biografia

Quitéria Binga

Autor(es): Bartolomeu C. Santos – Pankararu
Povo indígena: Pankararu
Estado: Pernambuco
Categorias:Biografia, Etnias, Pankararu, Estado, Pernambuco
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Seus dons numa volta ao mundo. Biografia de Quitéria Binga

Escrever uma biografia sobre uma mulher indígena que se mostrou e se colocou sob a mira de vários olhares numa época de intensos conflitos, de interesses políticos e sobretudo econômicos nas áreas próximas ao rio São Francisco, não é uma tarefa fácil. Fica mais difícil por eu ser um nativo que a conheceu e que aprendeu muito do que ela deixou como missão para aqueles que a seguiram e sente o peso, a responsabilidade de garantir uma vivência melhor as famílias duma Aldeia Indígena por inteira. Por outro lado, é importante e de grande responsabilidade, sem falar da necessidade, de fazer este trabalho biográfico é pensar que essa biografia possa ressoar aos próprios Pankararu de maneira especial para aqueles que estão se conhecendo, tais como, crianças, adolescentes e até mesmo alguns jovens que não a conheceu em vida possam a conhecer, como também, aqueles personagens fundamentais na luta pela demarcação da terra e pelo reconhecimento étnico que fizeram parte dessa luta. Por exemplo, saber quem foi Dona Quitéria Binga, pode despertar seu interesse em saber quem foram outros líderes indígenas que lutaram por Pankararu, pelo Nordeste Indígena e assim conhecer nossas memórias.

Neste caso falar de Dona Quitéria Binga não é falar apenas de Pankararu, mas também dos indígenas no Nordeste, pois sua imagem de mulher guerreira foi ampliada principalmente para essa região sertaneja nordestina, como para fora do Brasil. O mais importante foi o reconhecimento por parte de vários povos ao aceitá-la e apoiá-la como grande líder indígena dum Nordeste indígena brasileiro.

No ano de 1939[1] nasce Quitéria Maria de Jesus, conhecida como Quitéria Binga, filha de Joaquim Binga e Cecília Tiú. Criada por seu tio Antônio Binga, na aldeia Saco dos Barros, aldeia em que viveu e criou seus filhos, netos e bisnetos. Faleceu (mudou de mundo) no ano de 2010 aos 71 anos de idade.

Dona Quitéria quando criança, assim como todos que viveram numa época de difícil produtividade imposta pela seca, longas estiagens, com acesso reduzido as terras próximas do rio São Francisco para plantar e pescar, teve que se moldar a difícil situação de sua época. Ela nos conta que foi criada agarrando-se na fé e na esperança de que o dia por vir seria melhor. Como de fato era, pois, acreditando piamente em nossos Encantados (nos pai véi), em Deus e nos santos carismáticos que tivera contato, acompanhado ou ouvido falar na aldeia Brejo dos Padres, entre eles Frei Damião, madrinha Dodô, padre Cícero entre outros a faziam seguir firme, com esperança. Entre seus trabalhos e confecções artesanais ela muito rezava e cantava toantes[2]. Essa prática de cantar é comum entre os Pankararu, pois enquanto cuidamos em nossos afazeres puxamos toantes para trazer boas energias ou mesmo ensinar a alguém que esteja próximo.

Mesmo trabalhando desde criança na confecção de vassouras entre outros objetos feitos com palha de ouricuri (licurí)[3], como também nos trabalhos na fabricação de objetos de cerâmicas, tais como, potes, moringas, pratos entre outros utensílios[4] para ajudar sua família. Com o chegar da idade, de sua juventude, teve preocupação em saber como as comunidades vizinhas (os sertanejos) tratavam os parentes indígenas por ter conhecimento dos conflitos existentes que estiveram sempre arrudiando os indígenas, as vezes impossibilitando a passagem de indígenas para caçar, vender e comprar o que lhes fossem necessários nas cidades.

A maioria das mulheres e seus companheiros indígenas iam as feiras nas cidades de Paulo Afonso, Petrolândia e pouco menos para a cidade de Tacaratu, vender seus objetos, como também algumas frutas entre elas manga, pinha, imbú, murici, e aproveitavam para levar e vender sacas de alimentos como feijão, milho e farinha (itens do plantio local). Já na cidade estes sujeitos compravam sal, arroz e alguns temperos quando lhes eram possíveis. Foi num desses momentos em que Dona Quitéria foi estabelecendo contatos com algumas pessoas simpáticas (apoiadores) a causa indígena, conseguindo que algumas famílias da cidade cuidassem de alguns indígenas por determinados períodos para que estes tivessem melhores oportunidades, nesse caso estudar[5] –, antes sempre preocupada em conhecer bem as famílias para pedir que esses cuidassem e educassem seus parentes. Desde nova, Dona Quitéria sempre esteve ativa em diferentes questões, e por este motivo como os Pankararu dizem, essa nasceu com o dom[6].

Dona Quitéria fora uma liderança de grande prestigio e destaque para a questão indígena, seu primeiro florescimento como representante e líder Pankararu foi ao final da década de 1970, tendo ascensão política na década de 1980 por buscas de melhorias e reconhecimento territorial para a comunidade Pankararu. Sendo a primeira indígena a conseguir a primeira creche indígena (atualmente Escola Estadual Quitéria Binga, havendo ensino diferenciado) para a comunidade numa área indígena, como também, a casa de parto (atualmente chamada de maternidade) na qual atuou durante anos entre os Pankararu.

Considerada por muitos uma mulher visionária, na busca de segurança e bem-estar de todos os parentes indígenas. Sua maior preocupação era pelo futuro da comunidade Pankararu, ou seja, pelas crianças. Pois, soube que essa luta que muitos percorreram antes dela teria de continuar, então deveria cuidar e prepará-los através da educação para serem guerreiros instruídos. Por experiência, ela teve muitas dificuldades por não conseguir ler e entender muito das burocracias exigidas. Foi a partir de sua experiência, principalmente, que lutou pela creche, para que as crianças tivessem acesso à educação desde cedo. Como também, enquanto pôde, privilegiou sempre o seu grupo familiar em diversos setores, tais como, educação, saúde e no posto administrativo da Funai na aldeia através de contatos estabelecidos durante suas peregrinações políticas[7]. Essa ação de beneficiar seus familiares foi pensando em garantias fazendo com que seus parentes ficassem na aldeia, na Terra Indígena, sem perder membros de seu tronco familiar para as cidades do Sudeste a procura de empregos[8].

Atualmente a família (do tronco) Binga é uma das maiores na TI Pankararu, concentrando-se nas aldeias Brejo dos Padres e Serrinha. Os Bingas também se encontram em grandes grupos familiares nas pontas de rama de Pankararu em alguns dos estados brasileiros. Dona Quitéria é integrante do tronco Binga de baixo[9], núcleo dedicado as tradições rituais, religiosas e politicamente ativa. Antes de seus primeiros anos como liderança atuou na comunidade como parteira, curandeira, cantadeira de terreiro, mãe de praiá e diversas vezes madrinha do Menino do Rancho. Por ter participando dessas atividades ela foi tomando conhecimento dos acontecimentos externos que envolviam a Aldeia Indígena em relação aos sertanejos intrusos, e a resistência deles dentro da TI de não serem simpáticos as práticas rituais locais como mencionado brevemente a cima.

Após seu florescimento, Dona Quitéria continuou a caminhar politicamente participando de vários encontros regionais, nacionais e internacionais para debater três situações fundamentais para os povos indígenas – não só no Nordeste brasileiro mais em todo território nacional –  são elas: saúde, educação e principalmente questões fundiárias. Os encontros regionais eram organização pelo CIMI, Funai e alguns programas de universidades do Nordeste. Mas foi durante as constituintes, no final da década de 80, que D. Quitéria, foi uma das principais personagens a fazer frente para furar o bloqueio da segurança e entrar no Congresso Nacional para defender os direitos dos povos indígenas assegurados pelos artigos 231 e 232 da Constituição Federal. – Embora não haja arquivos, tais como, imagens, vídeos ou áudios que demonstrem sua participação durante este evento. Desde então ela continuou firme junto as lideranças indígenas Pankararu e enquanto fazia suas peregrinações, incentivava os jovens a conhecer e participar de encontros estaduais e nacional para aprender, debater e lidar com questões burocráticas que assombram os indígenas até os dias atuais. Atualmente Dona Quitéria tornou-se símbolo de luta e conquistas, especialmente, para as jovens mulheres indígenas Pankararu.

O primeiro encontro que tive com Dona Quitéria foi entre 1998 – 1999, com 7 – 8 anos de idade, fui com meu pai e meu irmão, ele e eu ganhamos brinquedos os quais ela tinha ganhado aos montes em suas viagens as capitais. Não soube e nem procurei saber do que eles conversaram naquela época, mas certamente algo relacionado aos projetos destinados aos Pankararu. Uma década depois, em 2009, sob missão de atividades da Casa de Memória do Tronco Velho Pankararu – CMTVP, nós, pesquisadores indígenas, fizemos uma lista de personagens que lutaram pela TI Pankararu, sem fazermos um recorte temporal, apenas entrevistamos aqueles que participaram e, em outros casos, pedíamos para algumas lideranças narrarem sobre seus pais, tios, companheiros que estiveram juntos a eles, se não os próprios, durante as caminhadas políticas pelo movimento demarcatório das terras indígenas Pankararu. Entre esses personagens listados, ainda em vida conseguimos realizar uma entrevista com Dona Quitéria, obtendo informações preciosas de uma parte de sua vida, a qual narra sua trajetória e algumas memórias de sua vivência na comunidade como também de suas viagens em nome da Comunidade Pankararu contra os conflitos que se formaram por questões fundiárias com os sertanejos intrusos que resistem dentro da TI Pankararu.

Mesmo seguindo uma entrevista realizada sob um recorte de questões elaboradas para o perfil de cada personagem, na maioria dos casos deixávamos os entrevistados falarem de coisas que eles considerassem oportunas, pois percebemos que haviam questões a serem aprofundadas sobre nossas lideranças e de suas relações familiares na comunidade que até então não tínhamos conhecimento. Um exemplo é que cada membro de família em destaque teve sua “cadeira” no Conselho Tribal formado por lideranças indígenas seguindo um desenho hierárquico do antigo SPI para melhor organizar a comunidade.

As Aldeias Indígenas de Pankararu são organizadas por grupos de famílias patrilineares/ virilocal e matrilineares/ uxorilocal.  Confesso que é uma relação complexa que aumenta ainda mais o grau de complexidade quando buscamos analisar alianças inesperadas entre troncos de diferentes famílias que estabelecem uma nova configuração para o grupo familiar inicial – antes, as relações mais comuns eram entre familiares próximos (conhecidos). O que determina se a configuração será virilocal ou uxorilocal é atuação do chefe, ou da chefa de família em questão, quando destaca certa autonomia ritualística e política, por exemplo, quando Dona Quitéria se casou[10], resolveu ter seu próprio domínio, embora tenha permanecido na aldeia Saco dos Barros, onde optou por ter seu próprio terreiro para criar seus filhos e filhas. E esses trouxeram seus conjugues para dentro do terreiro de sua mãe, formando uma ponta de rama Binga uxorilocal, submetida ao terreiro maior de Antônio Binga, mas sob o domínio de Dona Quitéria Binga. Há outra ponta de rama Binga (essa virilocal) na aldeia Brejo dos Padres que até então esteve sob a “jurisdição” de seu primo João Monteiro da Luz (conhecido como João Binga –, foi cacique de Pankararu de grande destaque religioso e político) o qual também fez várias peregrinações políticas, algumas viagens, sob o mesmo propósito de Dona Quitéria (Saco dos Barros), Cacique Zé Alto (atual cacique Pankararu), Capitão Antônio Moreno (Brejo dos Padres),  Hilda Bezerra (cacica de Entre Serras), João Tomaz, Claudio Tomaz, João de Pascoa (Serrinha), Abílio Pedro (Carrapateira), Mané Besouro, José Luzia, João Gouveia e João Pinto (Gitó) entre outros conselheiros tribais. Cada uma dessas lideranças citadas acima exercera atividades importantes para a comunidade, sobretudo por serem pais e mães de praiá, curandeiros, rezadores e cantadores somando a representatividade de seus clãs familiares.

Dona Quitéria teve uma vida muito corrida, agitada, quando não estava em peregrinações políticas entre as capitais se dedicava aos rituais da Aldeia Indígena, no cuidar de sua roça e, sobretudo de seus familiares. Mãe de 7 filhos, vários netos e alguns bisnetos sob sua atenção. Por ter um espírito batalhador e acolhedor foi considerada, por muitos indígenas, como a cacique do Nordeste. E fora por este reconhecimento que sofrera várias ameaças dos sertanejos intrusos na região; como também seus familiares ficaram sob os olhares daqueles sertanejos que fazem resistência na TI Pankararu. Embora com o apoio do “Conselho Tribal”, da comunidade com a proteção dos Encantados e Deus, Dona Quitéria estava guardada de todo mal que lhe poderia acontecer.

Não ficou dúvida que Dona Quitéria Binga é portadora de vários dons, entre eles um em especial o qual ela narra numa entrevista feita por Maximiliano Carneiro da Cunha, em 1999, ao falar sobre seu dom de cantar.

“Aprendi. Rapaz, sofri pra aprender. Dormia, quando acordava era cantando. Aquilo já ficava na minha cabeça. É como um sonho e na hora que a gente for puxar [cantar toante] mesmo pra fazer aquele rito daquele trabalho, pedindo a Deus, aquela fala que sai da gente… os outro é quem vê. A gente não vê o que é que diz nem que faz” (Quitéria Binga, 1999. In: CUNHA, M. W. C. pag. 95)

A narrativa acima mostra como foi que Quitéria Maria de Jesus aprendeu o dom de cantar, o qual lhe serviu para ser ouvida pelos Pankararu e pela comunidade indígena, pois não é fácil conhecer as palavras do outro lado, do outro mundo e executá-las com propriedade neste. Só é possível alcançar esse dom após muita dedicação, resguardo e crença naqueles que acompanham –, para utilizar uma expressão local, “naqueles que nos governam” e transmitem tal aprendizado aos Pankararu. Como ela expõe, o sofrimento faz parte desse aprendizado, que não é o aprendizado que estamos habituados através do sistema convencional de ensino. Certamente há muito mais extensões de nossos corpos, de nossos sentidos que desconhecemos ou não nos sensibilizamos a eles como deveríamos. Claro, nem todos de Pankararu conseguem alcançar ou receber esse dom, mas isso não faz diminuir sua fé nas entidades encantadas locais por saber como funciona nossa Ciência Pankararu.

Durante muito tempo os Pankararu exerceram atividades rituais locais de maneira cautelosa por terem relações instáveis entre sertanejos das zonas rural e urbana da região, pois naquele tempo dominado por políticos e comerciantes (agricultores) deveria se ter cuidado de onde iriam fazer tal ação para não serem impedidos ou coagidos pelos coronéis, pequenos agricultores portando uma denúncia as autoridades da região. Muito dos locais, da TI, são pontos de conexão e aprendizado com outros mundos. Mesmo impossibilitados esses locais ainda existem como pontos de conexão com o Mundo dos Encantados. Durante algumas entrevistas que realizei, escutei atentamente os parentes narrarem os atritos e possíveis alianças entre indígenas e sertanejos das cidades vizinhas coagindo-os a não transitarem em determinados locais.

Numa outra entrevista feita por seu sobrinho Luciano Henrique, na época pesquisador da Casa de Memória do Tronco Velho Pankararu – CMTVP, Dona Quitéria responde uma das questões sobre essa relação conflituosa entre indígenas e sertanejos que desde então se arrasta até os dias de hoje.

Luciano Henrique: “Que aconteceu quando os posseiros invadiram a terra aqui [em Pankararu] e quem eram as lideranças nesse tempo?

Quitéria Binga: Resp. – Nesse tempo as lideranças que lutou até hoje pelos terrenos aqui [em Pankararu] e, que se eu num morrer ainda vou dar uma volta no mundo, foi eu! Antônio meu, tinha 22 dias. E eles [os intrusos] foram pra Marreca [11], pra matar eu lá. Ai, eu dizia se é de matar o pai, mata o filho. Eu pegava nos bracinhos de Tõi, assim e botava… [abraçava-o em seu peito]. Dá maior parte [de lideranças] que foram [que já morreram] só tai o Zé de Joaquizim […]. O Zé de Neco, Abílio de Mariquinha já morreram. Eles [os intrusos] foram por lá pra [me] matar e dizer que eu num passasse pelo Bem-Querer [12]. […]. Durante um tempo fiquei doente. Fui pra Recife, fiquei 18 dias lá em Recife. Eles [os intrusos] vinham até ali em Dasdore de Maria José, pra ir lá em casa. Aí junta Tio Zé Bomba, junta Tio Gaudêncio [em defesa de sua sobrinha contra] um bocado deles. E ali por casa era arrudiado de agave e eles ficavam ali rudiando a noite todinha sem dormirem. Aí foram fazer guarnição por lá. Aí eu corri, fui me embora pra Recife e de Recife pra Brasília. Aí fiquei batalhando, batalhando, batalhando lá pelos terrenos daqui. Ai quando saiu a demarcação das terras […] [que deveria ser] da cachoeira, da cachoeira do rio [São Francisco] e pelo Moxotó e cá pra cima [referindo em direção ao município de Tacaratu]”.

Dona Quitéria Binga, assim como as demais lideranças que tivera grande destaque e reconhecimento pela causa indígena, torna-se alvo de sujeitos que se sentiam ameaçados pelas suas ações políticas, por denunciar aos órgãos competentes toda e qualquer forma de violência cometida pelos sertanejos aos parentes. Esses olhares ameaçadores lançados aos indígenas são de longa data, embora o ameaçador tenha tido mais fôlego num primeiro momento e tenha se sustentado por terem instrumentos burocráticos agindo em nome do desenvolvimento local, estadual e nacional. Nesse primeiro momento, do olhar ameaçador, chegaram a se impor proibindo algumas práticas rituais executadas nas aldeias indígenas, como também havia perseguições daqueles que falavam numa língua que não o português até o final da década de 1960 ao aplicar a ideia de nacionalismo, de integração de silvícolas ao projeto Nacional. Já o segundo, o olhar ameaçado, após demarcar e homologar a Terra Indígena Pankararu, e ter um posto administrativo da Funai apoiando a luta das lideranças. Nas palavras de Dona Quitéria: “eles num tinham tanta força de fazerem nada”, pois estavam perdendo uma grande parte que outrora estivera em seus domínios além de estarem sujeitos a indenizações e alertados das medidas de desentrosamento ou de uma possível retomada da área indígena a qual eles ocupam. Esse olhar tornou-se uma ameaça ambígua tanto para os sertanejos quanto para os indígenas, pois aumentou as desavenças após o registro da terra. Atualmente contamos com apoiadores institucionais a causa, auxiliando os indígenas com novos instrumentos, aparatos para recorrer e lutar contra as ameaças regionais, porém devemos ter o cuidado e sermos determinados com determinadas ações para não reificá-las.

 

Uma mulher de Dons

 

O saber morre com seu dono!

Dona Terezinha

A primeira vez que ouvi aquela frase foi quando estive me preparando para prestar vestibular indígena junto a dois parentes, Paulo Augusto (in memoriam) e Paulo Henrique. Dona Terezinha, avó de Paulo Augusto, disse que foi criada ouvindo a frase de sua mãe (madrasta). E, ela passou aquela frase aos seus filhos incentivando-os a estudar mesmo sob as dificuldades daquela época. Não havia muito sentido, pelo menos para mim, quando a escutei pela primeira vez. Tampouco agora depois de quase uma década, mas nunca a esqueci. Depois que sentei e escutei algumas entrevistas de lideranças lembrei que meus parentes sempre falam com frequência em dom[13], mas não sobre o dom, comecei a assentar minhas ideias. E aqui estou numa tentativa de esboçar num horizonte textual daquela frase de quase dez anos atrás, por perceber que a noção de dom tem um sentido especial de Saber para os Pankararu o qual D. Quitéria Binga desempenhou piamente em sua vida física.

Os Pankararu falam com muita frequência as palavras dom[14] e dono[15] –, é importante não atribuir gênero e sim agências ao último termo com emprego nativo. Hoje interpreto aquelas palavras de Dona Terezinha, da seguinte forma: – meninos aprendam, pois, o conhecimento se faz e se vai com seu dono[16]. Tendo essa ideia inicial pude perceber que nem sempre olhamos para o mesmo ponto de forma igual, mas, de forma simétrica, por exemplo, um Terreiro de praiá tem um dono e esse dono é um Encantado. Aquele Encantado possui dons que são transmitidos para os pais e mães de praiás, para os Pankararu e estes regulam os dons com diversas restrições, junto e de acordo com as organizações familiares e seus zeladores que mantem uma organização, atribuindo funções próprias entre homens e mulheres.

As vezes para aprendermos vamos buscar conhecimento longe. Podemos usar essa metáfora tanto para os líderes que viajam para as capitais na busca de seus direitos e retornam para a comunidade com conhecimentos que lhes auxiliaram a lidarem com questões burocráticas, como também, buscamos o saber duma forma espiritual, embora pela segunda alternativa muitos estejam limitados por uma fronteira sensitiva, sabemos que existe algo, mas, muitos não conseguem ultrapassá-la. É bom deixar claro que todos Pankararu nascem com dom, porém, nos basta utilizar e lapidá-lo da melhor forma possível, e usá-lo como um instrumento em potencial para alcançar outros saberes. Outros dons iram continuar dormentes e não se manifestaram até o momento em que os Encantados permitam.

Numa tentativa melhor de desenhar essa noção de dom, a experiência e o conhecimento acumulados por Dona Quitéria Binga durante sua peregrinação política e religiosa (católica e tradicional[17]) respingou em muitos indígenas do Nordeste, sobretudo nas mulheres de sua família que atuam na mesma linha, numa construção de dons, de saberes. Mesmo que seu conhecimento tenha mudado de mundo junto a ela, cabe aos indígenas buscá-lo e acessá-lo para prosseguirem nessa peregrinação política e religiosa. Pois quanto mais transmitimos conhecimentos, mais conhecimento recebemos por estarmos num processo de reciprocidade físico e espiritual. Como muitos pais e mães de praiá dizem: essa é a ciência Pankararu. Ciência a qual Dona Quitéria se nutriu e floresceu seus em dons.

 

Descrevendo alguns dons de Dona Quitéria Binga:

O dom de pegar menino[18]: Dona Quitéria fez seus próprios partos, até então não se considerava parteira, e sim uma mulher que pega menino. As parteiras da comunidade têm esse conhecimento de gerações passadas. Sobre esse dom não há muitos registros que descrevam a fundo sua atuação e prática como parteira tradicional. Embora, Após algumas capacitações para parteiras tradicionais da comunidade através de projetos da Funasa junto a Funai, e das ONGs Saúde Sem Limites (SSL) e Curumim na década de 1990, com o objetivo de auxiliar as parteiras indígenas, principalmente aquelas que atuam como agentes de saúde indígena, a terem conhecimentos básicos da biomedicina para atuarem melhor em suas práticas que se teve algumas informações sobre atuação de D. Quitéria Binga. Esses projetos foram uma das conquistas de D. Quitéria nas suas caminhadas a Brasília em busca de atenção especial na área de educação e saúde para comunidade. Atualmente sua sobrinha Maria das Dores, conhecida na comunidade como Dora, e chamada por muitos de comadre, madrinha e principalmente mãe-Dora, por botar centenas de crianças neste mundo. Maria das Dores, segue paulatinamente as tradições religiosas, tradicional e católica assim como as mulheres de sua família.

O dom de cantar. Não é porque D. Quitéria Binga, nasceu numa das famílias de berço da tradição Pankararu que ela despertou e aprimorou esse dom –, mas por pertencer a esse cerco de família tradicional digamos que já lhe foi meio caminho andado. Qualquer Pankararu mesmo que suas veias venham da fonte, mesmo que saibam de “todos” os toantes, mesmo que o sujeito tenha qualquer dom se este não tiver a permissão dos Encantados, esse não acessa a ciência Pankararu. E faz do dom, o Dom. Para aqueles que podem ter acesso a ciência local (Pankararu), estes estão sensibilizados, sintonizados com essa energia. O dom de cantar não é uma questão de ter uma voz amplificada naturalmente e sair cantando os toantes. Como todo Pankararu sabe há momentos específicos para puxar determinados toantes, além de seguir determinados tabus.

Como descrito a cima, na entrevista feita por Cunha (1999), Dona Quitéria sofreu muito para aprender, e na sua descrição quando aprendeu aquilo ficou tatuado na sua memória. Foi neste momento que ela recebeu a permissão dos Encantados para aflorar o Dom de cantar, como também, resguardou sua voz para manifestar as Forças Encantadas.

De acordo com as narrativas locais pankararu, os toantes era uma maneira de Encantamento para os mais velhos da aldeia se encantarem na antiga cachoeira, a qual foi destruída pela Companhia Hidroelétrica do São Francisco. Cunha, descreve “que o som dos toantes vinha de dentro da terra, que ‘cantava’ para aqueles que andavam nas proximidades da extinta cachoeira de Itaparica, considerada pelos Pankararu como a moradia dos Encantados e para onde iam as pessoas importantes do grupo que queriam evitar a morte para conseguir o dom de se encantar” (CUNHA, pp. 93. 1999). Seria Dona Quitéria uma dessas pessoas a irem para a antiga cachoeira encantar-se?!

Entre os Pankararu, “há” diversas maneiras de acessar os toantes, seja com vento, com a terra, com pássaros, com a água, com animais, com plantas, mas é principalmente pelos sonhos. Essa última maneira tem sido a mais recorrente entres os Pankararu, certamente a perda da cachoeira tenha afetado as outras maneiras de comunicação e de conexão com uma das moradas dos Encantados. Pois com a escassez de água e acesso restrito as terras da região não temos muito da fauna e flora. – É por esse e outros motivos que os líderes indígenas lutam para manter o que ainda temos de serras, de terras para poder dar manutenção a essas e outras práticas locais.

O dom de lutar e liderar. As lideranças indígenas Pankararu tomaram folego para lutar pela terra após a implantação do Posto Indígena através do SPI. Embora essa luta tenha iniciado outrora, entre coronéis e povos autóctones junto a missões religiosas. Os Pankararu sempre tiveram sua forma distinta de organização, tendo o Sarapó como seu representante seguido por país e mães de praiás, curandeiras/os, rezadores entre outras personagens espirituais. Depois que os líderes se reuniram como Conselho Tribal ou Tradicional, iniciaram suas peregrinações nas cidades do Rio de Janeiro, Brasília e Recife em busca de propostas e possíveis soluções para o reconhecimento da TI Pankararu, com o seguinte corpo político e social Pankararu: Pajé, Cacique, Capitão e Conselho Tradicional. As peregrinações realizadas entre as capitais foram sempre numa comissão de líderes no final da década de 1940. A partir dos anos 60 do século XX, formaram o Conselho Jovem[19], (atualmente estes são considerados velhas lideranças) e muitos faleceram[20] tornando um ciclo de velhos e novos indígenas.

Numa entrevista realizada por Mirna Cruz, (em 2010), Dona Quitéria fala das necessidades do povo e de como eles faziam para organizar as viagens. Cruz ilustra também como Dona Quitéria tomava iniciativa para que os jovens continuassem na luta:

 

Mirna Cruz: E como era a maneira de trabalhar dos Serviços? Eles vinham pra cá? Faziam reuniões com as lideranças aqui mesmo?

Quitéria: Não, nós é que reuníamos aqui, aí saia pelas casas pedindo uma ajuda, por cinqüenta centavos, não tinha nem real, eram cruzeiros, aí ia juntar aquele dinheiro, todomundo dava aí nós largávamos no mundo.

M: Quais eram os lugares que vocês iam?

Q: Nós íamos pra Rio de Janeiro, nós íamos pra Brasília, para / Recife, íamos atrás damelhora aqui para o povo!

M: Como eram essas reuniões?

Q: … A gente ia pra ir lutar … A gente ia pedir que tava faltando as coisas aqui, que tá faltando terra, faltando comida, faltando enxada, machado, foice, feijão para plantar, milho, nós íamos pedir essas coisas. Aí com o tempo que eles marcavam de vir aí chegava. (Quiteria, 80 anos, ETMC)

(CRUZ, M. pps. 60. 2010.)

Quiteria explícitamente tiene el proyecto de hacer de jóvenes parientes, futuros líderes, dándoles una formación política cuando los llevaba a sus viajes a Brasilia. Un tipo de formación, por tanto, que desvía el énfasis de la preparación ritual para el conocimiento de los circuitos de los viajes ycon ello el dominio de la lógica de la mediación”. (Idem: 113).

  1. Quitéria Binga, mesmo numa idade avançada sempre esteve preocupada com os interesses ameaçadores que cercam a TI Pankararu. Preocupada também pelas novas lideranças não terem ou não demostrarem o folego que ela e outras lideranças de sua época tinham para lidar com essas situações –, demonstrou um certo desconforto em sua entrevista. Então, ainda em vida, almejava dar uma volta no mundo para lutar pela desintrusão de posseiros nas TIs Pankararu. E assim se fazer visível o perigo que realmente existe para as populações autóctones que habitam a região das margens do rio São Francisco. Dar uma volta no mundo é desde se conectar com outro lado, com outro mundo, e regressar para este com saberes e assim poder enfrentar essas ameaças eminentes que parasitam as terras indígenas. Uma volta no mundo é percorrer, peregrinar, sofrer e enfrentar uma missão que lhe foi dada, pois suas memórias, suas lembranças e viagens a manteve ativa em suas crenças e práticas diárias. Realizando, colocando em prática vários dons neste seu ciclo de vida nesta terra. Entre seus dons Quitéria Maria de Jesus completou seu clico, sua volta neste mundo e acreditamos que ela continuará a nos guiar noutras voltas no mundo mesmo que seu saber tenha lhe acompanhado em sua viagem.

 

Figure 2. Quitéria Binga a frente com demais cantadores no ritual do Menino do Rancho. Foto: Arruti, 1998.

 

 

Bibliografia

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CUNHA, Maximiliano Carneiro da. A música encantada Pankararu. Recife: UFPE, 1999. (Dissertação de Mestrado).

GIBERTI, A. C. 2013. Nascendo, encantando e cuidando uma etnografia do Processo de Nascimento nos Pankararu de Pernambuco. Dissertação de Mestrado. USP.

MATTA, P. 2005. Dois elos da mesma corrente: uma etnografia da Corrida do Imbu e da Penitência entre os Pankararu. 204p. Dissertação (Mestrado). Programa de Pós-Graduação em Antropologia, Universidade de São Paulo, São Paulo.

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______________. 1952. “As mascaras-de-dança dos Pankararú de Tacaratú. (Remanescentes indígenas dos sertões de Pernambuco). In: Journal de La Société dês Américanistes, Nouvelle Série –Tomo XLI (n.2), pp. 295-304. Paris: Musée de l’Homme.

SANTOS – PANKARARU, B. C. 2016. “Olhar de volta: percurso formativo e experiência autoetnografica. Trabalho de Conclusão de Curso. UFMG.

 

SITES ACESSADOS:

http://www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/noticias/2478-pernambuco-perde-grande-lideranca-feminina-indigena

https://books.google.com.br/books?id=8nvj-0TWbtMC&pg=PA56&lpg=PA56&dq=Quit%C3%A9ria+Binga+Pankararu&source=bl&ots=s0FT1aZ6GZ&sig=ecAa8We3hQgmHoi_jFTGqmzK4Uc&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwjupazJjOjZAhXITZAKHTzxAKQQ6AEIXjAM#v=onepage&q=Quit%C3%A9ria%20Binga%20Pankararu&f=false

https://books.google.com.br/books?id=RcfNzHaA6fQC&pg=PA88&lpg=PA88&dq=Quit%C3%A9ria+Binga+Pankararu&source=bl&ots=x_JPKSK7kZ&sig=Ht53OMgu2HKpBWFTiUaZbYUT_nI&hl=pt-BR&sa=X&ved=0ahUKEwimk_rWj-jZAhVFGpAKHeziBzY4ChDoAQg-MAQ#v=onepage&q=Quit%C3

 

Notas

[1] No trabalho de CRUZ, M. 2010. Dona Quitéria Binga, está registrada no ano de 1928, se considerar esse ano de seu nascimento, somam-se 82 anos de idade até sua morte. Esses conflitos de registros de datas são recorrentes na comunidade por não se saber bem o dia de seu nascimento. Muitos indígenas foram registrados quando se casaram ou tiveram que fazer documentos para suas viagens.

[2] Para descrição detalhada sobre toantes ver Carneiro da Cunha, M. W. “A música encantada Pankararu”. 1999.

[3] Usado em confecções de acessórios de alguns rituais entre eles o chapéu do Menino do Rancho.

[4] Os quais existem uma grande coleção de sua própria confecção no Museu do Índio, na cidade Rio de Janeiro.

[5] Na tese “Todo Mistério tem seu dono!” pag. 191. (MURA, 2012.) há um depoimento narrando essa mediação feita por Dona Quitéria Binga para com uma sobrinha.

[6] Sobre a ideia de Dom para os Pankararu irei me ater posteriormente.

[7] O uso dessa expressão é pelo sentido atribuído a palavra peregrinação, tida neste caso de viajar ou andar por terras distantes com proposito de uma bem comum.

[8] Um movimento que se iniciou na década de 1950, com a saída de algumas famílias para a cidade de São Paulo.

[9] De baixo por que seu tio Antônio Binga resolveu fundar seu próprio “tronco”, saindo da região familiar do clã do patriarca Joaquim Serafim, residente na aldeia Serrinha. Para uma maior discussão ver: “Todo Mistério tem seu dono!” Mura, C. 2012.

[10] Assim como seu pai (de criação) Antônio Binga que resolveu fundar seu próprio tronco ou melhor, sua ponta de rama, saindo da região familiar do patriarca Joaquim Serafim, residente na aldeia Serrinha, para a aldeia Saco dos Barros.

[11] Uma região entre as aldeias indígenas Tapera e Carrapateira, usada para plantio.

[12] Aldeia indígena Pankararu ocupada por mais de 300 famílias de posseiros, sertanejos intrusos.

[13] A noção de dom a qual tentarei descrever para nós Pankararu é a de um Saber, de uma ciência local. Não está totalmente distante da noção de dádiva empregada por Mauss, embora em alguns momentos possa se aproximar, pois existe um jogo de reciprocidade entre os Pankararu e o mundo dos Encantados.

[14] Dom de cantar, curar, rezar, dançar, lutar, cuidar, de pegar menino e etc.

[15] Dono do Terreiro, do Menino do Rancho, do conhecimento, das serras, matas, animais etc.

[16] Fara um pouco de sentido mais a frente quando descrever sobre a noção de dom.

[17] Tradicional no sentido atribuído pelos próprios Pankararu der ser transmitido de geração-para-geração.

[18] Para uma descrição sobre parto, corpo e cuidado entre os Pankararu ver GIBERTI, A. C. Nascendo, Encantando e Cuidando: uma etnografia do processo de Nascimento dos Pankararu de Pernambuco. 2013.

[19] Constituído também por país e mães de praiá, curandeiras/os benzedeiras entre outros mais instruídos as burocracias.

[20] Ver alguns nomes de líderes na página 07 deste texto.

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