biografia

Manoel Antônio do Nascimento: Pajé João Miguel

Autor(es): Edivania Granja da Silva Oliveira
Biografado: Manoel Antônio do Nascimento: Pajé João Miguel
Nascimento: 1962
Povo indígena: Pankará
Estado: Pernambuco
Categorias:Biografia, Etnias, Pankará, Estado, Pernambuco
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João Antônio do Nascimento, conhecido por João Miguel é Pajé na região do Agreste, Serra do Arapuá. Nasceu em 1962, com 56 anos. Declarou que a família é muito boa e muito importante, os avós paternos eram Miguel Rosarinho e Maria de Miguel Rosarinho[1]. Os avós maternos chamavam Manoel Branco e Antônia Branca. É da família Amanso, originária na Serra Umã e na Serra do Arapuá.

Relatou que passou a maior parte da vida morando entre as Serra do Arapuá e Umã, “passava uns tempos morando na Serra Umã e depois aqui”. Também destacou que “passava uns tempos na ‘beira’ do rio plantando arroz, feijão e cebola, na Ilha Grande, no Município de Abaré, no estado da Bahia.

Afirmou que a família sempre foi dos rituais, que “nasceu nos rituais”. A mãe era “Cabocla Mestre da Jurema”, rezava na Serra do Arapuá, mesmo sendo da Aldeia Olho d’água do Padre, Território Indígena Atikum. Praticavam os rituais às escondidas “por causa dos brancos” que não gostavam, diziam que “a gente era feiticeiro, por isso os Terreiros eram todos escondidos, em cima das Serras, nas matas, distantes das casas” (JOÃO ANTÔNIO NASCIMENTO, 2019).

Também destacou que o pai era um Pajé, trabalhou muito curando com rezas o povo das Serras, Arapuá e Umã. Mas, o pai depois de um tempo deixou de trabalhar com a “Jurema”, substituindo pela cachaça, resultando nas feituras de trabalhos espirituais “fracos”, como também comprometimento do corpo, enfrentando no dia seguinte forte ressaca causada pela cachaça, “então, precisava ir acudir, ajudar ele com meus trabalhos com a Jurema que uso misturada com o suco de maracujá do mato, dá força e faz bem, cura qualquer problema na cabeça, no corpo e de espírito” (JOÃO ANTÔNIO NASCIMENTO, 2019).

Sobre o reconhecimento do povo Atikum descreveu que era costumeira a família praticar agricultura na Serra Umã, durante o período de plantios de mamona, fava, milho e feijão, praticavam os rituais com os “caboclos” da Serra Umã. No momento do reconhecimento dos Atikum não conseguiram fazer um ritual forte e então a família foi morar um tempo na Serra Umã, praticando rituais para fortalecer os “caboclos de lá”.

Em relação a Serra do Arapuá afirmou possuir direitos as terras na “cabeça da Serra”, na Chapada, herança dos mais velhos. Mas, sempre morou no Agreste em terras arrendadas, plantando de meeiro, trabalhava também de “aluguel” para os “posseiros” e “compadres”.

Destacou que estudou somente até a antiga 5ª série, “não aguentou mais, a cabeça não aguentava”. E, por não ter estudo sempre trabalhou em roças. Depois foi “encostado pelo INSS”, mas não lembra desde quando recebe o auxílio doença, reforçando a justificativa da “cabeça ruim que faz não lembrar das coisas” (JOÃO ANTÔNIO NASCIMENTO, 2019).

Sobre a constituição da família afirmou, “tive uma mulher e vivi bastante tempo com ela. Tivemos 12 filhos, somente uma filha mora na beira do rio, próximo a Nova Itacuruba, os demais moram todos próximos a minha casa”, na Aldeia Marrapé. Mas, há pouco tempo separou da esposa por conta do excessivo consumo de “cachaças” (JOÃO ANTÔNIO NASCIMENTO, 2019).

Reafirmou que vivem da agricultura, plantando milho, feijão, mandioca, andu e batata doce. Não usam nenhum tipo de veneno, só espera o tempo chuvosos para obter boa colheita. Também a partir do movimento de reconhecimento da “tribo”, passou a ser reconhecido na região como Pajé e receber pessoas para rezas e feituras de “trabalhos” espirituais, recebendo entre R$ 50,00 a R$ 100,00. Reforçou que após o reconhecimento étnico ocorreu melhoria nas condições do povo e da família, com a conquista de muitos empregos e serviços nas áreas de educação e saúde, “entrou agente de saúde, professor, auxiliar, merendeira, tudo perto de casa e do meu povo. Atualmente “melhorou as condições para comprar comida, antes não comprava por não ter dinheiro” (JOÃO ANTÔNIO NASCIMENTO, 2019).

Finalizou com o cântico do Toante da época em que praticavam os rituais às escondidas,

Oi! Pisa, pisa, meus caboco

Torna a repisar

Que aqui não tem quem diga

Se a retire do lugar

Há tirá landôa

Rei há tirá landôa

 

Portanto, o movimento indígena proporcionou melhorias nas condições socioeconômicas do povo, segundo afirmou o Pajé João Miguel. Como também alteração nas interdições e proibições das práticas ritualísticas.

 

Entrevista

Manoel Antônio do Nascimento (Pajé João Miguel), 79 anos. Aldeia Marrapé, Serra do Arapuá, Carnaubeira da Penha/PE. Entrevista realizada na Aldeia Saquinho em 25/05/2019, Território Pankará.

 

Notas

[1] No sertão pernambucano era prática usual a atribuição de nome ou sobrenome do esposo para fazer referência a esposa, como também para diferenciar de outro membro da família que possui o mesmo nome, que com o tempo podia transformar em um outro sobrenome da família. Costume ainda existente, principalmente na zona rural.

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