biografia

Cacica Dorinha

Autor(es): Edivania Granja da Silva Oliveira
Categorias:Biografia, Etnias, Pankará, Estado, Pernambuco
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Cacica Dorinha, povo indígena Pankará, Serra do Arapuá, Bacia do São Francisco, Carnaubeira da Penha/PE

 

Esse texto é um breve ensaio biográfico sobre a indígena Maria das Dores dos Santos, e Cacica Pankará. As razões da escolha do relato biográfico foi com o o objetivo de destacar a história de vida da Cacica Dorinha, a sua atuação e relacionar com o importante processo de mobilização desde a década de 1940 para afirmação da presença indígena na Serra do Arapuá/Cacaria, com destaque para seu avô, o índio Pedro Limeira, morador na Serra Cacaria. Como também o seu pai, o Pajé Pankará, Pedro Limeira, uma importante liderança e referência na ritualística Pankará.
Os indígenas Pankará se autodeclararam um dos “Povos Resistentes” com denominação Pankará e afirmara a identidade em 2003, durante o I Encontro Nacional dos Povos Indígenas em Luta pelo Reconhecimento Étnico e Territorial, realizado na Cidade de Olinda/PE. Portanto, a Cacica Dorinha Pankará é uma das principais lideranças do seu povo, os indígenas Pankará, habitantes na Serra do Arapuá, área de um brejo de altitude, no município de Carnaubeira da Penha. Região nomeada na literatura especializada como localizada no Semiárido nordestino, em meios ao Bioma Caatinga, no Sertão pernambucano, fazendo parte da Mesorregião São Francisco e da Microrregião Itaparica (MASCARENHAS, 2005).
Os denominados brejos de altitudes do Semiárido do Nordeste são espaços de habitação de grupos humanos há centenas de anos, como é o caso da Serra do Arapuá, território do povo Pankará. Registros desde o início do processo da colonização portuguesa na região citam a sua ocupação por indígenas e também por grupos quilombolas, espaço de refúgio e moradia desses grupos (SILVA, 1999).
Essa região é também conhecida como Sertão do estado de Pernambuco, onde ocorreu um intenso processo de ocupação colonial que teve como principal empreendimento a atividade da pecuária, palco de conflitos intensos com as diversas populações indígenas habitantes nessa região, principalmente a área de abrangência do Rio São Francisco. E para facilitar a ocupação da região pelos colonos e com o objetivo de cristianizar os índios, foram instaladas várias missões religiosas, resultando em significativo quantitativo de aldeamentos que existiram na região. E atualmente essa área abriga a maior parte dos povos indígenas em Pernambuco.
Os Pankará na Serra do Arapuá possuem sua organização sociopolítica e territorial, representadas por lideranças, pelos pajés João Miguel, Manoelzinho Caxeado e Pedro Limeira e pela “Cacica” Dorinha. A população indígena Pankará foi estimada em 5.000 pessoas, distribuídas em 53 aldeias. Localização privilegiada – um brejo de altitude – o território Pankará está localizado no município de Carnaubeira da Penha/PE, classificado como de pequeno porte, com população total contabilizada em cerca de 12.000 habitantes, dos quais quase 10.000 habitantes são das etnias Atikum e Pankará, habitando as serras Umã e do Arapuá (MENDONÇA, 2013). São dados numéricos bastantes significativos para pensar a importância da presença indígena naquela região.
A política de colonização no Nordeste brasileiro gerou como consequência para os povos indígenas um processo que pôs em xeque sinais diacríticos que os diferenciam da população não-indígena, se comparados aos grupos étnicos habitantes de outras regiões do país, a exemplo da Amazônia (OLIVEIRA, 2004). Entretanto, os grupos indígenas no Nordeste vivenciaram um longo processo de resistência, resultando em movimentos de emergências étnicas e reconstrução de suas identidades. Contemporaneamente, o processo histórico sociocultural vivenciado pelos povos indígenas no Sertão pernambucano, ocorre no sentido da afirmação de suas identidades étnicas, envolvendo questões de autorreconhecimento e autoafirmação enquanto grupos indígenas, como o reconhecimento e identificação frente à sociedade brasileira, além das mobilizações pelas reivindicações e garantias de territórios, do Ambiente e expressões socioculturais, aspectos fundamentais para afirmação étnica dos povos indígenas, como é o caso do povo Pankará.
Destaca-se que desde a década de 1940, os Atikum habitantes na Serra do Umã, próxima a Serra do Arapuá, foram reconhecidos como indígenas e receberam assistência do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) com a instalação de um Posto Indígena. Nesse período também foi significativo o processo de enfrentamentos dos índios na Serra do Arapuá com os “posseiros” para realização de rituais, como o Toré, práticas proibidas pelos fazendeiros (MENDONÇA, 2013).
Entre o final da década de 1940 a década de 1960, o indígena que habitavam a Serra da Cacaria, Luiz Limeira (falecido), pai do atual Pajé Pankará, Pedro Limeira e avô paterno da Cacica Dorinha, foi uma importante liderança na busca por direitos através de viagens/circuitos de trocas rituais e sociopolíticas com os indígenas Tuxá, habitantes nas margens direita do Rio São Francisco e viagens a sede da Inspetoria Regional do SPI em Recife para reivindicar direitos, inclusive o atendimento para os indígenas na Serra do Arapuá pelo Posto Indígena Atikum, localizado na Serra Umã. Nesse processo de mobilização de lideranças indígenas habitantes na Serra do Arapuá, Luiz Limeira (Luiz Antônio dos Santos) destacou-se pela participação ativa. Embora na documentação pesquisada conste poucos nomes destacados de outras lideranças indígenas, mas em todo no acervo documental Luiz Limeira é o autor ou encontra-se em companhia de outras lideranças. A documentação refere-se a cartas/telegramas constando solicitações, denúncias e petições endereçadas ao SPI, como também a produção de documentos pelo SPI a partir das reivindicações dos indígenas na Serra do Arapuá.
As afirmações acima ficam evidentes, quando consultados ofícios expedidos pela Chefia da 4ª Inspetoria Regional do SPI em Recife assinados por Raimundo Dantas Carneiro, de maio de 1958, endereçado ao Chefe do Posto Indígena Atikum/Serra Umã. É descrito pelo remetente que recebeu na Sede da Inspetoria da 4ª Regional, a visita dos indígenas Pedro Limeira e Manuel Cirilo de Souza, que foram denunciar ameaças de invasão de suas terras. No futuro as terras indígenas da Serra do Arapuá serão incorporadas a jurisdição do referido Posto, recomendando que sejam consideradas áreas sob proteção do SPI e delegando ao Chefe do Posto Atikum que fossem tomadas as providências a fim de coibir tais ameaças “por parte dos civilizados ambiciosos” . Outro ofício é datado de agosto de 1960, endereçado a José Bastos, Comissário de Polícia de Carnaubeira, novamente destacou que recebeu a visita na Sede da Inspetoria, o índio Luiz Limeira acompanhado de outros indígenas (não cita os nomes), com a solicitação para utilizar as fontes de água comuns existentes na Serra e que os indígenas denunciaram “que a senhora D. Clarinha impede que os ditos índios utilizem”. O ofício conclui: “Tratando-se do mais necessário liquido, para a vida do homem e de tudo que existe sobre a terra, esperamos a vossa boa vontade, no sentido de resolver o assunto, satisfazendo a todos”
O Pajé Pankará, Pedro Limeira, pai da Cacica Dorinha, afirma a presença indígena na Serra e a garantia às terras por meio dos aspectos naturais, simbólicos e de artefatos arqueológicos, “O meu avô não quis fazer documento. Disse que o documento sou eu! É o cachimbo, o apito, tem muitos achados. A nossa área é separada pelas pedras, é a nossa demarcação” (OLIVEIRA, 2014, p. 68). A esse respeito foi destacado que na porção Sul da Serra do Arapuá existem “afloramentos de material arqueológico, principalmente material cerâmico. Estes afloramentos cerâmicos são tão comuns que, batizaram esta porção da Serra do Arapuá, como Serra da Cacaria” (SILVA, 1999, p. 239).
Também foi afirmado a presença indígena na Serra da Arapuá/Cacaria pelo antropólogo norte-americano William Hohenthal, quando em 1952 , encontrava-se no povo Tuxá em Rodelas (BA), sendo informado sobre índios que habitavam a Serra Cacaria. Resolveu visitar o local, escreveu e enviou telegrama ao SPI informando existirem 31 famílias da “tribo Pacará ou Pacarais que […] vivem esparramados em duas serras, da Cacaria e do Arapuá. Não há posto indígena e os índios são muito perseguido pelos neo-brasileiros do Riacho do Navio (“naveiros”) e da cidade de Floresta” (MENDONÇA e SANTOS, 2013, p. 77).
O antropólogo denunciou os perseguidores como membros da família Leite de Floresta e ainda citou os nomes dos pistoleiros contratados pela citada família para praticarem violências contra os índios “Pacará”. Nomeando ainda os índios dispostos a testemunhar contra as agressões sofridas, sendo o primeiro listado, o Sr. Luiz Antonio dos Santos e sua esposa (Luiza), membros da família Amanso e da família Rosa. Destacou que o índio mais perseguido era Luiz Antonio dos Santos (Luiz Limeira), pai do atual Pajé Pankará, Pedro Limeira e da Cacica Dorinha (MENDONÇA. 2013).
Relatou também o pesquisador ter conhecimento que em 1951, a polícia de Floresta a serviço da família Leite, expulsou a família de Luiz Limeira, derrubando sua casa, deixando sem abrigo e sem comida toda família do indígena, tomando posse de “sítios, bens, árvores frutíferas, e até confiscaram sua colheita […] e também 300 cuias de farinha de mandioca”. Mostrou bastante indignação com a informação recebida de que a família Leite não possuía título legal da terra, mas o poder político e fez o seguinte questionamento, “na falta de títulos de posse, deve ser o homem que ocupa, derruba e queima o mato, e que lavra”? Pois para o pesquisador devia ser os ocupantes da terra os índios que sempre fizeram tais serviços (MENDONÇA e SANTOS, 2013, p. 78-79).
A Cacica Dorinha afirmou,
Tenho conhecimento que meu avô juntamente com os Rosa, os Caxeado, os Amancio, especialmente meu avô sempre lutava pelo reconhecimento e ai se juntou ao povo Atikum na época. Alguns atikum já morreram e eles começaram a andar junto ao SPI e meu avô levava vários documentos tentando reconhecer, se reconhecer como índios, não assim dizer que era para ser índio a partir daquele momento , ele já nasceu índio, já tinha história que veio lá dos Tuxás de Rodelas, dos Pipipãs, da Serra Negra, do Povo Truká, de Cabrobó e ele queria ser reconhecido assim como os outros povos, a exemplo Xukuku e Pankararu na época, mas não conseguiu, ele sempre foi perseguido, levava carta pro SPI, o SPI sempre negava seu direito, meu avó foi muito perseguido na época, queimaram, chegaram a queimar a casa dele, todas as coisas que ele tirou da roça, farinha, feijão, milho, ai cada vez que ele ia na SPI quando ele retornava já tinha um grupo de não-índio já para botar ele para correr do lugar onde ele morava, por isso ele morou em vários lugares na Serra do Arapuá .

Para compreender as memórias descritas pela Cacica Dorinha faz-se necessário compreender que o processo de resistência e afirmação dos indígenas na Serra do Arapuá/Cacaria diante das agências governamentais para a efetivação de seus direitos, especialmente o Território, as expressões socioculturais, Saúde e Educação diferenciadas são ainda prementes.
A Cacica Dorinha reafirmou o processo de mobilização, as perseguições vivenciadas pelo seu avô e as viagens realizadas,
Ele era meeiro como hoje. Ele trabalhava pra um senhor lá do sertão de nome Manoel Novaes, arrancando caruá para fazer corda para alimentar os filhos. Seus filhos foram crescendo e seguindo o mesmo ritmo, trabalhando. Quando foi em 1970 ele foi embora, meu avô foi embora; Aí ficou meu pai e alguns dos irmãos. Depois meus tios também foram embora não aguentaram a perseguição, continuou a perseguição. Meu pai continuou no mesmo ritmo do meu avô e perseguido também, sempre dançando o ritual nos terreiros que meu avô deixou, que hoje nós temos ainda lá .

As décadas de 1970 a 1990 foram marcantes para o Povo Pankará pela intensificação de conflitos na Serra do Arapuá, quando ocorreu o “banimento” de uma das lideranças mais atuantes, Luiz Limeira, no processo de mobilizações dos indígenas por seus direitos. Ocorreu ainda a ruptura com os índios Atikum, devido a proibição do povo da Serra do Arapuá de usufruir de assistência do Posto Indígena Atikum. E na década de 2000 iniciou um novo processo de emergência étnica dos indígenas da Serra do Arapuá. Neste período a Cacica Dorinha era uma importante liderança na busca de direitos e garantias para o seu povo. Por isso, vale contar um pouco sobre a história de vida desta importante liderança Pankará.
A Cacica Dorinha nasceu em junho de 1964, na Serra da Cacaria, sendo neta de Luiz Limeira e filha do Pajé Pedro Limeira. Sua mãe Emília Olindina dos Santos, conhecida como Dona Emília e em companhia também de seus onze irmãos, viveu a a infância e adolescência na Aldeia Cacaria. Salienta-se que Dorinha afirmou que “sempre vive sob a orientação e no acompanhamento dos rituais praticados pela minha família, sempre estive em contato com as tradições religiosas indígenas”. Afirmando também que a família sempre sobreviveu da prática agrícola e do artesanato produzido pelos seus pais. Estudou as séries iniciais na Aldeia, mas destacou que teve poucas oportunidades de estudos, pois precisou ajudar nos afazeres domésticos, na criação e educação dos irmãos mais novos e na agricultura. E também, mesmo sem a conclusão do atual Ensino Médio exerceu por alguns anos a função de professora na escola na Aldeia com uma irmã. E aos 23 anos de idade casou com Heraldo Adalberto da Silva e tiveram quatro filhos: Angelina, Marcondes, Mauricélio e Lidiane.
Com a necessidade de oferecer melhores condições de vida para os filhos e maiores oportunidade para a educação, optou por sair da aldeia e residir na cidade. Morou um tempo na casa do sogro. E logo ao chegar priorizou a educação da família, matriculou os filhos, o esposo e resolveu também continuar seus estudos. Para sobrevivência passou a prestar serviços domésticos na casa de uma vizinha e o esposo trabalhava como pedreiro, a fim de manter os cuidados básicos de filhos. Dorinha, após concluir o atual Ensino Médio, cursou Auxiliar de Enfermagem e passou a estagiar voluntariamente na Clínica de Saúde Santa Isabel na cidade de Floresta. Após a conclusão do curso começou a exercer a função de remunerada nesta instituição de saúde. Também prestou concurso público no município e até hoje é funcionária pública no Hospital Municipal de Petrolândia.
Sobre a sua participação de forma mais efetiva no processo de mobilização dos Pankará, afirmou Dorinha:
Em 1998, entrei na luta, em defesa do meu povo. A partir de então, eu junto com as lideranças de meu povo alcançamos muitas conquista após enfretamentos de vários desafios. Considero como um dos maiores desafios enfrentados na minha caminhada enquanto líder do meu povo foi a luta pelo reconhecimento do povo, logo em seguida a conquista pela saúde e por uma Educação específica que atendesse as necessidades do meu povo. Atualmente um dos maiores desafios ainda é a demarcação do território, ainda em processo de delimitação. Considero como as maiores dificuldades na minha atuação como líder do povo o enfrentamento das constantes ameaças, perseguição e descriminação por parte dos políticos e posseiros que habitam o território da Serra do Arapuá. Mesmo assim, seguirei firme em defesa dos direitos do meu povo .

Participou de forma efetiva do processo da autodenominação dos indígenas. E destacou que,
[…], a gente participou do primeiro encontro que era pelo reconhecimento étnico dos povos indígenas do Brasil, foi lá no Recife [Olinda/PE], fui eu, meu pai, Manoel Caxeado, foi em janeiro de 2003. E lá, até então nós não tinha nome, era índios que participava do ritual, vivia da caça, ai agente foi para esse encontro

A definição do nome Pankará ocorreu a partir de um sonho. Nesse sentido, os sonhos fazem parte do universo mítico-religioso dos indígenas, compondo “uma relação intrínseca entre sonho e plano sobrenatural é conhecida para outras culturas indígenas” (REESINK, 2002, p. 80). Como afirmou a Cacica Dorinha:
não tinha nome, eram índios da Serra do Arapuá, só que antes de viajar eu tive um sonho […] sonhei andando nas serras, de uma serra para outra, lá da Serra do Arapuá para a Serra da Cacaria, passando ali no Boqueirão, naquela região, lá eu via um jardim cheio de flores, muitas flores, brancas todas as flores, no meio das flores tinham várias borboletas e várias palavras voando e eu vendo voando, e eu vendo e no meio no centro do jardim tinha a palavra Pankará, ai eu me acordei, eu acho que era Pakará, mas eu vi Pankará. Aí quando eu cheguei em Recife precisava se identificar, dizer o nome, eu pensava que era eu dizer meu nome, papai o dele […]. Mas era para dizer o nome do povo, lembrei do sonho, isso me deu uma dor muito forte, uma dor aqui no peito, na hora que eu lembrei o nome eu senti […]. Quando a gente apresentou o ritual, tinha uma pessoa de Brasília que disse, gente esse povo existe há muito anos, tá aqui o nome deles, Pacará, era Pacará da Serra do Arapuá e era com C, mas eu ouvi Pankará, ai ficou esse nome […] .

A partir do conhecimento do seu pai, Pedro Limeira, a Cacica Dorinha, esclareceu ainda o significado do nome Pankará,
Pankará é Panka, é de Pakaia que é o fumo, o ara é mangará da bananeira, meu pai dizia faz a junção e forma a palavra Pankará. Então, a partir daí a gente começou a se organizar até então a gente não tinha, só cantava o ritual, era índio, começa a se organizar, formamos um conselho tribal que é de 12 pessoas, ai fui escolhida cacique, eu fui apresentada pela natureza, foi no ritual, depois fui apresentada ao povo, foi no dia 29 de junho de 2003, teve um ritual lá e me apresentaram […] .

A entrevista da Cacique remeter a uma compreensão da identidade étnica a partir do processo de mobilização política, sendo marcante a anunciação para o reconhecimento em evento com outros grupos indígenas e agentes externos, representantes de instâncias governamentais e acadêmicas, “a gente apresentou o ritual, tinha uma pessoa de Brasília”, respaldou a existência no passado dos “Pacará, com C”. Resultando também na necessidade de uma organização política com a criação do “conselho tribal”, a escolha de Cacique e do reconhecimento dos Pajés Pankará, prática utilizada por quase todos os atuais grupos indígenas no Nordeste. Vale salientar que antes esses cargos eram indicados ou necessitavam de confirmação dos chefes dos Postos Indígenas.
Assim, apreende-se também a ritualística do Toré componente de “sinais diacríticos de uma indianidade” (OLIVEIRA, 2004, p. 28), pois a Cacique em ritual foi escolhida pela “Natureza” para depois ser apresentada para o Povo Pankará. Vale destacar que a “Natureza” aqui é no sentido cosmológico. Nesse sentido, a ritualística do Toré pode ser compreendida como processo de mediação sociocultural por meio da linguagem religiosa como “tradução”, pois os aspectos religiosos são usados como mediação com a sociedade nos atuais movimentos indígenas no Nordeste (POMPA, 2003, p. 161).
A Cacique ainda relatou que,
Hoje além de Cacique, sou Presidente do Conselho local de saúde e represento meu povo, no seguimento de usuário no Conselho Distrital de Saúde de Pernambuco, sou membro da Comissão e Organização de Professores Indígenas de Pernambuco (COPIPE), sou membro do Conselho Estadual de Educação Indígena de Pernambuco, como também represento as Mulheres Indígenas na Secretaria de Mulheres de Pernambuco via Apoime. Sinto orgulho de representar meu povo e contribuir na luta junto aos demais povos indígenas do Brasil, sinto que carrego esta luta como uma Missão de Vida .

A presença indígena na Serra do Arapuá foi compreendida a partir das memórias Pankará, as quais revelaram que o mesmo padrão de poder e perseguições operado pelos “posseiros”, os não-índios até os dias atuais, conforme relatos e documentos apresentados. Assim, os documentos em destaque e as memórias da Cacica Dorinha Pankará remontam a um tempo difícil de perseguições e interdições. A Serra do Arapuá, área de brejo de altitude, considerado “oásis” no Sertão Pernambucano, um sistema ambiental com abundância de água em meio a uma região de secas periódicas, historicamente é objeto de disputas.
Nesse sentido, a “Cacica” Dorinha afirmou que o processo de ocupação da Serra do Arapuá estabeleceu também famílias de “colonos” que estavam/estão a serviço da elite agrária. Esses “colonos” eram o braço armado que operava os atos de violência contra os indígenas na Serra. Essas famílias permanecem até os dias atuais agindo com os mesmos fins políticos para interditar a organização indígena. Todavia, com outra característica, a de se apropriar da identidade indígena e ocupar o lugar dos Pankará na gestão do seu território e na condução do projeto de futuro do povo. Ou seja, trata-se de uma nova estratégia de ocupação do território através da apropriação da identidade Pankará (2014).
Contrariando a previsão de Darcy Ribeiro a partir de pesquisas realizadas na década de 1950 sobre os índios no Nordeste que, “viviam os seus últimos dias os remanescentes dos índios não litorâneos do Nordeste que alcançaram o século XX” (RIBEIRO, 1984, P. 56), os índios da Serra do Arapuá em suas mobilizações para o reconhecimento étnico se autodeclararam povo Pankará, autodenominando “Povo Resistente”. Podemos ainda, denomina-los “Povo Resiliente” (BRAGA JÚNIOR, 2011), no sentido de interpretar suas estratégias de resistência em meio ao contexto histórico de conflitos fundiários e socioculturais que enfrentaram/enfrentam na afirmação étnica Pankará.

 

Referências

BRAGA JÚNIOR, Amaro Xavier. Mamulengo, Frevo e Acorda Povo: Resiliência de Cultura Afro-brasileira na Cultura Popular. Recife, UNICAP – V Colóquio de História: Perspectivas Históricas, Historiografia, Pesquisa e Patrimônio: 16, 17, 18 de novembro de 2011. Disponível em: http://www.unicap.br/coloquiodehistoria/wp-content/uploads/2013/11/5Col-p.315-330.pdf. Acessado em 22/09/2014.
MASCARENHAS, João de Castro et all (Org.). Projeto cadastro de fontes de abastecimento por água subterrânea. Diagnóstico do município de Carnaubeira da Penha, Estado de Pernambuco. Recife: CPRM/PRODEEM, 2005.
MENDONÇA. Caroline Farias Leal. Insurgência política e desobediência epistêmica: movimento descolonial de indígenas e quilombolas na Serra do Arapuá. Recife, UFPE, 2013 (Tese Doutorado em Antropologia).
MENDONÇA, Caroline Leal e SANTOS, Carlos Fernando dos. Projeto Cultural – Pacará Pacarati: memória e saberes do nosso povo. Oficina: Patrimônio Histórico técnicas e metodologias na pesquisa documental acerca da História Indígena em Pernambuco. Fontes primárias – Anexo. In: MENDONÇA, Caroline Farias Leal. Insurgência política e desobediência epistêmica: movimento descolonial de indígenas e quilombolas na Serra do Arapuá. Recife: UFPE, 2013 (Tese Doutorado em Antropologia). 88p.
OLIVEIRA, João Pacheco de. Uma etnologia dos “índios misturados”: situação colonial, territorialização e fluxos culturais. In: OLIVEIRA, João Pacheco de. (Org.). A viagem de volta: etnicidade, política e reelaboração cultural no Nordeste indígena. Rio de Janeiro, Contra Capa, 2004, p. 13-38.
POMPA, Cristina. Religião como tradução: missionários, Tupi e “Tapuia” no Brasil colonial. Bauru/SP: EDUSC, 2003.
REESINK, Edwin. Raízes Históricas: a Jurema, enteógeno e ritual na História dos povos indígenas no Nordeste. In: MOTA, Clarice Novaes da; ALBUQUERQUE, Ulysses Paulino de. (Orgs.). As muitas faces da jurema: de espécie botânica à divindade afro-indígena. Recife: Edições BAGAÇO, 2002, p. 61-96.
RIBEIRO, Darcy. Os índios e a Civilização: a integração das populações indígenas no Brasil moderno. 4ª ed. Petrópolis, Vozes, 1982.
SILVA. Luís Severino da. Brejos de altitude, refúgios para os grupos humanos do sertão: o caso da Serra do Arapuá, Floresta, PE. Clio Série Arqueológica, v.1, n. 14 – Anais da X Reunião Científica da SAB. Recife: UFPE, 1999, p. 237-244. Disponível em http: //www.ufpe.br/clioarq/images/documentos/2000-N14/2000a16.pdf. Acessado em 27/11/2012.
SILVA, Edson. Os restos dos índios Sukurú de Cimbres: cultura material, história e identidade indígena no Nordeste entre os anos 1930 e 1950. CLIO: Série Arqueológica (UFPE), v. 22, p. 149-176, 2007.

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