanto, a promessa da modernidade, do futuro e da consolidação de um país civilizado e pujante.

Os objetivos de JK não se encerraram no grande ato simbólico na praça do Cruzeiro em Brasília. Seus interesses eram maiores e a necessidade de manter relações amigáveis com os Karajá revela outra maneira de ver e compreender a relação dos grupos indígenas nos processos de formação do Estado brasileiro. Juscelino, assim como Vargas, voltou seu interesse para a Ilha do Bananal e para tanto retomou o diálogo com os Karajá, mais precisamente com Watau.

Os planos para construção da nova capital seguiram e todos os esforços foram voltados para viabilizar uma infraestrutura indispensável para instalação de Brasília em uma região distante dos centros nacionais. Depois de ter avançado consideravelmente com as obras no planalto central – como as construções das rodovias Bélem-Brasília e Brasília-Acre em 1960 – Juscelino voltou seus esforços para a Ilha do Bananal e a região do Araguaia, que foram cobiçadas anteriormente por Getúlio Vargas. Kubitschek depositava a confiança de que seria um cenário promissor para concretizar o ato final de seu legado como presidente.

A Ilha do Bananal é doada à União, pelo governo de Goiás, em 1959, quando foi transformada em Parque Nacional, concretizando o primeiro passo para os planos que viriam a se desenvolver em Santa Isabel do Morro (Lima Filho, 2001). É no ano seguinte, em 1960, que Watau retoma sua posição de líder representante dos Karajá e se coloca diante das demandas da Fundação Brasil Central (FBC), como descreve Juscelino Kubitschek:

Acertadas as providências iniciais, já no dia 16 de maio o Coronel Nélio Cerqueira, acompanhado de um grupo de auxiliares meus, seguia, por via área, para o Posto Getúlio Vargas, órgão do Serviço de Proteção aos índios, localizado na margem oeste da ilha, banhada pelo braço norte do rio Araguaia. Esse grupo permaneceu dois dias no local, sempre em contato com o cacique Uataú [sic], a fim de não só fazer um levantamento dos cursos locais, mas examinar igualmente os diferentes problemas para que fossem imediatamente iniciadas as obras programadas. (Kubitschek, 2000:414)

Com apenas nove meses para finalizar o seu governo, Juscelino dá início a “operação bananal”. Seu plano era: construir um Hotel de Turismo; um cais para atracação de embarcações; e, uma pista de pouso para aviões de médio porte, com equipamento avançado o suficiente para auxiliar os voos em todo o Brasil-Central (Kubitschek, 2000:414).

Watau, como representante dos Karajá, é levado até Brasília junto com a equipe enviada para as primeiras avaliações do projeto na Ilha do Bananal. Como líder Karajá, notoriamente reconhecido, ele se encontra formalmente com Juscelino Kubitschek no Palácio do Planalto. O encontro foi amplamente noticiado na mídia brasileira da época (figura 4).

 


Figura 4. Notícia do encontro entre Juscelino Kubitschek e Watau em Brasília, publicada no jornal O Cruzeiro, em 4 de junho de 1960. (Memoriaviva, 2016)

 

Durante a reunião, Watau rememora seu encontro anterior com Getúlio Vargas, momento em que sua posição de capitão ganhou notoriedade. Durante o encontro com Juscelino, Watau exigiu, dentre outras reinvindicações, a construção de casas de alvenaria e um engenho para os Karajá (Lima Filho, 2001:98), em troca de sua autorização para o início da “Operação Bananal”. Seria pouco provável que qualquer acordo mais favorável proposto por Watau fosse acatado por Juscelino, tento em vista o plano monumental e o tempo exíguo que tinha para executá-lo, além do tom autoritário que atravessava as decisões e ações de Kubitschek.

Após a reunião de Watau e JK, as obras foram imediatamente iniciadas, como relata Lima Filho:

[…] Juscelino moveu-se para todos os lados. Convocou Oscar Niemayer, que projetou o Hotel Turismo, o hospital indígena e um prédio administrativo que se chamou Alvoradinha. Ainda foram construídas uma escola, uma pista asfaltada e uma base militar da FAB [Força Aérea Brasileira]. Índios, candangos, funcionários da FBC, sertanejos, militares e projetistas, todos unidos pelo ufanismo modernista de JK, no centro do Brasil […] (Lima Filho, 2001:101)

O objetivo maior era fazer da Ilha do Bananal o grande portal de entrada da Amazônia Brasileira. A Ilha seria o parque de caça e pesca, um ponto turístico que operaria como estrutura para o avanço da fronteira econômica. Nessa conjuntura, o plano de Juscelino passava pelos Karajá, a “operação Bananal” era o projeto de elo entre a civilização e os indígenas “atrasados”, um modelo para a integração dessas populações a uma estrutura moderna a qual se imaginava lançar o Brasil.

Com pouco tempo de iniciada as obras em Santa Isabel do Morro, outra comitiva presidencial, agora de Kubischek, era organizada para uma visita. No dia 27 de junho de 1960, acompanhado de sua esposa e filha e dos ministros da Aeronáutica, da Marinha e da Saúde, Kubischek pousa em Santa Isabel a fim de acompanhar as obras da “Operação Bananal” (Kubitschek, 2000).

Os Karajá de Santa Isabel do Morro receberam a comitiva presidencial tendo à frente três lideranças, Watau, Kuryala e Malua. Pela sua trajetória e as interlocuções já estabelecidas, era notável que, aos olhos de Juscelino, era Watau a liderança que mais se destacava, apesar de quaisquer disputas internas entre as unidades políticas da aldeia. Nas memórias de Kubitschek (2000) Watau é constantemente mencionado. Na ocasião da visita para o acompanhamento da operação bananal, o então presidente batizou Urumaru, filho de Watau, consagrando assim, segundo Kubitschek, a relação de compadrio entre os dois chefes (2000:419).

A essa altura a liderança de Watau, diante dos acontecimentos, já estava consolidada, fruto dos desdobramentos que se deram desde sua juventude em 1940 quando elegido toriwedu – chefe dos brancos – por Getúlio Vargas. Todavia, a despeito disso, Watau soube construir sua trajetória em Santa Isabel do Morro, pois ainda hoje seu legado de líder permanece na memória dos Karajá, notadamente os de Santa Isabel do Morro.

Não obstante, as relações dessa ordem, envolvem, inevitavelmente, conflitos entre grupos de interesse. Há relatos, como aponta Lima Filho (2001), de que as demais lideranças não eram a favor das construções planejadas por Juscelino e se opunham à permanência da Fundação Brasil Central, responsável técnica pelas obras. De todo modo a imposição autoritária do governo solapava qualquer obstáculo que pudesse contrapor seus planos, seja os Karajá ou a própria oposição política da época, a qual fazia duras críticas ao governo de Kubitschek. Nesse ritmo as obras foram conduzidas em Santa Isabel do Morro com uma velocidade fora do comum, como descreve Lima Filho:

De junho de 1960 a fins de janeiro de 1961, foram construídos uma padaria, uma lavanderia, o sistema de ar condicionado, água e energia elétrica, os serviços de frigorífico, uma residência oficial onde Juscelino se hospedava, a chamada Alvoradinha, um hospital com 16 leitos, uma escola primária indígena para 250 alunos e uma pista para aviões, asfaltada, com 1.500 metros de comprimento e 45 metros de largura (Lima Filho, 2001:103)

Apesar do ritmo apressado as obras não foram concluídas antes do fim do mandato de Kubitschek. Com a posse de Jânio Quadros, as obras da “Operação Bananal” foram investigadas, porém sem qualquer condenação (Lima Filho, 2001).  O Hotel só foi concluído em 1964, depois do golpe civil-militar, ano em que o Hotel foi arrendado para uma empresa que concluiu a obra e passou a gerir o estabelecimento (Lima Filho, 2001:104).

Nos anos que se seguiram os Karajá conviveram em Santa Isabel do Morro com a base da Força Aérea Brasileira, que só veio a ser desativada em 1992, e com o Hotel de turismo que recebia como hóspedes oficiais militares durante períodos de folga, como descreve Lima Filho (2001:105): “enquanto os Karajá só olhavam, os militares faziam do local refúgio de Brasília e pescavam soltando explosivos nos rios internos da Ilha do Bananal”.

O plano de Getúlio Vargas, que transformaria a Ilha do Bananal na base central para o avanço “Rumo ao Oeste”, foi em partes concretizado por Juscelino Kubischek. Suas ações renderam muitas intervenções na Ilha e mais precisamente em Santa Isabel do Morro. Apesar da ferocidade com que foi executado o projeto, as construções da operação bananal foram aos poucos sendo abandonadas e logo se tornaram ruínas entre as casas Karajá. O Hotel Turismo sucumbiu em chamas, segundo relatado por Lima Filho (2001:108), um jovem de Fontoura, outra grande aldeia Karajá da Ilha do Bananal, buscava mel próximo ao Hotel abandonado, quando acidentalmente ateou fogo na construção. Dos escombros de uma obra de Oscar Niermayer, que se pretendia marco monumental da modernização do sertão, permaneceram os Karajá. Retomando seu espaço, fundaram nas ruínas do antigo Hotel uma aldeia de nome JK.

 

Figura 5. Ruínas do Hotel JK à esquerda e uma casa Karajá à direita, ao fundo o rio Araguaia na Aldeia JK. Foto: Manuel Ferreira Lima Filho, Aldeia JK (TO), julho de 2014.

 

A continuidade da liderança de Watau

Watau ao longo de sua vida construiu uma significativa trajetória marcada por delicadas relações com a política desenvolvimentista brasileira, ao passo que em Santa Isabel do Morro ele se consolidou como uma importante liderança Karajá, conquistando seu espaço em meio as demais unidades políticas que compunham o quadro de lideranças da aldeia. Apesar das narrativas que contam a história de Watau como uma liderança fruto de um mero acaso autoritário de Vargas, não é menor o fato de que ele soube se articular a partir dessa posição, construindo uma ampla rede de relações que garantiu sua posição de fala e respeito entre os Karajá do médio Araguaia.

A posição de líder, entre os Karajá, normalmente era atrelada ao homem chefe de uma família, tendo em vista que a lógica de ocupação do território até o fim do século XIX era pautada em uma transitoriedade entre as praias que se formavam no período de seca e as terras mais altas durante os períodos de cheia do rio Araguaia. Esse tipo de organização em torno do líder da unidade familiar foi descrito por Krause (1940), que esteve em campo em 1909, quando os Karajá viviam em aldeias menores e fragmentadas ao longo do médio curso do rio Araguaia.

A partir de 1927, com a fundação do Posto Redempção do SPI, essa situação começa a mudar. As unidades políticas – famílias – passam a viver em um mesmo espaço para usufruir dos benefícios do posto. Essa foi uma das condições que provocaram novas alianças e conflitos entre grupos familiares Karajá. Dessa maneira, uma das narrativas controversas sobre a liderança de Watau, como foi assinalada, gira em torno da sua suposta transgressão das regras tradicionais de transmissão da liderança Karajá, que se deu ao se aproveitar da condição de líder imposta por Getúlio, tomando o lugar que era por direito de seu tio, Malua, o líder de uma das unidades políticas que fundaram a aldeia Santa Isabel do Morro.

Ao longo do século XX, desde a sua fundação, a aldeia Santa Isabel do Morro cresceu significativamente, se tornando junto com Fontoura, uma das duas principais aldeias Karajá, abrigando atualmente 704 pessoas (Nunes, 2016:109). Dessa maneira, as tensões políticas se acirraram, tornando os vínculos com os fundadores de Santa Isabel um importante capital político para o estabelecimento de jovens lideranças.

Na década de 1990 Lima Filho descreve Watau como importante líder de Santa Isabel, que se reservava apenas às práticas de cura e conselhos devido à sua idade avançada. Nesse período Lima Filho (2001:125) faz um mapeamento das unidades políticas em Santa Isabel do Morro e descreve que era maior o número de famílias ligadas politicamente à Watau, totalizando 8, ao passo que Maluaré e Arutana, outras lideranças importantes, contavam com 5 e 3 famílias, respectivamente.

Nas disputas mais atuais os descendentes de Watau formam um grupo articulado de lideranças que atuam ativamente em Santa Isabel, consolidando assim a unidade política do avô, como é descrito por Lima Filho ao indicar os principais grupos políticos da aldeia:

Em um dos grupos estão Iwyraru, Tuila, Wadehi e de certa forma Ijahuri, que são netos de Watau e tendem a continuar a influência política do avô. Tuila, o neto mais velho, foi tori wedu ou cacique durante a minha estada. Ijahuri chegou a se revelar politicamente nas cidades. Estudou desde jovem em Goiânia, participou da construção da UNI – União das Nações Indígenas – e foi candidato a deputado duas vezes. A sua ligação com o SIL (Summer Institute of Linguistics) o levou a visitar os Estados Unidos e a envolver-se com a ECO-92, realizada no Rio de Janeiro. (Lima Filho, 1994:125)

Idjahuri foi um dos filhos de Watau mais engajados nas lutas indígenas que se intensificaram a partir da década de 1970. Foi uma importante liderança que atuou junto com indígenas de outras etnias para reivindicar direitos dos povos indígenas na constituição de 1988. Sua atuação foi interrompida por problemas graves de saúde o que levou a seu falecimento precoce em 2004.

Iwyraru, neto de Watau, avançou na carreira política como vereador de Lagoa da Confusão (TO). Ganhou visibilidade também pelas participações em atuações cinematográficas. Foi Iwyraru quem fundou uma aldeia próximo à Santa Isabel do Morro a qual deu o nome de seu avô. A aldeia Watau continua, ainda hoje, sob a liderança de Iwyraru, que a fundou com o intuito de se distanciar de conflitos e situações problemáticas de Santa Isabel do Morro.

Watau faleceu em 2008 na aldeia Santa Isabel do Morro. Seu corpo passou pelos processos tradicionais do luto Karajá e foi enterrado no antigo cemitério demarcado em uma área adjacente à cidade de São Félix do Araguaia (MT). A cidade, como demonstrou as prospecções da arqueóloga Irmild Wust, foi erguida sobre uma antiga aldeia Karajá[3]. Tornando o enterro de Watau um importante ato político para os Karajá[4].

As reflexões sobre a trajetória de Watau nos convida a enxergar além das pretensões modernistas e ufanistas dos presidentes que “marcharam para o Oeste”, como nos reserva a versão presunçosa de uma “história oficial”. É “escovando essa história a contrapelo”, como nos convida Benjamin (2013:9), que podemos ampliar nosso horizonte para a multiplicidade de narrativas sobre a construção de um Brasil que sempre foi diverso, múltiplo e construído com a ativa participação das populações indígenas.

 

Documentos consultados

MEMORIAVIVA. De Cabral a JK: Bananal volta ao Brasil. Texto de Ubiratan de Lemos. Fotos de Indalécio Wanderley. Sessão O Cruzeiro online, reportagem de 1960. Disponível em: <http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro/04061960/040660_2.htm>. Acesso em: 21 fev. 2016.

SEMEAR, Sessão de Memória e Arquivo. MN. Antropologia/Etnologia. Classe s/n. Caixa 15 * Etnologia: pastas 121 a 170, procedência 31/08/2005.

 

Referências bibliográficas

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Notas

[1] Torí é o termo Karajá para os não indígenas.

[2] A língua Karajá é marcada pela diferença entre as falas masculina e feminina, por esse motivo o nome de Watau, na narrativa de Mahuèdèru, está grafado como Wataku, representando a maneira feminina de pronunciar o nome.

[3] Tratam-se de “utensílios de cerâmica coletados em prospecção feita pela arqueóloga Irmhild Wust, em 1996, na rua 2 em São Félix do Araguaia. O sítio está registrado no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos do IPHAN com o código MT-AR-003 e nomeado no sistema como: ‘Antigo Cemitério Karajá de São Félix do Araguaia’”. (Andrade, 2016:16)

[4] O local foi estudado,e o laudo apresentado por Manuel Lima Filho, o sítio arqueológico que comprova a ocupação está registrado no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos sob o código CNSA MT01333. Trata-se de um cemitério Karajá no extremo norte da cidade de São Félix do Araguaia, onde os Karajá de Santa Isabel do Morro, após 1990, voltaram a enterrar pessoas (Andrade, 2016:16).

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