biografia

Esmeralda (Dona Mera)

Autor(es): Aline Pataxó
Nascimento: 1952
Povo indígena: Pataxó
Estado: Bahia
Categorias:Estado, Bahia, Biografia, Etnias, Pataxó
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Esmeralda Braz dos Santos

Anciã

Idade: 62 anos (1952)

Nascida em Camacan – Bahia

Casada, mãe de 10 filhos (7 vivos), 28 netos e 4 bisnetos.

 

A senhora Esmeralda, mais conhecida como Dona Mera, participou diretamente da primeira retomada das terras indígenas e, desde então, é moradora da comunidade de Aldeia Velha. Casada há mais de 40 anos com o Senhor Julito Costa Nascimento, os dois constituíram uma grande família, tiveram dez filhos. Três faleceram. Segundo dona Esmeralda, “eram dois meninos e uma menina, morreram crianças”. A menina faleceu com 5 anos de derrame, um dos meninos estava recém-nascido, de mal de sete dias e o outro aos 2 anos. Apesar das perdas, dona Mera e seu esposo superaram juntos, e atualmente são avós de vinte oito netos e bisavós de quatro bisnetos. A anciã declara ser um motivo de muita alegria, pois sua família cresceu, mesmo em meio a dor e sofrimento de ter perdido alguns dos seus filhos.

Em sua entrevista, Dona Mera relata com detalhes o que ocorreu durante à retomada da Aldeia Velha. Primeiramente, foi convidada pelo cacique Ipê na época, para participar da retomada da terra. A partir daí as lutas estavam apenas começando. Reuniram-se então, todas as famílias envolvidas, conseguiram entrar na área, através do Rio Buranhém que fica na divisa com a parte baixa da aldeia. Os indígenas buscaram o apoio da FUNAI (Fundação Nacional do Índio), Polícia Federal, antropólogos e os demais órgãos que apoiavam na época a questão indígena. As famílias permaneceram alguns meses nesta parte da aldeia, que ainda era denominada como “Fazenda Santo Amaro”. Depois, se deslocaram mais adentro e foram para o local onde hoje é denominado como “Reserva de Preservação Ambiental”.

Na época em que estavam na reserva, eram poucas famílias que conviviam no local. Viviam em harmonia uns para com os outros; todos unidos em um só proposito que era a demarcação da terra. Na entrevista, Dona Mera ainda cita os nomes de algumas mulheres que também participaram da retomada, dentre elas, estavam “Nair, Cotinha, dona Maria Nobre, dona Francisca”. Porém, havia mais mulheres, “onde viviam todos juntos, em uma só união”.

Dona Esmeralda enfatiza ter passado por muitas dificuldades em sua infância, dentre elas, a moradia: “fui uma criança criada no tempo, não tinha casa”. Sua moradia era dentro da mata, onde vivia com sua família. Tinham medo da convivência com os não indígenas. A alimentação não era como hoje em dia, “não tomava café de manhã cedo, nem almoçava meio dia”, se alimentavam apenas de frutas, chamadas jatobá e oiti. Nessa época, utilizavam as “folhas ou cuinhas (artesanato de cabaça)”, como pratos para sua alimentação. Esmeralda afirma ter sido criada na relva e que, com o passar do tempo, o seu pai fez uma choupana, que ela explica ser uma casa aberta, feita de pau, onde dormiam em cima, faziam como se fosse uma cama, chamado “sote” e não havia cobertura, era no sereno.

Dona Mera é uma anciã que tem grandes conhecimentos de ervas medicinais para o tratamento de doenças. Os conhecimentos da anciã foram adquiridos desde a sua infância. Dona Mera afirma ter aprendido com sua mãe, que dominava esses saberes e foram passados de geração a geração. Dona Esmeralda ressalta a importância que as crianças de antigamente davam aos conhecimentos dos mais velhos, principalmente referentes à medicina tradicional. Quando sua mãe falava “que tal erva era boa pra tal doença, ali ela guardava na mente” e foi assim que se deu o conhecimento adquirido. Aprendeu a “fazer garrafada”, que é um remédio feito com várias ervas medicinais, dentro de uma garrafa. Produz-se um xarope para vários tipos de doenças crônicas e respiratórias “bronquites, tosses”. Na opinião de dona Esmeralda, a doença que é mais difícil de ser curada é o câncer, mas se for tratado no início, pode ser combatido, com o uso do “cansanção branco” fazendo o tratamento regular com ervas.

Dona Esmeralda relata, com tristeza, o fato de, na aldeia, as pessoas não terem os conhecimentos das ervas para serem utilizadas como remédio natural e acabam cortando essas plantas junto com outros matos por não saberem distinguir a diferença entre as ervas medicinais e as plantas comuns. Enfatiza que em cada quintal da aldeia há uma rica diversidade de ervas, que deve ser preservar. Em detalhes, cita algumas, “Maria Preta, cansanção branco, embaúba, papaconha” que podem ser usados no tratamento de doenças crônicas e demais doenças.

Dona Mera declara ter viajado poucas vezes, para longe, mas relembra de ter feito uma viagem para Belo Horizonte para participar de um evento “encontro das aldeias, ficamos quase quinze dias”. Ela e alguns indígenas foram representar Aldeia Velha. Apesar de ter viajado pouco, devido à ida de estar avançada, a anciã declara que, sempre participou dos movimentos culturais, em busca de melhorias para sua aldeia.

Em entrevista, a anciã menciona que hoje vive melhor em sua comunidade, “pois para estar do jeito que a aldeia está hoje, foi muita luta”. Dona Mera ressalta que, antes de vir morar na aldeia, ela “vivia em um lugar acidentado (declinado)”, e depois que vieram para a aldeia, melhorou bastante a situação. Além do mais, tem fácil acesso ao Distrito, para as suas necessidades, “por ser próximo da aldeia, e isso ajuda bastante, para nós indígenas”, afirma Dona Esmeralda.

Na sua aldeia a Dona Mera é procurada até mesmo pelos não indígenas, devido a sua sabedoria em fazer “garrafadas” para tratamentos de doenças. Além de ter a Pajé Jaçanã como referência relacionada a esse assunto, a Dona Mera também é bastante conhecida pelos seus conhecimentos medicinais.

 

 

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