biografia
Pajé Zequinha
Autor(es): Edson Silva
Biografado: Pedro Rodrigues Bispo
Nascimento: 1930
Povo indígena: Xukuru do Ororubá
Terra indígena: Aldeia Pedra D'água
Estado: Pernambuco
Categorias:Biografia, Estado, Pernambuco, Etnias, Xukuru
Tags:Masculino, Pernambuco, Xukuru do Ororubá
PAJÉ ZEQUINHA XUKURU DO ORORUBÁ:
DOUTOR HONORIS CAUSA PELA UFPE
O indígena Pedro Rodrigues Bispo, conhecido como Seu Zequinha, o Pajé do povo Xukuru do Ororubá habitando nos municípios de Pesqueira e Poção/PE, nasceu em 24 de novembro de 1930, na Aldeia Cana Brava. Cresceu no convívio familiar com avós, pais, irmãos, a família extensa e como outras famílias indígenas agricultoras morando em pequenos pedaços de terras, espremidos por fazendeiros invasores nas terras dos antepassados nativos. Pedro Bispo se casou aos 28 anos de idade com Maria Edite, tiveram sete filhos e continuou morando por vários anos com a família formada na Aldeia Cana Brava. Mudou definitivamente para cidade de Pesqueira quando foi necessário cuidar da saúde da esposa Edite. Mas, após a demarcação das terras, manteve “a roça” no território indígena.
Iniciou os estudos com 15 anos, todavia acometido por uma doença grave, (possivelmente a peste bubônica, pois existem vários relatos a respeito no território indígena), interrompeu a frequência na escola. E sendo tratado em casa, com ajuda dos pais continuou o processo de alfabetização. Sua falecida irmã Lica, em entrevista afirmou que a doença foi o começo da preparação de Pedro Rodrigues Bispo, o Zequinha como era chamado, para ser o pajé do povo Xukuru do Ororubá. Pois, “Toda missão dada pela natureza precisa de uma preparação material e espiritual para que essa pessoa se torne pura e fiel no que vai assumir”.
As condições de vida da família de Zequinha eram muito precárias, faltava o que vestir ou calçar. Assim, Pedro somente calçou um sapato e vestiu uma roupa que não fosse de saco porque achou uns “milreis” (dinheiro da época), entregue a avó que comprou para Zequinha um par de sapatos vermelho e uma roupa. E foi a maior felicidade do mundo! Desde a infância Zequinha trabalhou na “roça” ou quando maior de idade em qualquer atividade. Trabalhou como operário nas fábricas de doces, conservas e laticínios instaladas na cidade de Pesqueira, pois a
família era muito pobre e com um pequeno lote de terra mal cabendo a moradia e sem espaço para o plantio.
Com as invasões dos fazendeiros e dos plantios para a agro indústria, os indígenas eram forçados a trabalhar para os invasores, nesse contexto a mão de obra da família de Zequinha como de outras famílias indígenas exploradas, enricando cada vez mais os latifundiários, principalmente o chamado José de Riva que em fins dos anos 1980 foi comprovado por investigação da Polícia Federal ter sido um dos mandantes do assassinato do Cacique “Xicão”, por liderar a retomada das terras pelos Xukuru do Ororubá. Com o avanço do latifúndio, em Cana Brava eram poucas as famílias indígenas com um pedaço de terra para morar!
A localidade de Cana Brava é um dos lugares referências para o povo Xukuru do Ororubá, de onde se origina o cacicado e linhagem do Pajé. E apesar das condições de vida difíceis, eram realizadas novenas religiosas, casamentos, festas animadas por viola, com samba de coco, com zabumba, pífano como na grande novena de Santa Luzia. Também se deslocavam para a Aldeia Vila de Cimbres onde participavam anualmente no ritual da busca da lenha, na Festa de Nossa Senhora das Montanhas, chamada pelos indígenas “Mãe Tamain”. Como também Zequinha participando desde criança com a família nos rituais na Festa do Rei Orubá, ocorrendo no dia de reis na Aldeia Pedra d’Água.
Com parentes indígenas Pedro também participava do Toré e rituais realizados “às escondidas” na Mata da Pedra d’Água, mesmo temendo a proibição e perseguições dos fazendeiros invasores. Uma vez que as práticas religiosas, além de afirmar a identidade indígena reafirmava o sentimento de coletividade nas reivindicações de direitos, sobretudo as terras esbulhadas, o que provocava receio nos latifundiários. Foi ouvindo os relatos das memórias dos idosos e na prática dos rituais, que conheceu os aprendizados sobre as expressões socioculturais dos antepassados indígenas.
Na juventude, com 17 anos, começou a rezar nas pessoas em Cana Brava e de outras aldeias. E sendo reconhecido como líder religioso do povo indígena. A irmã Lica afirmou a forte mediunidade de Zequinha nas relações com os Encantados, os seres sobrenaturais habitando a Natureza, estabelecendo as relações entre os indígenas e o universo religioso. A natureza sagrada lhe deu o dom da sabedoria e do conhecimento da espiritualidade a respeito dos antepassados para ser o Pajé. Sendo uma pessoa com muitos mistérios e conhecendo os Encantados que estão no plano espiritual e as ervas medicinais no território indígena, tendo realizado muitas curas de doentes.
Dona Zenilda, viúva do Cacique “Xicão”, afirmou que o Pajé Zequinha é o líder espiritual em todos os momentos ao lado do povo Xukuru do Ororubá, fortalecendo desde antigamente até os dias atuais os indígenas, sempre presente e aconselhando sobre o bem e o mal. O Pajé e o Cacique são a base da organização e mobilizações do povo indígena. E o Pajé Zequinha sempre esteve participando nas mobilizações pelos direitos indígenas, sobretudo a demarcação do território, sempre preocupado com a reconquista das terras.
Iniciou acompanhando de perto o cacicado de José Pereira de Araújo, o chamado José de Ismael. Com a desistência desse da função de Cacique o Pajé representou o povo Xukuru do Ororubá. Até quando a natureza sagrada indicou “Xicão” (Francisco de Assis Araújo), para ser o Cacique com a mediação dos Encantados pelo Pajé Zequinha. Com o Pajé o Cacique “Xicão” a partir de 1986 visitam todo o território discutindo as formas de reconquistar as terras invadidas pelos fazendeiros. Incentivando a prática do ritual sagrado, a dançarem o Toré, a afirmarem as expressões socioculturais indígenas.
O Pajé Zequinha esteve no Recife com as reivindicando indígenas junto a FUNAI, foi a Brasília/DF nas mobilizações durante a Assembleia Nacional Constituinte, participando das discussões para o reconhecimento dos diretos dos povos indígenas na Constituição Federal de 1988. E apesar do assassinato do filho por fazendeiros, participou ativamente nas retomadas de terras iniciadas em 1990 pelos Xukuru do Ororubá. Como a retomada da Aldeia Pedra d’Água, a primeira retomada de terras pelos indígenas, onde a Mata da Pedra d’Água local de muita importância onde eram realizados rituais “às escondidas” das perseguições dos fazendeiros, estava sendo desmatada por invasores.
Após o assassinato do Cacique “Xicão” em 20 de maio de 1998 na cidade de Pesqueira, a mando dos fazendeiros como comprovado nas investigações da Política Federal, pela reconhecida liderança do Cacique nas retomadas de terras do seu povo, o Pajé Zequinha manteve a serenidade e a tranquilidade necessária diante do clima de violência e as inúmeras ameaças contra os indígenas, principalmente as lideranças. Posteriormente, o Pajé Zequinha viu nos sinais da Natureza sagrada o momento do povo Xukuru do Ororubá ter um novo Cacique.
Com apoio do Pajé foi Marcos Luidson de Araújo (o Cacique Marcos) que assumiu o cacicado aos 23 anos, na festa do Rei Orubá em janeiro de 2000. E o Pajé Zequinha esteve ao lado do jovem Cacique encorajando-o na missão de substituir o pai, Cacique “Xicão” em meio as muitas ameaças e receios diante das violências, perseguições dos fazendeiros invasores, racismo de autoridades e a população não indígena em Pesqueira e a oligarquia regional contra os indígenas Xukuru do Ororubá.
Nas retomadas de terras, o Pajé Zequinha organizava a pajelança, com o objetivo de buscar forças necessárias para os indígenas fortalecerem as mobilizações. Afirmando os indígenas que sempre esteve presente nesses momentos encorajando a todos, principalmente o Cacique. Orientando, aconselhando no agir com sabedoria em cada situação, para evitar os confrontos com os fazendeiros e não atrapalhar os planos de retomada das terras. O Pajé Zequinha além de realizar a pajelança, também participava em todas as atividades braçais necessárias nas retomadas de terras, como medir as terras, buscar lenha para cozinhar os alimentos, cortar as carnes para as alimentações diárias, retirar madeiras na mata na organização dos acampamentos para dormidas.
O Pajé Zequinha continuou ao lado de Dona Zenilda, viúva do Cacique “Xicão”, apoiando-a após a tragedia com o assassinato do marido, para que sempre fosse respeitada como a mãe do povo Xukuru do Ororubá. E Dona Zenilda relatou em entrevista, que o Pajé “nunca abandou a luta”, permanecendo o tempo todo aconselhando e orientando espiritualmente os indígenas. E como importante líder religioso, contribuindo para a afirmação da identidade sociocultural do povo indígena, desde o chamado da natureza sagrada, também ao lado do Cacique Marcos.
A atuação do Pajé Zequinha foi fundamental para demarcação do território indígena, pois como grande conhecedor acompanhou a equipe para fixação dos marcos demarcatórios nas terras. Como um guardião das memórias dos antepassados indígenas, sendo também importante para a afirmação da identidade, a celebração dos rituais e manifestações das expressões socioculturais do povo Xukuru do Ororubá.
Diante do exposto e com os significativos apoios recebidos de diversos pesquisadores e instituições em anexo a esse texto, a atribuição do título de Doutor Honoris Causa Pedro Rodrigues Bispo, conhecido como Seu Zequinha, o Pajé do povo Xukuru do Ororubá, além do merecido reconhecimento público da importância desse líder indígena, a UFPE contribui também no combate ao racismo, na Educação para as Relações Étnico-Raciais/ERER, para as necessárias discussões sobre o reconhecimento dos significados dos povos indígenas na participação em processos históricos, na construção da História em Pernambuco e no Brasil.
Na tarde de 17/05/2026, na Aldeia Pedra d’Água, Território Xukuru do Ororubá, no Espaço Mandaru durante a Assembleia Xukuru do Ororubá, com as presenças do Reitor e Vice Reitor, a Diretora de Relações Étnico-Raciais e uma comitiva com vários professores da UFPE, além de centena de participantes no evento, o Pajé Zequinha recebeu o Titulo de Doutor Honoris Causa da UFPE, algo inédito em Pernambuco e de grandes signficados simbólicos e sociopolíticos. Uma importante conquista do povo Xukuru do Ororubá!
Referências
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Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2011.
Glória do Goitá/PE, 20 de maio* de 2025
Edson Silva
Professor Titular de História da UFPE
*Nessa data os indígenas Xukuru do Ororubá e convidados, fazem uma caminhada do território indígena até a área urbana na cidade de Pesqueira. Onde à tarde no Bairro “Xucurus”, realizam um ato público em memória do Cacique “Xicão”, brutalmente assassinado em 1998 naquele local, a mando de fazendeiros invasores no território indígena.
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