biografia

Manoel Gonçalves da Silva: Nenem Pankará

Autor(es): Edivania Granja da Silva Oliveira
Biografado: Manoel Gonçalves da Silva: Nenem Pankará
Nascimento: 1962
Povo indígena: Pankará
Estado: Pernambuco
Categorias:Biografia, Etnias, Pankará, Estado, Pernambuco
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“Ser índio é respeitar a tudo quanto é de coisa. Seguir os nossos valores, seguir o que somos. Eu me orgulho do que eu sou e não tenho vergonha da minha identidade, eu sou e vou continuar na mesma luta” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

 

Manoel Gonçalves da Silva, conhecido como Nenem Pankará, liderança que representa as práticas tradicionais, através do uso dos recursos naturais com finalidades terapêutica e ritualística. Em relação aos cultivos e manejos agrícolas pratica plantios consorciados e utiliza plantas para o combate de pragas nas oças. Portanto, exercendo práticas de sustentabilidade e de preservação ambiental. É uma referência na Serra do Arapuá e região na indicação e fabricação de “garrafadas”/remédios de plantas para curas de doenças. É também conhecedor das plantas sagradas usadas nos rituais.

Nasceu no Enjeitado, região entre o Agreste e a Chapada da Serra do Arapuá. Com 57 anos, enfatizou com mais preparo físico do que muita gente mais jovem. Atribuiu a disposição e boa saúde aos usos diários de chás e “garrafadas”, preparados com plantas da Serra do Arapuá. Afirmando que “nunca foi ao médico e nunca fez nenhum exame de laboratório médico, nunca sentiu nenhum tipo de dor, sensação de mal estar ou doença”. E que os conhecimentos é de “herança tribal”. A família sempre foi dos remédios: “Meus avós laboravam com remédios, minha mãe laborava com remédio, meu pai laborava com remédio e eu nasci laborando, fazendo remédio e continuo na mesma cura” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

Relatou que antigamente quando as mulheres e os homens adoeciam de “febre, ferida ou outras doenças, as curas e os remédios eram do mato”. Destacou que, “todo remédio do mato nós sabia, os encantados nos ensinava. Nós aprendemos a fazer, chegava, descia e ensinava a nós como fazer os nossos remédios, nossos médicos, nossos ‘dotôs’ eram os encantado de luz e o pajé” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

Sobre a infância e a juventude narrou que viveu no “mato, nos Toré e nas mata. Era e sou muito cismado, só gosto de viver na mata” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019). O pai era Acino José da Silva, o avô Gonçalves e avó Maria Gonçalo. A família é toda da família Gonçalo, Gonçalão, Gonçalinho, Gonçalo Véi, João Gonçalo, Antônio Gonçalo, Neto Gonçalo, João Gonçalo, Antônio Gonçalo. Reafirmou que a família Gonçalo,

Meus parentes, o meu povo, eles são de Serra Negra, vieram pra cá, daqui voltaram pro rio, daí do rio voltaram pra Rodela, de Rodela voltaram pra Buíque, voltaram. É muita história e muito comprida. Em todos os cantos que nós chega, tem nosso povo. É tudo parente (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

Destacou que a família era muito numerosa. O avô com 12 irmãos “e vieram uma meia dúzia, meu pai veio junto [Serras: Umã e Arapuá]”. Todos foram e são perseguidos. Por isso, “em todo canto que chego encontro uma ‘rama’ da família”. Afirmou que a Serra Negra é a mãe de todos os índios na região, devido as perseguições os indígenas tiveram que fugir da Serra Negra, uns foram esconder na região do atual município de Buíque. A respeito da Serra Negra foi afirmado em uma pesquisa que, “a Serra Negra devido a sua vegetação de mata fechada, serviu durante séculos de abrigo a índios, escravos fugidos e fugitivos da justiça” (MAPEOU, 2008, p. 40).

Afirmou o entrevistado que os filhos dos “caboclos”, atualmente os índios na Serra do Arapuá, eram batizados no ritual da Jurema, não eram batizados na Igreja. Não podiam fazer nada, nem podiam plantar e nem fazer farinha, devido as perseguições. E o avô contava que o motivo da saída da Serra Negra foi porque desapareceu uma moça branca. Saíram caçando a moça e não encontraram. A família do avô, os indígenas da Serra negra, chegaram numa maloca, era uma “loca[1]” de pedra, habitada por “Encantados de Luz e da Natureza”, que avisaram para saírem da Serra Negra, pois aconteceria um “derramamento de sangue”. Então, uns ficaram e foram acusados de crime pelo desaparecimento da moça branca. E outros fugiram para Serra do Arapuá.  Os brancos continuaram a perseguição, restando aos índios fugirem para outras Serras e para Buíque.

Para acabar com as perseguições, afirmou que o seu avô resolveu ir procurar o Padre Cícero[2], em Juazeiro do Norte (CE), que recomendou ao avô o estabelecimento da relação de compadrio através do batismo de uma filha pela família perseguidora. Então, de acordo com a recomendação, o avô entregou a mãe de Nenem para João Gominho Ferraz batizá-la. Assim, o padrinho passou a proteger e finalizou a perseguição contra a família. Em uma pesquisa a família Ferraz é citada como uma das “seis famílias pioneiras no processo de ocupação de Floresta”, desenvolvendo atividade agropastoril, ocupando cargos e poder políticos (FERRAZ, 2004, p. 37).

A narrativa de Nenem Pankará evidenciou o papel que o Padre Cícero representava para a população sertaneja, na função de mediação para “apaziguar” as perseguições empreendidas pelos fazendeiros aos indígenas. Além da descrição por Nenem Pankará relacionada a um representante da elite da região, pertencente à família Ferraz que transformou-se em “protetor” da família após o estabelecimento da relação de compadrio.

A respeito das relações parentais com os indígenas que habitando na região da Serra Negra e no atual município de Buíque, foi afirmado em pesquisa que os indígenas Kambiwá possuem relações parentais e fluxos culturais com os Pankará (ANDRADE, 2014).

Nenem Pankará descreveu que a Serra do Arapuá era lugar de refúgios de índios e a Serra Negra sendo a referência da identidade Pankará,

Aqui na serra é um lugar que mais se escondia índio, nunca pegavam. Foi uma persiga grande, os brancos colocaram os escravo pra perseguir a gente, mas aqui eles nunca conseguiram. Mas, hoje, todos nós temos que agradecer a Buíque e a Serra Negra, a nossa identidade, somos de lá (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

Descreveu que muitas das perseguições eram feitas por negros, escravizados pelos brancos que diziam serem os donos das terras. Os negros escravizados “perseguiam a mando dos brancos”. Mas, “agora são tudo braiado, índio com negro ou com branco”. Evidenciou que, a mistura da sua família foi a partir da chegada na Serra do Arapuá e Umã, misturou com outras família. Com os Rosa, mesma família dos Atikum que habitam a Serra Umã. Na Serra do Arapuá a família Gonçalo é uma das mais antigas, misturaram com as famílias Caxeado e com os Limeiras. Reforçou que a família é a que tem a história e a verdade, “aqui de lado fica a pedra de Aticum, tem um terreiro. Aqui um caboclo começava dançando o Toré sozinho, ia aparecendo outros caboclos e com três dias aparecia caboclos de todo lado. Aqui é a história e a raiz do povo do Enjeitado, hoje a gente continua na luta, somos fortes” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019). O Pajé Pedro Limeira na narrativa acima, afirmou que no processo de reconhecimento étnico do povo Atikum, um dos “Encantados” era da região “Agreste”, local Sagrado existente na Aldeia Enjeitado/Marrapé, moradia da família de Nenem Pankará (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

Tratou das matas e rezou: “Diga a Deus, viva a mãe de Deus. E a todos os santos do Céu e da Terra. E os Encantados. E viva as matas, viva todos os meus irmãos de luz e meus irmãos. Louvado seja Nosso Senhor” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019). Após a reza afirmou que, “a Serra do Arapuá era muito fria, era gelada e tinha muita chuva. Agora tá cada dia mais quente e tem menos produção”. Denunciou que o “desequilíbrio é muito grande, ou passa muito tempo nas secas ou quando chove, chove muito. Hoje tem muitos poços (artesianos) e com certeza será um problema” (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

Em relação ao rio São Francisco, Nenem Pankará evidenciou que a família, os Gonçalves, possuíam relações parentais às margens do rio, destacando que, “um tio viveu toda a vida nos terrenos dos Caribés, perto de Belém do São Francisco”. E, na Velha Itacuruba morava a família dos Francisco, atualmente os Pankará Serrote dos Campos, na Nova Itacuruba. E os demais familiares dos Francisco foram realocados após a Construção da Barragem de Itaparica, no Projeto Brígida, aonde moram seus parentes, João Guarda, Zé Francisco, Valdo e Antônio Francisco. Além de outros parentes que foram realocados na Nova Remanso (BA), aonde mora o parente Joaquim Francisco e outros. A origem deste povo é toda do Enjeitado e do Mingu, são todos parentes, como também possui relações parentais com outros grupos indígenas habitantes no sertão do São Francisco,

Os Gonçalves fazem parte da família Amanso da Serra Umã, são os Atikum. Meu tio, irmão do meu avô, Joaquim Atikum foi quem povoou aquela Serra, era um homem de poder, do ritual. A família de Chico Amanso, meu parente tem família lá no povo Tumbalalá. Roseno era irmão do meu avô e de Amanso. Essa família Roseno tem família aqui na Serra [Arapuá], na Serra Umâ, nos Kambiwá e nos Pankararu. No povo Pankararu também a família da Véa [Velha] Guida são meu parentes, morava num Lajedo. E a filha de Joaquim Amanso, da Serra Umã foi morar em Tuxá, Rodelas, formou a família Carmelita, parente também (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

Reafirmou que são todos parentes e com origens na Serra Negra, foram “braiando” e espalhando pelas regiões das serras e do rio São Francisco. Descreveu as relações parentais com os negros e brancos,

Meu tio casou com uma negra. Naquele tempo era proibido casar com os negros. Os negros eram perseguidos pelos índios. Hoje moram na Tiririca, aqui no pé da Serra, na Quixaba, na Ingazeira e em Floresta. É a família Contente. E também tem aqui na Serra muitos braiados com os brancos, os índios casaram também com as famílias que perseguiam, com os Novaes, Ferraz e Carvalho (MANOEL GONÇALVES DA SILVA, 2019).

As relações entre indígenas, negros e “posseiros”/brancos que os Pankará fazem referência para afirmar a identidade étnica, relacionam ao domínio e prática da “ciência do índio”. Como também a história, as relações parentais, através das memórias expressam conhecimentos e práticas da “tradição”, tanto em rituais como na terapêutica, com diversos usos das plantas, de caças, de práticas de extrativismo e agropastoril nos Ambientes que habitavam e habitam. Sobre as relações socioambientais com às margens do rio São Francisco, afirmou que, em épocas de secas desciam a Serra para fazer trocas e plantios. Os caminhos que percorriam: da Aldeia do Enjeitado para o Caxeado, área abaixo da Serra do Melado, passava pelo Olho d’Água, onde negociavam panela e também levavam tecido de rede.

Atravessavam num lugar chamado Lagoinha, Paus Preto, Rancho dos Homens, pegavam a estrada e iam para a beira do rio, para um Porto, próximo a Belém para buscar sal. Os plantios de vazantes eram mandioca, batata doce e trocavam por banana, castanha, laranja, feijão de corda, fava e andu, cultivos agrícolas que continuam plantando na Serra do Arapuá. Fabricavam de palha de Catolé: arupemba[3], cestos e “bocas-pios[4]”, para carregar produtos ou como objeto de troca na região do São Francisco. Destacou que a planta Catolé é considerada também medicinal. Negociavam penas das canelas de Ema, usadas na fabricação de pinceis. Ressaltou que as aves Emas também eram consideradas sagradas, usavam no ritual, atualmente estão em extinção.

Afirmado também pelo antropólogo Hohenthal que os indígenas Tuxá usavam a planta Caroá para fabricação de roupas usadas nas cerimonias religiosas, como também penas de Ema que utilizavam na confecção de adornos. As aves eram capturadas na região da Serra do Arapuá ou obtinham dos índios “Pacarás”, habitantes na referida Serra. Portanto, vinculando a Serra como local de habitação de indígenas ‘Pacarás” e afirmando as relações existentes entre os indígenas Tuxás e os indígenas da Serra do Arapuá (HOHENTHAL, 1960).

Nenem Pankará finalizou com o toante:

 

Esse mundo é muito grande,

ele é pesado pra mim trabalhar.

Todos os meus irmãos de luz

venham me ajuda,

que esse mundo ele é grande,

ele é pesado pra mim trabalhar.

Nenem Pankará é reconhecido por indígenas e não indígenas como grande conhecedor sobre os usos diversos das plantas usadas na terapêutica e na ritualística dos Pankará. Também evidenciou as complexas relações parentais com diversos grupos étnicos habitando na região do sertão de Itaparica, formando redes através de circuitos de trocas, com fluxos e trânsitos entre diversos Ambientes e indígenas e são influenciados pelo rio São Francisco.

 

REFERÊNCIAS

FERRAZ, T. V. A formação da sociedade no Sertão pernambucano: trajetória de núcleos familiares. Recife, UFPE, 2004, 85p. (Dissertação Mestrado História). Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/7841/1/arquivo7773_1.pdf. Acessado em 223/01/2015.

 

HOHENTHAL Jr., W. D. As tribos indígenas do Médio e Baixo São Francisco. In, Revista do Museu Paulista, nova série, volume XII, São Paulo: 1960, p. 37-71.

MAGALHÃES, M. de F. O. Imagens contraditórias da figura popular de Padre Cicero: mitificação e desmitificação. PPG em Literatura Crítica/PUC-SP, São Paulo, 2012 (Dissertação de Mestrado em Literatura), 124p. Disponível em: https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/14701/1/Maria%20de%20Fatima%20Oliveira%20Magalhaes.pdf. Acessado em 21/10/2019.

 

MAPEOU, E. Cativeiros e cotidiano num ambiente rural. O Sertão do Médio São Francisco–Pernambuco (1840-1888). Recife, UFPE, 2008. (Dissertação Mestrado em História).

 

ENTREVISTAS

Manoel Gonçalves da Silva (Nenem), 57 anos. Aldeia Marrapé, Serra do Arapuá, Carnaubeira da Penha/PE. Entrevistas realizadas na cidade de Petrolina/PE em 21 e 22/04/19; Entrevista realizada na Aldeia Saquinho em 25/05/2019, Território Pankará.

 

NOTAS

[1] Termo popular no sertão, designando um esconderijo embaixo ou entre pedras.

[2] O Padre Cícero Romão Batista (1844-1934) considerado “o messias do Sertão e Juazeiro do Norte é a ‘Nova Jerusalém’” (MAGALHÃES, 2012, p. 93).

[3] Peneira de palha da Planta Catolé ou de Buriti, muito usada até os dias atuais na região do sertão nordestino.

[4] Sacola com pequena abertura feita de palha de Caroá.

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