biografia

Pedro dos Santos: Pajé Pedro Limeira

Autor(es): Edivania Granja da Silva Oliveira
Biografado: Pedro dos Santos: Pajé Pedro Limeira
Nascimento: 1929
Povo indígena: Pankará
Estado: Pernambuco
Categorias:Biografia, Etnias, Pankará, Estado, Pernambuco
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Pedro dos Santos, conhecido como Pedro Limeira é Pajé Pankará, nasceu no ano de 1929. Enfatizou que é filho de Luiz Antônio dos Santos, sendo o pai o índio mais perseguido pelos brancos. O pai era conhecido como Luiz Limeira e era Pajé. O avô, o pai e o entrevistado não estudaram, devido à época em idade escolar não existirem escolas em aldeia, por isso foi enfático com a importância das mobilizações dos Pankará pela educação específica e diferenciada, “o povo mais velho não tinha estudo, para aprender alguma coisa tinha que passar uns dias nas matas, voltava e contava ou fazia as coisas (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

A esse respeito afirmou que “a família é toda ‘braiada’, é de muita gente”. Descrevendo como ocorreu o processo da família para conhecimento sobre a ritualística fundamental para a afirmação étnica,

Meu avô foi o primeiro que descobriu os indígenas através dos “Encantos de Luz”, espalhando pelo mundo, Depois foi papai, agora eu já ensinei aos filhos a trabalhar também, podem ir para as matas que já aprenderam comigo as coisas diferentes. O conhecimento da “Ciência do Índio” tem que ser oculto. A ciência só é para indígena e tem que ter coragem, sem isso não fala com os “Encantos” (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

Luiz Limeira, seu pai e avô da Cacica Dorinha, foi uma importante liderança e em parceria com as lideranças, Joaquim Amanso, Horácio Rosa, Manoel Miguel e Amélia Caxeado fundamentais para os processos de mobilizações na Serra do Arapuá e na Serra Umã, na década de 1940. Sendo que o ritual era realizado a noite e às escondidas, o “chefe ia na frente com apito para avisar quando via os brancos, apitava e o restante escondia nas matas, aqui na Serra do Arapuá ou indo para a Serra Umã, iam ou vinham, transitava entre as Serras para os rituais” (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

Seu pai denunciou as perseguições enfrentadas e reivindicou direitos as terras, através de telegramas, participação de circuitos de trocas ritualísticas e políticas através de viagens ritualísticas, de “fugas” e políticas em busca de apoio com outros grupos indígenas, como o povo Tuxá. Dentre as investidas pelo reconhecimento enviou telegrama para o Chefe do Posto Indígena Atikum, em 1949, após viajem a Rodelas, obtendo o apoio do chefe do Posto Indígena Tuxá, em Rodelas através de orientação de como solicitar a proteção e o apoio para o reconhecimento perante o SPI (MENDONÇA, 2013).

A liderança Luiz Limeira recebeu a visita em 1952 do antropólogo norte-americano William Hohenthal[1], o mesmo encontrava-se em Rodelas, no povo Tuxá, na Bahia quando soube que a Serra Cacaria/Arapuá era local de ritual, de habitação de índios. Ao conhecer a área serrana descreveu como local favorável, com grande disponibilidade de água, possuindo abundantes artefatos arqueológicos, comprovando que era lugar de indígenas. Por essas razões, deveria ter sido a área adequada para a implantação do Posto Indígena e não a Serra Umã, local desfavorável, com escassez de águas e muito seco. Afirmou também a existência em torno de 1000 remanescentes de índios Huamué, os índios “Pacará ou Pacarais” habitando as duas serra, Cacaria e Arapuá.

O referido antropólogo obteve informações a respeito das perseguições sofridas por Luiz Limeira e esposa, Luiza, como também as famílias Rosa e Amanso (Atikum). Afirmou que o mais perseguido era Luiz Limeira e família, descreveu a derrubada da casa e a expulsão de família por policiais a mando da Família Leite, apropriando-se dos bens da família Limeira, com o confisco da colheita, em torno de 300 cuias de farinha de mandioca, dos sítios agrícolas e árvores frutíferas, relatou também em telegrama ao SPI (MENDONÇA; SANTOS, 2013; HOHENTAHAL, 1960).

Destacou também que famílias poderosas de Floresta, os “latifundiários” temiam que o SPI, órgão do Governo Federal, reconhecesse as Serras, Cacaria e Arapuá, como área indígena, garantido direitos aos índios habitantes nas terras há centenas de anos, resultaria na libertação da submissão aos “patrões”. E por essa razão proíbem os índios de praticarem os rituais, que

dansem seu toré ou celebrem a cerimônia da jurema […] Geralmente, uma infusão narcótica é preparada com o entrecasco da juremeira (Acacia jurema M., ou Mimosa nigra), que combinada com inalações copiosas de forte fumo de rolo, e acrescida ainda de auto-hipnose provocada por dança e cantos monótonos, resulta em visões que, afirmam, permitem aos participantes falar com os espíritos (HOHENTHAL, 1960, p. 61).

Afirmou que as perseguições, bem com as proibições das práticas ritualísticas promovidos pelos latifundiários e seus moradores, objetivava promover os esquecimento dos costumes dos indígenas, forma de negação da presença indígena na Serra. Enfatizou que o Pajé Luiz Limeira era importante conhecedor da vida religiosa e cerimonial da “tribu”. Portanto, afirmando a ritualística como importante fator identitário para os índio na Serra do Arapuá (HOHENTHAL, 1960).

Em um estudo realizado por indígenas Pankará foi afirmado que o Pajé Pedro Limeira é do povo Tuxá, chegou criança e cresceu na Serra Cacaria/do Arapuã, casou com a índia da Serra Cacaria, Emília Olindina dos Santos, conhecida por D. Emília. Os filhos nasceram e foram criados na Cacaria, local de tradição, aonde sempre dançaram o Toré no Terreiro Sagrado da Cacaria (PROFESSORES PANKARÁ, 2012).

A esposa, D. Emília fez parte do projeto “Mulheres indígenas da Tradição[2]”, que registrou narrativas de mulheres indígenas, com domínio nos saberes e fazeres, reconhecidas pela comunidade como constituidoras de valorosas contribuições em áreas diversas do povo que representam. Foi descrito que D. Emília nasceu na aldeia Roçado, no pé da Serra Cacaria, área da Serra do Arapuá, os pais eram da Serra do Arapuá, chamavam Olindina Maria de Souza e Olímpio Barbosa de Souza. Desde a tenra infância aprendeu afazeres domésticos, praticando a agricultura e participando de rituais em vários terreiros existentes na Serra, num destes rituais conheceu seu esposo, o Pajé Pedro Limeira. Aos 14 anos casou, em 1949, união que resultou no aumento da família, com “doze filhos, todos nascidos na Serra do Arapuá, alguns com ajuda das parteiras, outros sozinha. São dez homens e duas mulheres, sendo a filha Maria das Dores [conhecida como Dorinha], nossa cacica” (MENDONÇA et all, 2019, p. 51).

  1. Emília contou que viviam de plantios, de caroá fabricava cordas e confeccionava vassouras – provavelmente de palhas de carnaubeira. Enfatizou que, muitas vezes ficou sozinha cuidando dos filhos durante os períodos de secas, o esposo precisava sair em busca de trabalho nas margens do rio São Francisco ou lugares mais distantes. Também participou do processo de mobilizações para reconhecimento e posse do Território da Serra do Arapuá como indígena, como também participou de atividades ritualísticas na Serra Umã, contribuindo para o SPI instalar um Posto Indígena e reconhecer os Atikum como povo indígena em 1949. Sendo testemunha e participante de interdições, perseguições e da negação ao seu povo dos mesmos direitos conquistados pelos Atikum, processo iniciado na década de 1940. Mas, somente no final da década de 1990 é que a luta dos “caboclos” da Serra do Arapuá foram retomados, com intensa participação de sua família (MENDONÇA et all, 2019).

Em concordância com a narrativa de D. Emília, o Pajé Pedro Limeira contou que em épocas de grandes secas era obrigado a ir trabalhar em São Paulo. Ficava de quatro a cinco meses e a esposa sozinha cuidando dos filhos. Descreveu que trabalhou em várias empresas em São Paulo, como a Volkswagen, a Mercedes e a Fabbrini, na fabricação de molas, ou descia a Serra e plantava cebola na “beira” do rio, na condição de “meeiro”, mas só ganhava os donos das terras. Desistiu de trabalhar em terras dos outros na “beira” do rio e resolveu plantar somente nas suas terras, na Cacaria. Destacou que em períodos de chuva planta feijão de corda, batata doce, mandioca e milho. Destacou que o nome indígena de feijão de corda é “Caibora” e milho é “Atí”, na língua do “Velho Ajucá” (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

As relações parentais são originárias na Serra Negra, as “raízes” da família do Pajé Pedro Limeira é da Serra Negra, a bisavô era da família de “Chico Lata. Afirmou que a Serra Negra é dele: “eu tinha as frases que veio da Serra Negra para a fazendinha, na Barra do Tarrachil. A Serra Negra é indígena, é nossa. A família da minha esposa, Emília, também tem a raiz na Serra Negra” (PEDRO DOS SANTOS, 2019). Então, a Serra Negra é local originário da família Limeira, mas também relacionou com outro local, Barra do Tarrachil, com local de origem. A Velha Barra do Tarrachil era um distrito do Município de Chorrochó, às margens do rio São Francisco, no estado da Bahia, defronte a cidade pernambucana, Belém do São Francisco, inundada pelo Lago de Itaparica. Foi criado uma nova Sede do Distrito no referido Município, a Nova Barra do Tarrachil.

A história sobre a “ciência do índio” foi explicitada por Pedro Limeira que é da segunda geração, antes teve os primeiros índios, os “Encantos de Luz” que são os sabedores da “ciência”, exercendo diversas funções,

Eram médicos, eram padres, eram essas coisas todas, […]. Mas, a ciência que os primeiros índios tem eu tenho também. A sabedoria de reinados, de encantados, matas preservadas que são as matas virgem. Os Encantados de Luz, os primeiros índios, eles convivem dentro das matas, porque lá é onde é a força encantada, que eu adquiri a ciência e sabedoria. As matas são aonde ficam os reinados. Mas, não é toda a mata que fica os reinados, tem os locais garantidos, a gente pode trabalhar tranquilo, aonde tem réstia. Então, nas matas lá, eu me sento lá nas matas e tô garantido, dentro das matas eu só vejo as réstia e o grilo cantar. Lá é onde adquiri a sabedoria e tudo que existe na face da terra eu conheço. Os “encantados” vêm nos rituais (PEDRO DOS SANTOS apud OLIVEIRA, 2014, p. 94).

A cosmologia dos indígenas no Nordeste é fundante a ritualística do Toré e o complexo da Jurema. Segundo o Pajé Pedro Limeira, a Jurema é usado para cura, faz limpeza e fortalece o corpo, contudo, para funcionar tem que ter o ritual, cantar o toante. Explicitou que a função de Pajé não é por indicação, é escolhido pela Natureza. Nascendo diferente, a aprendizagem ocorre pelos “Encantados”, nas matas. Destacou que não sabe ler e escrever como os irmãos, “mas possui a sabedoria”. Cantou o toante para fortalecer o ritual da Jurema,

 

Essa ciência é minha,

eu não dou ela a ninguém.

Essa ciência é minha,

eu não dou ela a ninguém.

Só dou a mãe Jurema

quando ela vem,

Só dou a mãe Jurema

quando ela vem.

Reina, rá, na ré,

reina, rá na ré (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

 

Sobre o povo Atikum relatou a conquista pelo reconhecido ocorreu por conta dos índios da Serra do Arapuá, especialmente a família Limeira, na chegada dos representantes do SPI,

Zé Brasileiro, Doutor Sampaio e Adelino para assistir os “caboclos” da Serra Umã dançar o Toré, ninguém deu presença lá. Então, Joaquim Amanso, líder da família Amanso, veio buscar os Limeiras, aí nós fomos escondidos. Porque na Carnaubeira tinha gente pronta para matar os índios. Lá teve uma coisa errada, Umã é daqui do Agreste, pertence aos índios daqui de Pankará. Lá deu presença, Manoel Umã e Maria Tiuba, trabalhei junto com o compadre Antônio Rosa, Zé Rosa e outros que já morreram, descobrimos os Encantos de Luz. Então, eles tem direito a Serra Umã e a Serra vizinha, a Itiuba (PEDRO DOS SANTOS, 2019).

A narrativa acima evidencia a ritualística como critério usado pelos agentes do SPI para o reconhecimento como indígena os habitantes da Serra Umã. Para tanto, buscaram o apoio dos “caboclos” da Serra da Cacaria/Arapuá. Como afirmado em um estudo sobre o povo Atikum, as relações parentais, de compadrio e a ritualística com os índios da Serra do Arapuá, reconheceram que a família Limeira e o atual Pajé Pedro Limeira são grandes conhecedores da “ciência do índio” (SILVA, 2007). Confirmando as relações e fluxos ritualísticos entre os habitantes das referidas serras.

 

REFERÊNCIAS

MENDONÇA, C. L. Insurgência política e desobediência epistêmica: movimento descolonial de indígenas e quilombolas na Serra do Arapuá. Recife, UFPE, 2013 (Tese Doutorado em Antropologia).

MENDONÇA, C. L. e SANTOS, C. F. dos. Projeto Cultural – Pacará Pacarati: memória e saberes do nosso povo. Oficina: Patrimônio Histórico técnicas e metodologias na pesquisa documental acerca da História Indígena em Pernambuco. Fontes primárias – Anexo. In: MENDONÇA, Caroline Farias Leal.

Insurgência política e desobediência epistêmica: movimento descolonial de indígenas e quilombolas na Serra do Arapuá. Recife: UFPE, 2013 (Tese Doutorado em Antropologia). 88p.

MENDONÇA et al. Mulheres Indígenas da Tradição. Recife: SEDUC-PE/Centro de Cultura Luiz Freire/CIMI Regional Nordeste e Movimento de Mulheres Indígenas, 2019, 103p. Disponível em: https://cimi.org.br/wp-content/uploads/2019/03/livro-mulheres-indigenas-tradicao.pdf. Acessado em 01/07/2019.

OLIVEIRA, E. G. da S. Os índios Pankará na Serra do Arapuá: relações socioambientais no Sertão pernambucano. Campina Grande, UFCG, 2014, 133p. (Dissertação Mestrado em História).

PROFESSORES PANKARÁ. Etnologia Pankará. Trabalho desenvolvimento no 2º Laboratório Intercultural Indígena. Caruaru: Centro Acadêmico do Agreste/Universidade Federal de Pernambuco. (Curso de Licenciatura Intercultural – No prelo).

SILVA, E. Os restos dos índios Sukurú de Cimbres: cultura material, história e identidade indígena no Nordeste entre os anos 1930 e 1950. CLIO: Série

Arqueológica (UFPE), v. 22, p. 149-176, 2007.

SILVA, G. da. “Chama os Atikum que eles desatam já: práticas terapêuticas, sabedores e poder. Recife, UFPE, 2007. (Dissertação Mestrado em Antropologia).

 

ENTREVISTA

Pedro dos Santos (Pajé Pedro Limeira), 90 anos, Aldeia Cacaria/Serra do Arapuá, Carnaubeira da Penha/PE. Entrevista realizada na Aldeia Saquinho em 25/05/2019, Território Pankará.

 

NOTAS

[1] William Dalton Hohenthal Jr, norte-americano, pesquisador da Universidade da Califórnia em Berkeley, empreendeu viagem pelo Sertão do São Francisco nos anos de 1951 e 1952 sob a chancela do SPI, com o objetivo de efetuar estudos etnológicos sobre os indígenas dessa região. Durante sua estadia com os grupos indígenas enviou correspondências para o Chefe do Posto Indígena da I.R.4, sediado em Recife, também produziu relatório para o SPI, enviou “artefatos recolhidos entre os índios, destinados ao Museu de Antropologia da Universidade da Califórnia” (SILVA, 2007, P. 162) e publicou artigo na Revista do Museu Paulista em 1960.

[2] O projeto financiado pela Secretaria de Cultura de Pernambuco através do Funcultura n° 1069/12, realizado no período de 2013 a 2015, resultando numa publicação contendo as trajetórias de “guerreiras indígenas”, com o formato de um livro fotográfico (MENDONÇA et all, 2019).

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