biografia
EGIDIA TRAJANO DA SILVA
Autor(es): Hamangaí Marcos Melo Pataxó
Biografado: Hamangaí Marcos Melo Pataxó
Nascimento: 1921
Morte: 2019
Povo indígena: Kariri Sapuyá
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Kariri Sapuyá, Etnias, Pataxó
Tags:Bahia, Feminino, Kariri Sapuyá
EGIDIA TRAJANO DA SILVA: A PONTA DA LANÇA DA RECONQUISTA DO
T.I CARAMURU CATARINA PARAGUAÇU
Para muitos a nossa referência de socorro e auxílio nas horas enfermas, de pequeno a grande, sempre disposta a cuidar da saúde espiritual e física do próximo através da ciência indígena. Era grande sua fé e conhecimento na cura através das plantas e das rezas. Nunca me esqueço, quando ainda criança, vó Egídia dizia: “Minha fia, vá lá no terreiro e busque três raminhos, que é pra eu rezar você. Caminhe minha fia, e tira só três raminhos de cima”. Após buscar as plantas, vó Egídia rezava bem baixinho, uma reza que eu não entendia bem mas que sempre me curou quando criança, afastando o mau olhado de mim e todo desânimo e doença. E assim cresci , vendo vó Egídia em suas rezas, do acordar ao dormir, sempre com seu altar e fé em Deus, nas folhas e nos Encantos das matas .
Egídia Trajano da Silva, nasceu na Aldeia Pedra Branca, em Santa Terezinha-BA, pertencente ao povo Kariri Sapuyá, veio para Pau Brasil com 14 anos de idade. A trajetória do povo Kariri Sapuyá foi marcadas por ataques e violências. Primeiro contra a aldeia Pedra Branca, município de Santa Terezinha, antiga Tapera, onde nasceram os avós de Egídia. Em Santa Rosa, município de Jequié, nasceram seus pais, tios e muitos primos. Sua adolescência foi marcada por ataques contra a aldeia, por parte dos fazendeiros, que expulsaram todos, e também devido a uma epidemia causada pela água contaminada do Rio de Contas, quando muitas pessoas ficaram doentes. Na década de 1940, o antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI) trouxe os Kariri Sapuyápara a atual aldeia Caramuru, onde já tinha a Aldeia Bahetá. Quando Egídia tinha 20 anos, a nova aldeia onde estava, na Terra Indígana Caramuru Catarina Paraguaçu, foi atacada pelos fazendeiros e pistoleiros, que chegavam nas casas perguntando se eles queriam vender a terra, e que caso não fossem vender. Os fazendeiros ameaçavam dizendo a todos que iam ser espancados ou mortos, caso não obedecessem as ordens .
Em um certo dia, Antônio Trajano, pai de Egídia, estava arrancando feijão como forma de se precaver aos ataques. Foi quando chegou em sua casa um grupo de fazendeiros e pistoleiros a mando do Coronel Liberato, que deu ordem de expulsão a todos do território. Nesse dia, Egídia tinha ficado em casa e recebeu o recado que era para todos irem embora, caso contrário eles iam matar todo mundo. Foi nesse momento que Egídia conversou com seu pai, e eles resolveram que o melhor seria deixar tudo pra trás para não morrerem. Então, saíram com uma mão na frente e outra atrás, e foram pra uma localidade chmada Jaqueira, localizada no município de Nova Canaã. Lá, seu pai conseguiu uma terra que foi importante para se reerguer na vida. Na mesma época, Major Liberato também expulsou muitos outros familiares de Egídia, que foram obrigados a tentar a vida em outras cidades e estados.
O primeiro casamento de Egídia foi marcado por engano e desilusões, até que chegou ao fim. Após esse episódio Egídia retornou para a aldeia onde encontrou seu irmão Juvenal Trajano. Esse encontro foi marcado por uma estranheza, isso porque antes eles eram donos da terra, mas naquele momento tudo estava estava mudado, e seu irmão estava trabalhando para fazendeiro da região para sobreviver e não morrer de fome. Trabalhando para outros dentro da sua própria terra.
Em meio a tanto sofrimento, ela encontrou um homem que disse que iria ajudá-la. Era meu avô Diogo. Foi esse homem que ela se casou e foi morar no município de Pau- Brasil. Com ele teve seis filhos: Moreno, Maria, Gerson, Zenólia e Gajé. Infelizmente um já faleceu, e hoje tem 4 filhos vivos, Maria, Gajé, Zenólia e Moreno .
Quando a sede do SPI era no Mundo Novo, região da Ti Caramuru-Paraguaçu, Egídia, grávida de sete meses, morou com sua tia Candinha. Sem dinheiro, ela estava arrancando feijão quando sentiudeu as dores de parir. Teve seu filho de forma prematura, e em função desse nascimento, a família precisou voltar a morar em Pau Brasil. Esse filho, futuramente, daria muito orgulho a sua família e ao nosso povo Pataxó Hã-Hã-Hãe, sendo uma das lideranças mais expressivas do movimento indígena do Brasil. Um cacique muito respeitado por todos, eleito vereador por quatro mandatos, no município de Pau-Brasil, defendeu no legislativo a nossa luta e voz. Ele era Gerson de Souza Melo, que morreu de forma precoce, em 2021, vítima da pandemia de Covid-19.
Na cidade, ela terminou de ter seus filhos, sofrendo e sem saber o que fazer da vida. Seu esposo conseguiu um emprego para ela limpar o colégio da cidade. Depois de 8 anos trabalhando e sem receber salário, apareceu na prefeitura um grupo de antropólogos. Ele eles a professora Maria Hilda Paraíso. Procuraram por vó Egídia, e o prefeito da época, Gileno Virgínio de Jesus, não sabia que ela era indígena pois a mesma tinha medo de dizer que era indígena. Foram sete dias de intensas reuniões, onde Egídia contou toda a história daquela terra indígena e ajudou a localizar outros indígenas que estavam espalhados pela região.
Naquela mesma época, Antônio Carlos Magalhães era governador e deu uma festa para anunciar que tinha dado as terras indígenas para os fazendeiros. Ele deu título de terra para os fazendeiros que eram insaores da terra indígena. Em seguida, após esse acontecimento, Antônio Leú, cidadão de Pau Brasil, fez um bolo e comemorou a vitória dos fazendeiros, na frente do local de trabalho de Egídia, na tentativa de provocá-la e humilhá-la diante da notícia favorável aos fazendeiros. E foi a partir dessa comemoração que Egídia contou para seus filhos, ainda pequenos, toda a história do seu povo, e ela se virou para o Antônio e disse que um dia teríamos nossas terras de volta .
Egídia e Diogo ficaram mal vistos e impedidos de trabalhar na cidade como forma de perseguição e retaliação local de quem detinha o poder. A família passou muitas necessidades e quem ajudava eram seus vizinhos na cidade. A presença dos antropólogos aumentou com a perseguição contra sua família. Seu filho mais velho, Moreno, vendo o sofrimento de sua mãe e irmãos, chamou Egídia e Diogo para morarem em Anuri, e por uns dois anos por lá moraram.
Em 1979, uma pessoa recebeu uma carta de antropólogos falando que era pra Egídia retornar para a aldeia, e que ficasse calma que a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas, à época Fundação Nacional do Índio) estava acompanhando tudo. Em 1982, a polícia federal chegou vindo de Minas Gerais com a família de Nelso Saracura, também do povo Kariri-Sapuyá, primo de Egídia. Em Pau Brasil, a polícia federal avisou a Egídia que os seus parentes estavam de volta e que era pra ela ajeitar as suas coisas para que retornasse para aldeia, também. Ela ajeitou suas coisas e voltou pro Caramuru. Todo mundo ficou muito feliz ao poder retornar ao seu território.
Mesmo após essa reconquista simbólica, as lutas continuaram e muitos parentes morreram, e depois que a Funai fez a desestruturação dos fazendeiros do território, pedindo a anulação dos títulos da terra, o povo continuou sendo ainda mais humilhado e vítimas de violências, perseguições e criminalização de suas lideranças. A partir daí que as idas pra Brasília aumentaram e o povo Pataxó HãHãHãe começou a se defender. Após a morte de Galdino, queimado vivo em Brasília, em 1997, a luta foi ainda mais pesada e as crianças já cresciam revoltadas testemunhando a violência dos fazendeiros contra o povo indígena.
Diante das injustiças, criminalização, ameaças e mortes, o povo Pataxó Hã-Hã-Hãe nunca perdeu as esperanças. Mesmo hoje com o território demarcado, as duras memórias se fazem presentes em quem sempre lutou por este território, convivendo com os traumas e angústias de uma luta, que nem todos puderam alcançar a vitória. O julgamento que anulou os títulos de terras concedidos ilegalmente aos fazendeiros invasores, ocorreu em 04 de maio, de 2012. Com esse julgamento e com as luta do povo através das retomadas de terras, o povo reconquistou seu território.
Hoje, o território, de 54.105 hectares, possui espaço para plantações e criação de animais, um Colégio Estadual, temos saúde indígena (Sesai), que mesmo sofrendo com as fragilidades ainda nos serve muito. E tudo isso só foi possível porque assim como Egídia não desistiu, tantos outros lutaram por essas conquistas significativas para nosso povo. Hoje temos, médicos, advogados, professores, e até o primeiro indígena doutor em Etnobotânica, do mundo.
Em casa e com sua família, Egídia sempre tratava bem a todos, especialmente seus netos. A comunidade a respeitava, pois sempre dava a benção aos mais novos do território, que de forma respeitosa todos a pediam. Antes das retomadas, os caciques e lideranças iam falar com ela e pedir para ela rezar por todos, pedindo para os Encantos das matas para proteger a todos. Devota de São Sebastião, ela e o senhor seu Terto e demais anciãos da comunidade, escolheram esse Santo como o padroeiro do povo Pataxó Hãhãhãe. Vó Egídia adorava festas e tohé, ela explicava e ensinava a tradição ao nosso povo, e o samba de couro que ela gostava de dançar quando mais nova.
Encantou-se com 98 anos de idade, no dia 27 de dezembro de 2019. Inspirou diversas mulheres a terem coragem e lutarem pelo o que acreditam, a serem independentes e acima de tudo não perder a fé em Deus. Egídia sofreu mas nunca desistiu da luta, ela nunca disse que ia embora de Pau Brasil por medo, e sempre pediu a Deus para poder retornar ao território.
“Uma mulher sábia, sabia muita reza e oração, quando o povo ia pra retomada ela orava e rezava pelos filhos e netos que estavam na luta, uma mulher que se tinha uma pessoa com dor ela sabia qual remédio do mato dar, foi parteira e sempre manteve a fé em Deus” (Maria de Souza Melo).
Em memória a Egídia, jamais podemos esquecer da luta e resistência em defender o seu povo, pois mesmo diante das lutas e dificuldades, ela se manteve resiliente fumando seu cachimbo. Andava com seus netos e filhos e sempre aconselhava a todos, não só a sua família, demonstrando em vida que a coragem é ponto crucial para defender nossos direitos.
Escrevo esta biografia ouvindo minha tia Maria em lágrimas, e o silêncio respeitoso do meu pai Gajé. Na certeza que Egídia estará sempre conosco, em nossos corações e memórias.
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